quinta-feira, 24 de abril de 2014

Bull market político em pleno rali


A pedra foi cantada por Luis Stuhlberger, gestor do fundo Verde do CSHG (Credit Suisse Hedging-Griffo), há cerca de dois anos atrás. Stuhlberger foi o primeiro a identificar que o País estava passando por um ciclo de “Bull Market in Politics”. Este termo, criado em 2008 pelo hedge-fund Clarium Capital, é utilizado para caracterizar um cenário de intervenção do Estado, acima do normal, sobre a economia.

Para o gestor do fundo Verde, o bull market político começou no dia 31 de agosto de 2011, quando o Banco Central cortou pela primeira vez a taxa básica de juros na gestão de Alexandre Tombini, ignorando completamente a inflação elevada constatada na época e as próprias projeções da autoridade monetária.

Desde então foram surgindo novos fatores que reforçaram a tese de aumento da intervenção do Estado na economia. O câmbio deixou de ser flutuante, na prática, e passou a funcionar como marionete do governo. Na indústria, o governo estendia sua mão amiga a um seleto grupo de felizardos, enquanto outros levavam pontapés. Aos bancos, foi declarada guerra ao spread bancário. Às elétricas, “proibição ao lucro” e socialização da energia “mais barata”. À Petrobras, pagar a conta da gasolina mais cara. Ás empresas de transporte público, colaborar com a política de represamento de preços.

O governo interferiu até mesmo na rentabilidade da caderneta de poupança. O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) também não ficou de fora. Sofreu intervenção no início de 2012. Habitação, transportes, saúde, cuidados pessoais e artigos de residência ganharam peso no índice oficial de inflação, enquanto o grupo de alimentação, bebidas, vestuário, despesas pessoais, educação e comunicação perderam peso na nova base de cálculo do IPCA.

Dispensa destacar a tremenda ineficácia de todas estas medidas. Pelo contrário, o excesso de intervenção apenas contribuiu para aumentar a deterioração do quadro doméstico.

O que causa estranheza é observar no mercado expectativas de mudanças ou de própria redução da política intervencionista do governo federal. Não há nada que sinalize vontade do atual governo em fazer o acerto de contas e/ou reduzir o intervencionismo no próximo ano.

O bull market político está em pleno rali. Isso pode ser constatado, inclusive, pelos acontecimentos recentes. Leonardo José Rolim, técnico altamente respeitado dentro do Ministério da Previdência, foi exonerado do seu cargo no início deste mês, após contradizer a projeção de deficit para a Previdência neste ano feita pelo ministério da Fazenda, onde a conta avalizada pelo ministro Guido Mantega estava significativamente subestimada.

Pouco mais de uma semana após o estouro da pior crise do IBGE desde a sua criação, em 1934, provocada por uma suposta intervenção do governo, três dos cinco conselheiros da CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica) solicitaram desligamentos de suas funções, pois o governo forçou a entidade, que funciona como uma associação civil sem fins lucrativos, a assumir um empréstimo bilionário ( 11,2 bilhões de reais) para bancar o rombo no setor de distribuição de eletricidade este ano. Conta que só será repassada aos consumidores a partir de 2015. A saída destes três executivos ocorreu após a aprovação por assembleia extraordinária, realizada na última terça-feira, 22, do referido empréstimo.

O governo está conseguindo contornar até mesmo decisões importantes do STJ (Superior Tribunal de Justiça). O tribunal decidiu a favor da Vale no processo contra a Receita Federal que cobra tributos sobre o lucro obtido por empresas coligadas da mineradora no exterior. Mas o ministro Mantega, afirmou na noite desta quinta-feira, que com a aprovação da Medida Provisória 627 (estabelece uma nova legislação), a Vale terá de pagar impostos sobre lucro no exterior, independentemente da decisão de hoje do STJ.

Diante do exposto, pode-se notar claramente que a postura do governo não mudou. Pelo contrário, o intervencionismo está aumentando cada vez mais. Este tipo de atitude está longe de mostrar qualquer expectativa de mudança para o ano que vem. O mercado está apostando num sonho, mas os ventos sopram na direção do mais do mesmo.

O índice Bovespa fechou a quinta-feira em leve alta de 0,48%, impulsionado no final do pregão pela reação imediata dos operadores frente à decisão do STJ. Entretanto, o movimento observado hoje não alterou a análise dos últimos dias. Para eliminar a possibilidade de novas correções no curtíssimo prazo, a região dos 52.5k precisa ser superada.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão de lado, deixando um doji de indecisão colado na máxima histórica, sem apresentar novidades.


33 comentários:

  1. Na verdade a expectativa do mercado é que a Dilmamá não vai se reeleger ano que vem. Por isso essa euforia.

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    1. Sim, mas esta expectativa é infundamentada. Foi a alternativa encontrada pela mídia e alguns analistas para justificar a disparada repentina do mercado, que, na verdade, não tem relação com as expectativas para as eleições, mas sim com a entrada de recursos no País, onde players estrangeiros aproveitaram uma oportunidade boa para especular no câmbio, juros e bolsa.

      Não há nada que indique vitória de algum candidato da oposição. As pesquisas apontam que a presidente Dilma seria eleita ainda no primeiro turno.

      Abs, bons negócios

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  2. FI, não sei se o sonho está tão distante não. Você viu a pesquisa Datafolha, só com pessoas que conhecem os candidatos a presidência ? Deu empate técnico ! O que prova que o eleitorado do PT é a parcela menos esclarecida da população brasileira.

    Anônimo da alll

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    1. Vi sim. Mas este tipo de pesquisa não revela intenção de voto. É feita com um número pequeno de eleitores. Além disso, os eleitores que conhecem, hoje, os três principais candidatos à presidência não fazem parte da grande massa de eleitores fiéis do PT. São normalmente pessoas mais escolarizadas, que acompanham ativamente política e economia, justamente onde o PSDB e o PSB tem mais aceitação.

      Abs, bons investimentos

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  3. Não é possível que ano que vem Dilmanta não faça pelo menos um pequeno ajuste na economia.. Pelo menos uma subida na selic para segurar a inflação...

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    1. Inevitavelmente a taxa Selic vai acabar subindo novamente em 2015, sobretudo pela retomada da inflação global (aperto monetário nas economias desenvolvidas). Mas a economia continuará desregulada e a inflação elevada mesmo com uma nova e eventual subida da taxa Selic. Só vamos conseguir combater a inflação, carregando-a para o centro da meta (4,5%), quando a política fiscal se locomover na mesma direção da política monetária. Ajudaria muito, também, se o ambiente de negócios melhorasse, incentivando o (re) surgimento da oferta.

      Abs, bons negócios

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  4. FI, sempre com comentários precisos. Sabe que quando o assunto é juros (suas análises sobre Spread entre LTF X LTN17, por exemplo, para mostrar se a corda está curta ou esticada, é muito boa. A análise é simples, mas eu nunca vi nenhum analista fazendo) e macroeconomia e sua relação com o mercado de títulos e capitais, não tenho a menor dúvida que indico o seu site.

    O cenário é de reeleição. As pessoas melhoraram de vida, principalmente as mais pobres. Bem ou mal, isso ocorreu com os governos do PT (por mais que reformas prévias e impopulares tenham sido feitas previamente). Há um sentimento de mudança, pois a vida não está boa. Entretanto, as pessoas tem receio de deixar de voltar no PT. Acho difícil não haver reeleição, mas se essa acontecer, também acho difícil o PT permanecer no poder em 2019.
    A única desconfiança é se a Dilma, que sabemos que é durona, terá a humildade de reconhecer que pelo menos alguns ajustes devem ser feitos. Será que isso vai ocorrer mesmo? Veja, assumir que estava errado é difícil para muitas pessoas, imagina para uma alguém que atualmente é tão poderosa.
    O problema é se nem esses pequenos ajustes forem feitos, e o Brasil não sair dessa armadilha de baixo crescimento e inflação alta, nem mesmo lá em 2016/2017.
    Entretanto, são apenas especulações.

    Grande abraço FI! Seus posts me fizeram evoluir muito no meu pequeno entendimento sobre finanças e economia.

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    1. Obrigado soulsurfer!

      O que enriquece o nosso blog não são as análises do autor, mas sim os comentários de vocês leitores. Concordo, o cenário é de reeleição. Infelizmente. As pesquisas apontam isso com muito favoritismo. Isso porque o PT ainda não mostrou o que sabe fazer de melhor: marketing em campanha eleitoral.

      Acho muito difícil o governo fazer ajustes significativos conforme esperam os analistas, mudando a forma de governar e tocar a economia. Os acertos que por ventura ocorrerão serão feitos para sustentar o atual modelo. O Estado não vai abrir mão do intervencionismo, que é o problema central. Assumir o erro já é difícil (o governo já mostrou inúmeras vezes que não faz isso). E com com o voto de aprovação/confiança da população (reeleição) não haverá motivação política para mudanças significativas.

      Abs, bons negócios

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  5. todo mundo fala em ajustes de contas

    se dilma for reeleita, por que o faria? afinal, com a reeleição reforça-se a idéia de que ela estaria no caminho certo, conforme os eleitores querem, o que tornaria ajustes totalmente desnecessarios, e muito menos necessário, uma subida da selic, pois não há manifestação popular reclamando da inflação em específico

    então, caso reeleita, não creio que haverá ajustes, haverá apenas uma política de continuidade da deterioração, até o ponto inevitável da hiperinflação, como no caso da venezuela, com estabelecimento de câmbio paralelo, mercado negro e demais resultados que afloram a partir de tais políticas atuais

    esperar que dilma ganhe, e venha a fazer qualquer tipo de ajuste, melhora ou reforma, só em sonhos

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    1. Exato mauricio. Não haveria motivação política para fazer os ajustes necessários. Na minha opinião, os acertos que por ventura ocorrerão serão feitos para sustentar o atual modelo. Quanto às reformas estruturais, piorou rsrs.. Esse sonho existe desde quando descobriram o Brasil.

      Abs, bons negócios

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  6. FI,

    Pelo andar da carruagem, acredita em uma selic a quantos % no final de 2015 ?

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    1. Está muito longe, ainda estou trabalhando na de 2014 rsrs... Difícil projetar algo pro final de 2015, pois pegará o aperto monetário nos Estados Unidos, Inglaterra e muito provavelmente alguma redução dos estímulos monetários no Japão. Vamos desalavancar o sistema após o maior ciclo de afrouxamento monetário da história. Então vamos pisar num terreno relativamente desconhecido, por conta do volume dessas operações dos bancos centrais. Provavelmente será uma fase bastante tensa nos mercados. Vai ser importante passar por esta fase com posição relevante em caixa (LCIs, CDBs, fundos DI ou LFTs) e estar preparado pra fisgar eventuais oportunidades ou mesmo correr imediatamente pra segurança caso aponte o surgimento de quadro interno extremamente adverso.

      Abs, bons investimentos

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    2. E o principal que torna 2015 algo desconhecido: Quem será o Presidente ano que vem?

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    3. Ao que tudo indica... Dilma. Mas em termos de mercado financeiro isso é fichinha perto do que poderia ser o grau de impacto provocado pela fase de desalavancagem do sistema. Afeta, inclusive, o Banco Central. A mão que lavou a outra nestes últimos 5 anos (FED injeta QE nos bancos. Bancos devolvem comprando treasuries e aumentando reservas nos cofres federais, inclusive pra aumentar alavancagem), principal locomotiva dos ativos, vai deixar de existir. E ainda, ninguém sabe o que fazer com os ativos podres empossados no balanço do FED. Salvaram a economia, mas o subprime não desapareceu, está nos cofres do FED.

      Abs, bons negócios

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    4. Este comentário foi removido pelo autor.

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    5. FI,

      Quando você mencionou: "...ou mesmo correr imediatamente pra segurança caso aponte o surgimento de quadro interno extremamente adverso", a ideia seria migrar todo o portfólio para ativos como os mencionados (LCIs, CDBs, fundos DI ou LFTs)? Ou buscar ativos "ainda mais seguros", como, por exemplo, o ouro?

      Abraço!

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    6. Fugir de qualquer tipo de papel negociado no mercado financeiro. Buscar o porto seguro (derivativos de ouro ou dólar, a depender da situação do evento), se possível, e, preferencialmente, comprar ativos reais (imóvel, terreno, etc). Mas isso somente em casos de eventos extremamente adversos.

      Abs, boa semana!

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  7. F.I., você que é bem estudioso do assunto, o que explica esta queda das taxas da NTNB nas últimas semanas?

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    1. Eu acho que eu sei e se estiver escrevendo besteira, peço que o FI me corrija.
      O NTN-B está atrelado ao IPCA.
      Parece um contrassenso, mas quanto maior a inflação, menos se ganha nesse título. Porque tem que pagar IR, e no momento que o IR é maior que os juros pagos, o título perde para inflação.
      A expectativa é que a inflação perdeu o controle. Já se fala em estourar o teto da meta...

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    2. Eike está certo quanto ao efeito do IR nas NTNBs. Quanto maior a inflação, menor a rentabilidade líquida do investidor posicionado em NTNBs, justamente por conta do imposto de renda que é calculado sobre o rendimento bruto do título.

      Mas a recente queda nas taxas das NTNBs ocorre pelo menos motivo observado na queda das taxas das LTNs. A curva de juros futuros trabalha dentro de um movimento corretivo, refletindo a forte entrada de recursos (caráter especulativo) constatada nos últimos meses. O mercado corrigiu excessos de curto prazo. Mas a curva de médio e longo prazo permanece ascendente. Novas altas poderão surgir nos próximos 12 meses, abrindo novas oportunidades de posicionamento.

      Abs, bom sábado!

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    3. Correção:

      ocorre pelo mesmo*** motivo

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  8. FI,

    É bom ler um texto com coerência nesta maré de aparente otimismo da economia. Essa atitude do mercado de ainda não precificar a "reeleição de dilma" e acreditar em algo diferente me parece distante da realidade. Lembrando que Tombini, já "escalado" para o lugar do Mantega é o mesmo que foi leniente com essa política permissiva dos juros da Dilma.

    Acredito em um 2015 com muitos problemas e o Brasil indo de mal a pior.

    Miguel

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    1. 2015...2016...2017... Õ dó.

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    2. Sim. Tombini na Fazenda vai ser mais do mesmo. É um profissional competente, mas aquele episódio lamentável iniciado em 2011 nos induziu a acreditar que ele está, na verdade, cumprindo o papel de uma figura representativa. Ao que tudo indica, quem manda mesmo é outra pessoa.

      Abs, bom sábado

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  9. Estou saindo das ações com lucros e entrando na RF. Quando a Dilma ganhar a bolsa despenca e volto a comprar ações. O que acha?

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    1. Pode funcionar, mas é recomendável que o posicionamento em qualquer classe de ativos no mercado financeiro deve ser consequência do apontamento de sua estratégia operacional, adaptável ao seu perfil, previamente testada e aprovada.

      Abs, boa semana!

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    2. rs............. É a lógica

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