terça-feira, 29 de abril de 2014

Desindustrialização traduzida em números


Um estudo alarmante feito pela empresa de consultoria BCG (Boston Consulting Group) tem chamado a atenção de alguns participantes do mercado. O tema é polêmico e deveria ser mais debatido pela sociedade, devido à expressiva velocidade de deterioração da indústria brasileira constatada nos últimos anos.

A ausência de debates frequentes sobre um tema tão relevante tem uma justificativa. O governo nega veementemente que o País esteja passando por um processo de desindustrialização e consegue desviar o foco da sociedade para outras questões onde o grau de impacto, do ponto de vista político, é menor.

O governo mente, mas os números não. O estudo da BCG analisou a competitividade das 25 principais economias exportadoras. Para isso, foram considerados quatro fatores: (i) níveis salariais dos trabalhadores; (ii) preço da energia; (iii) índices de produtividade; (iv) taxas de câmbio.

Infelizmente o Brasil foi o destaque negativo do estudo. Perdeu terreno em todas as dimensões. Houve perda substancial de competitividade da indústria brasileira, fruto do que fizemos e deixamos de fazer nos últimos 10 anos. O estudo destacou que o aumento de custos e apreciação cambial não foi devidamente acompanhado por uma alta da produtividade do trabalhador brasileiro.

Segundo o BCG, de 2004 a 2014, os salários quase que dobraram no Brasil e houve uma valorização de 20% do real frente ao dólar. Neste mesmo período, o preço da eletricidade no País subiu cerca de 90%, enquanto a produtividade dos trabalhadores cresceu míseros 3%.

O resultado desta conta não poderia ser diferente. Ficou muito caro produzir no Brasil. Os números apontados pelo estudo da BCG somam-se à velha e conhecida excessiva carga tributária (nos últimos 20 anos passou de 24% para 36%), falta de mão de obra qualificada, infraestrutura deficitária e ausência de acordos comerciais.

Com um ambiente de negócios tão impróprio, algumas indústrias não aguentaram e fecharam as portas. Há 25 anos, a indústria de transformação correspondia a 25% do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro. Hoje, ela corresponde a menos de 15%. Outras indústrias que lutam para sobreviver neste ambiente tiveram que terceirizar a produção em outros países, deixando para os parques industriais brasileiros a função de apenas apertar o último parafuso. E para evitar a falência, algumas empresas se transformaram em meros centros de distribuição.

Hoje, os custos da indústria brasileira são assustadoramente 23% maiores do que os custos da indústria norte-americana. Em 2004, os nossos custos eram 3% menores, comparando-se com os norte-americanos. Pode-se notar, claramente, um rápido e preocupante processo de deterioração no setor industrial.

Este quadro dificilmente será revertido por dois motivos básicos: (i) o governo nega os números e joga a culpa na crise econômica internacional sempre quando o assunto estoura na mídia; (ii) economias desenvolvidas, sobretudo a norte-americana, fizeram reformas importantes nos últimos anos, encontraram mecanismos para baratear os custos de energia e levantaram acordos comerciais de extrema relevância.

A falta de otimismo com o Brasil não é injustificada. As perspectivas favoráveis brindam aqueles que fizeram o dever de casa nos últimos anos.

No mercado de capitais, o índice Bovespa fechou o pregão em alta de 0,89%, influenciado pela divulgação de uma nova pesquisa eleitoral. A pesquisa CNT/MDA mostrou que a presidente Dilma tem 37% das intenções de voto. Entretanto, o candidato da oposição, Aécio Neves, avançou e agora tem 21,6% das intenções de voto.

Embora a pesquisa tenha mostrado avanço da oposição, o índice, que operava em alta de 2%, cedeu após a divulgação da pesquisa eleitoral. Fator importante para desconectar o mercado das especulações eleitorais exageradamente prematuras.

Este recuo do índice Bovespa reforçou a região de resistência dos 52.5k, fato que poderá estimular a liquidação de posições compradas nos próximos pregões.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão em alta de 0,53%, aproximando-se novamente da máxima histórica. O lucro da farmacêutica Merck superou as expectativas, ajudando a manter o tom otimista no mercado. 


Destaque para a pouco comentada reunião de política monetária do FED (Federal Reserve – banco central norte-americano) iniciada hoje. Mercado dormiu tranquilo para o resultado de amanhã, que não deverá apresentar surpresas/novidades.

11 comentários:

  1. Sobre a eleição: O povo já está cansado da Dilma. Mas se os eleitores não conseguirem ver que os candidatos da oposição são melhores que ela, vamos ter a reeleição dessa senhora.

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    1. Exato. Lembrando que o governo tem margem de manobra. Uma delas é Minha Casa Minha Vida. A terceira será lançada no mês de junho. Previsão de construção de 3 milhões de unidades habitacionais.

      Abs, bons negócios

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  2. Finalmente deu uma descasada essa porcaria de bolsa com as pesquisas eleitorais.

    Primeira vez também que vi o Aécio subir.

    E se continuar essa enxurrada de notícias ruins (e se vier racionamento) começa a se desenhar um quadro de clara volta do Lula pra salvar a Dilmalixo

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    1. Não acho que o Lula volta como candidato esse ano. Deve apenas fazer campanha junto com a Dilma. Mas o seu lugar está reservado pra 2018.

      Abs, bons investimentos

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  3. Qual é o nome desse estudo ?

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    1. Estudo que revela mudanças marcantes nos custos globais de fabricação na última década. Disponibilizado pelo BCG no dia 25/04/2014.

      Abs, bons negócios

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    2. PS: Segue o link: http://www.bcg.com/media/PressReleaseDetails.aspx?id=tcm:12-159505

      Abs,

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    3. PS 2: Matéria em vídeo a respeito: http://finance.yahoo.com/blogs/daily-ticker/-made-in-america--now-cheaper-than-made-in-brazil--boston-consulting-group-140748699.html

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    4. Valeu pela informação !

      Abs

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