segunda-feira, 28 de abril de 2014

Festival de gafes


Qual seria a sua reação se alguém lhe disser que o crédito para o consumo no Brasil nunca esteve tão escasso? Ou que o governo já faz a sua parte para apoiar a indústria do etanol? E ainda, se este mesmo alguém divulgar uma nova previsão para o PIB (Produto Interno Bruto), sem admitir, porém, que o dado anterior estava errado ou foi revisado?

Estas declarações poderiam causar estranheza para uns, incompreensão para outros, ou mesmo revolta para quem trabalha em determinados setores da economia. Quem consegue a proeza de cometer tantas gafes ao mesmo tempo? Num único só dia? Será que essa pessoa vive no Brasil? Sabe fazer conta? Não só vive, como infelizmente ocupa um cargo normalmente utilizado para administrar a economia do País. Com relação à conta, difícil saber.

As declarações de Guido Mantega impressionam pela total desconexão da realidade econômica brasileira e deram a entender que o ministro da Fazenda não faz a menor ideia do que está falando.

A começar pela situação do crédito no País. A última informação divulgada pelo Banco Central mostrou que o volume de vendas do comércio ampliado, que inclui o setor automobilístico e o setor de materiais de construção, aumentou 3,5% no mês de janeiro de 2014, comparando-se com o mesmo período do ano anterior. Já nos últimos doze meses (até janeiro) a taxa de crescimento do comércio ampliado foi de 3,3%, com expansão em oito dos dez segmentos pesquisados.

A explicação para o crescimento do crédito está na própria ata de reunião do Copom. A autoridade monetária “avalia que a trajetória do comércio continuará sendo influenciada pelas transferências governamentais, pelo ritmo de crescimento da massa salarial real e pela expansão moderada do crédito.”

O gráfico abaixo, retirado do último Relatório de Inflação do Banco Central, mostra uma situação totalmente oposta da avaliação (crédito escasso para o consumo) feita pelo ministro Mantega.


Conforme podemos observar, o crédito às famílias (tanto para consumo quanto para habitação) explodiu nos últimos dez anos, apoiado pela expansão do emprego (e da renda) e ampliação das operações de crédito imobiliário e consignado. A razão crédito a pessoas físicas/PIB passou de 9,3% em janeiro de 2004, para 26,1% em janeiro de 2014. Crescimento significativo.

Mantega foi ainda mais além e disse que “sem restrição do crédito, o PIB estaria crescendo perto de 3%”. O diagnóstico do ministro da Fazenda é preocupante. Além de estar completamente divergente do mercado (incluindo agentes, empresários, investidores e instituições), revela que o governo vai continuar insistindo no que deu errado nos últimos anos, mesmo com os inúmeros sinais de esgotamento no modelo de crescimento.

Já os usineiros presentes no seminário em São Paulo, palco do festival de gafes do ministro Mantega, foram obrigados a escutar que o setor já conta com uma série de programas de apoio do governo. Piada de mau gosto. As usinas estão fechando ou entrando em recuperação judicial por conta da estratégia de represamento dos preços da gasolina, patrocinados gentilmente pela Petrobras, fato que inviabilizou o consumo do etanol.

Por fim, o ministro Mantega reduziu sua projeção de crescimento da economia brasileira para 2,3% neste ano, pouco mais de dois meses após a divulgação da estimativa para o PIB (2,5%) feita pelo próprio ministério da Fazenda no Orçamento de 2014. Porém, ao ser questionado por jornalistas se havia revisado o dado do Orçamento de 2014, o ministro respondeu: "Não, é uma previsão e uma previsão não é precisa.”

Em matéria de precisão, o ministro já mostrou que precisa treinar mais pra chegar pelo menos perto do alvo. Mas se a previsão agora é menor, como ou porque o dado não foi revisado? E ainda, porque a projeção do governo continua tão distante da estimativa de crescimento de 1,65% do mercado? Estas e outras dúvidas danificam a nossa imagem e mantêm os investidores/empresários com os dois pés atrás.

No mercado de capitais o índice Bovespa fechou o pregão perto da estabilidade, com as ações da Petrobras contrabalanceando a queda constata nas ações da Vale. O desempenho dos papéis da mineradora está sendo prejudicado pela nova queda do preço do minério de ferro.


A comissão regulatória de bancos da China vai investigar financiamentos de negócios com a commodity. Algumas siderúrgicas em dificuldades no País intensificaram as importações de minério de ferro como uma maneira de obter o financiamento do negócio, a taxas de juros mais baixas. Posteriormente, estas siderúrgicas vendiam a matéria-prima no mercado à vista, obtendo lucro na transação.

Como os estoques de minério de ferro nos portos chineses estão elevados (mais de 100 milhões de toneladas, nível recorde), a notícia pode desencadear uma enxurrada de vendas, forçando os preços da commodity para baixo. O mercado está precificando este movimento e, por isso, o preço do minério de ferro caiu para 108,60 dólares por tonelada nesta segunda-feira, próximo da mínima de um ano e meio.

Nos Estados Unidos, o índice Dow Jones fechou em alta de 0,53%, recuperando parte das perdas registradas na última sexta-feira, sem apresentar novidades.

6 comentários:

  1. FI, lembrando que o festival de gafes não se resumiu somente ao ministro da fazenda. O ex-presidente também abriu a boca lá em Portugal para dizer que o julgamento do mensalão foi 80% político e 20% técnico...

    Anônimo da alll

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  2. Só guerra civil muda esse país. Mas os políticos sabem que com a população desarmada é mais difícil da população criar coragem e se revoltar... Meu sonho era que uma bala perdida achasse a Dilma ou o Lula

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    1. Correção: meu sonho era que 3 balas perdidas achassem respectivamente a Dilma, o Temer e o Lula.

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  3. ...se é para sonhar poe o Renan Calheiros, o Dias Toffoli e o Levandowski e os outros ministros do supremo que nao seguiram o Joaquim Barbosa.

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