terça-feira, 8 de abril de 2014

O elástico começou a esticar na outra ponta


O rápido deslocamento dos principais ativos do mercado financeiro nacional, constatado nas últimas semanas, já começa apresentar sinais de esgotamento no movimento de curto prazo. O elástico começou a esticar na outra ponta devido à forte entrada de capital especulativo no Brasil. Os estrangeiros aproveitaram uma janela de oportunidade para ganhar nas três pontas clássicas do mercado: câmbio, bolsa e juros. O dólar alto, cotado a R$ 2,35, próximo da máxima, no final do mês de fevereiro, casou com a bolsa no chão, aos 46.000 pontos e com os prêmios atrativos (em torno de 12,70%) no mercado de juros futuros.

Os estrangeiros que entraram no Brasil recentemente ganharam com a desvalorização do dólar frente ao real. Este mesmo capital, que já entrou ganhando no câmbio, foi destinado, em grande parte, para compras de títulos públicos federais. Com os ativos de renda fixa na carteira, os estrangeiros tiveram margem para comprar contratos futuros do Ibovespa. Os prêmios de renda fixa despencaram, valorizando os títulos públicos federais, e a bolsa disparou, alavancando o ganho nos contratos futuros.

Entretanto, a janela de oportunidade anteriormente aberta para a bolsa, câmbio e juros está se fechando. Daqui pra frente, a possibilidade de ganhos relevantes/consistentes nesta trinca no curto prazo é quase nula. A começar pelo destino principal do capital especulativo: os títulos públicos federais.

O gráfico abaixo mostra o prêmio (taxa de juros pré-fixada) oferecido pelo mercado para posicionamento nos contratos de juros futuros com vencimento em 2017, parâmetro para avaliação de compra/venda de LTN010117. A curva de juros futuros trabalha dentro de um movimento corretivo nos últimos 2 meses e nesta terça-feira fechou aos 12,16%. Isso significa que o spread entre a taxa pré-fixada (LTN) x taxa pós-fixada (LFT) está pouco acima de 1 p.p., levando em consideração a interrupção do ciclo de aperto monetário com a taxa básica de juros aos 11% ao ano.


O spread é bastante modesto para ganhos de curto prazo e desinteressante para posicionamentos de longo prazo (visando carregar o título até o vencimento). Ou seja, o elástico no mercado de juros começou a ficar esticado para compra. Títulos pré-fixados só costumam pagar prêmios próximos ou abaixo da taxa básica de juros (LFTs) quando há expectativa de afrouxamento monetário, possibilidade altamente remota. Portanto, pode-se esperar que o mercado sustente um prêmio mínimo nas taxas pré-fixadas (ao redor de 1 p.p.), caso contrário não haveriam compradores para as LTNs. Isso porque não compensaria o risco para fixar uma taxa, já que a pós-fixada (LFT) estaria pagando prêmio um pouco menor, porém sem risco algum.

Já o elástico da bolsa também começa a ficar esticado. A primeira perna de alta iniciada na região dos 44.9k apresenta sinais de esgotamento. Caso o ritmo de alta seja mantido nas próximas semanas, a bolsa fecharia este mês próxima dos 60.000 pontos. Não há fundamentos que sustentem os preços das ações neste patamar de preço. O mercado estaria pagando caro por empresas com baixa capacidade de aumentar suas respectivas taxas de lucros líquidos.

Nesta terça-feira, o índice Bovespa atingiu o patamar dos 53.4k, soltando mais uma sinalização de topo e possível reversão. A diferença desta sinalização para as demais que surgiram dentro desta primeira perna de alta está no volume financeiro, que superou os 10 bilhões de reais e no próprio desenho (pavio longo superior relevante de uma estrela cadente e contra ataque semelhante ao de uma nuvem negra) e posicionamento do candle (na parte final de uma pernada e não no meio da tendência, como registrado nas sinalizações anteriores).
  
  
Portanto, o mercado apresentou nesta terça-feira a mais forte sinalização de topo de curtíssimo prazo e possível reversão desde o início desta épica arrancada iniciada na região dos 44.9k. A LTA bastante inclinada (insustentável) deve ser perdida para abrir espaço ao movimento corretivo nos próximos pregões. Não há zonas de suportes relevantes. Provável fundo ascendente pode ser formado em regiões aleatórias.

No mercado de câmbio, o dólar atingiu o primeiro e importante piso de sustentação de curto prazo: a LTA de 2011. Isso significa que pode não ser tão interessante entrar com recursos no País (ou abrir posições vendidas no dólar) daqui pra frente, já que o elástico no câmbio começa a ficar esticado. A crença da permanência da tendência de alta do dólar no médio prazo pode levar investidores/operadores a reforçarem posições compradas na moeda norte-americana na faixa de R$ 2,20 a R$ 2,14 (importante linha de suporte).


Primeiramente, o mercado deve testar o Banco Central. As intervenções da autoridade monetária no mercado de câmbio possuem viés claramente inflacionário. O Banco Central segue mantendo esforços para derrubar a cotação do dólar na tentativa de convencer os agentes de que não serão necessárias novas doses de juros (aperto monetário) para combater a inflação, ainda que na prática, esta tentativa parece não convencer nem mesmo a própria instituição (levando em consideração o cenário traçado no último Relatório de Inflação).

Por outro lado, já é possível observar distorção grave no deslocamento do real frente às demais moedas globais, fruto das intervenções do Banco Central. O gráfico abaixo mostra o deslocamento do dólar contra as principais moedas do mercado financeiro. A distorção começou em meados do mês de março, logo após a reunião de política monetária do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos).


Enquanto as demais moedas globais voltaram a se desvalorizar frente ao dólar, o real continuou dentro do seu movimento de valorização de curto prazo. Este cenário é bastante prejudicial à competitividade dos produtos brasileiros no exterior. Enquanto as demais economias apreciam a desvalorização de suas respectivas moedas, o Brasil força a valorização da sua moeda, encarecendo seu produto no comércio internacional.

A indústria já paga a conta da política econômica desastrosa do governo federal, do péssimo ambiente de negócios, da elevada carga tributária, da infraestrutura deficitária, da competitividade e baixa capacitação do mercado de trabalho, dos juros mais elevados e agora vai ter que pagar mais uma conta: a da (nova) política monetária heterodoxa.

16 comentários:

  1. Este último parágrafo é bem elucidativo para quem fica surpreso com a desindustrialização do Brasil. É como um aluno, que não estudou nada, e fica surpreso em tirar ZERO na prova.

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    1. Exato. E pior do que ficar surpreso em tirar zero na prova é negar a nota (política da negação).

      Abs, bons investimentos

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  2. FI,

    Incrível o despreparo e a falta de interesse de nosso governo em resolver os problemas do Brasil. Interessante também foi a "sentença de morte" dada ontem pelo Financial Times para a economia do Brasil, junto com nosso crescimento limitado. Bom post.

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    1. Pois é. O mercado inteiro canta a mesma música. Só o governo que não escuta. Obrigado!

      Abs, bons negócios

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  3. FI, sempre um excelente post. Em sua opinião, por quanto tempo o governo conseguiria manter o dolar nesse valor? Ou seja, em sua opinião, quanto das reservas cambiais o governo estaria disposto a queimar para manter o dolar nesse patamar? Destaco que não li em qualquer veículo de imprensa que teria havido intervenção do governo na moeda estrangeira. Isso é um fato? Desculpe-me a ignorância.

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    1. As operações de swap cambial são formas de intervenção na taxa de câmbio. O Banco Central entra no mercado de câmbio todos os dias com suas operações de swap. O governo consegue manter (forçar) o câmbio nesta faixa dos R$ 2,20 ou até mesmo um pouco abaixo no curto prazo, mas dificilmente conseguirá impedir a continuação da tendência de alta do dólar, que é um fenômeno global. Acho que o governo só queimará suas reservas no mercado à vista quando (e se) o dólar ultrapassar a barreira dos R$ 2,50. Obrigado!

      Abs, bons trades

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  4. FI, considerando que o IBOV fechou abaixo dos 52000 pts, podemos dizer que foi um faldo rompimento e, portanto, uma armadilha para os comprados?

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    1. De certa forma sim. Bull trap nos 52k. Não tão relevante quanto ao bear trap na perda dos 46.1k, mas foi por conta deste bull trap de ontem que o mercado sinalizou topo nos 53.4k.

      Abs, bons trades

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  5. O BC tem o mandato de usar seus instrumentos para controlar a inflação; Como o problema está no curto prazo Junho-Setembro, entendo que deverá abusar do instrumento de câmbio, já que juros ou compulsórios não surtiriam qualquer efeito no curtíssimo prazo.

    Por outro lado, a fatura, derivada dos custos de seu último parágrafo, somente será apresentada após as eleições quando tantas outras faturas serão exibidas... Talvez então o Ministro da Fazenda Tombini possa mostrar seus novos préstimos à Nação.

    Por último esse seu grafico do dólar e LTA de 2011 está estranho; No meu já perdeu essa linha ! Vale reavaliar com outra plataforma.

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    1. Exatamente. IPCA de hoje mostra porque todo este desespero do BC pra derrubar o dólar. A situação está cada vez mais complicada. Quanto ao gráfico do dólar, vou reavaliar em outra plataforma. Obrigado pelo aviso!

      Abs, bons trades

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    2. FI,

      A primária de alta iniciada em Jul/11 foi perdida no semanal, na semana passada na perda da barra da semana anterior, embora por meros pontos, o que poderia gerar dúvidas.

      Entendo que a barra desta semana confirmou essa perda.

      Talvez agora os 2,15 (até os 2,04) sejam o objetivo desta queda, pelo reteste do mega canal perdido de baixa que vinha desde os anos 2000.

      Avalie e veja se faz sentido para você... e, por favor, comente conosco ! Sempre um prazer ler suas impressões e comentários !

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    3. Faz sentido, mais por conta da postura que o Banco Central deve manter no câmbio do que por motivos técnicos. Acho que pode chegar sim aos R$ 2,15 sem muita cerimônia, mas a indústria certamente vai chiar. Aos R$ 2,04 parece difícil, mas não impossível. Inflação = popularidade = voto.

      Abs, bons trades

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  6. FI, parabens pelo post, vai uma duvida:
    Se os juros estão subindo, pq as LTN`s que antes chegaram nos 13% agora ja estao proximas a 12% ? Não teriam que subir ?
    Abs.

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    1. Obrigado! Na verdade os juros estão caindo, trabalhando dentro de um movimento corretivo nos últimos 2 meses. Para especular em juros (seja por contratos futuros, seja em títulos do Tesouro), o investidor/operador deve comprar títulos com taxas de juros mais altas (desvalorizados) e vendê-los com taxas de juros mais baixas (valorizados). Então, quando a taxa de juros cai, o investidor/operador tem um lucro virtual na posição e pode realizá-lo no momento indicado pela estratégia operacional.

      Abs, bons investimentos

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  7. Engraçado lembrar, que em 2011 nossa Presidenta foi "ensinar" o velho mundo a como se comportar diante de uma crise e dizia que o país não seria "vitima" de um ataque especulativo.
    Seria engraçado se não fosse trágico.

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