quarta-feira, 30 de abril de 2014

Onde está a margem de tolerância para o El Niño?


As temperaturas no Oceano Pacífico Equatorial estão subindo. O aquecimento fora do normal é uma sinalização da natureza de que vem aí um fenômeno que vai alterar vários fatores climáticos regionais e globais. Esse fenômeno, conhecido como El Niño, pode secar culturas na Austrália, sudeste da Ásia, Índia e África, enquanto outras partes do planeta, como o meio-oeste dos Estados Unidos e Brasil, são atingidas por chuvas intensas.

A ONU (Organização Meteorológica Mundial) já emitiu o seu alerta no dia 15 deste mês. Meteorologistas norte-americanos acreditam que há uma chance de mais de 65% de surgimento de um El Niño até o fim deste ano. Um estudo recente publicado pela revista Proceedings of the National Academy of Sciences aponta possibilidade de 76% para ocorrência de um El Niño no final deste ano.

O El Niño provoca impactos significativos nos mercados de commodities agropecuárias e minerais. Preços de alimentos e produtos básicos são, inevitavelmente, afetados. Investidores, operadores e gestores de fundos hedge estão se abarrotando de contratos de futuros de commodities, apostando numa alta futura.

Commodities como café, açúcar e soja, que já estão em alta, poderão subir ainda mais com o El Niño, pressionando significativamente os índices de inflação. Como são produtos básicos, haverá repasse de preços em efeito cascata para outras mercadorias/segmentos da economia, agravando o quadro doméstico já bastante debilitado.

O boletim trimestral de análise de commodities do Banco Mundial, divulgado nesta quinta-feira, ressalta que os preços globais dos alimentos podem facilmente subir 15% três meses após o El Niño. No início deste ano, projetava-se estabilidade nos preços dos alimentos.

Economias sérias e equilibradas que trabalham com índices de inflação próximo do centro da meta e baixas taxas de juros terão margem de manobra para contornar os efeitos provocados pelo El Niño. Já as economias desequilibradas (como a brasileira), vão passar sufoco.

Atualmente já sofremos quebra de recordes históricos de preços de uma década, num curto espaço de tempo, fato que revela nítida sinalização de descontrole inflacionário. Forças de diferentes fontes estão ultrapassando níveis medianos de preços, pois não estão devidamente ancoradas pela política monetária. O nível elevado da inflação brasileira, três vezes acima da média global, é um reflexo das estratégias equivocadas de política econômica do atual governo, excesso de flexibilização da política fiscal e desmantelamento da autoridade monetária.

Há mais de 4 anos não se sabe o que é uma inflação devidamente ancorada na meta. A última vez que isso aconteceu no Brasil foi em 2009. Depois disso a meta virou lenda. Hoje, ninguém mais confia na política de metas de inflação estabelecida pelo CMN (Conselho Monetário Nacional). Com as expectativas dos agentes cada vez mais justificadamente deterioradas, a inflação se retroalimenta, num perigoso ciclo vicioso de indexação.

A margem de tolerância da política de metas de inflação serve justamente para acomodar choques de preços de curtíssimo prazo, advindos de uma crise econômica ou condições climáticas adversas, por exemplo. Mas esta margem infelizmente não existe. Entende-se hoje que o centro da meta é o teto da margem de tolerância.

Como não temos margem, o governo tem adotado medidas heterodoxas (onde a história já mostrou inúmeras vezes que não funcionam) na tentativa de frear a inflação de curto prazo. A estratégia de represamento de preços administrados e as intervenções desesperadas do Banco Central no mercado de câmbio são exemplos destas medidas.

Mas, para a infelicidade do governo, não existem medidas heterodoxas para segurar o El Niño. Não adianta usar os cargueiros da Petrobras para extrair gelo da Antártida e jogar nas águas equatoriais do Pacífico. É um fenômeno irreversível. Se ele aparecer, como sugerem os meteorologistas, vamos pagar o preço.

No mercado de capitais, o pregão desta quarta-feira foi relativamente tranquilo. A reunião de política monetária do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) terminou sem novidades. A autoridade monetária anunciou que vai reduzir suas compras de bônus mensais para 45 bilhões dólares, ante os atuais 55 bilhões de dólares, mantendo o curso para acabar com as injeções monetárias no mês de outubro deste ano.

Com relação à economia, o Banco Central dos Estados Unidos destacou que as recentes informações indicam que o crescimento da atividade econômica se acelerou recentemente, após ter desacelerado durante o inverno em parte devido às condições climáticas adversas.

Na bolsa de Nova York o índice Dow Jones fechou em alta pelo terceiro dia consecutivo, muito próximo de romper a máxima histórica localizada na região dos 16.6k.


No Brasil o índice Bovespa fechou em baixa de 0,41%, sem apresentar novidades, confirmando a sinalização do pregão anterior.


No gráfico mensal, o índice Bovespa soltou uma sinalização de topo na região da média móvel simples de 20 períodos (53.4k), próximo da LTB intermediária dos 69k. Sinalização semelhante à formação dos últimos três topos descentes formados em 2012 e 2013.


Bom feriado a todos vocês!

19 comentários:

  1. FI,

    Acabo de ver as notícias. Viu o pacote da Dilma ? O déficit público vai estourar agora

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim. É uma pequena demonstração do que são capazes de fazer para se manterem no poder. O pacote surgiu um dia depois da divulgação da pesquisa CNT/MDA mostrar avanço do candidato de oposição Aécio Neves. Foi tão rápido, que até agora não apareceu ninguém do Ministério da Fazenda para dar detalhes do impacto fiscal das medidas anunciadas pela presidente. Lembrando ainda que o reajuste de 4,5% na tabela do IR é insuficiente, pois está abaixo da inflação. A defasagem hoje está em 61,42%.

      Abs, bom feriado!

      Excluir
    2. Fiquei com uma dúvida. Esta correção vale a partir de hoje? Então neste mês a base de cálculo do IR já passa a ser corrigida em 4,5%? além disso, haverá outra correção em janeiro/15?

      Ou ela valerá para o ano base 2015? Se for isso, é um anúncio de algo que já era default. O governo simplesmente anunciou o que já se sabe há 3 anos, quando anunciaram a correção para os próximos 5 anos.

      Excluir
    3. Sim esses reajustes são normais. Precisam ser feitos todos os anos para cobrir a inflação. Veja que a defasagem ainda é muito alta. Acho que o governo deixou de fazer o reajuste no início do ano para ter mais uma carta na manga na corrida eleitoral.

      Abs, bons negócios

      Excluir
  2. FI Bom dia!

    Acha que os mercados vão estourar todos para baixo com as temperaturas desgovernadas?
    E só as comodities e ativos de de risco agriculas vão subir forte se isso for assim mesmo!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Bom dia!

      Commodities já estão subindo/disparando, sobretudo agrícolas. Na próxima oportunidade vou postar o gráfico do índice de commodities global. Os mercados podem estourar por um conjunto de fatores relevantes que está para acontecer nos próximos 12/15 meses: desalavancagem nos Estados Unidos e na Inglaterra, redução dos estímulos monetários no Japão, retorno da inflação global (com provável impulso do El Niño), transição da economia chinesa, aumento dos prêmios de risco nas economias desenvolvidas e, no Brasil, continuaremos a sofrer os velhos problemas relacionados à política fiscal, inflação persistentemente elevada, crescimento ridiculamente baixo, déficit em transações correntes, falta de confiança no mercado, intervencionismo Estatal e péssimo ambiente de negócios.

      Abs, bom feriado!

      Excluir
    2. "retorno da inflação global"

      Então talvez esteja na hora de comprar tudo que for metais precioso,agora que esta mesmo em cima de um forte suporte!

      Excluir
    3. Sim. É uma opção interessante para ficar no radar nos próximos 12/15 meses.

      Abs, bons investimentos

      Excluir
  3. Choque de juros ou maxidesvalorização com inflação alta. É destas duas formas que o ajuste ocorrerá.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Acho que isso só vai acontecer caso o governo não encontre nenhuma outra saída. Não estamos pegando a estrada do acerto de contas, mas sim seguindo os rastros da trilha que a Argentina pegou.

      Abs, bom feriado!

      Excluir
    2. Trilha que a argentina pegou = inflação alta e maxidesvalorização rssss

      Excluir
    3. Exatamente. Mas o governo argentino não fez acerto de contas, apenas colaborou para acelerar o quadro de deterioração econômica. A desvalorização cambial e a inflação elevada são meras consequências da política populista. Enquanto o Brasil está no início desta trilha, onde ainda existe possibilidade de retorno, a Argentina está na fase final (deste ponto não tem volta). Se o governo brasileiro quiser, pode mudar de trilha sofrendo alguns arranhões.

      Abs, bons negócios

      Excluir
  4. Como fica a situação dos reservatórios de água com o El Nino?

    Pelo que está na wikipedia, há aumento de chuvas no sul e seca no nordeste. Se for isso, não afeta a questão energética nem a questão de abastecimento de água em SP.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim, haveria melhora substancial nos níveis dos reservatórios. Com o El Niño poderíamos escapar de uma racionalização do uso de água e energia elétrica no ano que vem.

      Abs, bons negócios

      Excluir
  5. Os esquerdistas não pensam nestas coisas. Estão muito ocupados tentando salvar o mundo. Esse tipo de preocupação é coisa de liberal chato...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Esta é a "resposta padrão" para não admitirem o erro.

      Abs, bons negócios

      Excluir
  6. fizeram uma cobrança em minha conta,sem que eu tenha autorizado,não sei que empresa e essa,mas desconheço a origem da cobrança,vcs acabaram com minha vida,tenho uma cirurgia urgente para fazer,e,agora estou sem condiçoês,para pagamento.

    ResponderExcluir