quarta-feira, 28 de maio de 2014

Agora é com a torcida


O Banco Central cumpriu o que indicou na última ata de reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) divulgada no dia 10 de abril. Mesmo diante de uma inflação persistentemente elevada, a taxa Selic permaneceu inalterada na reunião de Comitê realizada nesta quarta-feira, fato que marcou o encerrando o ciclo de aperto monetário iniciado em abril de 2013.

Há 15 dias de abertura da Copa do Mundo, o Banco Central decidiu entrar no clima e começar a torcer. A bandeira é brasileira, mas a torcida é para a inflação ceder em meio às expectativas deterioradas dos agentes econômicos.

A “meta” que se observa na prática (6,50%) corre sério risco de ser superada no meio deste ano e no fechamento de 2014. Mas fazer a famosa cartinha se desculpando para a sociedade brasileira não será um problema para um governo reeleito e muito menos para Alexandre Tombini, cotado para assumir a cadeira no Ministério da Fazenda.

Após longa reunião teatral, o Copom divulgou o seguinte comunicado à imprensa: “Avaliando a evolução do cenário macroeconômico e as perspectivas para a inflação, o Copom decidiu, por unanimidade, neste momento, manter a taxa Selic em 11,00% a.a., sem viés.”

O comunicado é bem diferente daquele divulgado após a reuniãodos dias 1 e 2 de abril. No mês passado, o Banco Central afirmou que iria “monitorar a evolução do cenário macroeconômico até sua próxima reunião, para então definir os próximos passos na sua estratégia de política monetária.”

A princípio, isso significa que o Banco Central avaliou... avaliou... avaliou...  e decidiu manter a taxa básica de juros em 11% ao ano. Por isso a reunião foi tão demorada. Embora todos já sabiam qual seria o resultado, é sempre bom fazer um jogo de cena.

Mas quais são os fundamentos presentes na “perspectiva de inflação” ressaltada no comunicado de hoje para justificar a manutenção da taxa Selic? Por um acaso as projeções da autoridade monetária apontam para uma inflação aproximando-se do centro “teórico” da meta (4,5%)? Não. Nem no longo prazo.

Conforme projeções divulgadas no último Relatório Trimestral de Inflação, o Banco Central estima uma inflação de 6,1% no fechamento deste ano. O ano de 2015 abre com uma estimativa de inflação perigosamente elevada de 6,0%. É esperado um recuo de apenas 0,5 p.p. até o encerramento de 2015. No primeiro trimestre de 2016, a projeção para a inflação encontra-se em 5,4%.

Conclui-se, portanto, que o Banco Central caiu na contrariedade. A equipe técnica projeta uma inflação persistentemente elevada, distante do centro da meta no horizonte relevante, mas os formuladores de política monetária entendem que as perspectivas não são ruins e, por isso, optaram pela manutenção da taxa básica de juros.

A sensação de falta de segurança na avaliação do Banco Central pode ser notada pela presença da expressão “neste momento” no comunicado emitido agora pouco. Entende-se que o momento de reavaliação da política monetária já está marcado para o final deste ano, após as eleições presidenciais.

No mercado de capitais o índice Bovespa subiu 0,89% nesta quarta-feira, sustentado pelas ações dos grandes bancos, que reagiram ao adiamento do julgamento no STF (Supremo Tribunal Federal) sobre as perdas da poupança geradas por planos econômicos das décadas de 1980 e 1990.

O movimento natural de alívio surgiu após o índice testar a região de suporte dos 52k. Mercado ainda segue na corretiva de curtíssimo prazo. Para invalidar este movimento, os preços precisam romper a LTB curta e recuperar a região dos 53.3k.


Na agenda doméstica, destaque para queda de 5,1% do ICI (Índice de Confiança da Indústria), além do recuo de 5,7% do ICS (Índice de Confiança de Serviços). Ambos os índices registraram as maiores variações negativas desde dezembro de 2008, reforçando o atual quadro de deterioração econômica.

Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o dia em baixa de 0,25%, após registrar quatro altas consecutivas. Mercado permanece comprado, sem apresentar novidades.


13 comentários:

  1. Este BC já faz tempo que é miquinho amestrado do palácio do planalto. Depois querem saber por que o Ibov vai pro quarto ano sem sair do lugar.

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    1. OBond,

      Ibov é o melhor termômetro da Dilma. Desde o dia em que ela subiu a rampa do Planalto e recebeu a faixa do Lula nunca mais nos aproximamos dos 70k.

      Abs, bons negócios

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  2. É companheiro. Não está fácil pra ninguém...

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    1. Tempos difíceis pela frente Mstarfire. "Nada está tão ruim que não possa piorar".

      Abs, bons investimentos

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  3. Não há mais como negar a necessidade imperiosa de se conceder independência e autonomia operacional e financeira ao Banco Central do Brasil, com mandato fixo e livre de indicações governamentais.

    A questão é como fazer?

    Entendo que o mais indicado para a posição de presidência seja um perfil de mercado - como Armínio Fraga e Henrique Meirelles foram - ou um servidor de carreira não subserviente ao partidão. Talvez com eleição pelos próprios servidores da carreira do BC.

    Por outro lado, tudo poderia ser mantido como está no BC atual se não tivéssemos esta equipe de idiotas legitimados pelas urnas.

    O PT é um câncer para o Brasil.

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    1. O primeiro passo seria a transição de poder. Mas sabemos pelas pesquisas que a probabilidade é muito baixa, infelizmente. Pior, podemos acabar indo na direção contrária da independência e autonomia do Banco Central. A última entrevista de Rui Falcão (presidente do PT e coordenador da campanha de reeleição da presidente Dilma) concedida à Bloomberg neste mês foi preocupante. Ele defendeu o controle de capitais, declarou ser contrário a autonomia do Banco Central e, como se não bastasse, acha que a política econômica (o que segundo ele envolve também a questão monetária) deve ser conduzida por políticos que são eleitos. Este último parece que já está funcionando na prática, só falta "oficializar".

      Abs, bons negócios

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    2. Exatamente. E a Dilma afirma não confiar no mercado como regulador de preços. Combine isso com o manifesto comunista do PT disfarçado de programa de campanha da Dilma e temos um cenário amedrontador para o próximo quadriênio.

      Lamentável termos que aturar este câncer por mais 4 anos.

      Estou fazendo um trabalho de formiga em casa e nos círculos de amizade pra convencer as pessoas a não anularem o voto.

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  4. FI,

    Querem postergar tudo para estourar só depois das eleições. IncomPeTencia e roubalheira !

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    1. Infelizmente esta é a impressão que fica.

      Abs bons investimentos

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  5. Olá FI
    Compartilho da tua opinião sobre essa instabilidade do governo e demais problemas que estamos enfrentando, porém na minha opinião, ao suspender o aperto de juros, o BC olhou mais para o fraco desempenho da economia do que para a inflação. Se está certo nisso ou não, é outra questão.
    abraço

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    1. Dividendos,

      Sim. Temos indicadores que mostram desaceleração da atividade que já estava fraca no primeiro trimestre. Ao que tudo indica, estamos dentro de uma armadilha semelhante ao quadro de estagflação. Preços dos insumos elevados formaram uma nova barreira contra o crescimento, que soma-se aos velhos problemas tributários, burocráticos, infraestrutura e educação que já nos acompanham há bastante tempo. Mesmo com os estímulos do governo a economia não reagiu. Portanto, a forma de sair deste quadro de estagflação é dolorosa, combatendo a inflação (jogar o índice nos 4,5%).

      Abs, bons negócios

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