sexta-feira, 30 de maio de 2014

Equação da ineficiência


O clima pesado, predominante no mercado nacional desde o início da semana passada, azedou de vez nesta sexta-feira. Depois de ver o governo tirando mais um coelho da cartola para atingir sua meta de superávit primário no primeiro quadriênio de 2014, a sapatada comeu solta no mercado após o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgar novamente um número medíocre de crescimento.

Se já estava difícil engolir um aumento de 716,4% de aportes de dividendos das empresas estatais no caixa do governo, o que dirá o novo vexame de 0,2% do PIB (Produto Interno Bruto) no primeiro trimestre deste ano.

A junção destas duas contas forma a equação da ineficiência. Mesmo desonerando setores, administrando tributos de produtos importados, injetando crédito no sistema via bancos públicos (tanto para clientes PJs, quanto para clientes PFs), represando preços, controlando o câmbio e incentivando o consumo, o governo não consegue, sequer, provocar um soluço de crescimento na economia. A reposta desta equação revela que as políticas econômica, fiscal e monetária são conduzidas da maneira mais errática possível.

O vexame do PIB só não foi maior porque o consumo do governo aumentou 0,7% no primeiro trimestre de 2014, frente ao quarto trimestre de 2013. Na comparação com o primeiro trimestre de 2013, o consumo do governo subiu 3,4%.

A indústria encolheu pelo terceiro trimestre seguido, o consumo das famílias recuou 0,1% frente ao último trimestre de 2013, as exportações caíram 3,3% e os níveis de confiança dos empresários e consumidores estão baixos. Como se não bastasse, a Formação Bruta de Capital Fixo (ou taxa de investimento) cedeu pelo terceiro trimestre consecutivo mesmo com os “investimentos” realizados para a Copa do Mundo.

Com isso, a Formação Bruta de Capital Fixo despencou para vergonhosos 17,7% do PIB no trimestre passado. Este é o pior resultado registrado para o primeiro trimestre desde 2009, quando a economia sofria os reflexos gerados pela crise do subprime.

Os números também confirmam que o País está preso numa perigosa espiral semelhante ao quadro de estagflação (retração da atividade econômica combinada com índices elevados de inflação). A inflação no Brasil subiu 2,17% no primeiro trimestre deste ano, enquanto o PIB avançou apenas 0,2%. Isso significa que para crescer 0,1%, a economia teve que se inflacionar em 1,08%. Ou seja, a taxa de inflação cresce cerca de 10 vezes mais do que a taxa de crescimento. Não é uma situação desconfortável, mas sim alarmente.

Entretanto, para o governo federal, parece que está tudo bem no nosso quintal. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, continua jogando a culpa na economia internacional para justificar o baixo desempenho da economia brasileira, mesmo quando os números mostram que estamos crescendo bem abaixo da média da América Latina, dos BRICs e do mundo inteiro.

Mantega também culpou a seca, que não fala. E se falasse, mostraria que o setor agropecuário cresceu 3,6% no primeiro trimestre deste ano, comparando-se com o quarto trimestre de 2013. Culpou a volatilidade cambial, como se o governo não interferisse diariamente no mercado de câmbio, administrando cuidadosamente a taxa. Culpou o aumento da inflação, estimulada pelas próprias políticas do governo.

A sensação de ignorância é tão elevada que, ao apresentar suas desculpas, o governo está, na verdade, criticando a si próprio. Eis a fonte da equação da ineficiência.

Com o tombo de 1,91% desta sexta-feira, o índice Bovespa encerrou a semana em baixa, mostrando mais um candle relevante para manutenção do movimento corretivo. A linha de sustentação dos 52k foi rompida com demonstração de força, detonando um pivot de baixa no gráfico horário. Não há zonas de suporte relevantes para segurar o movimento descendente, apenas a região psicológica dos 50k.


No gráfico mensal, o índice Bovespa soltou a segunda sinalização de esgotamento da tendência de alta iniciada na região dos 44.9k. Mais um candle de pavio longo superior relevante respeitando a média móvel simples de 20 períodos. Sinaliza maior probabilidade de manutenção do movimento descendente, estendendo-se para os próximos meses.


Bom final de semana a todos vocês!

11 comentários:

  1. Sell in may and go away?

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    1. Parece que esse ano o jargão vai funcionar rs... Vamos acompanhar.

      Abs, boa semana!

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  2. Belíssima estrela cadente no mensal. Bolsa voltando a realidade... China também não está ajudando, o preço do minério de ferro está na mínima do ano. É hora de operar short.

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    1. Sim. É uma sinalização muito forte no mensal, num ponto crítico (abaixo da média de 20 períodos). Pra invalidá-la será difícil.

      Abs, boa semana!

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  3. Que dizer do contra-senso em termos de política monetária em liberar recursos de depósitos compulsórios para que os bancos comprem carteiras de veículos de bancos de montadoras, via fundos de direitos creditórios? um disparate!!! Outros segmentos não merecem o mesmo tratamento? Ou é ceder sempre ao lobby das montadoras e sindicatos de metalúrgicos?

    http://economia.terra.com.br/carros-motos/governo-deve-injetar-r-5-bi-para-alavancar-venda-de-carros,ab36c19acdc46410VgnVCM3000009af154d0RCRD.html

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    1. Impressionante. A cada dia que passa o governo consegue se superar ainda mais.

      Abs, boa semana!

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