quarta-feira, 14 de maio de 2014

Por que o mercado brasileiro está em rali?


O governo brasileiro tem aproveitado a onda de capital especulativo para justificar a “melhora gradual” do quadro doméstico, reforçar a “eficácia” da política econômica, fiscal e monetária, além de enaltecer que o País está em “sintonia com a recuperação da economia global”.

Tudo isso é balela. Diversos indicadores mostraram que o quadro doméstico está se deteriorando cada vez mais. A inflação, mesmo represada, segue persistentemente elevada, ameaçando romper o teto da meta (6,5%) mais uma vez no acumulado de 12 meses. A política fiscal permanece expansionista. Não cumprimos metas de superávit primário e ainda utilizamos diversos mecanismos para maquiar os números. A política monetária está desmantelada e sofre com a falta de independência.

Não estamos conseguindo pegar carona no processo de recuperação da economia global. Estimativas de diversas entidades respeitadas apontam que a economia brasileira vai crescer menos que a média dos países-membros da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), menos que a média dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e menos que a média de crescimento global neste ano e no ano que vem.

O ICE (indicador de clima econômico) do Brasil, divulgado hoje pela FGV (Fundação Getúlio Vargas) em parceria com o instituto alemão Ifo, reforça o grau de deterioração do quadro doméstico. Conseguimos a incrível façanha de atingir o nível mais baixo desde janeiro de 1999.

O ICE do Brasil despencou 20%, partindo de 89 pontos em janeiro deste ano para 71 pontos em abril. É um patamar mais baixo, inclusive, que o de janeiro de 2009 (78 pontos), quando os mercados repercutiam o terror da crise do subprime. Na América Latina, o ICE do Brasil é vergonhosamente inferior ao da Argentina (75 pontos) e supera apenas o da virtualmente quebrada Venezuela (20 pontos, valor mínimo).

Entretanto, não se pode negar a forte entrada de capital especulativo no País constatada nos últimos meses. Isso ocorre, basicamente, por conta da oscilação das principais moedas globais (correção do real x dólar foi mais forte frente às demais moedas, devido às intervenções do Banco Central no mercado de câmbio) e, principalmente, pela coletiva de imprensa de Janet Yellen, como nova chair do FED (Federal Reserve - Banco Central norte-americano), após sua primeira reunião de política monetária. Yellen disse, indiretamente, o que todos queriam ouvir nas principais praças financeiras mundiais: quando é que os juros irão subir nos Estados Unidos?

Fim das incertezas, melhoraram as condições para o capital circular em ativos de maior risco, principalmente nos países emergentes. Os investidores, mais tranquilos, não serão surpreendidos pela desalavancagem do sistema (via aperto monetário) até o primeiro trimestre de 2015.

O gráfico da Treasury de 10 anos (título público do Tesouro norte-americano) mostra claramente a redução significativa do clima de aversão ao risco que inundou os países emergentes com capital especulativo nos últimos meses.


O Yield (taxa de juros) da Treasury de 10 anos cedeu cerca de 10% desde o discurso de Janet Yellen e atingiu nesta quarta-feira o menor patamar dos últimos seis meses, aos 2,54%.

Repercutindo a oscilação dos títulos norte-americanos e forte entrada de capital especulativo, os juros futuros brasileiros também recuaram para patamares próximos da mínima de seis meses. O pré-fixado (ou LTN do Tesouro Nacional) paga hoje um prêmio modesto de cerca de 1 p.p. sobre o pós fixado (ou LFT do Tesouro Nacional).


A forte valorização do real também atraiu fundos hedge japoneses, conhecidos como “toshins”, especialistas em operações com moedas, ações e títulos da dívida pública. Os fundos japoneses buscaram compensar o baixo rendimento do iene frente ao euro e dólar comprando real.

Estes são os pilares que sustentam o rali observado em algumas praças emergentes, especialmente o Brasil, por apresentar um bônus maior no câmbio. Não são fundamentos nem muito menos expectativas eleitorais. São fatores técnicos, de curto prazo. Entretanto, o investidor estrangeiro que entrou no Brasil para fazer carry-trade e aproveitar a valorização do real não veio pra ficar. Quer apenas aproveitar a janela de oportunidade, pegar a sua parte na dança dos ativos globais e, quando estes fatores deixarem de existir, voltar para casa na mesma velocidade.

O índice Bovespa subiu 0,94% nesta quarta-feira, conseguindo superar a linha de resistência localizada na faixa dos 54.3k, fortalecendo a tendência de alta de curto prazo iniciada na região dos 44.9k.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones recuou 0,61%, dois dias depois de superar a máxima histórica. Com a queda de hoje, houve formação de topo de curtíssimo prazo na região dos 16.7k, ainda sem trazer ameaça à tendência de alta de curto prazo.


24 comentários:

  1. FI, boa noite ! Duas considerações:
    1- Interpretei o movimento do DJ hoje, mais como um pullback, do que como um topo de curto prazo.
    2- O que você achou do comentário do Lula, especialmente sobre a parte em que ele fala das "reservas" ? Esse número é real ? "Lula ataca "críticos" FT e The Economist: "quanto mais distante, mais erram", afirma - InfoMoney
    Veja mais em: http://www.infomoney.com.br/mercados/noticia/3346367/lula-ataca-criticos-the-economist-quanto-mais-distante-mais-erram"

    Atc, Anônimo da alll

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    1. Boa noite Anônimo da alll!

      Sim, é um movimento de pullback, por enquanto, já que a linha da antiga máxima história não foi perdida. Entretanto, deve-se considerar o topo de curtíssimo prazo, que ainda não ameaça a tendência de alta de curto prazo.

      Quanto ao Lula, sim. É real. Neste ponto ele tem razão. É uma importante ferramenta que pode ser utilizada nas crises financeiras. Mas quanto ao resto ele está errado. Preocupante também ver essas críticas à mídia brasileira. É uma péssima sinalização do que pode acontecer no futuro.

      Abs, bons negócios

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    2. FI,
      Permita-me complementar. O número é real, mas ter reservas internacionais possui um custo.
      O Brasil se endivida com juros a 11% (vou deixar a SELIC como padrão para simplicidade) e recebe juros quase de 0% de suas reservas. Portanto, há um custo gigantesco neste spread. A DLSP não aumenta, mas a nossa dívida bruta, e é por isso que a DLSP ficou estável nesses últimos anos, e a DB aumentou.

      Além do mais, essa desproporção entre DB e DLSP faz com que a taxa de juros implícita fique resistente a queda da SELIC. Tanto é verdade que a nossa taxa de juros implícita de 2014 é idêntica a de 2002, mesmo a SELIC tendo a SELIC caindo de 25% para 11%.

      Assim, reservas internacionais são importantes para momentos de crises cambiais, e para fazer políticas anticíclicas com mais facilidade quando necessário.
      Entretanto, talvez não haja necessidade, pelo alto custo, de se ter tanta reserva.

      É a mesma coisa que a reserva de emergência para finanças pessoais. Os livros básicos falam em seis meses em ativos líquidos sem qualquer risco. Vamos considerar aqui a poupança. Eu, na minha independência financeira, gosto de trabalhar com dois anos de despesas, pois sou conservador. Isso tem um custo, de deixar dois anos de dinheiro num tipo de investimento com possibilidade de juros reais zero. Tenho consciência desse custo, mas opto pela extrema cautela. Entretanto, não faria nenhum sentido eu ter 10 anos de despesas na poupança.

      O paralelo com as reservas internacionais é o mesmo.

      Abraço!

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    3. Exatamente soulsurfer,

      As reservas foram acumuladas às custas do aumento do endividamento. O governo captou dinheiro no mercado (emitindo dívida pelo Tesouro) e comprou dólares via Banco Central. Mas é um custo necessário e administrável. A parte da necessidade é essencial, pelos motivos que citamos e, também, para acalmar o mercado (conforto psicológico). Numa economia sem reservas, como a Argentina, por exemplo, basta um pequenos espirro para o clima de tensão tomar conta no mercado. A parte administrável está sendo relativamente bem conduzida pelo Banco Central. Boa parte das reservas foram acumuladas com o dólar bem abaixo de R$ 2,00. Então deve-se contabilizar a perda financeira relevante pelo endividamento e acrescentar o ganho ocorrido pela valorização do dólar, em eventual caso de liquidação. Levando em consideração que as reservas seriam queimadas em momentos adversos (como fuga de capitais, por exemplo, fato que provocaria disparada do dólar), o lucro na posição cambial poderá até mesmo compensar o custo de captação.

      Abs, bons negócios

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    4. Sim, é verdade, muito bem lembrada essa questão do câmbio.
      O maior problema mesmo é a diferença nos juros entre a captação e esses empréstimos para o BNDES, ainda mais se esses empréstimos não estão servindo para alocar de forma mais eficiente os recursos.

      Grato pela resposta, FI!

      Abraço!

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    5. Sim. Você tocou na ferida rsrs... Este é um dos principais pontos negativos do governo federal: péssima alocação de recursos. Não pelos programas sociais, que são essenciais. Mas pelo desperdício de recursos em diversas esferas, muitas vezes fruto do intervencionismo desastrado/ineficiente.

      Eu é que agradeço pelos ótimos comentários!

      Abs, bons investimentos

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  2. Me desculpe,mas mesmo com esse cenario apocaliptico que vc expoe,percebi um forte aumento lucro de diversas empresas...crise existe para alguns...bolsa sobe e especulacao,quando cai e o que...

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    1. Estou acompanhando os balanços e até agora nada me surpreendeu. Desempenho baixo/mediano. Está muito difícil encontrar papel descontado na bolsa ou negócios com boas perspectivas para justificar o risco.

      Abs, bons investimentos

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    2. FI, o mercado como um todo, eu concordo.
      Mas há alguns. Veja SANEPAR com yield de 7%, desconto sobre o VP significativo, earning yields de mais de 16/17%, P/L baixo, etc.
      É empresa estatal, mas já tá bem descontado isso nos múltiplos.
      Essa foi apenas um exemplo. Também quero pegar empresas com P/VP em 0,5, yields de mais de 10% com payouts baixos, etc, etc, mas convenhamos que é difícil.

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    3. Concordo. Este é um bom exemplo de empresa descontada na bolsa. Mas neste caso o desconto no papel se justifica, pela gestão Estatal. Portanto, na minha avaliação, o risco é muito elevado. É difícil encontrar empresas boas e descontadas na bolsa. Promoções são raras, mas acontecem. Isso normalmente ocorre nos momentos de crash no mercado.

      Abs, bons investimentos

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    4. Não sei se estão sabendo, mas a SANEPAR está pensando em aumentar seu FF as custas da maior emissão de ações, diluindo os acionistas.

      Não existe otário no mercado. Eu mesmo já dei uma olhada na SANEPAR e vi o risco da diluição.

      Alias, os otários no mercado existem: os que acham que estão encontrando oportunidades.

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    5. Colega, essa sua informação é importante, e eu já tinha ouvido falar.
      Eu não acho que devemos taxar alguém de otário ou não. Se os investimentos não oferecessem oportunidades para se rentabilizar o dinheiro economizado, seria melhor gastarmos ou simplesmente alocarmos na poupança.
      Oportunidades não se confundem com achar que de alguma maneira há alguma forma de dinheiro fácil seja no mercado, seja na vida.
      Além do mais, sem ser em crash, é difícil achar alguma empresa ou algum ativo que passe por todos os filtros fundamentalistas, não possua nenhum risco aparente de curto e médio prazo aparente, e ainda ofereça preços "promocionais".
      Como bem salientado pelo FI também, os descontos vem com riscos, cabe a cada um, dentro de uma estratégia de investimento, e na minha opinião dentro de uma carteira balanceada, saber quais e quantos riscos está disposto a encarar.

      Abraço!

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  3. FI,

    Acha que o mercado pode ser surpreendido em 2015 por um efeito tão não negativo quanto é esperado que aconteça? (US FED). Devido talvez ao fato da Yellen avisar antes e o FED anunciar o constante corte de estímulos.

    Acho difícil que não ocorra nada no próximo ano. Se não me engano é a primeira vez em mais de não sei quanto tempo que os EUA colocam a taxa em 0% e pretendem subir.

    Bom post.

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    1. Obrigado,

      Tudo vai depender de como será conduzida a desalavancagem do sistema. Por enquanto não há como estimar. Precisamos aguardar indicações do FED nas atas de reuniões de Comitê.

      Sim. Este é o maior ciclo de afrouxamento monetário da histórica. Yellen vai a primeira a experimentar esta experiência de conduzir o aperto monetário num terreno desconhecido/incerto.

      Abs, bons investimentos

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  4. FI esse trecho não fez sentido para mim: "Isso ocorre, basicamente, por conta da oscilação das principais moedas globais (correção do real x dólar foi mais forte frente às demais moedas, devido às intervenções do Banco Central no mercado de câmbio)" eu tenho um "preconceito" que na hora de internalizar os recursos no Brasil, quando mais desvalorizado estiver o Real, melhor para o investidor estrangeiro. Então quer dizer que meu conceito está errado? É melhor comprar menos Reais por cada Dolar a ser investido pelo gringo?

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    1. Seu conceito está correto. Quanto mais desvalorizado estiver o Real, melhor para o investidor estrangeiro que pretende se posicionar. Mas neste caso estamos nos referindo ao fluxo de capital especulativo, aquele que entra e sai rápido, aproveita as tendências. Como o Real está em tendência de queda (ou seja, valorizando-se frente ao dólar), mais acelerada até do que as demais moedas, fundos hedge aproveitaram o direcional do câmbio brasileiro para ganhar dinheiro rápido. Entraram pra ganhar com o movimento de valorização do Real. E para complementar aqui oferece um prêmio bom para fazer carry-trade.

      Abs, bons negócios

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  5. Estaria a Europa programando um QE ?

    Deflação no euro preocupa investidores; Ásia fecha em rumos opostos mesmo após Japão - InfoMoney
    Veja mais em: http://www.infomoney.com.br/mercados/acoes-e-indices/noticia/3348149/deflacao-euro-preocupa-investidores-asia-fecha-rumos-opostos-mesmo-apos

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    1. Infomoney é triste rsrs... A zona do euro não está em deflação, mas sim gerando pouca inflação. O que é totalmente diferente. O BCE descarta risco de deflação, mas provavelmente adotará medidas de afrouxamento monetário na próxima reunião de Comitê, já que o ritmo de crescimento se estabilizou em 0,2%.

      Abs, bons investimentos

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  6. FI, acha que tem prazo pra acabar esse rally estúpido e irritante?

    Segurei minhas compras da ELPL mas estou com receio de ficar nesse patamar e subindo levemente e eu estar perdendo melhorias de Preço médio.

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    1. Difícil prever prazo e ainda não se confirmaram os sinais de reversão. Mas na minha avaliação o elástico já está ficando esticado pra bolsa continuar subindo, dólar continuar cedendo e os juros futuros continuarem a correção iniciada em fevereiro/2014.

      Acho importante você se desapegar à ELPL. Existem outros ativos no mercado que podem remunerar bem o seu capital. O que vale no final das contas é ganhar dinheiro. Certo? Do ponto de vista financeiro, não faz diferença se este dinheiro veio do ativo X ou Y. Hoje, se você optar por deixar parte do seu dinheiro/aportes em caixa (LCIs, CDBs, LFTs, fundos DI), vai estar recebendo 11% ao ano. Isso é almoço grátis. Assim que o mercado lhe apresentar uma nova oportunidade de compra (seja ela em renda fixa ou renda variável), basta realocar os recursos do caixa para essas novas posições.

      Abs, bons investimentos

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    2. GRANJA POBRETÃO16 de maio de 2014 15:52

      GRANJA POBRETÃO

      MILHO PRA SUAS GALINHAS!!!

      CÓCÓCÓCÓCÓ!!!

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  7. Gostaria de saber sua opinião se seria o momento adequado para se posicionar em papeis prefixados de longo prazo, como ntnf.

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