sexta-feira, 6 de junho de 2014

Banco Central apresenta seus argumentos para não perseguir a meta de inflação


A ata do Copom (Comitê de Política Monetária) divulgada na última quinta-feira não apresentou novidades relevantes em matéria de política monetária. Pode-se observar no documento enxuto que o Banco Central esquivou-se de assuntos polêmicos relacionados às circunstâncias do quadro de inflação persistentemente elevada para dar mais ênfase à enfraquecida atividade econômica.

Mesmo com a caracterização de transição da política de aperto monetário para manutenção da taxa básica de juros, a ata de reunião do Comitê é quase uma cópia do documento emitido na reunião anterior, realizada nos dias 1 e 2 de abril, com pequenas alterações.

O grande destaque ficou por conta da inclusão do trecho onde o Banco Central explica que as condições monetárias foram apertadas nos últimos doze meses para combater as pressões inflacionárias, inclusive dos preços administrados (atualmente represados pelo governo). Para complementar, a autoridade monetária ressalta que “os efeitos da elevação da taxa Selic sobre a inflação, em parte, ainda estão por se materializar. Além disso, é plausível afirmar que, na presença de níveis de confiança relativamente modestos, os efeitos das ações de política monetária sobre a inflação tendem a ser potencializados.”

Na reunião realizada no mês de abril, a avaliação do Banco Central era de que parte significativa da alta de juros ainda teria efeito na inflação. A retirada da palavra “significativa” mostra que uma parte (não menosprezável) dos efeitos da elevação da taxa Selic já se materializou na economia. Como a inflação permanece persistentemente elevada, percebe-se que esta primeira carga de aperto monetário não surtiu efeito algum.

Curioso constatar, também, mudança repentina por parte da autoridade monetária na percepção dos agentes econômicos. O Copom retirou da ata o seguinte trecho a seguir: “Nesse contexto, inserem-se também os mecanismos formais e informais de indexação e a percepção dos agentes econômicos sobre a dinâmica da inflação. Tendo em vista os danos que a persistência desse processo causaria à tomada de decisões sobre consumo e investimentos, na visão do Comitê, faz-se necessário que, com a devida tempestividade, o mesmo seja revertido. Dessa forma, o Copom entende ser apropriado ajustar as condições monetárias.”

Entende-se pela avaliação do Banco Central que os mecanismos de indexação simplesmente sumiram. A percepção dos agentes econômicos também deixou de ser um motivo de preocupação da autoridade monetária. Análise totalmente desencontrada da realidade.

Além disso, todo o parágrafo exclusivamente destinado aos impactos inflacionários provocados pela oscilação da taxa câmbio foi cortado da ata. Isso mostra que, na avaliação do Copom, o atual patamar de câmbio não constitui fonte de pressão inflacionária em prazos mais curtos e, portanto, não há motivo para nova elevação da taxa Selic.

As intervenções diárias do Banco Central no mercado de câmbio mostram claramente o viés inflacionário. Para não se sentir forçado em subir novamente a taxa básica de juros, a autoridade monetária entrou fortemente no mercado com as operações de swaps a fim de derrubar a taxa de câmbio de R$ 2,45 (máxima deste ano) para R$ 2,20 (até o final do mês passado, quando a reunião de Comitê foi realizada).

As novas projeções de inflação, calculadas dentro do cenário de referência (manutenção da taxa de câmbio em R$ 2,20 e da taxa Selic em 11,00% ao ano em todo o horizonte relevante), diminuíram em relação ao valor considerado na última reunião, mas permanecem acima da meta de 4,5%. Levando em consideração a base das últimas projeções divulgadas ao mercado (Relatório Trimestral de Inflação), os números permanecem acima e bem distantes da meta de 4,5%.

Ao final da leitura de uma ata curta e contraditória, fica a sensação de que o Banco Central quer porque quer manter a taxa Selic em 11,00% ao ano, mesmo que este patamar seja insuficiente para provocar o recuo da inflação ao centro da meta, que é o objetivo a ser perseguido pela autoridade monetária.

Entretanto, a inobservância de impactos contracionistas estimulados pela primeira parte do ciclo de aperto monetário, que já se materializou na economia, mostra que infelizmente o Banco Central não tem muito que fazer para controlar de vez a inflação, a não ser pela via mais dolorosa do choque de juros, já que a política fiscal expansionista do governo federal tem conseguido, até o momento, anular por completo os efeitos da elevação da taxa Selic.

Ao que tudo indica, o remédio amargo está sendo tomado em vão. Parece até que o aperto monetário não passa de um teatro protagonizado pelo Banco Central, com objetivo de dar uma resposta à população bastante inquieta com os índices persistentemente elevados de inflação. Atraiu a atenção de todos nós, mas o problema continua sem solução.

6 comentários:

  1. FI,

    Bom texto. Você acredita que possa haver uma intenção do governo de após as eleições subir fortemente os juros para, aí sim, levar a inflação ao centro da meta ?

    Todos os efeitos ficariam para após as eleições. Mas o que eu temo é que tenhamos mais do mesmo e nem isso o governo faça. Seria alimentar muito a inflação. Agradeço.

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    1. Acredito que não. O governo não está emitindo esta possibilidade. O mais provável é continuação do modelo. Ou, como você disse muito bem, mais do mesmo. Infelizmente.

      Abs, bons negócios

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  2. FI, acredito que o remédio amargo será dado com uma maior dose após as eleições, onde aí sim o DESgoverno será obrigado a aumentar a taxa a Selic. Me corrija caso esteja errado.

    Brasil

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    1. O problema é que governo tem margem de manobra. Existem condições para manter a política de administrar a inflação, seja por via dos canais de represamento de preços, pela intervenção no mercado de câmbio, gerenciamento de tributos, etc.

      Abs, bons negócios

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