quinta-feira, 26 de junho de 2014

Intensificação de medidas heterodoxas pode ser o prenúncio de mais um ciclo (político) de afrouxamento monetário


Político nenhum no Brasil (e talvez no mundo) quer entregar uma taxa básica de juros acima do patamar constatado no início do seu mandato. Mas para um governo que criticou firmemente o nível elevado da taxa básica de juros brasileira, e provocou intervenções estabanadas a fim de concretizar sua promessa, realizar este feito não é algo apenas desagradável, mas uma clara demonstração de incapacidade de gestão e falta de planejamento. Um prato cheio para oposição que saiba trabalhar.

Entretanto, os últimos acontecimentos podem indicar que o governo da presidente Dilma Rousseff não quer entregar este prato cheio à oposição. As medidas heterodoxas utilizadas na tentativa (frustrada no médio e longo prazo) de combate à inflação persistentemente elevada aumentaram nos últimos dias/semanas.

O Banco Central anunciou a extensão do seu programa de intervenção no mercado de câmbio até o fim deste ano sem qualquer mudança, contrariando as expectativas do mercado e, consequentemente, aumentando a pressão para que o dólar continue em movimento corretivo, abaixo de R$ 2,25, barateando insumos e mercadorias importadas, fato que contribui para alívio da inflação de curtíssimo prazo.

Já o governo federal zerou o imposto de importação de 1 milhão de toneladas de trigo de fora do Mercosul até o dia 15 de agosto. A medida surpreendeu o mercado, porque foi anunciada num momento de colheita (ampla oferta no Sul e Sudeste do País) e, portanto, tem potencial para derrubar os preços da commodity agrícola, aliviando a inflação de produtos vinculados à enorme cadeia do trigo no curtíssimo prazo.

Até o ex-presidente Lula disse recentemente que “vamos levar a inflação para dentro da meta mantendo o nível de emprego”. Essa afirmativa reforça a tendência de intensificação de medidas heterodoxas para combater a inflação, já que as medidas ortodoxas (aumento da taxa de juros, por exemplo) são contracionistas e afetam o mercado de trabalho.

A criação de postos de trabalho no mês de maio foi a mais baixa dos últimos 22 anos. Anexando este dado aos renovados e decepcionantes indicadores de crescimento econômico, o governo tem em mãos “justificativas” para afrouxar a política monetária, mesmo que seja 0,25 p.p. abaixo do patamar observado no início do seu mandato, num momento oportuno (véspera das eleições presidenciais).

Obviamente não há espaço técnico para queda da taxa Selic no curto prazo. A inflação está alta e não há perspectiva de aproximação do centro da meta nos próximos 24 meses. As expectativas continuam deterioradas. Quadro preocupante. A probabilidade maior ainda é de manutenção da taxa básica de juros aos 11% ao ano. Mas suspeitamos, neste atual governo, que as decisões de política monetária não são tomadas dentro do prédio do Banco Central. Portanto, o fator surpresa (de viés político) não pode ser descartado.

Outras economias emergentes, que passam por situação semelhante de desaquecimento econômico e inflação elevada, cortaram suas respectivas taxas básicas de juros recentemente. O Banco Central da Turquia cortou a taxa de operações compromissadas (principal) em 0,75 p.p., para 8,75%. A decisão sofreu forte influência do primeiro ministro Tayyip Erdogan. A inflação no País atingiu 9,66% em maio, bem acima da meta de 5%.

O Banco Central do México realizou um corte de 0,25 p.p. na taxa básica de juros, para mínima recorde de 3% ao ano, devido ao forte desaquecimento provocado pelo seu maior parceiro comercial (Estados Unidos). A inflação local de 3,51% está acima da meta de 3% a ser perseguida pela autoridade monetária.

O excesso de otimismo no mercado, observado pela forte entrada de recursos em economias emergentes (busca por rendimentos mais elevados em ativos de risco, conseqüência do melhor entendimento do calendário do FED), permite aos banqueiros centrais afrouxarem os juros pontualmente (reduzindo o prêmio de risco) sem provocar estresse e/ou fuga de capitais de curtíssimo prazo.

No mercado de capitais o índice Bovespa trabalha mais um movimento corretivo de curtíssimo prazo, mas ainda sem comprometer a tendência de alta iniciada na região dos 44.9k.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones permanece em tendência de alta sem apresentar novidades.


17 comentários:

  1. O governo está grudado na parede. Se o prato cheio para a oposição for os juros o banquete é a inflação estourando. FI o que acha que eles vão priorizar juros ou inflação?

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    1. Ricardo,

      Inflação, pois o impacto negativo na popularidade é maior. Entretanto, a intensificação de medidas heterodoxas abre um GAP de curtíssimo prazo para alívio das pressões inflacionárias, deixando o IPCA relativamente "comportado" (leia-se próximo ao teto da meta - 6,5% - que na prática parece ser o objetivo do governo) até as eleições presidenciais. O movimento bem sucedido de corte de juros na Turquia (bem sucedido no sentido de que o clima no mercado turco continuou otimista após a decisão do BC) pode incitar o governo a fazer o mesmo aqui no Brasil. A possibilidade é remota, mas passou a existir.

      Abs, bons negócios

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  2. CRICRI

    Bom dia a todos

    Excelente artigo.

    Benvindo de volta.

    Vamos aguardar agora o patrulhamento.

    Um abraço.

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  3. FI, desculpe a pergunta de um leigo em economia... Mas, isso quer dizer que é possível esperar uma possível valorização das minhas NTN-Bs até as eleições?

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    1. Boa tarde! Não existe pergunta de leigo no ambiente de mercado. Todas são importantes.

      Num eventual afrouxamento monetário, LTNs e NTNBs tendem a se valorizarem sim. Mas isso não pode ser encarado como uma regra, pois depende também da avaliação do momento no ambiente de mercado. Quando o clima é pessimista, os títulos costumam se desvalorizarem demasiadamente. Quando o clima é otimista, os títulos costumam se valorizarem demasiadamente. O momento atual é de otimismo nos mercados. NTNBs, LTNs e títulos soberanos do mundo inteiro acumulam valorizações expressivas neste ano, reflexo do melhor entendimento dos investidores/operadores do calendário do FED. Em alguns países, como na Espanha, os títulos soberanos chegaram a pagar nominalmente o mesmo rendimento das Treasuries, o que pode ser considerado como uma aberração de mercado. Esse caso mostra como está intensa a busca por rendimentos elevados em praças de risco, com o câmbio tendo um papel importante no processo de tomada de decisão.

      Abs, bons investimentos

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  4. Grande FI! Cara, será que vai ser só uma jogada politica ou tem espaço para manter juros abaixo de quando a presidANTA foi eleita. Acredito quando passar as eleições o governo ´vai ter que subir a Selic pelo menos até os 12,5%.

    Raul

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    1. Raul,

      Muito improvável fugir de um novo ciclo de aperto monetário a nível global. A não ser que o governo continue intensificando sua intervenção na economia, como faz a Argentina.

      Abs, bons investimentos

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  5. FI,

    li recentemente que as operações de "carry-trade" mostram sinais de exaustão, e que muitos fundos estão é tomando prejuízo com este tipo de operação em 2014. Como você imagina que o fim do QE nos EUA pode afetar este tipo de capital especulativo nos emergentes, principalmente no Brasil?

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    1. O ambiente para carry-trade nunca esteve tão bom nos últimos 12 meses, pelo menos. Talvez estes fundos que estejam no prejuízo fazem parte dos que chegaram para o final da festa. Entrar no Brasil com câmbio a R$ 2,20 já não é um bom negócio. Com o início do aperto monetário nos Estados Unidos e Inglaterra, provavelmente haverá retorno de parte do que entrou aqui, já que os prêmios de risco ficarão atrativos nas praças desenvolvidas, com uma provável consequência de desvalorização do câmbio, juros e bolsa brasileira. Mas o ambiente ainda é muito positivo, o mercado não está pensando nisso no momento rsrs...

      Abs, bons negócios

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  6. FI,

    Datafolha publicou crescimento da Dilma e a bolsa continua subindo. Quando estourar vai ser feio. Merece um post? Abs!

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    1. Sim. Insisti nesta tecla por muito tempo. Dilma está aproximadamente com a mesma intenção de voto de 4 meses atrás rs... As perspectivas não mudaram. Permanecem as mesmas.

      Mais uma vez confirma que as pesquisas eleitorais não são responsáveis pela valorização dos ativos no Brasil, mas sim a primeira entrevista da Yellen, após sua primeira reunião como chair do FED. Desde então o calendário do FED ficou bem nítido no mercado e os investidores/operadores passaram a procurar ativos de risco (com retornos mais elevados) em diversas praças financeiras mundiais. Não é um fenômeno doméstico.

      Abs, bons investimentos

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