quinta-feira, 3 de julho de 2014

Atualização do quadro macro


A agenda doméstica continua apresentando indicadores decepcionantes. Ao mesmo tempo em que se observa queda na arrecadação tributária (consequência da economia estagnada, renúncias fiscais elevadas e ausência de receitas extraordinárias), conforme divulgado pela Receita Federal na última sexta-feira (87,89 bilhões de reais no mês de maio, pior resultado dos últimos três anos), a confiança da indústria brasileira segue descendo a ladeira, atingindo os 87,9 pontos no mês de junho (sexta queda consecutiva), o fiscal se deteriora em meses onde os “truques” não aparecem (vide déficit de 11,04 bilhões de reais registrados em maio, pior resultado dos últimos cinco anos), enquanto o déficit em transações correntes se aproxima da preocupante marca dos 4% do PIB (Produto Interno Bruto).

Já a inflação, mesmo colada no teto da meta teórica (ou centro da “meta prática” do governo – 6,5%), o presidente do Banco Central fez questão de afirmar que a inflação mensal ao consumidor se encontra em patamar baixo e deve permanecer bem comportada nos próximos meses. Essa declaração assemelha-se aos discursos, em tons de negação, utilizados pelo governo. O quadro desenhado pelo presidente do Banco Central distorce da realidade e das próprias projeções para o IPCA (índice oficial de inflação) realizadas pelo departamento técnico da instituição.

A previsão central associada ao cenário de referência (taxa Selic em 11% e taxa de câmbio em R$ 2,25, mantidas inalteradas durante todo o horizonte de previsão) indica inflação partindo de 6,5% no segundo trimestre de 2014, deslocando-se para 6,6% no terceiro trimestre e encerrando o ano de 2014 em 6,4%. Para o primeiro trimestre de 2015, a projeção recua para 6,1%, desloca-se para 6,0% até o terceiro trimestre de 2015 e encerra o ano em 5,7%. No primeiro e segundo trimestres de 2016, a projeção encontra-se em 5,4% e 5,1%, respectivamente.

Mesmo não incorporando efeitos da retomada da inflação global, valorização dos preços das commodities (consequência da retomada econômica), condições climáticas adversas e provável desvalorização do Real, as projeções mais distantes continuam desancoradas da meta teórica de 4,5%, o que de fato sustenta a desconfiança dos agentes econômicos.

Vale ressaltar ainda que a recente queda nos preços dos alimentos não é consequência dos efeitos da política de aperto monetário brasileira, mas sim de um fenômeno global. O índice de preços da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), que mede mudanças mensais em uma cesta de cereais, oleaginosas, lácteos, carne e açúcar, ficou na média de 206 pontos em junho, queda de 1,8% frente ao mês anterior e 2,8% ante junho de 2013.

Entretanto, o clima de otimismo permanece predominante no mercado, fazendo com que a coletânea de indicadores domésticos ruins seja desconsiderada pelos investidores e operadores. O mercado não está preocupado com o nosso quadro econômico, mas sim em fazer dinheiro enquanto o aperto monetário não chega nos Estados Unidos e na Inglaterra.

No quadro externo a situação é positiva, contrariando a avaliação do Banco Central ressaltada no último Relatório de Inflação. O Índice Gerente de Compras da China subiu para 50,7 pontos no mês de junho, contra 49,4 pontos registrados no mês de maio, mostrando continuação do movimento de recuperação, agora com expansão da atividade manufatureira.

Nos Estados Unidos o Índice Gerente de Compras subiu para 57,3 pontos no mês de junho, atingindo o nível mais elevado dos últimos 4 anos, mostrando franca expansão da atividade manufatureira. Já a taxa de desemprego recuou para 6,1% no mês passado, refletindo a criação de 288 mil novos empregos. Pela primeira vez desde 1999 o mercado de trabalho norte-americano registrou cinco meses consecutivos de criação de emprego acima dos 200 mil postos de trabalho. Os indicadores mostram aumento no ritmo de retomada econômica e confirmam, mais uma vez, que os dados do primeiro trimestre de 2014 foram um ponto fora da curva, consequência das condições climáticas extremamente adversas.

Na Europa, o BCE (Banco Central Europeu) decidiu manter inalterada a taxa básica de juros na mínima histórica de 0,15%, aguardando que as medidas de estímulo anunciadas no mês passado tenham efeito. Caso negativo, novas medidas poderão ser adotadas. A taxa de depósitos overnight foi mantida em -0,1%, isso significa que os bancos estão pagando para deixar seus recursos parados no Banco Central.

Índices acionários, taxas de câmbio e juros futuros seguem em clima de festa nas principais praças financeiras mundiais, embora o elástico esteja esticado em alguns lugares (como no Brasil, por exemplo).

Destaque para o recente rali no mercado mexicano, que estava relativamente apático nos últimos meses.


Dow Jones, S&P500, DAX (Alemanha), FTSE (Inglaterra), CAC (França), Nikkei (Japão), Bombay (Índia), Ibovespa, entre tantos outros índices acionários, seguem colados (ou renovando) em suas respectivas máximas históricas ou máximas do ano.

Novidade no Ibovespa ocorreu nesta quinta-feira com a formação de fundo ascendente na região aleatória dos 52.7k. Tendência de alta iniciada em março deste ano segue inalterada.


Bom final de semana a todos vocês!

12 comentários:

  1. As agências de risco alertam e o governo continua irresponsável. A situação tá tão ruim que nem estão conseguindo empurrar os problemas pro ano que vem mais,

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  2. FI,

    Mesmo com a nova pesquisa do datafolha a bolsa deu uma subida forte hoje. Embora essa situação do brasil esteja sendo guiada pela recenta fala da Yellen (com alívio temporário dos yields), é possível dizer que não há implicação do fator Dilma no índice?

    Cito como exemplo os mercados emergentes estarem em alta, enquanto o nosso patina já há alguns anos. O que devemos esperar realmente com a Dilma reeleita por mais 4 anos. Caminharíamos de lado mais uma vez em uma tendência de queda de longo prazo?

    Bom post.

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    1. No longo prazo sim. Basta observar que desde quando a Dilma tomou posse a bolsa inverteu a trajetória de médio prazo e passou a ceder, criando, também, uma correção de longo prazo. No curto prazo não. O capital estrangeiro que inundou o País nos últimos meses é fruto do clareamento da política monetária nos Estados Unidos e Inglaterra. Entretanto, algumas casas brasileiras estão utilizando as pesquisas eleitorais para estimular operações de seus clientes no mercado. O que é perfeitamente normal.

      Abs, bons negócios

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  3. Oi, criei um blog sobre minha busca da independência financeira, procuro o mesmo que você e nossos colegas...

    Seu tempo não será desperdiçado se puder me adicionar na sua lista de blogs. Coloquei você e mais alguns blogueiros que admiro nessa comunidade. Obrigado

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  4. Finanças,

    Para quem tem a intenção de se posicionar na compra de siderúrgicas (CSNA3, USIM5 e GGBR4) a dificuldade para analisar estas empresas é sempre maior do que as outras (por serem cíclicas com P/L inconstantes, etc).

    Você recomenda que se espere um pouco até uma queda maior do Ibov ou acredita que elas podem chegar a um ponto de compra antes disso? Já ouvi dizer que elas se comportam na contramão do IBOV, não se isso é verdade. Olhei para o gráfico mas não notei isso.

    Não sei se elas estão caindo mais agora por causa do preço do minério de ferro ou pela própria tendência de queda do índice.

    Agradeço se puder contribuir com sua opinião.

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    1. O quadro macro para siderúrgicas continua desafiador. Câmbio, alta concorrência das siderúrgicas asiáticas e perda do ritmo de crescimento dos países emergentes. Não há relação de contramão do índice Bovespa com as siderúrgicas. Isso é mito que inventam por aí rsrs...

      Abs, bons investimentos

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  5. Respostas
    1. Que nada. Oposto disso rsrs...

      Um pouco sem tempo. Mas amanhã tem Copom. Então devo pelo menos um post esta semana. Creio que no próximo mês estarei normalizando o ritmo de postagens.

      Abs, bons investimentos

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