sábado, 26 de julho de 2014

Quem não tem cão caça com gato


A ata do Copom (Comitê de Política Monetária) divulgada na última quinta-feira apresentou informações importantes ao horizonte de curto prazo, e possivelmente de médio prazo, para a política monetária brasileira.

Além disso, o Banco Central surpreendeu ao ser bem objetivo no texto. A autoridade monetária foi direto ao ponto, talvez para acabar com as especulações que estavam surgindo no mercado devido à aproximação das eleições presidenciais. O documento lembra a objetividade e clareamento das perspectivas de trabalho encontrada nas atas dos Bancos Centrais de países desenvolvidos.

A primeira informação relevante pode ser encontrada no parágrafo 31 da última ata do Copom. Todo o trecho abaixo foi acrescentado no documento: “O Copom avalia que pressões inflacionárias ora presentes na economia – a exemplo das decorrentes dos processos de realinhamentos de preços citados anteriormente e de ganhos salariais incompatíveis com ganhos de produtividade – tendem a arrefecer ou, até mesmo, a se esgotarem ao longo do horizonte relevante para a política monetária. Em prazos mais curtos, some-se a isso o deslocamento do hiato do produto para o campo desinflacionário. Ainda assim, o Comitê antecipa cenário que contempla inflação resistente nos próximos trimestres, mas, que, mantidas as condições monetárias – isto é, levando em conta estratégia que não contempla redução do instrumento de política monetária – tende a entrar em trajetória de convergência para a meta nos trimestres finais do horizonte de projeção.”

Em suma, os diretores do Banco Central deixaram bastante claro que não pretendem alterar a taxa básica de juros tão cedo. Este trecho importante foi colocado estrategicamente ao final do documento, onde são apresentados os principais fatores que serão levados em consideração nas próximas decisões de política monetária. Esta é a parte do documento onde costuma surgir pistas cruciais dos próximos passos do Banco Central.

Mas com a Selic inalterada, o que fazer para acordar a economia brasileira? A segunda opção mais viável seria permitir o deslocamento natural da taxa de câmbio (leia-se desvalorização do real frente ao dólar). Entretanto, este instrumento está sendo nitidamente utilizado para frear a inflação de curto prazo. Com a Selic e câmbio descartados, sobrou para as velhas conhecidas medidas macroprudenciais dar um respiro à economia doméstica.

O trecho apresentado no parágrafo 25 antecipou claramente a novidade que o Banco Central iria apresentar ao mercado nesta semana: “Importa destacar que, após anos em forte expansão – arrefecida com a introdução de medidas macroprudenciais em finais de 2010 – o mercado de crédito voltado ao consumo passou por uma moderação, de modo que, nos últimos trimestres observaram-se, de um lado, redução de exposição por parte de bancos, de outro, desalavancagem das famílias. No agregado, portanto, infere-se que os riscos no segmento de crédito ao consumo vêm sendo mitigados.”

No dia seguinte após a divulgação da ata, o Banco Central anunciou a redução no recolhimento de parte dos compulsórios e no requerimento de capital para risco de crédito ao varejo. Estas duas medidas tem potencial para injetar cerca de 45 bilhões de reais na economia, estimulando o mercado de crédito. Isto é, facilitar as condições para que os bancos voltem a emprestar mais e aumentar a alavancagem das famílias, que, de acordo com a avaliação da autoridade monetária, tem espaço para subir sem apresentar risco ao sistema financeiro.

De certa forma pode ser considerado uma contradição manter a taxa básica de juros inalterada (elevada) e, ao mesmo tempo, estimular a circulação de crédito na economia. Mas foi a única solução encontrada pelos diretores de política monetária. No fundo, o Banco Central quer mesmo estimular a economia e dar menos atenção ao combate efetivo à inflação. Entretanto, a manutenção da taxa Selic em 11% e taxa de câmbio na banda de R$ 2,20 a R$ 2,25 tem um poderoso objetivo de não permitir que as expectativas dos agentes sejam ainda mais deterioradas, fato que aumentaria a intensidade dos mecanismos de indexação, num ambiente de total descrença na política econômica, fiscal e monetária.

O esperado afrouxamento veio pelo canal macroprudencial. Tem impacto limitado, mas cumpre o objetivo de evitar um vexame ainda maior do que estávamos acostumados a observar nos últimos trimestres na economia brasileira. Talvez, o famoso provérbio “quem não tem cão caça com gato” possa resumir esta nova fase da política monetária brasileira.

No mercado de capitais os ativos seguem refletindo o excesso de otimismo constatado nas principais praças financeiras mundiais. Preços colados em máximas históricas/máximas do ano.

Com os juros futuros comportados em 2,50% nos Estados Unidos (o que significa juro real de 0,50%, levando em consideração o deslocamento da taxa de inflação à meta de 2% no próximo ano) e clareamento do calendário de política monetária do FED (Federal Reserve – Banco Central norte-americano), o capital segue “liberado” para se aventurar em posições de risco (evidentemente mais rentáveis) no mundo inteiro.

Destaque para o rali no mercado brasileiro. O índice Bovespa atingiu a importante média móvel simples de 200 períodos semanal. Desde o topo descendente registrado em 2012, responsável por intensificar o bear market na bolsa brasileira, os preços não conseguem se distanciar acima desta referida média. Trabalhou como um importante divisor de águas nos últimos anos.


O mercado está caro, mas permanece em tendência de alta, sem perspectiva de topo ou reversão.

Os preços salgados dos ativos poderiam justificar uma perspectiva de acerto de contas. Mas ao contrário do que o mercado imagina, isso não irá ocorrer em 2015, independente de quem vencer as eleições presidenciais, devido à elevada impopularidade das medidas requisitadas pelos economistas, consideradas holofotes dos investidores, empresários e participantes do mercado financeiro nacional.  Pode-se esperar pequenos ajustes pontuais (em maior ou menor intensidade, a depender do candidato vencedor), mas sem alterações bruscas na rota de percurso.

13 comentários:

  1. FI,

    Bem-vindo, esperamos poder ler seus posts novamente!

    Quanto ao último parágrafo,

    " Os preços salgados dos ativos poderiam justificar uma perspectiva de acerto de contas. Mas ao contrário do que o mercado imagina, isso não irá ocorrer em 2015, independente de quem vencer as eleições presidenciais,"

    Isso significa que o ibovespa deve manter o mesmo patamar ano que vem, não sofrendo grandes quedas / correções ? (Continuará uma queda leve de longo prazo)

    Abs!

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    1. Opa! Obrigado! A partir do mês de agosto o ritmo de postagens deve aumentar.

      Acho que a bolsa não tem fundamento nem para se sustentar acima dos 60k, neste ano ou no ano que vem. Com Dilma, com Aécio, ou quem quer que seja. Mas nem sempre os fundamentos interferem na trajetória de preços, principalmente em se tratando de prazos curtos/médios. O mercado pode permanecer otimista, descolado da racionalidade, por tempo indeterminado. Quando este descolamento é ascendente e longo, forma-se uma bolha nos preços dos ativos. Quando este descolamento é descendente e longo (ou curto, se for um crash), forma-se uma boa janela de oportunidade de compra. Bolha ainda está longe de ser o nosso caso, mas a trajetória permanece ascendente, sem sinalização de reversão ou perspectiva de melhora nos fundamentos. Cedo ou tarde, alguém vai ter que corrigir: ou a trajetória de preços para baixo, ou os fundamentos para cima.

      Abs, boa semana!

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  2. Não concordei com esse último parágrafo.
    Ora bolas, o Fed irá aumentar os juros no ano que vem e isso certamente irá começar a correção para baixo.
    Por que mudar o discurso diante de tal fato já reconhecido em discussões passadas?

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    1. Olá,

      A análise permanece a mesma. As coisas mudaram desde a entrevista da Yellen após sua primeira reunião de Comitê como chair do FED. Isso aconteceu no mês de maio. O Banco Central passou a demonstrar que o tapering e o processo de aperto monetário será conduzido com bastante cautela e o calendário de trabalho (que até então era uma incógnita) ficou bastante claro. Yellen falou o que o mercado queria ouvir. Isso abriu uma janela de oportunidade para o capital se aventurar em praças emergentes em busca de retornos maiores este ano.

      Certeza é uma palavra que não existe no mercado. Entretanto, existe uma boa possibilidade de correção nos preços com a normalização das condições monetárias a partir de 2015. O principal fator de influência no mercado será o próprio FED. A forma como este processo extremamente delicado será conduzido pode até mesmo evitar um estresse no mercado. Dependerá, também, de como estará o ritmo de atividade e, principalmente, a taxa de inflação daqui há 10 meses.

      Abs, boa semana!

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  3. FI, com essa postura acredita-se que dolar ficará na casa do 2,2 e 2,25. Vc margem para quedas neste trimestre? Trader Lusitano

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    1. Olá Trader Lusitano,

      Convide a Dilma, Tombini e Mantega para tomar um chopp que você ficará sabendo tudo o que precisa sobre o dólar até o final deste ano rsrs...

      Mas na minha opinião não há muito espaço pra ceder muito além disso. O Brasil é uma economia exportadora de commodities, se o câmbio voltar pra R$ 2,00, por exemplo, estaremos criando um sério problema de transações correntes, que hoje em R$ 2,20 já preocupa. Além disso, a indústria que ainda sobrevive no Brasil "chiaria" tanto no ouvido da Dilma/Mantega, que o câmbio voltaria a subir para evitar o pior (fechamento de portas - alta no desemprego). Se a inflação dos próximos 12 meses der sinais de alívio nas projeções do Banco Central em meados de setembro/outubro, talvez o governo possa liberar um pouco a banda de oscilação do câmbio pra cima.

      Abs, boa semana!

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  4. Oi, FI

    Tudo bom?

    UST30Y cada vez menor. Pode comentar a respeito?

    Abraços

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    1. Olá,

      Está acompanhando a correção da Treasury de 10 anos. Como este título é mais longo (30 anos), a intensidade dos movimentos é maior. Pode-se dizer que os 3,24% do título de 30 anos corresponde a expectativa de 2,48% do título de 10 anos. Quanto maior a cautela do FED para subir os juros à vista, menor a precificação do mercado nos juros futuros. Vamos ver se isso vai predominar na hora do "vamos ver".

      Abs, boa semana!

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  5. Sem perspectiva de topo ou reversão??? parece que você tem alguma informação privilegiada aí... kkk

    As reversões são imprevisíveis, totalmente. Eu acho que o mercado esta ``over extend`` WB vendeu suas posições..


    com toda humildade
    Abraço

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    1. rsrs... é por conta do clima que continua muito otimista no mercado, por isso não há expectativa de reversão.

      Abs, bons trades

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