sábado, 30 de agosto de 2014

As desculpas, a incompetência e o paradoxo do mercado


O pacote de desculpas apresentado pelo governo, para justificar a sequência de PIBs (Produto Interno Bruto) vergonhosos dos últimos anos (e não somente dos últimos trimestres), está cada vez maior.

Os velhos e conhecidos culpados, como a crise internacional, políticas monetárias dos bancos centrais e condições climáticas adversas cederam espaço para entrada de mais uma desculpa no pacotão do governo: a Copa do Mundo.

Agora, na avaliação do governo, a Copa do Mundo é uma das culpadas pelo recuo de 0,6% do PIB do segundo trimestre deste ano, na comparação com o trimestre anterior, e 0,9% em relação ao mesmo período do ano passado. O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) também revisou para baixo o resultado do primeiro trimestre deste ano (de crescimento de 0,2% para queda de 0,2%), o que colocou o país em recessão técnica, situação caracterizada por dois trimestres seguidos de crescimento negativo.

Importante ressaltar que nos meses/anos anteriores à realização da Copa do Mundo, diversas autoridades políticas costumavam dizer que o Mundial era uma oportunidade histórica para promovermos desenvolvimento socioeconômico. Esse discurso, obviamente, sumiu. De heroína à vilã, o evento da Copa do Mundo sinaliza, mais uma vez, incompetência de nossas autoridades. Dois discursos tão controversos reforçam a percepção de que o governo não faz a menor ideia do que está falando.

Além disso, está cada vez mais difícil arrumar justificativas diferentes daquelas cantadas em coro pelos investidores, empresários, economistas, instituições e agências de classificação de risco nos últimos anos. A nova desculpa presente no pacotão do governo não bate nem com o calendário. A Copa do Mundo ocorreu no final do segundo trimestre, e não durante todo o primeiro semestre de 2014, caracterizado por contração do crescimento. Isso significa que a atividade econômica já estava fraca antes mesmo da realização do torneio. Aliás, desde quando a presidente Dilma subiu a rampa do Palácio do Planalto, o País cresce abaixo do seu potencial.

Crescer abaixo do potencial não é bom. Crescer bem abaixo do potencial é decepcionante. Não crescer nada, e ainda contrair, é repugnante para um País como o Brasil, com tantas oportunidades de negócio. Como se não bastasse, a recessão do primeiro semestre está casada com uma inflação 3,70% no período. Situação inaceitável.

O governo não admite que errou e continua batendo cabeça na parede. Essa lamentável atitude sacramentou a disparada do clima de desconfiança entre investidores, empresários e consumidores. O descontentamento com a política econômica é generalizado. O excesso de intervencionismo estatal levantou mais uma barreira ao crescimento econômico, fazendo companhia à pilha de problemas estruturais ignorada nos últimos anos/décadas. A política fiscal expansionista e o represamento de preços administrados contribuiu para esgotar o modelo de crescimento e acelerar os índices de inflação. O aumento de subsídios a determinados setores só aumentou o descontentamento da maioria dos não beneficiados, provocando desaceleração vertiginosa das taxas de investimento, que já eram baixas.

As declarações do ministro da Fazenda reforçam a percepção de que o governo continua adotando a estratégia da política da negação. Mantega negou que o Brasil tenha entrado em recessão. Mas isso não é uma novidade, já que sua forma de avaliar a economia parece ser diferente daquela pregada no planeta Terra. Ao negar os problemas visíveis, não resta outra opção a não ser procurar por novas desculpas a serem apresentadas nos próximos trimestres de crescimento vergonhoso. Desse modo, parece que o pacote de desculpas e a incompetência são os únicos pontos que o governo realmente consegue fazer crescer neste País.

A situação do mercado de capitais brasileiro segue desconectada dos fundamentos econômicos, pelos motivos apresentados neste blog nos últimos meses. Preços (otimistas) descolados dos fundamentos (pessimistas) não é uma situação corriqueira do mercado financeiro brasileiro. Este quadro pode ser constatado facilmente nas principais praças financeiras mundiais.

S&P500 já subiu cerca de 200% desde o mês de março de 2009 (mínima do crash provocado pela crise do subprime), contrastando com o baixo desempenho da economia norte-americana no período. Mercados europeus romperam máximas histórias em meio ao cenário de recessão ou baixo desempenho econômico na União Europeia. O índice Nikkei, da bolsa de Tóquio, acumula alta de 120% desde março de 2009, enquanto o País luta para sair de uma longa deflação. Algumas bolsas de importantes mercados emergentes, que entraram atrasadas no rali global, romperam recentemente suas respectivas máximas históricas contrastando com a desaceleração do crescimento econômico e surgimento de problemas estruturais. O principal índice da bolsa de Bombay, na Índia, por exemplo, conseguiu até mesmo ultrapassar o desempenho do S&P500, fruto do pânico de alta dos últimos meses, acumulando quase 250% de valorização desde o fundo registrado na crise do subprime.

O mercado brasileiro, ocupando os últimos lugares da fila do rali global, começou a subir no mês de abril deste ano, enquadrando-se ao ritmo das demais praças financeiras mundiais. Entre os mercados com boa abertura ao capital estrangeiro, o Brasil era um dos poucos, se não o único, que ainda não havia iniciado uma forte trajetória ascendente de preços.

O marubozu de alta registrado no mês de agosto provocou o acionamento de um pivot de alta no gráfico mensal do Ibovespa, distanciando-se (para cima) da média móvel simples de 20 períodos mensal, fruto da formação de um fundo duplo. Os preços chegaram à LTB do topo histórico, com boa possibilidade de rompimento. Movimento técnico extremamente relevante, responsável, no passado, por caracterizar nascimentos de bull market.



Mais importante, entretanto, do que a repetição dos fatores técnicos do passado é a formação da tendência de alta iniciada na região dos 44.9k, que pode ser identificada com mais antecedência. Tendência, hoje, em manutenção e sem sinalização de reversão.

Importante ressaltar que os ciclos de alta são prenúncios de bolhas no futuro, caracterizado, justamente, pelo deslocamento ascendente mais rápido dos preços dos ativos em relação aos fundamentos, o que causa distorções, que vão se aumentando com o passar do tempo dentro dos ciclos de alta nas bolsas de valores. Quando esta distorção torna-se insustentável, surge um novo ciclo corretivo no mercado, inicialmente agressivo. As durabilidades destes ciclos são, normalmente, longas, mas podem ser interrompidas pelos bancos centrais que estão bem mais ativos hoje do que nas décadas passadas.

Portanto, a manutenção deste ritmo ascendente nos próximos anos provocará a formação de bolhas nos preços dos ativos em diversas praças financeiras mundiais. Como este rali é fruto das políticas monetárias dos principais bancos centrais mundiais, provocar a interrupção do mesmo não será difícil, do ponto de vista prático. O complicador maior está na administração deste futuro choque. Tanto a economia, quanto os governos e bancos centrais, precisam ganhar mais tempo para que tenham condições de amortecer a próxima crise, administrar o impacto e realizar novas intervenções no mercado.

4 comentários:

  1. e já li gente falando que, caso dilma seja apeada do cargo, começa a se projetar um dólar na faixa de 1.90 até 2.00

    a conferir

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    1. Nada é impossível, mas nesse patamar acho bem difícil chegar. O direcional de médio prazo está para o outro lado. Dólar x cesta de moedas globais já subiu mais de 5% desde a mínima do mês de maio. Dólar contra Real não foi na mesma direção devido às intervenções do Banco Central no mercado de câmbio.

      Abs, boa semana

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  2. Olá FI,
    Tem algum motivo para o IPCA, nos meses de junho a agosto, sempre ficar abaixo da média dos outros meses?

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    1. Olá,

      Não é uma regra, mas costuma acontecer desinflação. Reflexo do efeito da sazonalidade do período, influenciado por diversos fatores. São meses em que os brasileiros costumam comprar menos. Alguns meses ocorrem até deflações. Já a partir de agosto/setembro costuma voltar a inflação, estimulada, sobretudo, pelas negociações/reajustes salariais em importantes setores da economia.

      Abs, bons negócios

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