sábado, 23 de agosto de 2014

Banqueiros centrais reunidos e indecisos


Reunidos na cidade de Jackson Hole, no estado norte-americano de Wyoming, os banqueiros centrais das principais economias mundiais apresentaram poucas afirmativas e muitas dúvidas. A lenta recuperação da economia mundial continua preocupando as autoridades monetárias, principalmente aquelas que precisam fechar as torneiras do dinheiro fácil e barato.

O núcleo da indecisão está localizado justamente no Banco Central mais poderoso do mundo. As autoridades do FED (Federal Reserve - Banco Central norte-americano) estão confusas com uma combinação de baixo crescimento econômico e uma taxa elevada de contratação pelas empresas. Por este móvito a cautela tornou-se a palavra de ordem dentro do FED. Os membros do Comitê querem esperar por mais evidências de que a melhora do mercado de trabalho continuará, e de que a inflação está realmente acelerando, antes de decidirem elevar a taxa básica de juros no País.

O discurso da presidente do FED, Janet Yellen, em Jackson Hole reforçou o conteúdo da ata divulgada na última quarta-feira. O Banco Central reconhece que o mercado de trabalho está melhorando, mas não quer se comprometer em relação a como esse progresso afetará a política monetária, fator, que até pouco tempo atrás (final de 2013, início de 2014), era considerado ponto chave para futuras decisões.

Entretanto, Yellen reassaltou que se o mercado de trabalho continuar melhorando em ritmo mais forte do que o esperado, ou a inflação acelerar mais rápido para a meta do FED, os membros do Comitê poderão votar por uma elevação da taxa básica de juros antes do esperado pelo mercado. Mas se o progresso ficar estagnado, os juros permanecerão baixos.

A presença do “se” nas afirmativas de Yellen é um complicador para as projeções de 2015. Os membros do FED encontram dificuldades tanto para diagnosticar corretamente o quadro econômico, quanto para prescrever a data e a dosagem do remédio amargo. As discussões internas estão mais acaloradas este ano, já que existe uma quantidade maior de membros votantes de postura mais hawkish (ou falcões, defensores de juros mais altos).

Entretanto, a estrategista de câmbio do Scotiabank, Camilla Sutton, fez uma análise importante ao levantar a troca de diretores com poder de voto dentro do FED em 2015. O Comitê é composto por 12 membros votantes, sendo 7 representantes da diretoria do banco (incluindo a presidente e o vice), o presidente do FED de Nova York, e mais quatro outros presidentes das 11 regionais restantes.

São esses 11 presidentes regionais que alternam a cada ano como membros votantes do Comitê. Este ano, Richard Fisher (FED Dallas), Charles Plosser (FED Filadélfia), Narayana Kocherlakota (FED Minneapolis) e Loretta Mester (FED Cleveland) ocupam as cadeiras dos membros votantes. Os mais conhecidos e com maior repercussão no mercado (Fisher e Plosser) são justamente os membros de postura mais hawkish dentro do FED. Em 2015, estes presidentes darão lugar ao Dennis Lockhart (FED Atlanta), John Williams (FED São Francisco), Charles Evans (FED Chicago) e Jeffrey Lacker (FED Richmond). Destes quatro membros que terão poder de voto em 2015, apenas Lacker é ligeiramente hawkish, os demais são dovish assumidos (ou pombos, defensores de juros mais baixos).

Isso significa que a nova formação do Comitê, com poder de voto, ficará mais dovish em 2015, o que deve sustentar a cautela adotada pelo FED este ano, prolongando ao máximo o ciclo de juros baixos na economia.

Já outros banqueiros centrais de importantes praças financeiras estão discutindo se devem seguir a cautela do FED. Em alguns casos, como na Europa, a vazão da torneira tende a aumentar e não diminuir. Mario Draghi (presidente do BCE - Banco Central Europeu) disse em Jackson Hole que a autoridade monetária europeia está pronta para fazer mais, se for necessário.

Na China já se especula que o Banco Popular (considerado o Banco Central do País) vai cortar a taxa básica de juros para garantir a meta de crescimento do governo. No Japão (terceira economia do mundo) o Banco Central segue adiante com seu forte programa de compra de títulos de dívida, com possibilidade de aumentá-lo ainda mais, destinado a tirar o país da deflação e impulsionar o crescimento. Mesmo na Inglaterra, economia em forte aceleração, com o melhor desempenho no mundo atualmente, o Banco Central não se convenceu em subir os juros. Dos nove membros votantes do BoE, apenas 2 optaram pelo aperto da política monetária (de 0,50% para 0,75%) na última reunião.

A indecisão também pode ser constatada no Banco Central brasileiro. A desaceleração vergonhosa da economia impede a continuação do ciclo de alta da taxa básica de juros para combater devidamente a inflação. Por outro lado, não há espaço para implementar um novo ciclo de afrouxamento monetário, já que a inflação permanece elevada e distante do centro da meta. Já o mercado de câmbio está viciado com a ração diária do Banco Central, parece não haver estratégia de saída. Quanto maior o vício, menor o efeito da droga. Ou a dosagem aumenta, para sustentar a estratégia de combate à inflação de curto prazo, ou a dosagem é cortada (diminuída), para deixar a inflação de lado e correr o risco de levar solavancos na taxa de câmbio. A preferência pela primeira opção aumentou a posição do Banco Central em swaps para 93,2 bilhões de dólares. Ainda há munição, mas os swaps já atingem um quarto das nossas reservas e mais cedo ou mais tarde terão de ser, progressivamente, desmontados.

Jackson Hole ficou marcado esse ano por indecisões demais e soluções de menos, o que é natural, pois à medida que o tempo passa, cobra-se mais por uma solução. Mas enquanto os banqueiros centrais não definirem seus respectivos planos de navegações, preferencialmente alinhados, a indecisão prevalecerá.

O ponto positivo é que o mercado financeiro ainda não está comprando a indecisão dos bancos centrais. Preços em máximas históricas ou máximas do ano permitem uma boa noite de sono aos presidentes das autoridades monetárias mundo afora. Mas é uma tranquilidade aparentemente temporária e que começa causar certo incômodo. Otimismo demais pode aumentar o choque para a temporada da normalização das condições monetárias, a depender da forma como será implementada.

Destaque na semana para o início de rompimento da média móvel simples de 200 períodos semanal no Ibovespa, uma das poucas praças que ainda trabalhavam abaixo da referida média. Mercados seguem otimistas, em tendências de alta, sem apresentar novidades.


Bom final de semana!

20 comentários:

  1. e mais uma vez, o líquido e certo evento futuro dado como consumado, no caso, o aumento dos juros em 2015, vai ficando, devagarinho, cada vez mais incerto ou duvidoso

    muito parecido quando em 2012 (ou foi em 2013?) todo mundo dava como líquido e certo o final do QE, e dias antes, larry summers disse que não aceitaria ser o novo FED chairman, sobrando somente yellen, o que fez com que a alta do dólar das semanas anteriores se evaporasse em um dia

    como muitos esperam o final da "banânia" (vulgo brasil) com esse tão consagrado aumento dos juros em 2015, talvez seja melhor começar a pensar na possibilidade dele, ou não ocorrer, ou ocorrer mais tarde, pois se há algum exemplo a ser seguido, é o do QE, que após o final do QE1, o FED acabou cedendo e começando o QE2, e com o seu fim, veio o QE3....


    importante ficar atento, pois na minha opinião, esse aumento dos juros se dará de uma forma muito tímida de começo, e depois irão acabar recuando, alegando fraqueza da economia, e irão voltar literalmente a estaca zero dos juros

    portanto, quem ainda acha que se entupir de dólar e esperar o inevitável hecatombe econômico brasileiro já em 2015, pode acabar ficando decepcionado, ainda mais se dilminha não for ejetada do palácio, pois teremos (muito) mais do mesmo

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    1. Não espero uma hecatombe, mas devo admitir que esperava uma pequena crise financeira no Brasil com o aumento dos juros em 2015. Não porque eu quero que o povo se lasque, mas para deixarmos de viver em um conto de fadas.
      Ao meu ver é como se o país estivesse sobre pilares fracos, o governo retirando um a um os mesmos, e o povo sem se preocupar. O Brasil levando um baque logo acho que seria um estímulo para contornar a situação.
      Mas é minha opinião, e posso estar enganado com essa visão.

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    2. Esse conto de fadas está longe de acabar. Não haverá mudanças significativas independente de quem vencer as eleições, mesmo com Aécio eleito. Maria é uma incógnita perigosa. É o que se pode levantar a partir das declarações dos três principais candidatos à presidência. O ponto central gira em torno da parte fiscal. A carga tributária continuará elevada (e possivelmente com novos aumentos a partir do próximo ano) para dar fôlego ao caixa do Estado. Os subsídios e programas sociais tendem a aumentar e não diminuir. A população não quer superávit primário de 3%, quer mais benefícios e nenhum candidato mostrou-se disposto a negar.

      A adoção de medidas pró-mercado parece ser mais um sonho do que uma possibilidade concreta. Primeiro por serem medidas altamente impopulares. Segundo por não existir o fator “necessidade-urgência”. Isso significa, em outras palavras, que há espaço para continuarmos empurrando com a barriga. A economia vai continuar crescendo abaixo do seu potencial (já que as reformas estruturais não foram e não serão feitas), embora o ritmo de crescimento tende a melhorar nos próximos anos, puxado pelo processo de retomada da economia global.

      A economia vai ser um dos principais pontos de debate, mais especificamente o tripé macroeconômico (câmbio flutuante, meta de inflação e superávit primário). Tem candidato que defende a formação do tripé com muita rigorosidade, o que pode ser extremamente perigoso. Não existe nenhum País no mundo que deixou o câmbio 100% flutuante, a gosto do mercado, nos últimos 6 anos. Os países da zona do euro, que não possuem a importante ferramenta cambial, são, justamente, os que estão passando por mais dificuldades no momento. Administrar taxa de câmbio é essencial em situações pontuais ou períodos de crise. Acontece que o atual governo brasileiro utilizou o “benefício do câmbio” com excesso e hoje já possui outras funções (inflação). O mesmo vale para a meta de inflação e meta de superávit primário. Não há necessidade de fazer 4,5% no IPCA e 3% de superávit ano após ano. Deve-se ter bom senso. Em alguns momentos não será possível atingir a meta. O que é normal. Acontece que o atual governo jogou a toalha para a meta de inflação e superávit primário. Dilma e Marina parecem os dois extremos em se tratando do tripé. Já o Aécio parece ser o bom senso entre os extremos, basicamente porque ele é assessorado pelo Armínio Fraga. Se o Aécio for eleito, Armínio será o novo ministro da Fazenda. Talvez o profissional mais capacitado no momento para assumir o cargo. Então votar no Aécio significa votar em Armínio Fraga. Isso abrirá caminho para arrumação gradual da economia, pois vai levar tempo (anos, talvez décadas) para limpar o que fizeram nos últimos anos.

      Abs e boa semana a todos

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  2. FI,

    Seria então mais coerente afirmar que a alta dos juros nos EUA só ocorreria em 2016 (passado 2015) ? Obrigado

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    1. Olá,

      Não podemos afirmar, se até mesmos os banqueiros estão indecisos. Dependerá muito dos indicadores econômicos. O que se pode esperar é que com um Comitê mais dovish a cautela vai predominar no FED, prolongando ao máximo o ciclo de juros baixos na economia.

      Abs, boa semana

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  3. A grande verdade é que o keynesianismo está destruindo a economia mundial. Me preocupa bastante os EUA em processo de abalo econômico, pois a cultura ocidental e o capitalismo necessitam da estabilidade americana.

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    1. Na verdade as medidas de estímulos monetários evitaram um desastre sem precedentes. Salvaram a economia mundial de uma segunda grande depressão.

      Abs, boa semana

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    2. Não salvaram, apenas empurraram o problema pra frente.

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    3. Sim, de certa forma você está certo. Mas não existe problema pior do que uma grande depressão. O que deve ser resolvido mais a frente não é nada simples, por este motivo o cenário tende a permanecer complexo nos próximos anos, mas os impactos são significativamente inferiores ao que seria provocado por uma grande depressão.

      Abs,

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    4. Concordo. Vamos ver se serão sábios durante a desalavancagem. Contudo prevejo anos de baixo crescimento mundial e inflação mais elevada. Se a inflação brasileira está nestes níveis num momento em que a mundial está baixa, como ficaremos quando o mundo produzir inflação?

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    5. Boa pergunta. Por isso insistimos tanto nos últimos anos nessa questão de o IPCA entrar 2015 ancorado na meta de 4,5%. A inflação brasileira hoje continua três vezes maior do que a inflação média global (boca de jacaré, lembra a distorção interna entre preços administrados x preços livres). A retomada da inflação global vai ser uma consequência do processo de aceleração do ritmo de crescimento. Por ser um exportador de commodities, muito provavelmente seremos contaminados pelo ressurgimento da inflação global. Isso só não aconteceria em caso de estagnação da economia brasileira (como está ocorrendo neste exato momento). Entretanto, a possibilidade de estagnação futura é muito baixa, já que a economia brasileira seria puxada pela aceleração do crescimento global.

      Abs,

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  4. É sempre a mesma conversa. Ora a economia americana se recupera, ora eles ficam com duvidazinhas.
    É tudo jogo de luzes para acalmar o mercadeco acostumado a lucros exorbitante.
    O aumento de juros é inevitável justamente porque os dados estão sim melhorando.
    É natural que de tempos em tempos sejam lançadas essas dúvidas para dizer que estão esperando melhoras.
    Só falta o PIB para os EUA aumentarem. Juros e taxas de desemprego já foram alcançadas.
    Não há escapatória.
    E, sim, QEs acabam em outubro.

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    1. O FED está batendo muito na tecla dos indicadores secundários do mercado de trabalho e não se apegando muito à taxa de desemprego. Inflação ainda tem um espaço para acelerar mais e se aproximar da meta.

      Abs, boa semana

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  5. Sensacional como sempre FI!!
    Muito obrigado por compartilhar tanto conhecimento!!

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  6. Seus textos são muito bons. Vc utiliza uma fonte de informação específica ou faz uma junção de diversas fontes? (poderia indicar algumas delas?)

    Abraços

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    1. Que nada. Só pra quebrar o galho mesmo rs...
      Coleto as informações e divulgação dos indicadores econômicos nas agências de notícias (reuters, por exemplo), documentos dos bancos centrais e, quando não acho o que quero, vou na fonte (como por exemplo nos indicadores do Instituto Markit que acompanho de perto). Utilizo também os gráficos para acompanhar os movimentos em diferentes praças financeiras/índices e complementar a análise. Não raro a análise gráfica acaba clareando muita coisa.

      Abs, bons investimentos

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    2. Muito obrigado pelas dicas, vou procurar usar esses canais tmb!

      Abraços

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