terça-feira, 9 de setembro de 2014

Lá se foi a paciência da Moody’s


O governo brasileiro não aproveitou a generosidade da agência de classificação de risco Moody’s ao não seguir, no mesmo timming, o rebaixamento da perspectiva e posterior corte do rating brasileiro pela agência de classificação de risco Standard & Poor's.

Nada mudou desde o primeiro aviso da Standard & Poor's. O governo insiste em não ouvir as reclamações dos economistas, investidores e empresários, bem como os alertas das principais instituições globais e agências de classificação de risco. A deterioração dos fundamentos domésticos é lamentavelmente crescente e ininterrupta.

Como mais uma vez não fizemos o mínimo de esforço para reverter este quadro decepcionante, a agência de classificação de Moody’s não teve outra alternativa a não ser rebaixar a perspectiva para o rating brasileiro, de estável para negativa. Isso significa que, se nada mudar nos próximos meses, a Moody’s cortará o nosso rating, o que provavelmente vai acontecer, enquadrando-se ao mesmo nível da nota atribuída pela Standard & Poor's.

Em nota, a Moody's citou os desafios fiscais resultantes da economia fraca, fato que impede a reversão da tendência de elevação nos indicadores da dívida do governo. Já as baixas taxas de investimento no Brasil refletem principalmente o sentimento negativo do investidor, conduzido por uma percepção de mercado generalizada sobre a abordagem intervencionista da administração atual.

Hoje a Moody’s classifica o Brasil com nota Baa2, um degrau acima do piso para grau de investimento. Em caso de futuro corte, a nota brasileira seria rebaixada para Baa3, equivalente ao atual BBB- da Standard & Poor's para o Brasil. Abaixo deste nível (Baa3 ou BBB-) as notas são consideradas especulativas (ou lixo) pelo mercado, o que impossibilita atrair recursos de fundos de investimentos espalhados pelo mundo inteiro cujos prospectos determinam que os gestores comprem ativos considerados grau de investimento.

Portanto, a trajetória de revisões de perspectivas e cortes de notas provocadas pelas agências de rating causa certa apreensão para os próximos anos, já que não estamos caminhando para eleger um gestor no Planalto e no ministério da Fazenda (leia-se Aécio Neves e Armínio Fraga) que possa alterar esta trajetória, mas sim uma candidata de postura intervencionista fracassada ou uma candidata de inaptidão política e gerencial. Essa última não conseguiu sequer se planejar para criar o seu próprio partido, o que será que se pode esperar de seu planejamento para o País?

No mercado financeiro pode-se constatar a ocorrência de um pequeno choque, a nível global, provocado pelo deslocamento agressivo da Treasury de 10 anos (título público do governo norte-americano). Pesquisadores da unidade regional do FED de San Francisco concluíram que a baixa volatilidade nos mercados financeiros pode sinalizar que investidores/operadores estão subestimando a velocidade com que o FED possa elevar a taxa básica de juros.  Os economistas Jens Christensen e Simon Kwan, que conduziram o estudo, dizem que há evidências de que o mercado parece esperar uma política monetária mais acomodatícia do que a sugerida pelo próprio FED no Sumário das Projeções Econômicas.

Outras autoridades do FED (inclusive a presidente Janet Yellen) já haviam demonstrado preocupação com a volatilidade excessivamente baixa nos meses anteriores. O Yield de 2,50%, ou abaixo disso, apresentado pela Treasury de 10 anos não é compatível com as projeções de aperto monetário nos Estados Unidos. Entretanto, somente agora o mercado resolveu dar ouvidos ao novo alerta da autoridade monetária, feita pela regional de São Francisco.


Conforme podemos observar no gráfico acima, a taxa de juros da Treasury de 10 anos saltou de uma mínima anual registrada em 2,34%, no final do mês passado, para 2,50% no fechamento do pregão desta terça-feira. O deslocamento agressivo dos juros futuros norte-americanos mexeu com o dólar, provocando ajustes nos preços dos ativos nas principais praças financeiras mundiais, principalmente em mercados emergentes.

Inevitavelmente o Real se desvalorizou, os juros da dívida soberana brasileira subiram e a bolsa de valores cedeu. Isso prova, novamente, que os deslocamentos nos preços dos ativos domésticos não tem relação com as pesquisas eleitorais. Os investidores estrangeiros colocaram na equação de alocação de seus respectivos portfólios a possibilidade (ainda pequena, pelo impacto do choque) de que a taxa de juros nos Estados Unidos possa subir antes de suas previsões pessoais.

Importante ressaltar que esta é uma interpretação de alguns participantes do mercado. As projeções do FED sempre foram bastante claras ao apontar início do ciclo de aperto monetário em meados de 2015. O excesso de cautela na política monetária possa, talvez, ter levado alguns investidores a acreditarem na possibilidade de aperto monetário somente a partir de 2016.

O índice Bovespa fechou em baixa pelo quinto pregão consecutivo, encostando no seu primeiro ponto de apoio (58.1k). A correção atual ainda é insuficiente para alterar a tendência de alta iniciada na região dos 44.9k. Entretanto, o movimento descendente de curtíssimo prazo segue válido e sem sinalização de reversão. Esta tendência pode intensificar em caso de perda dos 58.1k.

  
Nos Estados Unidos o índice Dow Jones cedeu 0,57%, confirmando formação de topo duplo aos 17.150 pontos. Mercado virou para venda no curtíssimo prazo. Para ser invalidada, será necessário superar a máxima histórica.


No Reino Unido, o presidente banco central britânico, Mark Carney, disse que a primeira elevação dos juros desde a crise financeira está se aproximando, mas o mercado de trabalho ainda está no processo de recuperação. Carney parece estar se apoiando nos indicadores do mercado de trabalho para retardar, ao máximo, o aperto monetário na Inglaterra, tal como faz a presidente do FED nos Estados Unidos.

19 comentários:

  1. Deve ser apenas um bull trap nas 10-Year Treasury como se tem visto em casos anteriores.
    Pelo lque i fiquei com a ideia que ha alguma interligação das 10-Year Treasury com o futuro aumento dos juros.
    Em que moldes é que deve ficar atento sobre esse assunto.
    As 10-Year Treasury,antecipam-se as subidas nos juros dos EUA?

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    1. A Treasury de 10 anos se movimenta como qualquer outro ativo no mercado financeiro, resultado puro e simples da força vendedora x força compradora. Portanto, não é propriamente uma ferramenta de antecipação da política monetária, embora as forças (compradora e vendedora) são altamente influenciadas pela expectativa em torno da política monetária. Neste último caso, alguns participantes do mercado entenderam que estavam subestimando demais a velocidade com que o FED possa elevar a taxa básica de juros e passaram a desmontar suas posições em Treasurys. Com o volume vendedor superior ao volume comprador, o título se desvaloriza, provocando aumento do Yield.

      Abs, bons negócios

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  2. correção:

    Pelo que li

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  3. Ao que tudo indica, esse alívio dos últimos meses por aqui (tanto o yield dos títulos baixando quanto a bolsa) não vai ter vida longa. Uma hora vai reverter.

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  4. Em 2013 voce dizia que os juros iriam subir em 2014, agora voce diz que é em 2015. Se no ano que vem não subir voce aumenta o prazo para 2016. Uma hora voce acerta.

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    1. Ele dizia que seria 2016 e depois mudou para 2015. Deixa de mentir.

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    2. Em nenhum momento foi projetado aperto monetário para 2014, mesmo porque não houve esta indicação por parte do FED. O Comitê de Política Monetária define o timming do aperto monetário, que pode mudar a qualquer momento. Hoje a projeção é para meados de 2015. Se o FED alterar esta projeção novamente, alteramos a nossa sem a menor cerimônia.

      Abs, bons negócios

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  5. E para quem tem acesso ao mercado americano, como deveria agir para se defender do provável aumento dos juros dos Treasuries? Pois pelo que eu saiba, não há nada equiparával a uma LFT por lá...

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    1. Depende da estratégia do investidor. Uma delas pode ser o posicionamento em pré-fixados de curtíssimo/curto prazo, mantendo um giro de carteira enquanto o aperto monetário não chega, esperando por oportunidades para fixar taxas melhores em prazos maiores. Alocação em títulos de renda fixa exige expertise do investidor no mercado de dívida soberana. É muito importante ter uma estratégia para operar juro pré-fixado, indexados, etc. LFT é uma mamata que, salvo engano, só existe no Brasil ou em pouquíssimas praças. É o almoço grátis do mercado brasileiro, pois o investidor consegue ter ganhos dentro da média sem esforço/conhecimento algum. Basta alocar em LFT.

      Aqui no Brasil o governo está se programando para acabar com as LFTs em 2017. O último título indexado à taxa Selic ofertado pelo Tesouro é a LFT 070317. É um plano bem ambicioso, pois o nosso mercado ainda é muito concentrado em pós-fixado. Faltam discussões sobre esse tema tão importante e de impacto relevante no sistema financeiro brasileiro, mas é o que está programado para acontecer.

      Abs, bons investimentos

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    2. Olá, Finanças Inteligentes!
      Realmente, a LTF é uma mamata. Um título sem qualquer risco, nem mesmo de duration.
      Ainda por cima paga dois dígitos, é praticamente uma disneylândia de investimento em RF. O custo de se fazer uma estratégia de timing, bem como o risco, no Brasil é muito menor do que em outros lugares.
      Por exemplo, você citou que o investidor estrangeiro pode se posicionar basicamente em títulos curtos como Treasury bill, pois a duration é bem pequena. Porém, o custo de oportunidade é gigantesco, já que os juros dessas aplicações são quase 0%. Isso é um problema. Se a pessoa acha que há sobreavaliação na bolsa americana, por exemplo, vai ter que assumir o risco de estar errado e ter rendimento real negativo.
      No Brasil, por seu turno, essa pessoa vai receber juros reais de uns 4/5%, e se estiver errado de uma desvalorização, o custo não será alto.

      Você tem a fonte dessa informação sobre a LTF? Será que isso se estenderia para outros títulos como LCI/LCA/CDB?

      Abraço!

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    3. Exatamente. Para uma inflação de quase 2% anual, o juro real de curtíssimo chega a ser negativo. Mas Wall Street é um verdadeiro parque de diversões do investidor norte-americano. São muitos produtos à disposição. Por exemplo, caso o investidor considere a bolsa sobreavaliada demais, pode alocar parte do seu portfólio em ETFs que fazem a réplica do VIX. Nas quedas de mercado, principalmente em sobrecompra elevada, a volatilidade sobe/dispara, o que provoca valorização deste ETF.

      Sim. Você tocou na ferida rs... Um dos objetivos é acabar com o CDI. Mais de 1 trilhão de reais estão em produtos atrelados ao CDI. Ou seja, vai impactar tudo que está atrelado ao CDI no sistema financeiro, incluindo, portanto, CDBs, LCIs, LCAs. Essa é uma medida para evitar manipulação do CDI. Por quê? O CDI é calculado com base na média da taxa de juros dos empréstimos interbancários. Acontece que hoje o mercado interbancário gira muito pouco no Brasil. Com poucas operações e volume bem pequeno é relativamente fácil manipular o rendimento do CDI. Suspeita-se que isso esteja acontecendo, já que não é de hoje que o rendimento do CDI costuma ser um pouco inferior ao rendimento da taxa Selic. Mesmo uma diferença pequena representa ganhos expressivos aos bancos, que se posicionam em títulos atrelados à taxa Selic, mas pagam seus investidores em CDI. Uma taxa definida por poucos negócios de volume inexpressivo não pode realmente servir de referência para remunerar os mais de 1 trilhão de reais no sistema financeiro.

      O segundo objetivo é reduzir a carga de juros da dívida pública ao eliminar o título indexado à taxa Selic. Isso já está em curso, já que hoje só existe uma LFT disponível no Tesouro. Consequentemente a parcela de títulos atrelados à taxa Selic segue em trajetória descendente no portfólio da Dívida Pública Mobiliária Federal. Aos poucos, o governo vai forçando os investidores a comprarem mais pré-fixados e indexados ao IPCA. Em tese isso é positivo, pois tal como no mercado de ações, o volume comprador é muito forte quando os títulos estão mais caros (o que representa uma taxa de juros menor = menor custo para captação de recursos no mercado).

      Para acabar com as LFTs e desindexar o sistema do CDI o governo precisa criar uma taxa substituta. Ela já existe. Foi criada em fevereiro de 2011. Na verdade são duas: TJ-3 (3 meses) e TJ-6 (6 meses). Ambas são calculadas com base no mercado de juros futuros e são divulgadas pela BM&F Bovespa. No futuro, o Tesouro poderá utilizar a TJ-3 e a TJ-6 para indexar novos títulos que substituirão as LFTs. O título de 3 meses vai pagar no vencimento a taxa pré-fixada pelo mercado no ato da operação. O título de 6 meses vai pagar no vencimento a taxa pré-fixada pelo mercado no ato da operação. Deve funcionar como uma LTN de curtíssimo prazo, mas creio que deverá haver benefício tributário para atrair os investidores, tal como ocorre nas LCIs/LCAs.

      Abs, bons negócios

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    4. PS:

      Difícil encontrar fontes, pois esse assunto não está sendo comentado. Mas a agenda no governo está em curso. É chamada de agenda de desindexação da Selic.

      Link da BM&F sobre a TJ-3 e TJ-6: http://www.bmfbovespa.com.br/pt-br/noticias/2011/Confira-as-taxas-de-juros-referenciais-para-o-mercado-de-renda-fixa-2011-02-04.aspx?tipoNoticia=1&idioma=pt-br

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    5. FI,

      Interessante ressaltar que todo esse plano de "primeiro mundo" é uma perspectiva talvez para um país que se comportasse civilizadamente com controle do déficit público, etc.

      Ano passado tivemos um pequeno exemplo do que pode ocorrer com quem está posicionado em NTNBs e afins, sem esperar o vencimento dos títulos.

      Por mais que a questão do Yield dos EUA tenha pesado, é preciso ressaltar a falta de credibilidade de nossa economia e de nossos governantes, razão de parte da queda abrupta de valor que esses títulos tiveram em 2013.

      Talvez a verdade é que o Brasil está longe (capacidade) de deixar a LFT ou CDI para trás.

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    6. Finanças Inteligentes,
      Grato pela aula, colega! Eu nem imaginava que se podia comprar um ETF que faz a réplica do VIX! Nossa, haja produtos financeiros hein? Aqui nós não temos nem um VIX diário não é mesmo?

      Eu nunca tinha parado para pensar nisso, sobre a possibilidade de fixação do CDI ser de alguma maneira falho. Hoje se não me engano o spread entre o CDI e a SELIC está em torno de 0,2%. Isso não é pouco, ainda mais quando há centenas de bilhões de reais envolvido e nenhum risco na operação, quase um "almoço grátis".

      Eu nunca tinha ouvido falar dessas taxas de curto prazo. Se isso acontecer, se assemelhará muito aos títulos de curto prazo do governo americano. Vou me informar mais a respeito.

      Mais uma vez, obrigado, Finanças! A única pena é que suas postagens rarearam....

      Abraço!

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    7. Anônimo de cima,

      Correto. Na minha avaliação é possível fazer a troca, mas parece que está faltando mais empenho e planejamento. O governo precisa arrumar a casa (e não fazer ajustes pontuais como pode-se observar nas propostas), o que, também, não está acontecendo. A agenda segue de pé, mas sem essas condições acho muito arriscado tirar as LFTs do mercado para fazer a desindexação da Selic.

      Soulsurfer,

      Tem ETF que paga VIX dobrado rs... É uma variedade imensa de produtos a disposição do investidor norte-americano. Infelizmente estamos muito distante de chegar perto disso. O nosso mercado financeiro parece que anda pra trás, ao invés de andar pra frente. A BM&F faz o cálculo da volatilidade no Ibovespa, mas muito "porcamente", na minha avaliação. O gráfico é longo, mensal, horrível para fazer análise de prazos mais curtos. Além disso, o gráfico é atualizado com bastante atraso após o fechamento do mês.

      Abs a todos!

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  6. Muito obrigado pela pronta resposta.
    Recebi uma proposta para abrir conta e investir no exterior mas, como acho que nos EUA a bolsa está muito esticada e que no mercado de títulos públicos iria acontecer algo similiar ao visto no Brasil, quando do aumento da taxa de juros (grande queda nos preços dos títulos pré), estava com receio e acabei "enrolando", tendo só me protegido um pouco do risco cambial investindo parcela do montante em fundo cambial.
    Agora, acho que vou "criar coragem" (e ânimo para arrumar a papelada) e enviar o dinheiro para lá.
    Diante do afirmado, estou pensando em me posicionar em fundos que tenham como estratégia: long-short, moedas (dólar contra euro, libra contra euro, dólar contra emergentes), juros de curto prazo, arriscando um pouquinho só em blue-chips.
    O que acha? Comentários são bens vindos...rs
    De qualquer modo, novamente grato pela atenção,
    Abs,

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    1. O ponto positivo de investir fora do País é o deslocamento da taxa de câmbio, que pode ser bem favorável no médio e longo prazo. Mas sinceramente não sei se compensa, já que seus gastos são em reais e aqui dentro você consegue 11% ao ano sem esforço e sem risco algum. Como estamos caminhando para normalização das condições monetárias nos Estados Unidos e Inglaterra, acho desnecessário procurar risco em outras praças no momento. Você pode montar um portfólio bem interessante aqui mesmo no Brasil, utilizando, inclusive, o fundo cambial como proteção da carteira contra choques dos próximos anos.

      Abs, bons negócios

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  7. Novamente grato pela resposta.
    <<"Como estamos caminhando para normalização das condições monetárias nos Estados Unidos e Inglaterra, acho desnecessário procurar risco em outras praças no momento">>
    .
    Ocorre que, no momento em que aquelas praças se normalizarem, a desvalorização do real já terá se consumado. Assim, parece-me que o grande xis da questão é o timing, para se evitar custo de oportunidade excessivo.
    Ah, parabéns pelo post de 09/09. Superbo!

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