segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O recado das urnas


Dilma Rousseff passou um tremendo sufoco, mas conseguiu levar a melhor no último domingo. A eleição mais disputada desde a redemocratização do País deixou uma grande rachadura, influenciada pela própria agressividade da campanha eleitoral. O Brasil está nitidamente dividido por linhas sociais e regionais.

Restabelecer a conexão entre essas linhas será a primeira e importante tarefa a ser executada pela presidente. Não será uma tarefa difícil. Os ânimos tendem a esfriar nas próximas semanas com término da campanha. Basta o governo fazer a sua parte: calibrar o discurso e atender parte das demandas que surgiram do outro lado da linha.

O pronunciamento da presidente Dilma Rousseff realizado ontem após a confirmação de sua vitória é o primeiro indicativo de que o governo entendeu o recado das urnas. Sem o apoio da classe média cada vez mais exigente, o seu partido não terá a menor chance de permanecer no poder em 2018.

Não há outra forma de atender as demandas do outro lado da linha sem, primeiro, executar alguns ajustes. A política fiscal está sufocada. Será necessário reverter a trajetória de crescimento significativo do déficit nominal. Para isso, basta nomear um ministro da Fazenda de postura pró-mercado. Será o suficiente para implementar alguns pequenos ajustes na política fiscal, recuperar parte da confiança perdida e atrair os investimentos.

Joga a favor o fato de o governo estar pressionado pelas agências de classificações de risco. Todas as três principais agências deixaram bem claro que o rating brasileiro poderá ceder no próximo ano em caso de manutenção da atual e ineficiente política econômica, fiscal e monetária. Cobra-se também o mínimo de transparência nas contas públicas, com menos manobras contábeis e mais superávit primário.

Dilma precisa se reaproximar dos empresários. Com o retorno dos investimentos, o País volta a crescer, abrindo nova margem de manobra para o governo atender algumas demandas da classe média na metade final deste segundo mandato. Mas não adianta agendar reuniões sem a presença da credibilidade no contive. E novamente as atenções se voltam às mudanças na condução da política econômica.

Por este motivo o mercado aguarda com tremenda ansiedade a nomeação do novo ministro da Fazenda. Quase tudo que precisa ser feito com urgência nos próximos meses partirá do ministério da Fazenda.

Por outro lado, mudanças na condução da política monetária são pouco prováveis. A inflação tende a permanecer perigosamente elevada, próxima à margem de tolerância (6,5%), que, na prática, é a meta que está sendo perseguida. O governo não se incomoda com os 6,5%, desde que a taxa de desemprego permaneça artificialmente baixa. Descobriram que esta conta fecha com a estabilidade da popularidade.

É plausível afirmar, através do histórico dos últimos anos, que as declarações dos líderes do governo não são nada confiáveis. As atitudes foram, muitas vezes, totalmente divergentes das afirmativas. Mas até então havia a mentalidade de que as eleições de 2014 seriam bem tranquilas. O marqueteiro do PT chegou a afirmar que Dilma seria eleita no primeiro turno, pois disputaria as eleições contra “anões”.  Quase perdeu no segundo turno.

O lado positivo desta eleição mais disputada desde a redemocratização do País é justamente o fato de que o futuro do poder não está mais, confortavelmente, nas mãos do PT. Com a oposição fortalecida, inclusive no Congresso, o sufoco de 2014 poderá se transformar numa derrota humilhante em 2018 com a “prata da casa”.

Para não correr este risco, o governo petista vai ter que falar menos mentiras e fazer mais verdades. A urna deu o seu recado. Se a ficha não cair, os dias do PT no poder estarão contados.

No mercado financeiro doméstico a segunda-feira amanheceu conturbada. Investidores/operadores desmontaram posições desesperadamente, à espera de um circuit breaker antecipando pela mídia e analistas de mercado. Não chegou nem perto disso, “talvez” porque estavam errados desde quando as pesquisas começaram a ser divulgadas. O mercado entrou em recuperação gradual logo após a abertura do pregão.

O índice Bovespa fechou em baixa de 2,77%, aos 50.5k, após testar a região dos 48.7k no primeiro minuto da abertura dos negócios. O dólar chegou a disparar para R$ 2,56, mas fechou o dia aos R$ 2,52. Os juros futuros também abriram em forte alta, mas cederam para abaixo da mínima de sexta-feira na curva mais curta. Na curva mais longa, fecharam levemente acima do preço de sexta-feira.

Apesar da recuperação, o índice permanece dentro da tendência de baixa iniciada na região dos 62.3k. O mercado nacional já eliminou boa parte do descasamento dos preços em relação ao quadro macroeconômico desafiador (interno e externo) constatado nos meses anteriores.


Destaque para a reunião do Banco Central a ser realizada nos próximos dias 28 e 29 de outubro. Não se espera alterações na política monetária, mas sim uma indicação de aperto monetário adicional para as próximas reuniões, em resposta ao deslocamento do câmbio e ressurgimento do movimento de aceleração da inflação.

Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão em leve alta, mantendo o movimento de recuperação iniciado na região dos 15.8k, sem apresentar novidade. A reunião do Comitê de Política Monetária do FED (Federal Reserve - Banco Central norte-americano) iniciará amanhã, com expectativa de confirmação da total interrupção dos programas de estímulos monetários na quarta-feira, após o término da reunião. Por outro lado, espera-se manutenção da postura cautelosa adotada desde março deste ano, sem perspectiva de alterar a garantia de juro zero.


14 comentários:

  1. Muito bom texto FI. Qual a sua opinião sobre os números do governo a respeito do desemprego? Como conseguem números tão baixos?

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    1. Não são números que mostram a realidade do Brasil. Primeiro por conta da defasagem do indicador. Atualmente a taxa de desemprego é resultante da pesquisa PME (Pesquisa Mensal de Emprego), que faz parte da Pnad tradicional. A Pnad tradicional deveria ser trocada pela Pnad contínua no início deste ano, o que provocaria alteração relevante no indicador oficial de desemprego. Mas o IBGE "curiosamente" suspendeu a Pnad contínua até 06 de janeiro de 2015, o que provocou a maior crise dento dentro dos 80 anos de história da instituição. O IBGE já divulgou este ano o indicador da taxa de desemprego dentro da Pnad contínua. Estava em 7,1% em abril, bem acima do que mostra a PME. Mas como o indicador não é oficial, o número não tem valor. É considerado "experimental". A diferença na taxa de desemprego registrada pelas duas pesquisas acontece porque a Pnad contínua abrange 3.500 municípios de todas as regiões do país, incluindo áreas rurais, enquanto a PME coleta dados apenas em seis regiões metropolitanas (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife e Salvador), onde o desemprego tende a ser menor. O segundo motivo é mais simples: não é o mercado de trabalho que está pujante, pois aumentou significativamente o desinteresse na procura por emprego, o que por sua vez provoca redução da taxa de desemprego (quem não procura emprego não é considerado desempregado). Por este motivo pode-se constatar dificuldade das empresas na contratação de mão de obra barata/desqualificada. Os benefícios podem explicar este fenômeno, mas o principal fator é que não há estímulo por parte do governo para que as pessoas sejam beneficiárias provisórias. O principal objetivo dos programas sociais é fazer com que os beneficiários do passado sejam trabalhadores no futuro para, assim, alcançarem uma renda um pouco melhor e contribuir para o aumento da arrecadação de impostos e crescimento do País.

      Abs, bons investimentos

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    2. Bom dia!Gostaria de parabenizar este site.Leitura obrigatória.Já fico triste com diminuem as postagens(rsrs) .Tem a questão demográfica:a população economicamente ativa tá diminuindo!
      Acionista25

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    3. Bem observado. Este fator também contribui para queda da tx. desemprego.

      Abs, bons negócios

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  2. FI,

    Embora o Ibovespa estivesse mto mais atrelado ao movimento do FED e a volta do sistema a normalidade (que ainda está acontecendo), estaria certo afirmar que o governo da Dilma limitou o crescimento de nosso índice nos últimos 4 anos?

    O que esperar dos próximos 4 anos, a lógica é que o índice continue a cair ?

    A impressão que tenho é que a Dilma está prometendo muito, mas não vai apresentar nada de concreto.

    Agradeço.

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    1. Colocaria sobre outra afirmativa: os primeiros 4 anos do governo Dilma destruíram os nossos fundamentos macroeconômicos. Fizeram experimentos que nitidamente não funcionaram. O estrago foi generalizado, inclusive no mercado de capitais.

      Não acho que os próximos 4 anos serão tão ruins quanto os últimos 4 anos. O governo recebeu a pressão das urnas. Daqui pra frente a estratégia será diferente. Duvido muito que o discurso do último domingo seja um blefe. Está em jogo a permanência do PT no poder. Outras lideranças do governo estão adotando afirmativas semelhantes. Daqui pra frente a situação tende a melhorar. Estão circulando boatos de que o Lula fez 3 indicações para ministro da Fazenda: Trabuco (presidente do Bradesco) Meirelles (ex-presidente do Banco Central) e Nelson Barbosa (ex-secretário-executivo do Ministério da Fazenda). Nenhum destes três excelentes profissionais aceitariam comandar a Fazenda sem receber carta branca da presidente, sob o risco de arruinar suas respectivas reputações no mercado. A reputação destes profissionais vale muito mais do que o salário no final do mês. Acho que podemos respirar tranquilos se a Dilma escolher um destes três. E se optar pelo Trabuco, melhor ainda. Seria uma tremenda surpresa positiva.

      Abs, bons negócios

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    2. Obrigado! Vamos torcer.

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  3. FI, os seus comentarios continuam sendo um show...
    Uma visao sensata do atual e futuro economico do Brasil

    E vc acertou em relacao aos resultados das urnas.. rs

    Parabens

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    1. Pois é. Nunca torci tanto pra estar errado..

      Abs, bons investimentos

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  4. Fui o primeiro a fazer a pergunta nesse post, gostaria de agradecê-lo pela atenção e pela béla resposta.

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    1. Eu é que agradeço por ter dado oportunidade de respondê-lo. Tenho certeza que é dúvida de muitos outros que passam por aqui.

      Abs, bons negócios

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  5. Mais uma subida de juros! Até onde iremos com real risco de racionamento?

    Pra mim, será necessário um pequeno choque de juros pra desacelerar a atividade e reduzir o consumo de energia elétrica. Será um 2015 tenso pro PT.

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    1. BC antecipou uma futura alta. Foi muito bem, pois saiu alinhado com o FED. Daqui pra frente não dá pra brincar mais.

      Abs, bons investimentos

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