quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Rodada dupla de peso


A reunião do Comitê de Política Monetária do FED (Federal Reserve – Banco Central norte-americano) terminou nesta quarta-feira confirmando o encerramento dos programas de estímulos monetários (Operação Twist e Quantitative Easing 3).

A decisão de política monetária era amplamente esperada pelo mercado e não surpreendeu. Entretanto, o comunicado emitido após a reunião de Comitê apresentou novidade relevante. Até o início da reunião realizada nesta semana, a autoridade monetária norte-americana avaliava que o mercado de trabalho operava em "significativa ociosidade".

Esta avaliação mudou. Agora, o Banco Central dos Estados Unidos considera que “uma série de indicadores do mercado de trabalho sugere que a subutilização dos recursos de trabalho está gradualmente diminuindo.” A mudança é importante, pois o reconhecimento da melhora no mercado de trabalho é fator de decisão fundamental para os diretores do Comitê autorizarem o início do processo de aperto monetário no futuro próximo.

Além disso, a desaceleração do crescimento na Europa não alterou a perspectiva para a política monetária nos Estados Unidos. No comunicado, o FED destaca que “continua a ver suficiente vigor subjacente na economia mais ampla para sustentar o progresso em curso em direção ao máximo emprego em um contexto de estabilidade de preço”.

A autoridade monetária reforçou, também, que a probabilidade da inflação ficar abaixo da meta diminuiu desde o começo do ano. Com aceleração da inflação e manutenção do ritmo de melhora do mercado de trabalho, a economia norte-americana segue fornecendo sinais de que o aperto monetário deve começar em meados de 2015.

Por outro lado, a famosa expressão “tempo considerável” (ou “horizonte relevante”), utilizada para caracterizar por quanto tempo o Banco Central pretende esperar para elevar a taxa básica de juros após o fim dos programas de estímulos monetários, foi mantida no comunicado emitido ao mercado na tarde desta quarta-feira, o que reforça a manutenção da postura cautelosa adotada desde março deste ano.

Mesmo sinalizando ao mercado de que segue cauteloso, o Banco Central norte-americano não está tão dovish (defensor de juros mais baixos) quanto anteriormente. O novo comunicado está mais pesado. Mais hawkish (defensor de juros mais altos). Prova disso está na votação. O único membro votante do Comitê que discordou do teor do comunicado foi Narayana Kocherlakota, presidente do FED Minneapolis, reconhecido por ter uma forte postura dovish.

No Brasil, os integrantes do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) discutiam a estratégia de política monetária a ser adotada no País no momento em que a decisão saiu nos Estados Unidos. Possivelmente surpresos com uma postura mais hawkish do FED, os integrantes do Banco Central brasileiro entenderam o recado e deram uma resposta imediata.

A taxa básica de juros no Brasil subiu 0,25 ponto percentual, para 11,25% ao ano. A decisão surpreendeu o mercado e pode provocar um choque de expectativas. O Banco Central do Brasil também está mais hawkish. Existe uma lista de motivos para justificar a alta na taxa Selic, dentre as quais pode-se destacar o novo movimento de aceleração da inflação e disparada na taxa de câmbio.

Mas, tão importante quanto apertar as condições monetárias para combater a inflação persistentemente elevada, dar uma resposta imediata ao mercado pode prevenir novos choques na taxa de câmbio, possível fruto de uma fuga de captais ou acentuação do atual movimento de aversão ao risco. O FED surpreendeu nesta quarta-feira, provocando aumento nos prêmios de risco dos títulos da dívida soberana norte-americana. O Banco Central brasileiro não pensou duas vezes, vai combater a inflação e a melhora nos prêmios de risco norte-americanos. Um olho no IPCA e outro no FED, pelo menos deve ser assim até arrumarem a casa.

Ao final da reunião, o Copom emitiu o seguinte comunicado: "Para o Comitê, desde sua última reunião, entre outros fatores, a intensificação dos ajustes de preços relativos na economia tornou o balanço de riscos para a inflação menos favorável. À vista disso, o Comitê considerou oportuno ajustar as condições monetárias de modo a garantir, a um custo menor, a prevalência de um cenário mais benigno para a inflação em 2015 e 2016".

No mercado de capitais o índice Bovespa fechou o pregão desta quarta-feira em queda de 2,45%, refletindo a decisão do FED. A queda de hoje provoca novo distanciamento da média móvel simples de 200 períodos diária, reforçando a zona de resistência na região.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão em leve baixa, mostrando um candle de indefinição para os próximos dias.


14 comentários:

  1. o psdb sempre gostou de plantar inflação para colher juros


    não, péra

    https://twitter.com/dilmabr/status/524009409576730626/photo/1

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    1. Esperta, escondeu o jogo durante toda a campanha, inclusive o nome do seu futuro ministro da Fazenda, que, ao que tudo indica, será um profissional pró-mercado, próximo do que seria a linha do Armíno Fraga. E o PSDB nem desconfiou. Política no Brasil é assim mesmo, o mais esperto leva.

      Abs, bons negócios

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  2. Aí, boa a análise.
    Ainda dentro da margem de segurança apostar em "títulos" curtos, como uma LCA de 1 ano, e conseguir retirar a grana antes de visualizar topo de juros do FED e BCB?
    Até mais!!

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    1. Obrigado. Sim, mas não considero 1 ano curto prazo. Você consegue LCI/LCA no mercado de 2/3/6 meses, aumentando a liquidez do seu portfólio.

      Abs, bons investimentos

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  3. FI,

    Realmente a decisão pareceu muito mais devido ao movimento do FED do que a inflação brasileira. Ainda bem que você lembrou isso aqui.

    Agora é esperar os próximos movimentos do mercado. Relembrando que a própria Yellen falou que a taxa de juros dos EUA deve subir 6 meses após o fim dos estímulos.

    Abs,

    Miguel

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    1. Miguel,

      Sim. O Banco Central precisava dar esta resposta ao mercado. Que sorte poder decidir a política monetária aqui horas depois da decisão nos Estados Unidos.

      Na verdade esses 6 meses que a Yellen disse na entrevista após sua primeira reunião de Comitê como chair do FED foi uma resposta ao questionamento de um repórter do Wall Street Journal sobre o que seria esse "por algum tempo" destacado no comunicado do Banco Central. O "por algum tempo" virou "tempo considerável", expressão utilizada para caracterizar por quanto tempo o Banco Central pretende esperar para elevar a taxa básica de juros após o fim dos programas de estímulos monetários.

      Mas o significado dessas expressões é o menos importante. O FED continua insistindo que não existe data pré-definida. As decisões de política monetária dependem totalmente dos indicadores econômicos, principalmente da situação do mercado de trabalho e do deslocamento da taxa de inflação.

      Abs, bons negócios

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  4. FI ,,

    Com a aumenta dos juros no brasil , na sua opinião , qual a melhor aplicação em renda fixa que você recomenda para um aporte de capital de r$ 100.000,00 .

    ASS: ARRISCATUDO

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    1. Olá Arriscatudo,

      Não vejo necessidade de concentrar o aporte num único produto. Você pode diversificar entre produtos da mesma classe: LCIs e LCAs pós-fixado, LFTs e/ou fundos DI.

      Abs, bom sábado

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  5. FI,
    parabéns por mais um fantástico post.
    Realmente, podemos confirmar que não existem partidos melhores ou piores, e sim os mais "espertos"

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  6. Prezado FI, você ainda considera que o momento não é o mais adequado para posicionamentos na bolsa com objetivo de longo prazo? Continua o entendimento de que é melhor aguardar mais um pouco em aplicações de menos risco, como a LFT? Parabéns pelo excelente trabalho! Um abraço.

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    1. Obrigado. A bolsa tem apresentado oportunidades para curto e médio prazo. Longo prazo é sempre um pouco mais complicado, mas as posições de médio prazo podem ser estendidas para o longo prazo, em caso de confirmação das melhoras nas perspectivas que temos hoje. Acho que uma carteira hoje precisa ter posição em renda variável, mesmo que pequena. Este atual período de correção no Ibovespa pode ser considerado longo, pelo histórico das últimas décadas. Então pode ser que nos próximos anos o mercado nacional esteja numa situação melhor.

      Abs, bom final de semana

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  7. FI, você acha que agora seria um bom momento para aplicação em pré fixados ou aguardaria um eventual aumento de juros no primeiro semestre do ano que vem com um pós fixado até lá ?

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    1. Na curva curta dos juros ainda não. Mas na curva longa os prêmios tendem a reduzir, com a perspectiva de retorno da inflação para o centro da meta no futuro. Isso levando em consideração a eficácia desta nova estratégia do Banco Central e disposição do governo para fazer o ajuste fiscal.

      Abs, bom sábado

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