quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Ata do FED revela discussões relevantes que não saíram no comunicado


O comunicado do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) emitido no dia 29 de outubro de 2014, após a reunião de Comitê, havia surpreendido o mercado ao mostrar uma postura mais "hawkish".

Até o dia 28 de outubro a autoridade monetária norte-americana avaliava que o mercado de trabalho operava em "significativa ociosidade". Esta avaliação mudou. O Banco Central dos Estados Unidos passou a considerar que “uma série de indicadores do mercado de trabalho sugere que a subutilização dos recursos de trabalho está gradualmente diminuindo.” A mudança é importante, pois o reconhecimento da melhora no mercado de trabalho é fator de decisão fundamental para os diretores do Comitê autorizarem o início do processo de aperto monetário no futuro.

Mas a ata divulgada hoje mostrou o “segredo” que não estava no comunicado emitido no final do mês passado. Muitos membros do FED disseram na reunião que a autoridade monetária precisa ficar mais atenta aos sinais de um declínio nas expectativas para a inflação. A queda dos preços das commodities e revisões para baixo nas perspectivas ao crescimento de importantes economias mundiais pode ter influenciado a discussão desta nova preocupação entre os diretores do Comitê de Política Monetária.

O documento também mostrou que alguns participantes afirmaram que o crescimento econômico no médio prazo pode ser mais lento do que o esperado atualmente caso as condições econômicas e a situação financeira no exterior se deteriorem de forma significativa.

Houve discussões entre os membros do Comitê com relação à manutenção da expressão “tempo considerável”, utilizada para caracterizar por quanto tempo o Banco Central pretende esperar para elevar a taxa básica de juros após o fim dos programas de estímulos monetários. Mas a ata não revelou nenhuma sinalização de mudança desta expressão para a próxima reunião a ser realizada no mês de dezembro.

Preocupações com a manutenção da inflação doméstica abaixo da meta de 2%, crescimento econômico global enfraquecido e discussões que não resultaram na mudança do termo “tempo considerável” mostram que, na verdade, o FED continua “dovish” e tende a manter sua postura cautelosa por um bom tempo. A novidade presente no comunicado emitido no dia 29 de outubro acabou emitindo um falso sinal ao mercado.

No Japão, o Banco Central decidiu manter sua promessa de aumentar a base monetária ao ritmo anual de 80 trilhões de ienes (cerca de 683 bilhões dólares) através da compra de títulos do governo e ativos de risco na bolsa de Tóquio. No mês passado, o Banco Central expandiu o seu programa de estímulo, admitindo que o crescimento econômico e a inflação não aceleraram tanto quanto o esperado.

Já o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, disse que vai convocar eleições antecipadas para se firmar no poder, aproveitando o momento em que ainda possui popularidade para se reeleger. Abe quer manter suas políticas econômicas e adiar um impopular aumento do imposto sobre as vendas.

terceira maior economia do planeta encolheu inesperadamente no terceiro trimestre deste ano, impactada pelo primeiro aumento de impostos sobre as vendas (de 5% para 8%). O segundo aumento (para 10%) está programado para ser implementado no mês de outubro de 2015, mas Abe quer postergá-lo por 18 meses. O primeiro-ministro japonês está convicto de que conseguirá por fim à deflação com uma mistura de política monetária ultraexpansionista, gastos e reformas.

Na Europa, o presidente do BCE (Banco Central Europeu), Mario Draghi, disse que os programas de estímulos da autoridade monetária estão ganhando força, mas caso os esforços atuais não sejam suficientes para acelerar a recuperação da economia da zona do euro, o Banco Central irá fazer mais. Draghi espera uma recuperação modesta do crescimento no próximo ano e em 2016, sustentada pela política monetária do BCE e reformas em alguns países da zona do euro.

Na Inglaterra, a ata Comitê de Política Monetária do Banco Central britânico mostrou que sete membros votantes justificaram a manutenção da taxa básica de juros no recorde de baixa de 0,5% devido às fracas perspectivas para a inflação. Apenas dois membros discordaram da política monetária.

Entretanto, houve certa divergência de opiniões entre os membros que votaram a favor da política monetária. Alguns acham que o crescimento econômico pode suavizar mais do que o previsto e a inflação pode ficar abaixo da meta por mais tempo, o que deixaria a economia britânica vulnerável a choques se a taxa básica de juros subisse no curto prazo. Outros acham que a capacidade ociosa da economia pode ser eliminada mais rapidamente do que as previsões mais recentes, fato que alimentaria pressões inflacionárias, o que exigiria atuação do Banco Central.

Na China, os preços médios de novas moradias nas 70 maiores cidades do País cederam 2,6% em outubro ante o ano passado. Em comparação com o mês anterior, os preços de moradia caíram 0,8%, registrando a sexta queda mensal seguida.

O esfriamento do mercado imobiliário está contribuindo para a redução do consumo de commodities na China. A desaceleração econômica e elevada oferta (tanto nos portos, quanto nos produtores domésticos), derrubou o preço do o minério de ferro para 70 dólares a tonelada nesta quarta-feira, menor nível desde junho de 2009. O barril de petróleo do tipo light (negociado nos Estados Unidos) e do tipo brent (negociado na Inglaterra) também seguem em tendência de baixa, atingindo mínimas dos últimos anos.

A desaceleração na China atingiu o grupo siderúrgico Shanxi Haixin Iron and Steel (um dos maiores do País), que entrou com pedido de proteção judicial contra falência nesta semana. O preço do vergalhão usado na construção civil chinesa caiu cerca de um terço somente este ano.

A bolsa brasileira fechou em forte alta nesta quarta-feira, confirmando formação de fundo ascendente na região dos 50.9k. Movimento técnico relevante. Esta é a primeira formação de fundo ascendente desde a tendência de baixa iniciada na região dos 62.3k, fato que proporciona condições para o índice retestar o último topo descendente na região dos 54.6k. Em caso de superação, haverá sinalização de reversão da tendência de baixa para tendência de alta de curto prazo.


As declarações do diretor de Política Econômica do Banco Central, Carlos Hamilton Araújo, durante apresentação do boletim regional nesta última terça-feira em Florianópolis, contribuíram para retomada do otimismo no mercado nacional. Hamilton disse que “o Copom não será complacente com a inflação. Se necessário for, no momento certo, o comitê poderá recalibrar sua ação de política monetária de modo a garantir a prevalência de um cenário benigno para a inflação nos próximos anos.”

A afirmativa não só confirmou a perspectiva de manutenção da política de aperto monetário nas próximas reuniões do Copom, como também abriu possibilidade de intensificação do ritmo de aperto monetário (passando de ajustes de 0,25 p.p. para 0,50 p.p.). As curvas dos contratos de juros futuros com vencimentos pós-2015 cederam fortemente após as declarações do diretor de Política Econômica do Banco Central, já que o maior rigor com a inflação no curto prazo tende a jogar o IPCA para o centro da meta até 2016 (que parece ser o “novo” objetivo do Banco Central), fato que abrirá espaço, portanto, para futura redução da taxa básica de juros.

10 comentários:

  1. Muito boa analise FI
    Realmente, o parecer da última ata do FED mudando o "alarme falso hawkish" parece não ter mudado a mentalidade por aqui, uma vez que o nosso BC realmente tem em vista o aperto monetário visando segurar a inflação.
    Vamos aguardar a próxima ata do Copom para confirmar as expectativas.

    Uma dúvida, onde você consegue essas informações sobre a economia macroeconômica dos outros países? Diretamente nos sites governamentais deles?

    Obrigado, bons negócios.

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    1. Certo, vamos esperar para analisar as próximas atas. Serão de suma importância para verificarmos se desta vez haverá comprometimento em cumprir a meta (4,5%). Por enquanto o discurso está bom. Esta pode ser a última janela de oportunidade para arrumar algumas coisas na casa antes do aperto monetário nos Estados Unidos e Inglaterra. A inflação no Brasil precisa estar ancorada no centro da meta no momento em que a inflação global voltar a subir, acompanhada pela elevação das taxas de juros nas economias desenvolvidas.

      Nas agências de notícias e acompanhando alguns indicadores.

      Abs, bons negócios

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  2. FI,

    Boa análise. Como deverá se comportar a bolsa americana com o início da alta dos juros nos EUA ? Teríamos início de um bear market de longo prazo (rompendo com a alta desde 2008) ?

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    1. * Poderia arrastar nosso índice ainda mais para baixo?

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    2. Fiz este estudo em 2013. O deslocamento da Federal Funds Rate (taxa básica de juros nos Estados Unidos) não impõe uma "regra direcional" no mercado de ações e nos juros futuros (Treasurys). Embora exista uma possibilidade não desprezível de o aperto monetário provocar um recuo do mercado de ações e/ou elevação dos juros futuros, isso não pode ser encarado como uma regra. Mesmo porque em algumas ocasiões isso não aconteceu. Um ponto importante a se observar é que diferentemente do passado, o FED está muito mais atuante no mercado. Tornou-se um grande market maker e acho que a próxima crise em Wall Street será "startada" pelo próprio FED propositalmente, para impedir que o acúmulo de excessos no mercado possa provocar outra grande crise na economia. Acho também que o FED só vai apertar o botão "start" quando a economia estiver preparada, crescendo de forma sustentada, sem a necessidade de estímulos.

      Abs, bons investimentos

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    3. FI,

      Você tem algum plano de disponibilizar seu estudo aqui no blog? Se puder agradeço e parabenizo de antemão.

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    4. Sim. Foi postado no mês de julho de 2013. Segue o link: http://www.financasinteligentes.com/2013/07/uma-lanterna-no-meio-da-escuridao.html

      Abs,

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  3. FI, onde conseguir / visualizar a curva de juros futuros?

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    1. Normalmente as plataformas gráficas oferecem essa opção. Contrato futuro para vencimento em 2017, por exemplo: DI1F17. Para 2019: DI1F19.

      Abs, bons negócios

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