quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Taxa Selic continuará subindo


A ata do Copom (Comitê de Política Monetária) divulgada nesta quinta-feira mostrou de forma bastante simples e objetiva que a taxa básica de juros continuará subindo nas próximas reuniões de Comitê.

Até a reunião do mês de setembro deste ano, podia-se constatar a presença de argumentos otimistas no documento. Entretanto, a ata desta última reunião de Comitê, realizada nos dias 28 e 29 de outubro, está bem mais “pesada” (ou hawkish). O otimismo, portanto, sumiu.

Os diretores de Copom decidiram retirar da ata a afirmativa de que o “Comitê avalia que os efeitos da elevação da taxa Selic sobre a inflação, em parte, ainda estão por se materializar”. Isso significa que os impactos da elevação da taxa básica de juros, de 7% para 11%, já chegaram, em totalidade, na economia.

O parágrafo abaixo também foi totalmente retirado da ata:

“Apesar de a inflação ainda se encontrar elevada, o Copom pondera que pressões inflacionárias ora presentes na economia – a exemplo das decorrentes dos processos de realinhamentos de preços citados anteriormente e de ganhos salariais incompatíveis com ganhos de produtividade – tendem a arrefecer ou, até mesmo, a se esgotarem ao longo do horizonte relevante para a política monetária. Em prazos mais curtos, some-se a isso o deslocamento do hiato do produto para o campo desinflacionário. Nesse contexto, é plausível afirmar que, mantidas as condições monetárias – isto é, levando em conta estratégia que não contempla redução do instrumento de política monetária –, a inflação tende a entrar em trajetória de convergência para a meta nos trimestres finais do horizonte de projeção.”

Saiu um parágrafo “dovish” e entrou um parágrafo “hawkish”:

“Diante do quadro acima exposto, o Copom considera que, desde sua última reunião, entre outros fatores, a intensificação dos supracitados ajustes de preços relativos na economia tornou o balanço de riscos para a inflação menos favorável. Parte de seus membros argumentou que incertezas ainda cercam a magnitude e a persistência desses ajustes e, por isso, posicionou-se a favor de que, neste momento, as condições monetárias permanecessem inalteradas. No entanto, a maioria dos membros do Copom considerou oportuno ajustar, de imediato, as condições monetárias, de modo a garantir, a um custo menor, a prevalência de um cenário mais benigno para a inflação em 2015 e 2016.”

As estimativas para a inflação dentro do novo cenário de referência (taxa de câmbio em R$ 2,50 e taxa Selic em 11% ao ano durante todo o horizonte de projeção) pioraram em 2014 e 2015. Para 2016, o documento apenas destaca que a inflação entra em trajetória de convergência, mas ainda acima da meta de 4,5%. O atual cenário de referência é bem diferente do anterior, projetado com taxa de câmbio em R$ 2,25 e taxa Selic em 11% ao ano.

Após apresentação das justificativas responsáveis pela definição da política monetária na reunião de Comitê, a ata mostra uma importante dica de orientação sobre o futuro da taxa básica de juros. A palavra “especialmente” foi acrescentada no trecho abaixo:

“O Copom destaca que, em momentos como o atual, a política monetária deve se manter (especialmente) vigilante, de modo a minimizar riscos de que níveis elevados de inflação, como o observado nos últimos doze meses, persistam no horizonte relevante para a política monetária.”

Este é o mesmo trecho que encerrava as atas no último ciclo de aperto monetário, responsável por elevar a taxa Selic de 7% para 11%. Quando os diretores de Comitê decidiram encerrar o ciclo de aperto monetário no mês de abril, mantendo a taxa básica de juros inalterada, enquanto avaliavam os impactos na economia, a palavra “especialmente” não aparecia mais no trecho final dos documentos emitidos.

Portanto, a ata do Banco Central confirma o início de um novo ciclo de aperto monetário, a princípio não tão longo e nem tão forte quanto o anterior, já que há expectativa de suavizar o elevado (e insustentável) nível de expansão da política fiscal. A eficácia tende a aumentar com as duas políticas deslocando-se para a mesma direção.

No mercado de capitais, o índice Bovespa encerrou o pregão desta quinta-feira em baixa de 1,98%, perdendo a média móvel simples de 200 períodos diária. O topo descendente registrado na região dos 56.7k sinaliza esgotamento do alívio verificado na semana anterior e persistência da tendência de baixa iniciada na região dos 62.3k.


Na Europa, o BCE (Banco Central Europeu), manteve a política monetária inalterada, mas reiterou que pode adotar mais instrumentos não convencionais de estímulo, se necessário.

Nos Estados Unidos, o índice Dow Jones fechou mais um pregão em alta, sem apresentar novidade, mantendo a tendência de curto, médio e longo prazo.


18 comentários:

  1. FI,

    Fiquei com certa decepção nas primeiras medidas do governo. Parece que essa alta dos juros é uma meia sola para não estourar a meta. Aumento da gasolina insuficiente e uma nebulosidade na escolha do ministro da economia. Nesta batida fica difícil imaginar melhora do quadro brasileiro.

    Abs.

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    1. Acho que o governo tem surpreendido positivamente. Não se esperava uma mudança tão radical no discurso logo após a campanha eleitoral. Hoje a Dilma fala em cortar gastos, admite problema com a inflação, etc. Também não se cogitava no mercado colocar um banqueiro na Fazenda, e convidaram o Trabuco (segundo boatos). Ele recusou, mas o fato de o governo convidar um profissional desta linha mostra disposição/aceitação para mudar a política econômica e fazer parte do dever de casa deixado de lado nos últimos anos. Acho que muito provavelmente o novo ministro da Fazenda já foi escolhido. O nome não foi divulgado ainda, pois está muito próximo da reunião do G20, onde ministros da Fazenda desenvolvem um papel importante. Seria uma deselegância anunciar o novo ministro antes desta reunião. O aumento da gasolina realmente é insuficiente, mas o fato de permitirem o aumento, mesmo com ausência da defasagem negativa (hoje é positiva), mostra, novamente, mudança de postura. Tudo isso é importante para reversão das expectativas.


      Já o Banco Central nada pode fazer para cumprir a meta este ano, apenas torcer. Os efeitos deste novo ciclo de aperto monetário surgirão a partir do segundo semestre de 2015.

      Abs, bons negócios

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    2. Agradeço FI, vamos acompanhando.

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  2. bacana, obrigado pelo texto e comentários. vamos torcer.

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  3. Qual a sua visão, neste cenário, acerca dos títulos públicos do TD vinculados ao IPCA? Li uma entrevista com o Luis Stuhlberger, recomendando estes títulos. Mas não seria o contrário: tendência da SELIC de alta não geraria depreciação nos títulos de inflação?
    Obrigado.
    Alexandre

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    1. Alexandre,

      Caso o Banco Central volte a implementar uma política monetária eficiente, ou seja, seja capaz de provocar o recuo da inflação para o centro da meta (4,5%), as taxas futuras de curto prazo tendem a subir. Já as taxas futuras de longo prazo tendem a ceder, já que com a perspectiva de inflação no centro da meta no futuro, não haverá razão para manutenção da taxa de juros elevada, abrindo espaço para afrouxamento monetário sustentável. O posicionamento de alguns gestores em títulos vinculados ao IPCA pode refletir esta expectativa, garantir a oportunidade de fixar um juro real elevado (hoje o mercado paga 6% na NTNB 2019), que não se permanecerá no futuro.

      Abs, bons investimentos

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    2. Esta não seria uma visão mto restrita a nosso mercado, sem levar em conta os acontecimentos nos EUA?

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    3. Sim. Não leva em consideração as demais variáveis (não são poucas) que impactam o prêmio de risco dos títulos soberanos, inclusive o deslocamento da referência global (Treasury). Dentre todas as variáveis, a principal delas é fundamento da economia brasileira. Com a casa arrumada e inflação no centro da meta o País fica mais preparado para enfrentar choques externos. O impacto é suavizado e limitado ao curto prazo.

      Abs, bons negócios

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    4. Agradeço (2 pergunta)

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    5. Discordo parcialmente do FI (isso se eu consegui entender o que ele quis dizer), uma vez que quanto mais aumentarem a Selic, mais elevado deverá ser o percentual de uma NTNB para equilibrar o sistema.
      Dessa forma posicionamentos em títulos NTNB, sem conseguirmos visualizar movimentação final do fed e selic, não é indicada.

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    6. O seu raciocínio está correto, mas levando em consideração apenas o curto prazo. Partindo do pressuposto da eficácia da política monetária (que contaria com auxílio da política fiscal deslocando-se na mesma direção no curto prazo), as taxas futuras tendem a ceder, pois a inflação na meta abre espaço para o afrouxamento monetário. O ponto central está na eficiência. Se o mercado não enxergar este quadro mais positivo no futuro (ou se o Banco Central pisar na bola de novo), as expectativas continuarão deterioradas, fato que sustentará o patamar elevado dos juros futuros na ponta longa. Isso aconteceu em meados do ano passado. O Banco Central apertou a política monetária, mas não convenceu os agentes (inflação permaneceu elevada) e nem o mercado.

      Abs, bons negócios

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    7. Sim, mas a entrada na NTNB seria nesse curto prazo.
      Exemplo do meu raciocínio:
      Digamos que o governo resolva elevar a Selic para 20%.
      Neste movimento, todas as outras letras/títulos/notas deverão ter novo percentual global de pagamento ACIMA da Selic.
      A partir deste pico, que mesmo sendo de curto prazo provavelmente irá durar alguns poucos meses, é chegada a hora de entrada numa NTNB ou LTN.
      Depois disso, a tendência é naturalmente a de quedas, mas antes de tal tendência há um espaço mínimo de entrada no topo após o choque.
      Ou discorda?
      Até mais!!

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    8. Neste caso, para especular na curva, é melhor entrar nos títulos de curto prazo. A duration do título mais curta joga a favor da posição montada.

      Abs, bons negócios

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    9. Estou achando a discussão muito boa e tentando acompanhar.
      Daria FI para desenvolver melhor o "racional" desta afirmação: "Neste caso, para especular na curva, é melhor entrar nos títulos de curto prazo. A duration do título mais curta joga a favor da posição montada."? Ou quem sabe, até fazer um post sobre isto, para que pobres mortais como nós possamos entender?

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  4. A visão, clara por sinal, do Sr. Ricupero, assusta:
    http://www1.folha.uol.com.br/colunas/rubensricupero/2014/11/1545770-um-conselho-a-tancredo.shtml

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    1. Discordo parcialmente. Percebo o oposto pelas declarações da Dilma: o reconhecimento do erro e a insustentabilidade do atual modelo econômico. Além disso, está muito claro que haverá maior envolvimento do Lula neste segundo mandato, preparando o terreno para disputa de 2018. Dilma deve ser bem menos intervencionista na Fazenda. Os ajustes são necessários do ponto de vista econômico e fundamentais do ponto de vista político. Mas tudo indica que serão ajustes pontuais, para segurar a barra. Quanto ao resto, concordo com o autor.

      Abs, bons investimentos

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  5. FI, acabamos de revogar o superávit primário! hauhauahauhua O que acontecerá em 2015?

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    1. Provavelmente corte de gastos, mas nada muito relevante. O fator de peso para o retorno do superávit primário deve ser o aumento de tributos. As desonerações não funcionaram e causaram impacto relevante no caixa do governo. Isso precisa ser revisto com urgência.

      Abs, bons negócios

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