sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Tempo considerável está com tempo esgotado


A famosa expressão “tempo considerável” (ou “horizonte relevante”), utilizada para caracterizar por quanto tempo o FED (Federal Reserve - Banco Central dos Estados Unidos) pretende esperar para elevar a taxa básica de juros após o fim dos programas de estímulos monetários, pode estar com seu tempo esgotado nos comunicados da autoridade monetária norte-americana.

Predominante em quase todo o ano de 2014, a expressão adotada pelo FED tornou-se o principal driver dos mercados no mundo inteiro. Juntas, essas duas palavras reabriram portas para o fluxo de capital aproveitar, temporariamente, retornos atrativos em ativos de risco até mesmo em praças financeiras que não possuem grau de investimento.

A contínua melhora dos indicadores econômicos norte-americanos é a principal sinalização de que o FED precisará abandonar o “tempo considerável” e adotar uma nova expressão para preparar o mercado, com a devida cautela, às importantes mudanças de política monetária que deverão surgir em 2015.

Mas o fato de os indicadores econômicos estarem se deslocando em velocidade considerável à meta informal do FED (principalmente no que se refere ao mercado de trabalho) acaba camuflando, ou jogando para segundo plano, as atenções do mercado (mas não do Banco Central norte-americano) em dois pontos importantes.

O primeiro deles é o rali do dólar contra as demais moedas globais. Grande parte da significativa valorização deste ano foi provocada pela reabertura de mercado para o dólar norte-americano se aventurar em “playgrounds distantes”.


O gráfico acima mostra a dimensão deste movimento. Com o sistema norte-americano operando em elevada liquidez (fruto dos programas de estímulos monetários), o dólar transbordou para todos os cantos do planeta.

Esse transbordamento foi importante para manter a inflação abaixo da meta nos Estados Unidos, enquanto o FED despejava novos dólares no sistema. Indiscutivelmente o programa funcionou. A primeira fase eliminou o risco de uma catástrofe financeira. A segunda fase construiu a base de sustentação para a economia sair do buraco. A terceira fase recolocou parte dos desempregados no mercado de trabalho. Tudo isso com a inflação sempre abaixo da meta, um feito histórico.

Mas economia nunca foi uma ciência perfeita. Enquanto se resolve um problema, cria-se outro. O próximo passo do FED é impedir que o transbordamento de dólares atrapalhe o processo de retomada do crescimento. A maior economia do mundo não quer perder competitividade com uma moeda muito mais forte que as demais.

Para isso, o FED precisa chamar parte desses dólares transbordados de volta aos Estados Unidos. Esse processo poderá suavizar o rali, ou mesmo estabelecer um ponto de equilíbrio frente às principais moedas globais, garantindo a competitividade da indústria norte-americana. Tarefa relativamente simples. Uma singela mudança de expressão no comunicado será suficiente.

O desembarque de dólares no sistema financeiro norte-americano contribuirá, inevitavelmente, para aumentar as pressões inflacionárias domésticas. Esse é o segundo ponto importante que também está relativamente camuflado das atenções do mercado. O FED precisa da inflação para subir os juros. As duas juntas (inflação e juros) serão as primeiras ferramentas que iniciarão o processo de desalavancagem do sistema, ainda que de forma bastante tímida, mas importante para uma fase de “testes” e avaliação de comportamento do mercado.

Com o retorno da inflação e a subida gradual da taxa básica de juros fazendo o processo inicial de desalavancagem do sistema, o FED tentará conduzir os juros futuros para uma nova trajetória (ascendente) de forma menos traumática possível.


No gráfico acima podemos notar que a taxa de juros do título de 10 anos do Tesouro norte-americano trabalha próxima da mínima do ano, bem distante do objetivo projetado para a Federal Funds Rate (taxa básica de juros) nos próximos três anos.

Para se aproximar do objetivo da Federal Funds Rate, a taxa de juros do título de 10 anos do Tesouro norte-americano precisa superar com folga o patamar de 3% ao ano. É um caminho longo, onde o FED tentará conduzi-lo de forma mais gradual possível.

Com a economia mostrando sinais de que estará forte o suficiente para aguentar as mudanças relevantes de política monetária nos próximos anos, os membros do Comitê de Política Monetária do FED se reunirão na próxima semana para dar a primeira sinalização ao mercado de que o “tempo considerável” está com tempo esgotado.

Adiar esta importante sinalização pode não ser uma boa ideia, já que a reunião da semana que vem será acompanhada por uma coletiva à impressa concedida pela chair do FED, Janet Yellen. A entrevista de Yellen será importante para reforçar o conteúdo do comunicado e, ao mesmo tempo, tranquilizar o mercado.

O FED não tem outra coletiva marcada até março do ano que vem. Alterar pontos delicados no comunicado, sem o respaldo de uma entrevista coletiva da presidente da instituição, é arriscado demais. O mercado, estressado, pode se precipitar demais ou não captar corretamente a mensagem transmitida pela autoridade monetária.

A reunião de dezembro é uma janela de oportunidade para o FED. Adiar essa importante sinalização para o final do primeiro trimestre de 2015 significa comprar um tempo considerável que os Estados Unidos não tem. O dólar está em rali. A inflação está pronta pra pisar no acelerador. Os juros futuros estão desconectados da política monetária e as bolsas sobrevalorizadas podem formar bolhas. A autoridade monetária precisa agir, pois, agora, o fator tempo joga no outro time.

No Brasil, a ata do Banco Central confirmou nesta semana a pretensão de redução do ritmo de aperto monetário, de 0,50 p.p. para 0,25 p.p., na próxima reunião do Copom a ser realizada no mês de janeiro.

As projeções para inflação realizadas no cenário de referência com dólar a R$ 2,55 e taxa Selic em 11,25%, na última reunião do Copom apontaram para inflação acima da meta em todo o horizonte de projeções (que vai até o terceiro trimestre de 2016). Destaque para antecipação do Banco Central ao afirmar na ata que a inflação permanecerá elevada em 2015. A trajetória de conversão para a meta é mais visível apenas em 2016, o que não deixa de ser algo preocupante.

O dólar x real segue trabalhando dentro da tendência de alta, com aceleração do movimento nos últimos dias. Os juros futuros já devolveram boa parte do movimento corretivo que se iniciou no começo do mês de novembro, buscando retomar as máximas de 2014.

A bolsa de valores permanece em tendência de queda iniciada na região dos 62.3k. A perda do suporte dos 48.7k provocará o acionamento de um grande pivot de baixa, aumentando a força da tendência predominante.


A bolsa de Bombay, na Índia, também segue trabalhando dentro de um movimento corretivo, iniciado no começo deste mês, após renovar máxima história na região dos 28.8k.


Tal como ocorre no Brasil, a correção no mercado mexicano está mais avançada. A bolsa do México perdeu a importante região de sustentação dos 253 pontos, fragilizada pela perda da média móvel simples de 200 períodos diária, fato responsável por acelerar o movimento corretivo.


A bolsa de Xangai, na China, é um caso isolado devido às mudanças relevantes na legislação doméstica. O governo chinês abriu a bolsa de Xangai para investidores estrangeiros e também permitiu que investidores de Hong Kong possam operar na bolsa de Xangai e vice-versa. As mudanças provocaram uma corrida para compras sem precedentes em Xangai. O principal índice de ações subiu cerca de 50% desde a mínima registrada no mês de junho deste ano.


No Japão, o principal índice da bolsa de Tóquio iniciou movimento corretivo esta semana, após renovar a máxima do ano.
  
  
Os principais índices acionários na Europa também voltaram a mostrar pressão vendedora. Na Alemanha, o índice DAX tende se sustentar acima da LTA dos 8.3k.


Na Inglaterra, a bolsa de Londres acelerou o movimento corretivo esta semana após perder a média móvel simples de 200 períodos diária.


Além das pressões externas, dos graves problemas econômicos internos e da briga contra os russos, a União Europeia volta a ser ameaçada pela velha e conhecida Grécia. O Parlamento grego vai fazer uma votação para escolher um novo presidente já na próxima semana (17 de dezembro), dois meses antes do previsto.

Se não conseguir eleger um novo presidente para substituir Karolos Papoulias, o Parlamento será dissolvido e, consequentemente, iniciará o processo para a realização de novas eleições gerais. Isso abriria espaço para o partido radical de esquerda Syriza (que por sinal está cada vez mais forte) chegar ao poder. A principal proposta do Syriza é acabar com o programa de austeridade e as reformas necessárias para o País receber os resgates parcelados da União Europeia e FMI (Fundo Monetário Internacional).

Nos Estados Unidos, os principais índices acionários iniciaram movimento de correção após renovar a máxima histórica no começo desta semana. O primeiro ponto de apoio no índice Dow Jones está localizado na região dos 17.3k.


Bom final de semana a todos!

15 comentários:

  1. O Brasil está indo na direção de uma tempestade perfeita FI ?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Prefiro utilizar a expressão "lamaçal de problemas", pois tempestade perfeita passa a ideia de um choque muito forte e rápido, seguido por um longo período de calmaria. Já o lamaçal de problemas transmite melhor o raciocínio de que não fizemos o dever de casa nos últimos anos e hoje estamos estagnados em câmera lenta, sem reação, esperando a direção correta de um Estado incrivelmente ineficiente, com acúmulo de problemas estruturais graves e vulnerabilidade ao quadro externo.

      Abs, bom final de semana

      Excluir
    2. Faz mais sentido mesmo, Obrigado FI por sua contribuição relevante na Blogosfera !! Abraços !!

      Excluir
  2. difícil acreditar que, com o dólar em rali (e por consequência, diminuição no valor dos importados - o que diminui a inflação) bem como com o barril apontando pra $50, possa se falar em aceleração da inflação, muito pelo contrário

    essa subida de juros ainda irá fazer como aquele célebre jogador, que "fez que foi, não foi e acabou fondo"

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. A inflação já mostrou aceleração neste ano, apesar de ainda não ter atingido a meta. Movimento inevitável, até mesmo em função da retomada do crescimento econômico.

      Abs, bons negócios

      Excluir
  3. FI,

    Ótima análise, agora vamos esperar qual o comunicado do FED.

    É uma pena o Brasil não ter aproveitado a janela de oportunidade que teve para fazer as reformas necessárias.

    Miguel

    ResponderExcluir
  4. Fi e as commodities?
    Suas análises são excelentes esperava seu comentário sobre o impacto do oil e minério sobre as moedas e crescimento dos emergentes.
    Abs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Na verdade comentamos bastante sobre isso alguns meses atrás. Mas como estávamos em processo eleitoral, os acontecimentos relevantes para o mercado financeiro acabaram não gerando repercussão aqui no Brasil. O desempenho do Ibovespa era sempre justificado por quase totalidade dos analistas, economistas, mídia especializada e até gestores pelo impacto das pesquisas eleitorais. Nessa época as commodities já estavam em pânico de baixa e, consequentemente, as moedas emergentes aceleravam movimento natural de depreciação. O clima de aversão ao risco também aumentou, na época, aos primeiros sinais de desaceleração na China. O que está acontecendo hoje é apenas uma "sequência reforçada" dos meses anteriores.

      No que se refere ao barril de petróleo, a Arábia Saudita apenas acelerou o movimento de correção natural. Não havia outra opção para os árabes também. Não existe lógica em reduzir a produção, para faturar menos, num momento delicado no Oriente Médio (ameaça do Estado Islâmico, por exemplo) e, ainda, permitir o desenvolvimento de novos campos de exploração com custos mais elevados, ou mesmo dar fôlego ao seu futuro grande concorrente (óleo de xisto nos Estados Unidos). Com barril a 60 dólares até o xisto nos Estados Unidos pode minguar. E para os árabes, "qualquer preço" do barril está de bom tamanho. São os únicos no mundo que conseguem vender barril com custo de apenas 5 dólares. Tal como nas demais commodities, não havia menor condição de sustentação do preço do barril de petróleo na faixa de 80,00 a 100,00 dólares, em função do aumento de oferta e redução da demanda.

      A aceleração do movimento de correção das commodities apenas aumentou a velocidade de deterioração de exportadores pouco dinâmicos ou que já apresentavam problemas domésticos nos últimos anos. A Venezuela, por exemplo, que estava caminhando para o abismo, agora está correndo como os atletas dos 100 metros sem barreiras. O País deve quebrar em menos de 12 meses com o barril a 60,00 dólares. A Rússia, que possui um custo de extração do petróleo relativamente elevado e tem uma economia muito dependente dessas exportações, está crise aguda. Crash no câmbio. Crash na bolsa. Fuga de capitais. Eleva-se os déficits e pressiona a inflação ainda mais pra cima. Hoje mesmo o BC russo fez uma reunião de emergência para subir os juros de 10,5% para 17% ao ano. É uma decisão de desespero, pra tentar impedir a fuga de capitais e, consequentemente frear a desvalorização do rubo. No começo deste ano, a taxa básica de juros na Rússia estava em 4,5%. Na última quinta-feira a taxa subiu pra 10,5%. E hoje o BC fez a reunião de emergência. No caso do Brasil a situação continua preocupante, mas não chega perto do nível de deterioração na Rússia.

      Abs, bons negócios

      Excluir
  5. Há por que se preocupar com esta alta de juros da Rússia ou não provoca fuga de capitais do Brasil? Rússia possui grau de investimento?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim e Sim. A Rússia ainda é grau de investimento, apesar dos cortes que sofreu este ano. Mas a tendência com este quadro é de ruptura no futuro próximo. Ou seja, perder o grau de investimento e passar a ser considerada como "junk" (lixo) pelo mercado. Cria certa preocupação para o Banco Central do Brasil. O choque do BC russo é uma tentativa de frear a fuga de capitais e impedir uma desvalorização ainda maior no rublo, mas por outro essa medida também chama atenção do mercado aos problemas domésticos. Neste ponto, países que apresentam problemas domésticos semelhantes, mesmo que menos dramáticos (como é o caso do Brasil), podem ser interpretados, do ponto de vista da análise de risco, no mesmo patamar de risco da Rússia. É um contágio de pessimismo. Até o momento o mercado tem conseguido diferenciar a intensidade desses problemas, o nosso contágio ainda é pequeno. Mas em momentos de tensão a situação é sempre muito delicada. Ao primeiro sinal de fuga de capitais mais consistente do Brasil, o Banco Central terá que agir.

      Abs, bons investimentos

      Excluir
  6. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  7. FI, estou achando que estamos com ótimas taxas de juros no TD. Qual sua opinião?
    Também acha que as taxas estão ótimas para compra ou acredita que elas subirão mais num futuro próximo?

    Abraço

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim. Mas é preciso ficar atento pra pegar num preço bom, sempre focando vencimentos curtos. Ontem mesmo na parte da manhã as taxas dispararam, em função do choque na Rússia.

      Abs, bons negócios

      Excluir
  8. Como sempre os keynesianos fabricando ciclos econômicos cada vez mais curtos e traumáticos. Essa pseudorecuperação americana é pra inglês ver. Imprimem dinheiro a torto e a direito. O déficit deles já está em 17 trilhões. Todo ano precisam aumentar o teto da dívida. Um aumento nos juros pode causar estragos monstruosos e obviamente não irão fazer. O modelo atual de impressão de dinheiro e taxa de juros baixas só adia a próxima crise, que será ainda pior que 2008.

    ResponderExcluir