segunda-feira, 31 de março de 2014

3 bolas na caçapa, em uma só tacada


O mês de março foi bastante positivo aos investidores/operadores nacionais posicionados em ações no mercado nacional. O índice Bovespa encerrou este mês com o melhor desempenho registrado desde janeiro de 2012. Mas se o mês foi positivo para nós, aos estrangeiros, foi três vezes melhor.

Os estrangeiros aproveitaram uma janela de oportunidade para ganhar nas três pontas clássicas do mercado: câmbio, bolsa e juros. O dólar alto, cotado a R$ 2,35 no mês passado, próximo da máxima, casou com a bolsa no chão, aos 46.000 pontos e com os prêmios atrativos no mercado de juros futuros. Tudo isso levando em consideração estratégia de posicionamento de curto prazo.

Entrar no Brasil com o dólar alto é bastante favorável, pois os estrangeiros ganham na valorização do câmbio no curto prazo. Este mesmo capital, que já entra ganhando no câmbio, é destinado às compras de papéis no mercado de juros ou na bolsa de valores.

Aproveitando os prêmios dos títulos pré-fixados em torno de 12,70% ao ano atingidos em meados do mês de março e/ou expectativa de novas elevações na taxa básica de juros, favorecendo posições pós-fixadas, os estrangeiros se entupiram de títulos públicos federais. 93,508% das garantidas depositadas para operações no mercado de derivativos são oriundas de títulos públicos federais. Apenas 0,548% das garantias são “dinheiro vivo”. Isso mostra que, além de ganharem no câmbio e no mercado de juros, os estrangeiros aproveitaram para se alavancarem ao máximo nos derivativos, principalmente em contratos futuros do índice Bovespa.

Em uma só tacada os investidores estrangeiros botaram 3 bolas na caçapa. Em março, o dólar registrou o maior recuo desde setembro do ano passado. Os pré-fixados se valorizaram com a queda do Yield (juros). A curva de juros futuros com vencimento em 2017 cedeu para 12,47%. Os pós-fixados (LFT) passarão a render 0,25 p.p. a mais neste mês, com a provável nova subida da taxa básica de juros a ser anunciada na próxima quarta-feira, após a reunião do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central). Já a bolsa disparou 7,05% neste mês, multiplicando o ganho do capital alavancado.

Março foi um mês fenomenal aos investidores estrangeiros. Não é sempre que se aparece uma oportunidade para entrar numa praça financeira sem hedge e ganhar nas três pontas. E tudo isso aconteceu frente aos indicadores que mostraram agravamento do quadro doméstico, criando descompassos no mercado. O mercado apenas reagiu às diferentes pressões do lado da oferta e da demanda.

É importante ressaltar que este quadro dificilmente se repetirá nos próximos meses. A janela de oportunidade está fechando. O elástico para queda do dólar e dos Yields é pequeno, e, se esticar demais (dólar abaixo de R$ 2,20 e prêmios pré-fixados em torno de 12%) haverá, provavelmente, um novo tranco pro outro lado. Tal como o dólar e os juros, a bolsa também tem seu elástico limitado. O cenário de crescimento medíocre, inflação elevada e crédito mais caro (conseqüência do ciclo de aperto monetário) afetará sensivelmente as margens de lucros das empresas, reduzindo o potencial de upside das ações em bolsa. Se, novamente, o elástico estimar demais nesta ponta, haverá, provavelmente, resposta de igual pressão do outro lado.

No gráfico mensal do Ibovespa podemos observar a formação de fundo duplo na região dos 44k, fato que permitiu a sustentação do índice na LTA de 2002. Houve um falso rompimento da referida LTA no início do mês, caracterizando bear trap, impulsionando ainda mais a força compradora nas últimas semanas do mês de março.


Apesar dos elevados níveis de sobrecompra nos gráficos intraday e diário, o mercado tem espaço livre para continuar subindo no curto prazo. Não há zonas de resistências relevantes próximas.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Descompasso aumenta e euforia torna-se perigosa


A pesquisa CNI-Ibope divulgada nesta quinta-feira pela CNI (Confederação Nacional da Indústria) provocou um movimento de euforia generalizado no mercado de capitais brasileiro. A aprovação do governo da presidente Dilma Rousseff caiu 7 pontos percentuais, de 43% em novembro do ano passado para 36% em março deste ano, registrando a primeira queda desde julho do ano passado.

Este resultado induziu os investidores e operadores a comprarem ações desesperadamente na bolsa de valores, precificando um cenário de alternância de poder. Entretanto, devem-se ressaltar duas considerações importantes: (i) ainda é muito cedo para o mercado começar a precificar qualquer tipo mudança no cenário político. As campanhas e os debates nem começaram. Sequer há conhecimento das propostas dos candidatos. (ii) a pesquisa divulgada hoje não revela intenção de voto, apenas mede a popularidade da presidente. Esta mesma instituição (Ibope) divulgou, na semana passada, uma pesquisa de intenção de voto, onde aponta reeleição da presidente Dilma no primeiro turno com 40% dos votos.

A pesquisa de aprovação do governo da presidente Dilma Rousseff foi feita entre os dias 14 e 17 de março. A pesquisa de intenção de voto foi feita entre os dias 13 e 17 de março. Ambas realizadas nas mesmas cidades e com o mesmo número de eleitores entrevistados. Isso mostra que embora a popularidade da presidente Dilma tenha caído 7 pontos percentuais, os eleitores não demonstraram intenção de votar em outro candidato.

Não há, portanto, sinalização de aumento na hipótese de transição de poder. O mercado está precificando um cenário inexistente, embasado numa avaliação equivocada.

Supondo que houvesse aumento significativo das intenções de votos aos candidatos da oposição, o mercado teria, inicialmente, motivos para subir e precificar o cenário de alternância de poder. Mas este movimento seria, provavelmente, fundamentado por curtíssima duração, pois este quadro (candidatos da oposição ganhando força na corrida eleitoral) estimularia o aumento de gastos do governo, com objetivo de recuperar os votos perdidos. Isso fatalmente implicaria em mais um descumprimento da meta de superávit primário neste ano, fato que poderia culminar num novo rebaixamento na classificação de risco do Brasil, com consequente perda do grau de investimento. O mesmo raciocínio vale para o surgimento de protestos nos próximos meses, dentro do período de margem de manobra política (até o mês de agosto ou meados de setembro).

O cenário ideal para o mercado contemplaria com aumento significativo das intenções de votos aos candidatos da oposição, bem como surgimento de protestos, às vésperas das eleições presidenciais, onde não haveria possibilidade de manobras/respostas, principalmente fiscais, por parte do governo.

Desse modo, pode-se observar o surgimento do primeiro descompasso no mercado: o da variável política.

O segundo descompasso pode ser notado pela variável técnica. Embora o índice Bovespa esteja trabalhando dentro de uma tendência de alta de curto prazo, houve sinalização relevante de realização de lucros emitida pelos candles dos dois últimos pregões. Esta sinalização foi invalidada hoje, num movimento técnico atípico, caracterizado pelo rompimento da importante barreira de resistência localizada na região dos 48.7k.


A forte alta desta quinta-feira jogou o Ibovespa para a região psicológica dos 50k. Em caso de superação desta nova faixa de resistência, o índice encontrará espaço para retornar à região dos 52k.

A variável econômica constitui o terceiro, e não menos importante, descompasso do mercado. O Relatório de Inflação divulgado hoje pelo Banco Central revelou novo aumento no ritmo de deterioração do quadro doméstico. Por um lado, a projeção de inflação aumentou de maneira expressiva, do outro, a projeção de crescimento reduziu. Ambos os indicadores estão se deslocando na direção contrária do ideal.

Conforme podemos observar na tabela abaixo retirada do Relatório de Inflação, a projeção para o IPCA do Banco Central parte de 6,0% no primeiro trimestre de 2014, sobe para 6,4% até o terceiro trimestre de 2014 e recua ligeiramente para 6,1% no fechamento deste ano. O ano de 2015 abre com uma estimativa de inflação perigosamente elevada de 6,0%. É esperado um recuo de apenas 0,5 p.p. até o encerramento de 2015. No primeiro trimestre de 2016, a projeção para a inflação encontra-se em 5,4%. Essas projeções foram traçadas em cima do seguinte cenário de referência: taxa Selic mantida inalterada durante o horizonte de previsão em 10,75% a.a. e permanência da taxa de câmbio em R$2,35.


As estimativas de inflação seguem piorando a cada trimestre. Havia expectativa de que o Relatório de Inflação demonstrasse esta quebra de rotina, já que houve redução no ritmo de aperto monetário e as últimas atas do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) mostraram menos preocupação da autoridade monetária com a inflação. Este cenário não se concretizou, pois surgiram, nos últimos meses, novas fontes de pressões inflacionárias, fato que poderá prolongar o atual ciclo de aperto monetário.

Soma-se isso à permanência da política fiscal expansionista, criação de expectativas de reajustes dos preços administrados, descrença na política monetária, provável surgimento de fontes de pressões inflacionárias externas e baixa confiança dos agentes, o quadro doméstico tende a continuar se deteriorando no médio prazo. Não há sequer uma estimativa do Banco Central para convergência da inflação ao centro da meta (4,5%), o que, de fato, não colabora em nada para a necessária recuperação da confiança entre investidores, agentes, empresários e instituições.

A combinação de inflação persistentemente elevada, baixo crescimento e taxa de juros mais alta é prejudicial ao desenvolvimento econômico e corrói profundamente a lucratividade das empresas.

O mercado está comprado e assim deve ser o posicionamento dos operadores. Entretanto, a identificação destes três importantes descompassos revela ausência de fundamentos que sustentam este movimento na bolsa, ainda que no curto prazo a tendência permaneça altista e sem apresentar ponto de saída.

No mercado de câmbio,o dólar trabalha vendido no curto prazo, porém aproximando-se da primeira zona de suporte relevante localizada levemente acima da região dos R$ 2,20, onde poderá apresentar mais um ponto de entrada para posicionamentos de médio e longo prazo.
  


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão de lado, mantendo-se dentro da zona de congestão de curtíssimo prazo, sem apresentar novidades.


quarta-feira, 26 de março de 2014

Patinho feio, patinho burro e o profeta


Quem pensava não existir algo mais humilhante do que ser reconhecido como patinho feio do mercado estava muito enganado. O apelido nada agradável é fruto das rotineiras decepções de investidores, empresários, agentes e instituições do mundo inteiro com o Brasil dos últimos anos.

O downgrade de segunda-feira apenas confirmou o nosso “status” de patinho feio. Nenhuma potência emergente tem uma classificação de risco tão baixa quanto o Brasil. Nem mesmo a Rússia, que passa por uma crise econômica e geopolítica, ocupa o mesmo degrau brasileiro.

Mas o governo conseguiu piorar a nossa imagem, se é que isso ainda é possível. A agência de classificação de risco Standard & Poor's está sendo bombardeada por integrantes da equipe econômica. Políticos do alto escalão partiram para o ataque contra a S&P, rejeitando e desmerecendo o trabalho da agência, numa incrível demonstração de ignorância.

Primeiro porque não entendemos o importante recado da S&P. Não há mais espaço para truques e manobras contábeis. A política fiscal precisa ser revista o quanto antes. O crescimento medíocre prova que a política econômica não funciona. O Banco Central, sozinho, não faz milagre. As expectativas estão deterioradas e a inflação continua perigosamente elevada, sem perspectiva de encontro ao centro da meta. As intervenções sufocaram o setor elétrico. A taxa de investimento (atualmente em 18% do PIB) está muito baixa e precisa subir. É preciso retomar a confiança e credibilidade.

Segundo, e não menos importante, porque os indivíduos que estão atacando a S&P são da mesma base política que elogiou a postura da agência de classificação de risco em 2008, quando recebemos o título de grau de investimento. Na época, tal evento foi celebrado exaustivamente pelo então presidente Lula. “Vocês viram na televisão, na semana passada, eu não sei nem dizer direito, mas eu estava em casa vendo televisão, e dizia assim: O Brasil agora virou investment grade!”

Quando o rating subiu novamente, em novembro de 2011, de BBB- para BBB, a S&P recebeu uma nova onda de elogios do governo. O ministério da Fazenda soltou uma nota no mesmo dia reconhecendo o importante trabalho da agência de classificação de risco, ressaltando todos os motivos responsáveis pelo nosso upgrade.

A atitude de atacar, quem já foi exaustivamente elogiado pelo mesmo serviço prestado, revela incoerência de postura, irracionalidade e incapacidade de análise e compreensão dos fatos. Pior do que isso, só mesmo quando se paga por um serviço para ser atacado e desqualificado. Mas é o que estamos fazendo. O governo assinou um contrato de 275 mil dólares no final de 2013 para a S&P dar sua opinião independente sobre o rating do País neste ano. Parece que estávamos assinando, na verdade, um atestado de burrice.

Para finalizar, vamos resgatar um discurso do ex-presidente Lula, feito alguns dias depois de recebermos o título de grau de investimento. Naquela ocasião, Lula havia utilizado a figura de dois trabalhadores para explicar aos brasileiros o que representava o upgrade na classificação de risco do Brasil. “Um deles é um homem comportado, que cuida da família, paga o aluguel e não tem vícios. Esse é o investment grade. O outro recebe o dinheiro, torra tudo em mesa de jogo ou bebe demais e está quebrado. Então, era assim que era o Brasil. O Brasil estava quebrado, não tinha credibilidade.”

Será que Lula estava falando do Brasil do passado, ou, sem querer, estava mesmo é fazendo uma profecia? Ultimamente, o Brasil está passando mais tempo no bar do que no trabalho, ou em casa com a família. Seja o que for, tomara que este cenário não se concretize.

No mercado de capitais o índice Bovespa testou e respeitou a principal barreira de curto prazo, localizada na linha dos 48.7k. O candle de fechamento é uma estrela cadente, semelhante ao candle da última terça-feira e caracteriza formação de topo de curtíssimo prazo. Isso não significa que a tendência de alta iniciada na região dos 44.9k está finalizada, mas que são boas as possibilidades de manutenção do movimento corretivo, iniciado hoje, nos próximos pregões.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones cedeu 0,60%, reforçando uma linha de resistência localizada na região dos 16.4k, levemente abaixo da máxima histórica. Mercado norte-americano entrou em congestão de curtíssimo prazo, com suporte inicial na faixa dos 16k.


segunda-feira, 24 de março de 2014

Chegou mais uma conta


Falta de aviso não foi. O Brasil está entre os países que mais receberam puxões de orelhas nos últimos anos com os relatórios de advertências de diversas instituições. O governo desdenhou, jogou a culpa nos outros. Em junho de 2013 recebemos mais um alerta da Standard & Poor's, nossa perspectiva foi rebaixada de estável para negativa. Era o aviso final. Se não fizéssemos o dever de casa seríamos rebaixados.

O governo não fez nada. Pelo contrário, conseguiu piorar o que já estava ruim. Percebendo o aumento do ritmo de deterioração do quadro brasileiro, a S&P tratou de enviar logo uma “visita surpresa” para realizar uma nova avaliação dos fundamentos da economia brasileira. Nos dias 10, 11 e 12 deste mês, os diretores da S&P se encontraram com representantes do setor privado. Nos dias 13 e 14 as reuniões aconteceram com integrantes do primeiro escalão do governo, incluindo o ministro da Fazenda, Guido Mantega e o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini. A S&P se comprometeu em emitir um relatório sobre a visita em até dois meses.

Não foi necessário o prazo de dois meses e muito menos emitir um relatório completo ao mercado. A situação se deteriorou de tal forma que o rating brasileiro foi rapidamente rebaixado após a visita, surpreendendo alguns analistas que esperavam uma decisão sobre o rating somente depois das eleições presidenciais.

Em comunicado divulgado hoje a noite, a S&P afirmou que "o rebaixamento reflete a combinação de derrapagem fiscal, a perspectiva de que a execução fiscal permanecerá fraca em meio a um crescimento moderado nos próximos anos, uma capacidade limitada para ajustar a política antes da eleição presidencial de outubro e um certo enfraquecimento das contas externas do Brasil. A perspectiva de crescimento lento reflete tanto fatores cíclicos como estruturais, incluindo o investimento como parcela do PIB de apenas 18% em 2013 e uma desaceleração do crescimento da força de trabalho. Combinados, esses fatores destacam o espaço diminuído do governo para manobrar em face de choques externos."

O documento também ressalta que “a credibilidade da conduta da política fiscal enfraqueceu sistematicamente, à medida que o governo isentou vários itens de receita e de gastos da meta fiscal, além de rebaixar a própria meta ao longo do tempo. O uso persistente de bancos estatais, financiados por recursos "por baixo do pano" do Tesouro, também minou a credibilidade e a transparência da política.”

Por fim, a agência de classificação de risco citou preocupações com o setor elétrico, riscos fiscais negativos dos governos estaduais e municipais, aumento da vulnerabilidade e perdas no setor bancário (fruto da iminente decisão do Supremo Tribunal Federal sobre as contas de poupança).

Com esta decisão, o rating brasileiro caiu de BBB para BBB-, atingindo o último degrau do grau de investimento. Isso significa que se houver mais um rebaixamento, o Brasil perderá a classificação de grau de investimento e passará a ser considerado como grau especulativo, fato que poderá provocar uma fuga de capitais sem precedentes. Entretanto, a perspectiva foi alterada para estável, indicando que S&P não deverá fazer novos rebaixamentos no curto prazo.

BBB- pode ser considerada uma nota até mesmo generosa frente às graves deteriorações dos últimos anos. Bastou o super ciclo de alta das commodities chegar ao fim para o mercado enxergar o estrago feito pelo governo nos fundamentos da economia. Estes buracos só serão tapados quando aparecer alguém disposto a arregaçar as mangas para fazer o dever de casa acumulado dos últimos anos. A tarefa não é fácil.

O rebaixamento do rating brasileiro foi anunciado após o fechamento dos mercados. No entanto, o Ibovespa continua superando a bateria de notícias negativas dos últimos dias. O índice subiu nesta segunda-feira, registrando sua sexta alta consecutiva. A superação de barreiras importantes na semana passada liberou espaço para manutenção do movimento ascendente, fortalecendo a pernada de alta iniciada na região dos 44.9k, a mais forte dos últimos 5 meses.

O movimento é sustentado puramente por fatores técnicos/psicológicos. Tal como aconteceu na semana passada, a agenda macroeconômica continua apresentando indicadores negativos, que, em condições normais, afetariam diretamente o desempenho do mercado.

A prévia do Índice Gerente de Compras da China recuou para 48,1 pontos no mês de março, acendendo o sinal amarelo do governo. Este é o menor nível dos últimos oito meses e mostra uma contração preocupante da atividade, que não se fortaleceu após o extenso feriado do Ano Novo Lunar.

O quadro também está se deteriorando na Rússia. O clima tenso e de instabilidade não fornece o incentivo para que as empresas invistam, num momento crítico de desaceleração do ritmo de crescimento. O País ainda convive com o risco de agravamento do déficit em transações correntes, fato que prejudica, também, o combate à inflação. Mesmo após o Banco Central do país aumentar inesperadamente a taxa básica de juros em 150 pontos porcentuais, o ministro de Economia russo, Alexei Ulyukayev, espera que a inflação atinja uma taxa anualizada de 7% em breve, bem acima da meta de 5% a ser perseguida.

O déficit em transações correntes no Brasil também está aumentando. No mês passado, a conta corrente do país fechou com saldo negativo de 7,44 bilhões de dólares, impactada pelo déficit na balança comercial, remessas de lucros/dividendos e gastos líquidos com viagens internacionais. Para o ano de 2014, o Banco Central espera agora que o déficit em transações correntes alcance 80 bilhões de dólares, superior à projeção anterior de 78 bilhões. O rombo continua aumentando, mantendo o País numa situação desconfortável, menosprezada pelo governo.

Mas como o humor do mercado mudou radicalmente no início da semana passada (de pessimismo para otimismo exagerado), as notícias negativas acabaram perdendo força de influência sobre a trajetória de preços. Nestas condições, o índice Bovespa subiu cerca de 3.000 pontos desde o fundo registrado na segunda-feira da semana passada, aproximando-se de uma importante barreira localizada na faixa dos 48.7k.


Entretanto, o humor dos investidores/operadores deverá azedar, adicionando novamente pressão negativa sobre os preços, já que o rating brasileiro foi cortado e os gráficos de 60 minutos estão sobrecomprados.

Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão em baixa insignificante de 0,16%, tentando se sustentar acima da linha central de bollinger, próximo à máxima histórica.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Semana positiva para as principais praças financeiras mundiais


Muitos justificaram o bom desempenho do índice Bovespa nesta semana por conta dos rumores de que os pré-candidatos da oposição, Aécio Neves e Eduardo Campos, teriam crescido na corrida eleitoral. Empresas estatais que seriam beneficiadas pela mudança de poder, tais como Eletrobras, Banco do Brasil e Petrobras, dispararam na Bovespa e fecharam a semana em alta de 12,15%, 9,71% e 9,70%, respectivamente.

Entretanto, a pesquisa de intenções de voto do Ibope divulgada ontem derrubou os rumores que estavam circulando no mercado. Não houve nenhuma mudança no quadro eleitoral. A presidente Dilma continua com a popularidade muito elevada, com margem de sobra para uma vitória no primeiro turno.

A especulação eleitoral foi apenas um “motivo fácil” encontrado pelos analistas de mercado para explicar o forte movimento de alta observado nas ações das principais estatais brasileiras listadas na bolsa de valores.

O que aconteceu, na verdade, foi um movimento de recuperação puramente técnico e natural. As ações da Petro fecharam 15 semanas em baixa, das 16 últimas semanas. As ações do Banco do Brasil fecharam 15 semanas em baixa, das 19 últimas semanas. As ações da Eletrobrás estavam congestionadas na principal linha de suporte de curto e médio prazo (região dos 8,40), base de uma importante zona de congestão de médio prazo.

Inevitavelmente um movimento de repique atingiria estes papéis. O mercado escolheu esta semana. Como estes papéis carregavam posições vendidas vencedoras desde o mês de novembro do ano passado, a força do movimento de repique foi maior, pois marcou a primeira sinalização de saída àqueles operadores posicionados na venda nos meses anteriores. Portanto, a liquidação das posições vendidas acumuladas por um longo período de tempo foi a grande responsável pela forte reação positiva dos papéis.

Este movimento pesou no índice Bovespa, que fechou a semana com mais de 5% de alta. O marubozu de alta do gráfico semanal sinalizou fundo na região dos 44.9k. A LTB dos 56.7k foi rompida. O quadro técnico sinaliza espaço para o movimento ascendente de curtíssimo prazo ganhar consistência e se estender para o curto prazo.


Importante ressaltar que a recuperação do mercado nacional não é um movimento doméstico ou restrito. Este evento ocorreu na bolsa do México, com semelhante grau de relevância, conforme podemos observar no gráfico abaixo:


A bolsa de Xangai na China também disparou na semana, formando fundo na importante linha de suporte dos 2.000 pontos.


Já a bolsa de Bombay na Índia fechou a semana em leve baixa, devido ao elevado nível de sobrecompra, provocado pela forte arrancada observada nas semanas anteriores, fato que culminou no rompimento da máxima histórica. Mercado permanece comprado em curto, médio e longo prazo.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones subiu na semana, mantendo-se próximo da máxima histórica.
  
  
No S&P500 a máxima histórica foi levemente superada no mês passado. Mercado comprado e sem resistências significativas pela frente.


Na Alemanha o índice DAX esboçou recuperação frente ao movimento corretivo de curtíssimo prazo com um marubozu expressivo de alta. A reversão ocorreu justamente na principal linha de suporte de curto prazo localizada na região dos 9k. Mercado altamente técnico, mostrando poucas surpresas.


A bolsa de Londres na Inglaterra fechou a semana em leve alta, sinalizando respiro acima de uma LTA intermediária, próximo à linha inferior de bollinger.


Desejo a todos vocês um ótimo final de semana! Bom descanso e até segunda.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Yellen deixou escapar a previsão do tempo


A reunião do Comitê de Política Monetária do FED (Federal Reserve - Banco Central dos Estados Unidos) terminou na tarde desta quarta-feira. Houve novo corte de 10 bilhões de dólares nos programas de estímulos monetários, reduzindo o montante total para 55 bilhões de dólares. Conforme esperado, a autoridade monetária também mudou os parâmetros para subir a taxa básica de juros.

Até ontem, a promessa era de que a Federal Fundas Rate (taxa básica de juros dos Estados Unidos) seria mantida entre zero e 0,25% bastante tempo depois que o índice de desemprego chegar aos 6,5%.

Em comunicado divulgado após a reunião de Comitê, o Banco Central dos Estados Unidos descartou oficialmente a taxa de desemprego como gatilho para subir os juros. Essa decisão vai depender, agora, de uma ampla gama de fatores sobre o mercado de trabalho, inflação e situação do sistema financeiro.

Ainda assim, os integrantes do Comitê esperam que, mesmo depois de o emprego e a inflação estarem perto de níveis mais consistentes (na fase final do tapering), as condições econômicas podem, por algum tempo, justificar a manutenção da taxa de juros entre zero e 0,25%.

Um repórter do Wall Street Journal aproveitou a coletiva de imprensa realizada após a reunião de Comitê para perguntar à Janet Yellen, presidente do FED, o que seria esse “por algum tempo”, destacado no comunicado do Banco Central. Ou, em outras palavras, por quanto tempo depois do término do tapering a Federal Funds Rate começaria a subir?

Yellen não fugiu da pergunta, mas deixou escapar a previsão do tempo que todos estão querendo ouvir há bastante tempo no mercado financeiro: cerca de seis meses.

A julgar pelo ritmo de redução no volume dos estímulos monetários, pode-se projetar que o programa será totalmente extinto no mês de outubro deste ano. Isso significa que o ciclo de aperto monetário nos Estados Unidos poderá começar já no mês de Abril de 2015 (seis meses após o término do tapering).

A presidente do FED ressaltou na entrevista que esta não é uma data pré-definida e dependerá da evolução do mercado de trabalho, do ritmo de retomada econômica e das projeções de inflação.

De qualquer maneira a informação é extremamente relevante. O mercado agora já tem uma noção do timming do aperto monetário nos Estados Unidos. Grande parte dos gestores, investidores, players e operadores que trabalhavam com expectativas mais longas (final de 2015 e/ou meados de 2016) revisarão suas respectivas estratégias.

Houve uma mudança relevante no calendário do FED. As expectativas de aperto monetário anteriormente transmitidas nos comunicados da autoridade monetária eram mais longas, dando a entender que a Federal Funds Rate subiria apenas no final de 2015 ou em meados de 2016.

Hoje, 13 dos 16 membros do Comitê de Política Monetária do FED esperam subir a taxa básica de juros já no próximo ano. Dois esperam subir em 2016 e apenas um em 2014.

A taxa de inflação pode ser a grande responsável por este encurtamento no calendário do FED. Para 2014, as projeções do Banco Central norte-americano apontam para uma inflação entre 1,5% e 1,6%, ligeiramente mais apertada frente à última estimativa de 1,4% a 1,6% realizada em dezembro do ano passado. Para 2015, a previsão aponta para uma taxa de inflação entre 1,5% a 2%.

Já a taxa de desemprego deve cair para 6,1% a 6,3% em 2014, melhor do que a última projeção de 6,3% a 6,6% realizada em dezembro do ano passado. Para 2015, a previsão também melhorou, passando de 5,8% a 6,1% para 5,6% a 5,9%.

O PIB (Produto Interno Bruto) dos Estados Unidos deve subir entre 2,8% e 3% em 2014, ligeiramente inferior à última projeção de 2,8% a 3,2% realizada em dezembro do ano passado. Para 2015, o Banco Central espera um avanço de 3% a 3,2%, ante os 3% a 3,4% previstos anteriormente.

A mão dos integrantes do Comitê está mais pesada para subir os juros. A última projeção de dezembro do ano passado apontava que a Federal Funds Rate atingiria os 1,75% no final de 2016. Hoje as autoridades do FED já esperam encerrar 2015 com uma taxa básica de juros em 1%. Para 2016, a estimativa subiu para 2,25%.

Os investidores tiveram pouco tempo para digerirem estes dados importantes, mas foi possível observar impacto imediato no mercado. O Yield (taxa de juros) do título público de 10 anos do Tesouro norte-americano disparou para 2,78% no final do pregão.


O índice Dow Jones caiu forte após a presidente do FED soltar a previsão do tempo (cerca de seis meses) na coletiva de imprensa. Caso a linha central de bollinger seja perdida amanhã, a região de suporte (agora enfraquecida) localizada na faixa dos 16k deverá ser testada novamente.
  

No Brasil o índice Bovespa foi na direção contrária do mercado e fechou o pregão em alta de 0,90%, impulsionado pelas condições técnicas que favoreceram o rompimento da linha de resistência localizada na região dos 46.1k. O mercado encontrou uma brecha técnica para subir no curtíssimo prazo, mas já encostou na LTB dos 56.7k e linha central de bollinger, resistências importantes para definição de tendência.


terça-feira, 18 de março de 2014

Yellen quer mudar os parâmetros para subir os juros


No último dia 18 de dezembro de 2013, o Comitê de Política Monetária do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) havia surpreendido o mercado ao anunciar o tapering (redução gradual no volume dos programas de estímulos monetários). Grande parte dos analistas esperavam que este anúncio aconteceria somente no primeiro trimestre de 2014.

A partir do mês de janeiro de 2014, a autoridade monetária aumentou sua carteira de títulos lastreados em hipotecas ao ritmo de 35 bilhões de dólares por mês (em vez de comprar 40 bilhões de dólares por mês), e sua carteira de títulos do Tesouro de longo prazo a um ritmo de 40 bilhões de dólares por mês (em vez de comprar 45 bilhões de dólares por mês). Com isso, o volume total dos programas de estímulos monetários (Operação Twist e Quantitative Easing 3, respectivamente) reduziu para 75 bilhões de dólares por mês.

Na reunião de Comitê do mês de janeiro, a autoridade monetária anunciou novo corte de outros 10 bilhões de dólares, na mesma proporção, reduzindo, portanto, o volume total dos programas de estímulos monetários para 65 bilhões de dólares. Amanhã, ao término da segunda reunião de Comitê deste ano, o FED deverá comunicar ao mercado um novo corte de 10 bilhões.

Mas o tapering não foi a única surpresa anunciada naquela reunião do dia 18 de dezembro do ano passado. O Banco Central dos Estados Unidos havia alterado o seu gatilho para subir a taxa básica de juros. Anteriormente o FED destacava em seus comunicados o compromisso de manter a Federal Funds Rate (taxa básica de juros nos Estados Unidos) entre zero e 0,25% até a taxa de desemprego atingir os 6,5%, pelo menos. Este compromisso mudou. Agora o Banco Central pretende manter a Federal Funds Rate entre zero e 0,25% “bastante tempo depois" que o índice de desemprego chegar aos 6,5%.

A mudança foi expressiva e tinha objetivo claro de acalmar o mercado. O Banco Central estava mostrando que a taxa básica de juros permanecerá na mínima história por um período de tempo suficientemente prolongado, acabando com as especulações de aperto monetário no curto/médio prazo.

Entretanto, Janet Yellen, atual presidente do FED, tem demonstrado interesse em mudar os parâmetros definidos nas reuniões de política monetária para subir os juros. Isso porque a taxa de desemprego, atualmente em 6,7% (muito próxima do patamar de 6,5%), não está refletindo, segundo Yellen, a real fragilidade do desemprego e subemprego no País.

A nova presidente do FED é uma forte defensora do máximo emprego sustentável nos Estados Unidos e já disse em ocasiões anteriores que a recuperação do mercado de trabalho está longe de ser completa, mesmo levando em consideração a queda da taxa de desemprego.

Por este motivo algumas bolsas fecharam com altas expressivas nesta terça-feira, pois há uma expectativa de que o FED anuncie amanhã, ao final da reunião de Comitê, novos parâmetros para subir a Federal Funds Rate, reforçando a perspectiva de que o aperto monetário ainda está longe de acontecer, fato que manterá o sistema financeiro altamente alavancado.

O índice Dow Jones subiu pelo segundo pregão consecutivo, recuperando a linha central de bollinger, muito próximo da máxima histórica.


O índice Bovespa disparou 2,29% nesta terça-feira, confirmando fundo, a princípio temporário, na região dos 44.9k. O candle de fechamento é um marubozu de alta e sugere rompimento da importante linha de resistência localizada na região dos 46.1k, fato que poderá abrir espaço para força compradora se sobressair nos próximos pregões.


Em caso de rompimento da LTB dos 56.7k e retomada da linha central de bollinger (barreiras na mesma região), o índice Bovespa abrirá condições técnicas para realizar um movimento ascendente consistente, que não acontece desde a pernada de baixa iniciada em outubro do ano passado.

Importante ressaltar que o quadro geopolítico na Ucrânia não melhorou. Pelo contrário, a agência de notícias Interfax informou hoje que houve troca de tiros em Simferopol, capital da Crimeia, deixando dois mortos (um militar ucraniano e um integrante das forças de autodefesa pró-russas) e dois feridos (também um militar ucraniano e um militar pró-russo).

A Crimeia está sob controle de forças russas e pró-russas que cercam os soldados ucranianos, presos em suas bases. O comandante da Marinha ucraniana, Serguei Gaiduk, disse hoje que as tentativas de invasão armada de unidades militares se multiplicaram na Crimeia. Já o primeiro-ministro da Ucrânia, Arseni Yatseniuk, considerou que o conflito com a Rússia passava da fase política para uma fase militar. Ainda hoje, o governo ucraniano informou que os seus militares na Crimeia foram autorizados a usar suas armas para se protegerem.

A ausência de destaque destas notícias negativas e preocupantes em noticiários do ocidente revela dois aspectos importantes (i) incapacidade de correta compreensão dos movimentos dos mercados; (ii) triunfo de Vladimir Putin. A Crimeia será anexada à Rússia numa bela jogada de xadrez, pois ninguém pode fazer nada do ponto de vista militar e econômico. As sanções impostas por Estados Unidos e União Europeia à 21 pessoas envolvidas na incursão militar da Rússia na Criméia são ridiculamente insignificantes.

sábado, 15 de março de 2014

Consequências do ciclo intervencionista no setor elétrico


Na quinta-feira do dia 6 de setembro de 2012, véspera das eleições municipais, a presidente Dilma utilizou o pronunciamento em rede nacional dedicado ao Dia da Independência para anunciar uma redução significativa nas tarifas de energia elétrica a partir do início de 2013.

Para fazer isso, o governo criou a Medida Provisória 597, propondo a renovação antecipada das concessões de energia elétrica, tanto das empresas geradoras, quanto das transmissoras. Mas para renovar, as empresas teriam que aceitar os termos do governo, definidos sem diálogo algum, com objetivo claro de reduzir significativamente os lucros das companhias. A pesada carga tributária incidente sobre as empresas do setor elétrico, grande responsável pelos preços elevados de energia no País, não foi sequer discutida.

A intervenção do governo desagradou de maneira generalizada as empresas do setor e disseminou um tremendo clima de insegurança, desconforto e baixa credibilidade no mercado nacional. Aparentemente motivadas por razões, sobretudo, políticas, Cemig, Copel e Cesp peitaram o governo. Estas empresas decidiram não aceitar os termos da Medida Provisória 597 e, consequentemente, não renovaram as concessões.

Com isso, começou a faltar energia no mercado e a iniciativa privada desistiu de investir no setor. Os leilões de energia micaram pela ausência de oferta. A conta pesou para as distribuidoras que passaram a comprar energia muito mais cara no mercado livre, onde o preço do megawatt disparou de pouco mais de R$ 100,00 para insustentáveis R$ 822,00. Para não repassar esta alta exorbitante ao consumidor, o governo pagou a conta bilionária utilizando recursos do Tesouro (ou seja, o dinheiro dos nossos impostos).

Fruto da ausência de investimentos, o País passou a conviver com a ingrata probabilidade de racionamento de energia. O novo pacote anunciado ontem resolve apenas o problema da saúde financeira de curto prazo das distribuidoras obrigadas a comprar energia a preços exorbitantes para vender mais barato ao consumidor, como manda o governo.

Além dos 9 bilhões de reais que já estavam previstos no orçamento, o governo vai aportar mais 4 bilhões de reais do Tesouro e permitirá a contratação de empréstimos de até 8 bilhões de reais pela CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica), para cobrir o rombo das distribuidoras. Será realizado, também, um novo leilão de energia.

O custo deste novo leilão de energia será pago pelo consumidor a partir de 2015. Os 4 bilhões de reais adicionais do Tesouro serão compensados pelo aumento de impostos. Já os empréstimos contraídos pela CCEE virão dos bancos públicos (principalmente) e privados.

O resultado final desta conta é o custo da incompetência de quem está no poder. Por conta da primeira intervenção desastrosa de 2012, o governo se sentiu forçado em realizar novas intervenções, tapando os buracos de percurso, mas que por sua vez abrem novas rachaduras, exigindo mais intervenções, formando, assim, um ciclo vicioso.

Em uma só tacada, o governo conseguiu aumentar o rombo nas contas públicas, já que haverá necessidade de aporte do Tesouro para financiar os bancos públicos nas operações com a CCEE, aumentar a carga tributária e, ainda, criar expectativa de inflação futura. Todo este dispêndio financeiro relevante está sendo utilizado para sustentar aquele discurso do dia 06 de setembro de 2012.

Não há incentivo à conscientização do consumo, pelo contrário. Como a conta ficou mais barata, as pessoas se sentiram confortáveis em gastar mais energia, comprometendo a capacidade de oferta praticamente estagnada.

O efeito colateral a ser produzido pela inflação merece atenção redobrada do Banco Central. Boa parte do acréscimo da carga tributária poderá vir do aumento da taxação de produtos importados, com objetivo de preservar a popularidade do governo em ano de eleições presidenciais. Inevitavelmente a inflação subirá com os produtos importados ainda mais caros.

Por outro lado, a atual estratégia de represamento de preços acaba produzindo mais pressão inflacionária, pois cria-se uma expectativa concreta de que no futuro, o preço subirá. Por conta disso, os agentes, com a confiança abalada, antecipam os aumentos de preços dos seus produtos, como mecanismo de defesa. O vizinho do lado faz a mesma coisa para se defender também, e, assim, cria-se um ciclo vicioso de inflação.

Este quadro só alimenta as incertezas quanto à capacidade do poder de compra da moeda e podem exigir atitudes de respostas no futuro cada vez mais severas por parte da autoridade monetária num momento (2015) extremamente delicado, devido à normalização das condições monetárias nos países desenvolvidos.

No mercado de capitais o índice Bovespa fechou em baixa pela quarta semana consecutiva, aproximando-se da importante linha de suporte (enfraquecida) na região dos 44.1k, que dificilmente conseguirá segurar a tendência de baixa de curto, médio e longo prazo.


Na China a bolsa de Xangai também fechou a semana em baixa, colada na região de suporte dos 2.000 pontos. Mercado vendido e sem perspectivas de retomada (tanto no curto prazo, quanto no longo prazo).


A bolsa do México continua brigando com a média móvel simples de 200 períodos semanal. Esta semana o índice fechou com um candle de baixa, permanecendo vendido no curto prazo.


Na Índia a bolsa de Bombay fechou a semana de lado, mostrando um candle de indecisão após o rompimento da máxima história no início deste mês. Mercado permanece dentro da tendência de alta de curto, médio e longo prazo.
  
  
Na Europa, a bolsa de Frankfurt fechou em baixa pela segunda semana consecutiva, perdendo a linha central de bollinger. O movimento acelera a correção de curtíssimo prazo, mas ainda não ameaça a tendência de alta de médio e longo prazo.


Na Inglaterra, o principal índice da bolsa de Londres fechou em baixa pela terceira semana consecutiva, traçando um quadro técnico semelhante ao apresentado pela bolsa de Frankfurt.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou a semana em baixa, após aproximar-se da máxima histórica. O movimento corretivo de curtíssimo prazo jogou o índice de volta a linha central de bollinger. Caso esta linha de sustentação seja perdida, tendência de curtíssimo prazo poderá ganhar força, rumo ao suporte na casa dos 15.4k.


Desejo a todos vocês um ótimo final de semana!

quarta-feira, 12 de março de 2014

Em ritmo de copa do mundo, inflação fica pra torcida


O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) informou nesta quarta-feira que o IPCA de fevereiro subiu para 0,69%, número ligeiramente acima da média das expectativas do mercado. Nos últimos 12 meses a inflação oficial acumula alta de 5,68%, mantendo-se próxima ao perigoso ponto de equilíbrio (na casa dos 6%) observado nos últimos três anos.

O resultado foi influenciado pela alta nos preços de educação. Os reajustes nas mensalidades de cursos regulares subiram 7,64% e exerceram a maior pressão sobre o índice. O forte reajuste do setor de educação provocou uma queda do indicador de difusão do IPCA para 63,6%, após atingir 71,5% no mês de janeiro, mostrando certo arrefecimento no movimento de alta generalizada dos preços. Ainda assim, difusão de 63,6% é considerado um patamar elevado/desconfortável e precisa ser reduzido para que as expectativas atualmente deterioradas dos agentes não se propaguem para outros segmentos da economia.

Mas a grande preocupação é que nova fonte de pressão inflacionária provocada pela estiagem ainda não atingiu o IPCA. A primeira prévia do IGP-M de março, divulgada hoje pela Fundação Getúlio Vargas, disparou para 1,16%, refletindo os preços mais altos dos alimentos no atacado, principalmente das hortaliças e legumes (mais prejudicados pela seca).

O movimento de aceleração dos preços de alimentos constatado no atacado chegará ao varejo nas próximas semanas/meses, aumentando a pressão sobre o IPCA. O quadro permanece preocupante, pois novas fontes relevantes de pressões sobre os preços impactarão a inflação no curto prazo e não há margem de manobra para o Banco Central evitar um estouro da meta (6,5%) no final deste ano, já que há um delay de pelo menos 9 meses para que as ações de política monetária gerem impacto efetivo na economia.

A inflação acumulada do primeiro bimestre deste ano deixou um espaço de apenas 5,26 pontos percentuais para serem distribuídos pelos 10 meses restantes de 2014 (inflação média de 0,53% por mês) para que o teto da meta estabelecida pelo CMN (Conselho Monetário Nacional) não seja superado, deteriorando ainda mais as expectativas dos agentes, investidores, empresários e agências de classificação de risco.

É uma conta bastante apertada levando em consideração a retomada de crescimento da economia global (onde há o efeito colateral da inflação), necessidade de reajustes dos preços administrados, aumento expressivo da demanda por produtos vinculados à copa do mundo (principalmente televisores) e da própria incapacidade de infraestrutura/atendimento das cidades frente ao aumento do número de turistas. São novas fontes de pressões sobre os preços que podem limitar os efeitos contracionistas provocados pelo ciclo de aperto monetário.

O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, fez os comentários sobre a política monetária durante sua palestra para investidores na Conferência Macroglobal no Brasil, promovida pelo banco Goldman Sachs em São Paulo, provavelmente com a finalidade de conter os ânimos no mercado. Tombini afirmou que tem atuado para garantir que a inflação vá para a trajetória de metas, mas não disse como e nem quando, já que a última projeção do Relatório de Inflação, divulgada no mês de dezembro, revela que o Banco Central está muito longe de atingir o seu objetivo, conforme podemos verificar no quadro abaixo:


A estimativa do Banco Central mostra um ligeiro recuo do IPCA para 5,5% até o segundo trimestre de 2014, mas volta a subir para 5,7% no terceiro trimestre e encerra o ano em 5,6%. Em 2015 a taxa de inflação abrirá perigosamente pressionada em 5,7%, apresentando um pequeno recuo nos próximos trimestres, encerrando o ano em 5,4%.

Daqui pra frente, só resta torcer. Torcer para que o câmbio não ultrapasse os R$ 2,40. Torcer para o governo ser responsável na política fiscal. Torcer contra a indexação. Torcer para que os agentes sejam otimistas e não pessimistas. Torcer para empresas e famílias economizarem água e luz, mesmo sem o alerta do Estado. Torcer para que a alta dos preços administrados seja modesta. Torcer para as pessoas se virarem e não contratem serviços. Torcer para os agricultores e pecuaristas serem gentis e não subirem mais os preços. Torcer para que as TVs fiquem encalhadas nas lojas. E por que não torcer para que a Bósnia-Herzegovina seja a campeã da copa do mundo? É quase a mesma coisa.

No mercado de capitais o índice Bovespa fechou o pregão em alta de 0,36%, mostrando um pequeno movimento de alívio de curtíssimo prazo, ainda insuficiente para provocar uma reversão na tendência de baixa, já que a linha dos 46.1k não foi superada.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones cedeu 0,07%, deixando um candle de indecisão abaixo da LTA dos 15.3k, não confirmando rompimento desta linha de sustentação.