quinta-feira, 26 de junho de 2014

Intensificação de medidas heterodoxas pode ser o prenúncio de mais um ciclo (político) de afrouxamento monetário


Político nenhum no Brasil (e talvez no mundo) quer entregar uma taxa básica de juros acima do patamar constatado no início do seu mandato. Mas para um governo que criticou firmemente o nível elevado da taxa básica de juros brasileira, e provocou intervenções estabanadas a fim de concretizar sua promessa, realizar este feito não é algo apenas desagradável, mas uma clara demonstração de incapacidade de gestão e falta de planejamento. Um prato cheio para oposição que saiba trabalhar.

Entretanto, os últimos acontecimentos podem indicar que o governo da presidente Dilma Rousseff não quer entregar este prato cheio à oposição. As medidas heterodoxas utilizadas na tentativa (frustrada no médio e longo prazo) de combate à inflação persistentemente elevada aumentaram nos últimos dias/semanas.

O Banco Central anunciou a extensão do seu programa de intervenção no mercado de câmbio até o fim deste ano sem qualquer mudança, contrariando as expectativas do mercado e, consequentemente, aumentando a pressão para que o dólar continue em movimento corretivo, abaixo de R$ 2,25, barateando insumos e mercadorias importadas, fato que contribui para alívio da inflação de curtíssimo prazo.

Já o governo federal zerou o imposto de importação de 1 milhão de toneladas de trigo de fora do Mercosul até o dia 15 de agosto. A medida surpreendeu o mercado, porque foi anunciada num momento de colheita (ampla oferta no Sul e Sudeste do País) e, portanto, tem potencial para derrubar os preços da commodity agrícola, aliviando a inflação de produtos vinculados à enorme cadeia do trigo no curtíssimo prazo.

Até o ex-presidente Lula disse recentemente que “vamos levar a inflação para dentro da meta mantendo o nível de emprego”. Essa afirmativa reforça a tendência de intensificação de medidas heterodoxas para combater a inflação, já que as medidas ortodoxas (aumento da taxa de juros, por exemplo) são contracionistas e afetam o mercado de trabalho.

A criação de postos de trabalho no mês de maio foi a mais baixa dos últimos 22 anos. Anexando este dado aos renovados e decepcionantes indicadores de crescimento econômico, o governo tem em mãos “justificativas” para afrouxar a política monetária, mesmo que seja 0,25 p.p. abaixo do patamar observado no início do seu mandato, num momento oportuno (véspera das eleições presidenciais).

Obviamente não há espaço técnico para queda da taxa Selic no curto prazo. A inflação está alta e não há perspectiva de aproximação do centro da meta nos próximos 24 meses. As expectativas continuam deterioradas. Quadro preocupante. A probabilidade maior ainda é de manutenção da taxa básica de juros aos 11% ao ano. Mas suspeitamos, neste atual governo, que as decisões de política monetária não são tomadas dentro do prédio do Banco Central. Portanto, o fator surpresa (de viés político) não pode ser descartado.

Outras economias emergentes, que passam por situação semelhante de desaquecimento econômico e inflação elevada, cortaram suas respectivas taxas básicas de juros recentemente. O Banco Central da Turquia cortou a taxa de operações compromissadas (principal) em 0,75 p.p., para 8,75%. A decisão sofreu forte influência do primeiro ministro Tayyip Erdogan. A inflação no País atingiu 9,66% em maio, bem acima da meta de 5%.

O Banco Central do México realizou um corte de 0,25 p.p. na taxa básica de juros, para mínima recorde de 3% ao ano, devido ao forte desaquecimento provocado pelo seu maior parceiro comercial (Estados Unidos). A inflação local de 3,51% está acima da meta de 3% a ser perseguida pela autoridade monetária.

O excesso de otimismo no mercado, observado pela forte entrada de recursos em economias emergentes (busca por rendimentos mais elevados em ativos de risco, conseqüência do melhor entendimento do calendário do FED), permite aos banqueiros centrais afrouxarem os juros pontualmente (reduzindo o prêmio de risco) sem provocar estresse e/ou fuga de capitais de curtíssimo prazo.

No mercado de capitais o índice Bovespa trabalha mais um movimento corretivo de curtíssimo prazo, mas ainda sem comprometer a tendência de alta iniciada na região dos 44.9k.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones permanece em tendência de alta sem apresentar novidades.


quarta-feira, 18 de junho de 2014

Banqueiros centrais demonstram preocupação com excesso de otimismo dos mercados


A reunião do Comitê de Política Monetária do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) foi o grande destaque dos últimos dois dias no mercado de capitais. O Banco Central norte-americano deu continuidade aos planos de encerrar seus principais programas de estímulo até o fim do ano, reduzindo as compras mensais de títulos para 35 bilhões de dólares, ante 45 bilhões de dólares.

A decisão de política monetária não surpreendeu o mercado. Entretanto, a projeção para trajetória da taxa básica de juros está mais agressiva. Para o fim de 2015, a mediana das estimativas do FED subiu para 1,12%. Para o fim de 2016, a mediana das estimativas do FED subiu de 2,25% para 2,50%. Já a projeção para a taxa de juros de longo prazo caiu de 4% para 3,75%.

O fato de o Banco Central norte-americano projetar taxas de juros mais elevadas nos próximos dois anos não preocupou o mercado. Pelo contrário, ativos de risco de diferentes classes continuaram mantendo o bom ritmo de valorização em quase todas as praças financeiras mundiais.

Este quadro é um reflexo do excesso de otimismo observado atualmente no mercado. Investidores/operadores não estão preocupados, no momento, com o que vai acontecer a partir de 2015.

Mas este quadro começa a incomodar dois dos principais banqueiros centrais mundiais. A chair do FED, Janet Yellen, afirmou nesta quarta-feira ser preocupante a possibilidade de a pouca volatilidade nos mercados induzir a tomada de risco. Yellen disse ainda que é importante (aos participantes do mercado) reconhecer que há incertezas sobre qual será o rumo das taxas de curto prazo.

Além disso, sinais de aceleração da inflação podem adiantar o momento do aperto monetário nos Estados Unidos. O Índice de Preços ao Consumidor (indicador de inflação oficial) subiu 0,4% no mês passado, registrando a maior alta dos últimos 12 meses.

Na Inglaterra, a ata divulgada nesta quarta-feira do Banco Central britânico destacou surpresa dos diretores do Comitê de Política Monetária com os mercados, pois os participantes não estão precificando a maior probabilidade de aumento da taxa de juros.

Na semana passada, o presidente do Banco Central, Mark Carney, disse que uma elevação na taxa básica de juros poderia vir mais cedo do que os mercados esperavam. Isso significa que os juros devem subir na Inglaterra no mês de dezembro deste ano. O mercado apostava que o aperto monetário começaria no mês de março de 2015.

Esta é a primeira vez que dois dos principais bancos centrais mundiais mostram preocupação com o excesso de otimismo nos preços dos ativos. Mas a busca desenfreada por rendimentos mais elevados no curto prazo fazem com que investidores/operadores ignorem estes avisos importantes.

Surfando na onda de otimismo, o índice Bovespa subiu 1,66% nesta quarta-feira, colado na máxima do ano. Mercado em forte tendência de alta de curto prazo, sem sinalização de topo ou reversão.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones subiu 0,58%, colado na máxima histórica, sem apresentar novidades.


quarta-feira, 11 de junho de 2014

Desapontamento do Banco Mundial aumenta com mercados emergentes


O Banco Mundial revisou para baixo suas projeções de crescimento aos mercados emergentes na noite da última terça-feira. A estimativa para média do PIB (Produto Interno Bruto) dos países emergentes este ano caiu de 5,3% para 4,8%.

Segundo os economistas da instituição, os países emergentes terão um crescimento econômico mais decepcionante do que o previsto anteriormente e não estarão a salvo da volatilidade financeira (consequência da normalização das condições monetárias nos países desenvolvidos). A crise na Ucrânia, a mudança do modelo econômico na China e os problemas políticos em países como Brasil e Turquia foram os principais fatores que pesaram na reavaliação negativa do banco.

O quadro pode, inclusive, se deteriorar ainda mais. No relatório, o Banco Mundial ressalta que “é provável que ocorram novos episódios de volatilidade quando os investidores especularem com o calendário e o alcance das mudanças na política econômica dos países ricos.”

Uma espécie de amostra deste movimento ocorreu na segunda metade do ano passado. Players de mercado retiraram repentinamente seus recursos das praças emergentes e provocaram desvalorização significativa em diversas classes de ativos.

O Banco Mundial recomendou aos países emergentes aproveitarem a janela de oportunidade (clima de otimismo elevado no mercado) para reduzirem seus respectivos déficits em conta corrente, criando mecanismos para absorver choques futuros.

Entretanto, a tarefa para o Brasil é justificadamente mais extensa, já que há bastante tempo não fazemos o dever de casa. Precisamos dissolver parte da perigosa combinação de inflação elevada, crescimento baixo, déficit em conta corrente e descumprimento das metas de superávit primário. Até o momento, nenhuma ação do governo esta sendo direcionada a este fim.

A projeção de crescimento do Banco Mundial para o PIB brasileiro despencou de 2,4% para 1,5% este ano. As reformas estruturais continuam sendo cobradas nos relatórios e sustentariam uma taxa de crescimento melhor. O governo, por outro lado, segue ignorando-as.

No mercado de capitais, o índice Bovespa fechou em alta pelo quarto pregão consecutivo, refletindo mais um rali mundial observado em ativos de risco de diversas praças financeiras. Bolsa na máxima do ano, juros e câmbio próximos da mínima do ano mostram o apetite voraz dos investidores/operadores pelos ativos de risco, em busca de prêmios mais elevados até a (pré) fase de normalização das condições monetárias nas economias desenvolvidas.


Nos Estados Unidos, o índice Dow Jones fechou o pregão em queda de 0,60%, formando topo de curtíssimo prazo no patamar psicológico dos 17k. Mercado pode retornar a linha de suporte dos 16.7k nos próximos pregões sem comprometer a tendência de alta, inclusive de prazos mais curtos.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Polêmica persiste


O final da tarde desta terça-feira ficou marcado por mais uma divulgação polêmica de pesquisa eleitoral. A pesquisa realizada pelo Ibope entre os dias 04 e 07 de junho mostrou que a presidente Dilma Rousseff tem 38% das intenções de voto, indicando queda de 2 pontos percentuais frente a última pesquisa do mesmo Instituto feita entre os dias 15 e 19 de maio.

Entretanto, a pesquisa realizada pelo Datafolha, entre os dias 3 e 5 de junho, mostrou Dilma Rousseff com apenas 34% das intenções de voto. Levando em consideração que as duas pesquisas foram realizadas praticamente no mesmo período, a diferença é vergonhosamente significativa.

Os dois Institutos utilizam metodologias diferentes de pesquisa. Entretanto, a pergunta de intenção de voto é idêntica. Como a margem de erro e grau de confiabilidade são, também, idênticas nas duas pesquisas, é possível fazer a devida comparação entre números específicos (pergunta de intenção de voto).

Partindo do pressuposto que tanto os números do Datafolha, quanto os números do Ibope, estão corretos, não resta outra solução a não ser admitir a existência de um elevado grau de volatilidade na opinião do eleitor brasileiro. Em outras palavras, parte da população está tão indecisa, que acorda de manhã pensando em escolher a presidente Dilma e dorme pensando em votar num outro candidato de oposição, sabe-se lá por qual motivo. Talvez porque vai chover.

Em suma, persiste a sensação de que não há credibilidade nos números apresentados, fato que pode prejudicar avaliações de projeções macroeconômicas, embora, no geral, a possibilidade de reeleição da presidente Dilma Rousseff é maior do que a possibilidade de vitória de qualquer candidato da oposição.

Perdura, ainda, a percepção de que os 34% de intenções de voto à presidente Dilma apurados pelo Datafolha estão “fora da curva”. Os resultados já conhecidos de outros institutos de pesquisas estão mais próximos dos números apontados pelo Ibope.

Mesmo assim, o índice Bovespa reagiu de maneira positiva à pesquisa Ibope, divulgada no horário de fechamento do mercado. Com uma valorização de 0,61%, o Ibovespa iniciou o rompimento da zona de resistência localizada na região dos 54.5k, pendente de confirmação no próximo pregão para acionar o pivot de alta.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones subiu 0,11%, sem apresentar novidades.


segunda-feira, 9 de junho de 2014

China quer mais e mercados intensificam rali


Números positivos divulgados pela Administração da Alfândega chinesa no último domingo, dia 08/06/2014, eram um presságio de que o tom de otimismo dominaria a abertura da semana nas principais praças financeiras mundiais.

As exportações avançaram 7% no mês de maio em relação ao mesmo mês do ano anterior e 0,9% frente ao resultado obtido no mês passado. Os dados da Alfândega batem com os indicadores econômicos das principais economias mundiais, sobretudo dos Estados Unidos.

As importações recuaram 1,6%, contra alta de 0,8% em abril. O superávit comercial da China aumentou para 35,9 bilhões de dólares em maio, superior aos 18,5 bilhões registrados no mês de abril.

Os números positivos da balança comercial mostram que as exportações chinesas subiram impulsionadas pela maior demanda global, levantando o tom de otimismo nos mercados, e, ao mesmo tempo, salientam, através da queda das importações, as dificuldades naturais observadas da fase de transição do modelo econômico.

O Banco Popular da China (considerado o banco central do País) quer mais impulso na atividade econômica e, para isso, anunciou nesta segunda-feira, corte de 0,5 ponto percentual na taxa de compulsório para bancos com volume considerável de empréstimos ao setor agrícola, empresas financeiras que realizam empréstimos a consumidores pessoa física e pequenas e médias empresas.

Segundo a autoridade monetária, o corte direcionado do compulsório tem objetivo de encorajar bancos comerciais a alocarem mais fundos a áreas que precisam de suporte na economia real, garantindo uma transmissão mais suave da política monetária para a economia real. O banco central disse ainda, em comunicado, que a direção básica da política monetária não mudou e que a oferta de liquidez no sistema bancário do País é ampla e será mantida em um nível apropriado.

Com os números positivos da balança comercial chinesa e corte na taxa de compulsório, mesclados com o crescimento de 1,6% da economia japonesa no primeiro trimestre deste ano (superando expectativas do mercado), somados, ainda, com a criação de 217 mil postos de trabalho nos Estados Unidos no mês de maio (primeira vez que o crescimento de empregos ultrapassou os 200 mil por quatro meses consecutivos desde janeiro de 2000) e reflexo das medidas de estímulo monetário anunciadas pelo Banco Central Europeu na semana passada (corte na taxa básica de juros de 0,25% para 0,15% ao ano, punição aos bancos que deixarem dinheiro sem movimentação e relançamento de um programa que vai colocar até 400 bilhões em novos financiamentos no mercado), os investidores/operadores encontraram motivos de sobra para comprar ativos de risco nesta segunda-feira nas principais praças financeiras mundiais.

O fator câmbio (direcional de curto prazo) aumentou a atratividade dos ativos brasileiros, após o governo anunciar cortedo IOF sobre captações externas com prazo acima de 180 dias e continuação do programa de intervenção diária do Banco Central no mercado de câmbio para além de junho. Na semana passada, a moeda norte-americana chegou a se aproximar do patamar de R$ 2,30, provocando reação do governo. Nesta segunda, o câmbio fechou cotado aos R$ 2,23.

O Ibovespa manteve-se comprado e fechou em forte alta pelo segundo pregão consecutivo, aproximando-se da máxima do ano, com boa possibilidade de rompimento.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones renovou a máxima histórica pelo terceiro pregão consecutivo. Mercado permanece comprado no curto, médio e longo prazo.


sexta-feira, 6 de junho de 2014

A mágica da amostra


A pesquisa Datafolha divulgada na manhã desta sexta-feira, contratada pelo jornal Folha de São Paulo, provocou um grande alvoroço no mercado financeiro nacional. A bolsa que operava vendida até ontem abriu comprada nesta sexta-feira sem a realização de nenhum negócio, consequência da abertura em GAP, na máxima do dia.

Os vendedores sumiram da praça da noite para o dia. Investidores/operadores interessados em comprar papéis na bolsa brasileira foram obrigados a subirem significativamente suas respectivas ofertas. Este quadro foi altamente influenciado pela divulgação da pesquisa Datafolha, realizada entre os dias 03 e 05 de junho, que apontou queda das intenções de voto da presidente Dilma Rousseff para 34%.

O resultado é bem diferente do que foi apurado pela pesquisa Ibope, realizada entre os dias 15 e 19 de maio, divulgada no dia 22/05/2014. Segundo o Ibope, a presidente Dilma tem 40% das intenções de voto.

A diferença das intenções de voto da pesquisa Ibope para a pesquisa Datafolha é relativamente expressiva para um curto período de tempo marcado pela ausência de notícias de forte impacto popular, tanto na área política, quanto na área econômica. Logo, a credibilidade dos números tende a ser questionada.

A resposta deste questionamento foi omitida pela mídia, mas pode ser encontrada através de uma pesquisa detalhada no site do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Há uma diferença gritante nos dados da amostra utilizados na última pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha que diverge, inclusive, de sua própria pesquisa anterior, realizada nos dias 07 e 08 de maio, inviabilizando, também, a comparação dos dados coletados pelo próprio Instituto.

Ao invés de entrevistar 2.880 eleitores em 176 municípios (ou 2.630 eleitores em 162 municípios), como vinha fazendo nas últimas pesquisas, o Datafolha agora entrevistou 4.340 eleitores em 207 municípios, sendo que, deste total, 2.030 eleitores foram entrevistados somente no estado de São Paulo. Isso significa que a amostra está claramente desproporcionalizada, com foco na opinião dos eleitores de um único Estado e não do País inteiro.

É justamente na região Sudeste que a presidente Dilma Rousseff tem menos intenções de voto. Segundo o próprio Datafolha, Dilma tem 26% e aparece em situação de empate técnico com Aécio, que tem 25% das intenções de voto na região. Campos tem apenas 4%.

Está explicado, portanto, o motivo responsável pela divergência com os dados apresentados pelo Instituto Ibope (coletados com as devidas proporções de cada Estado/região) e queda expressiva das intenções de voto da presidente Dilma Rousseff.

Entretanto, não foi explicado pelo contratente (Jornal Folha de São Paulo) a opção pela mudança significativa na metodologia de coleta dos dados, com foco na opinião dos eleitores paulistas. Impressiona, também, a falta de destaque deste importante detalhe nas matérias dos principais jornais.

Lamentavelmente a informação não foi repassada de maneira adequada, fato que pode prejudicar a formação de opinião, processo de tomada de decisão e, ainda, favorecer o interesse de quem a fornece.

Novamente especulou-se no mercado financeiro a possibilidade de vitória da oposição na eleição presidencial deste ano. Curioso constatar que, não obstante, no fechamento do pregão anterior, houve forte manifestação de força compradora, provocando redução no percentual de queda do índice. A pesquisa Datafolha foi divulgada na manhã desta sexta-feira, minutos antes da abertura do mercado.

O movimento desta sexta-feira alterou todo o quadro técnico do índice Bovespa. A tendência de baixa foi revertida com formação de fundo na região dos 51k. Entretanto, perde-se qualidade na sinalização técnica, por conta das informações disponibilizadas ao público, aparentemente cuidadosamente trabalhadas.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou mais uma semana em alta, renovando a máxima histórica. Mercado em tendência de alta de curto, médio e longo prazo.


Quadro semelhante observado nos principais mercados europeus. O índice DAX, na Alemanha, também renovou a máxima histórica.
  
  
Na Índia a bolsa de Bombay fechou a semana em forte alta, recuperando o prejuízo da semana anterior, voltando a atingir a pontuação mais elevada de sua história.


Na China a bolsa de Xangai fechou a semana em baixa, congestionada no curto prazo, sem apresentar novidades.


Desejo a todos vocês um ótimo final de semana!

PS: Logo abaixo, segue análise da última ata do Copom, divulgada na quinta-feira.

Banco Central apresenta seus argumentos para não perseguir a meta de inflação


A ata do Copom (Comitê de Política Monetária) divulgada na última quinta-feira não apresentou novidades relevantes em matéria de política monetária. Pode-se observar no documento enxuto que o Banco Central esquivou-se de assuntos polêmicos relacionados às circunstâncias do quadro de inflação persistentemente elevada para dar mais ênfase à enfraquecida atividade econômica.

Mesmo com a caracterização de transição da política de aperto monetário para manutenção da taxa básica de juros, a ata de reunião do Comitê é quase uma cópia do documento emitido na reunião anterior, realizada nos dias 1 e 2 de abril, com pequenas alterações.

O grande destaque ficou por conta da inclusão do trecho onde o Banco Central explica que as condições monetárias foram apertadas nos últimos doze meses para combater as pressões inflacionárias, inclusive dos preços administrados (atualmente represados pelo governo). Para complementar, a autoridade monetária ressalta que “os efeitos da elevação da taxa Selic sobre a inflação, em parte, ainda estão por se materializar. Além disso, é plausível afirmar que, na presença de níveis de confiança relativamente modestos, os efeitos das ações de política monetária sobre a inflação tendem a ser potencializados.”

Na reunião realizada no mês de abril, a avaliação do Banco Central era de que parte significativa da alta de juros ainda teria efeito na inflação. A retirada da palavra “significativa” mostra que uma parte (não menosprezável) dos efeitos da elevação da taxa Selic já se materializou na economia. Como a inflação permanece persistentemente elevada, percebe-se que esta primeira carga de aperto monetário não surtiu efeito algum.

Curioso constatar, também, mudança repentina por parte da autoridade monetária na percepção dos agentes econômicos. O Copom retirou da ata o seguinte trecho a seguir: “Nesse contexto, inserem-se também os mecanismos formais e informais de indexação e a percepção dos agentes econômicos sobre a dinâmica da inflação. Tendo em vista os danos que a persistência desse processo causaria à tomada de decisões sobre consumo e investimentos, na visão do Comitê, faz-se necessário que, com a devida tempestividade, o mesmo seja revertido. Dessa forma, o Copom entende ser apropriado ajustar as condições monetárias.”

Entende-se pela avaliação do Banco Central que os mecanismos de indexação simplesmente sumiram. A percepção dos agentes econômicos também deixou de ser um motivo de preocupação da autoridade monetária. Análise totalmente desencontrada da realidade.

Além disso, todo o parágrafo exclusivamente destinado aos impactos inflacionários provocados pela oscilação da taxa câmbio foi cortado da ata. Isso mostra que, na avaliação do Copom, o atual patamar de câmbio não constitui fonte de pressão inflacionária em prazos mais curtos e, portanto, não há motivo para nova elevação da taxa Selic.

As intervenções diárias do Banco Central no mercado de câmbio mostram claramente o viés inflacionário. Para não se sentir forçado em subir novamente a taxa básica de juros, a autoridade monetária entrou fortemente no mercado com as operações de swaps a fim de derrubar a taxa de câmbio de R$ 2,45 (máxima deste ano) para R$ 2,20 (até o final do mês passado, quando a reunião de Comitê foi realizada).

As novas projeções de inflação, calculadas dentro do cenário de referência (manutenção da taxa de câmbio em R$ 2,20 e da taxa Selic em 11,00% ao ano em todo o horizonte relevante), diminuíram em relação ao valor considerado na última reunião, mas permanecem acima da meta de 4,5%. Levando em consideração a base das últimas projeções divulgadas ao mercado (Relatório Trimestral de Inflação), os números permanecem acima e bem distantes da meta de 4,5%.

Ao final da leitura de uma ata curta e contraditória, fica a sensação de que o Banco Central quer porque quer manter a taxa Selic em 11,00% ao ano, mesmo que este patamar seja insuficiente para provocar o recuo da inflação ao centro da meta, que é o objetivo a ser perseguido pela autoridade monetária.

Entretanto, a inobservância de impactos contracionistas estimulados pela primeira parte do ciclo de aperto monetário, que já se materializou na economia, mostra que infelizmente o Banco Central não tem muito que fazer para controlar de vez a inflação, a não ser pela via mais dolorosa do choque de juros, já que a política fiscal expansionista do governo federal tem conseguido, até o momento, anular por completo os efeitos da elevação da taxa Selic.

Ao que tudo indica, o remédio amargo está sendo tomado em vão. Parece até que o aperto monetário não passa de um teatro protagonizado pelo Banco Central, com objetivo de dar uma resposta à população bastante inquieta com os índices persistentemente elevados de inflação. Atraiu a atenção de todos nós, mas o problema continua sem solução.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

É preciso desenhar


Os economistas pedem ajuda aos artistas plásticos. A presidente Dilma Rousseff disse na última terça-feira a jornalistas estrangeiros que não consegue explicar porque o Brasil não está crescendo mais rápido.

A declaração impressiona, visto que o assunto foi amplamente debatido no mercado financeiro nos últimos quatro anos. Se depois de tantos estudos, discussões, projeções e até mesmo soluções apresentadas, os economistas ainda não conseguem fazer a presidente entender porque o País não cresce (ou o que se deve fazer para o País crescer), será necessário convidar os artistas plásticos para desenhar o nosso quadro doméstico.

O trabalho não será fácil. Os artistas precisarão mostrar talento e dedicação. O quadro deve ser bem grande para caber todas as imagens dos nossos problemas. A começar pelo ambiente de negócios extremamente desfavorável. Os velhos problemas relacionados à infraestrutura deficitária, excesso de burocracia, carga tributária elevada e baixo nível de educação, somam-se às novas variáveis criadas pelo alto grau de intervenção do Estado na economia, dentre as quais pode-se destacar lamentavelmente a permanência da inflação em níveis elevados e distantes do centro da meta (4,5%), péssima gestão dos recursos públicos, estratégias equivocadas de política econômica e perda de confiança e credibilidade entre investidores e empresários. A ineficácia destas intervenções resultou em mais aumento do gasto público, alavancou o nosso endividamento, elevou o déficit fiscal e prejudicou as metas de superávit primário.

Um verdadeiro lamaçal. Esta é a imagem que poderá surgir após a conclusão do trabalho realizado pelos artistas plásticos.

Ainda na entrevista concedida aos jornalistas estrangeiros, Dilma mostrou-se satisfeita em termos gerais com o curso de seu governo e ressaltou que as condições domésticas estão maduras para um crescimento saudável, o que de fato reforça a tese de mais do mesmo num provável segundo mandato da presidente.

O corte do IOF sobre captações externas com prazo acima de 180 dias anunciado pelo ministro Mantega nesta quarta-feira mostra que o governo não mudou sua linha de raciocínio. Continua tentando combater a inflação brasileira com medidas heterodoxas, onde a história já mostrou inúmeras vezes que não funcionam. Enquanto a política fiscal continuar expansionista, a inflação permanecerá pressionada.

A medida anunciada hoje pode elevar o fluxo de entrada de dólares para o Brasil, ajudando a pressionar o câmbio para baixo, evitando a valorização de curto prazo da moeda norte-americana e o encarecimento de produtos importados.

O governo nega que a medida é motivada por temores do efeito do câmbio sobre a inflação. Entretanto, o anúncio foi “curiosamente” realizado após o câmbio se aproximar do patamar de R$ 2,30, num forte movimento de retomada de curtíssimo prazo.

A bolsa de valores brasileira encerrou o pregão desta quarta-feira em leve baixa de 0,38%, sentindo a região de resistência dos 52k (inicialmente ponto de pullback). Mercado ainda sustentado pelo apoio da média móvel simples de 200 períodos diária, entretanto, sem sinalização de reversão na tendência de baixa.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão em leve alta de 0,09%, sem apresentar novidades. O Livro Bege, divulgado hoje pelo FED (Federal Reserve – Banco Central norte-americano), atingiu as expectativas do mercado ao mostrar fortalecimento da economia após o inverno rigoroso que impactou a atividade no primeiro trimestre de 2014.


segunda-feira, 2 de junho de 2014

Medição oficial do governo chinês pode estar otimista demais


Segunda-feira de alívio nas principais praças financeiras mundiais. O movimento foi basicamente patrocinado pela divulgação do indicador que mede o desempenho da atividade industrial na China, calculado pela Agência Nacional de Estatísticas.

Segundo o governo chinês, o Índice de Gerentes de Compras atingiu os 50,8 pontos no mês de maio, mostrando expansão da atividade manufatureira no ritmo mais rápido dos últimos cinco meses. A leitura do indicador induz à visão de que o gigante asiático está retomando rapidamente o ímpeto de crescimento no segundo trimestre deste ano.

Entretanto, a medição mais confiável, feita pelo Instituto Markit (agência privada), em conjunto com o Banco HSBC, mostra estabilização no ritmo de crescimento econômico chinês, que vinha numa trajetória descendente e relativamente agressiva desde o início deste ano.

O número final para o mês de maio ainda não saiu, mas a prévia calculada pelo Instituo Markit, divulgada no dia 22/05/2014, sugere uma pequena contração da atividade industrial aos 49,7 pontos. Seria necessário, portanto, um crescimento significativo nos últimos dias do mês para o fechamento do índice calculado pelo Instituto Markit coincidir com a pesquisa realizada pelo governo chinês.

Embora a atividade esteja em retomada na China, esta possibilidade (atingir os 50,8 pontos do governo) parece improvável num curto espaço de tempo. Isso significa que a medição da Agência Nacional de Estatísticas pode estar otimista demais.

Nos Estados Unidos, o Índice Gerente de Compras calculado pelo Instituto Markit subiu para 56,4 pontos no fechamento do mês de maio, superior aos 55,4 pontos registrados em abril. A medição também superou levemente a leitura preliminar de 56,2 pontos divulgada no final do mês passado.

O indicador elevado sugere retomada significativa do crescimento norte-americano no segundo trimestre deste ano, após a derrapada de 1% registrada no primeiro trimestre, fruto das condições climáticas extremamente adversas.

Na zona do euro o Índice Gerente de Compras caiu para 52,2 pontos no mês de maio, ante os 53,4 pontos registrados no mês de abril, atingindo a mínima dos últimos 6 meses. A desaceleração no ritmo de expansão da atividade industrial alimentou expectativas de que o BCE (Banco Central Europeu) anuncie medidas de afrouxamento monetário na reunião de Comitê desta semana.

No Brasil, o Índice Gerente de Compras mostrou que o ritmo de contração da atividade industrial aumentou no mês de maio, ao atingir os 48,8 pontos. A medição é inferior aos 49,3 pontos registrados no mês de abril. Este indicador reforça fraqueza ainda maior da economia no segundo trimestre deste ano.

Ainda nesta segunda-feira, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior informou que a balança comercial brasileira registrou superávit de apenas 712 milhões de dólares no mês de maio. Este é o pior desempenho para o mês desde 2002. Houve registros de fortes quedas na maioria dos produtos exportados. O câmbio próximo ao patamar de R$ 2,20 na maior parte do tempo no mês passado afetou ainda mais a já debilitada competitividade das empresas brasileiras.

O índice Bovespa aliviou nesta segunda-feira ao subir 0,72%. Movimento puramente técnico, devido aproximação da média móvel simples de 200 períodos diária, trabalhando como ponto de suporte (a princípio temporário).


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones subiu 0,16%, encostando novamente na máxima histórica, sem apresentar novidades. Mercado segue dentro da tendência de alta de curto, médio e longo prazo.