sábado, 30 de agosto de 2014

As desculpas, a incompetência e o paradoxo do mercado


O pacote de desculpas apresentado pelo governo, para justificar a sequência de PIBs (Produto Interno Bruto) vergonhosos dos últimos anos (e não somente dos últimos trimestres), está cada vez maior.

Os velhos e conhecidos culpados, como a crise internacional, políticas monetárias dos bancos centrais e condições climáticas adversas cederam espaço para entrada de mais uma desculpa no pacotão do governo: a Copa do Mundo.

Agora, na avaliação do governo, a Copa do Mundo é uma das culpadas pelo recuo de 0,6% do PIB do segundo trimestre deste ano, na comparação com o trimestre anterior, e 0,9% em relação ao mesmo período do ano passado. O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) também revisou para baixo o resultado do primeiro trimestre deste ano (de crescimento de 0,2% para queda de 0,2%), o que colocou o país em recessão técnica, situação caracterizada por dois trimestres seguidos de crescimento negativo.

Importante ressaltar que nos meses/anos anteriores à realização da Copa do Mundo, diversas autoridades políticas costumavam dizer que o Mundial era uma oportunidade histórica para promovermos desenvolvimento socioeconômico. Esse discurso, obviamente, sumiu. De heroína à vilã, o evento da Copa do Mundo sinaliza, mais uma vez, incompetência de nossas autoridades. Dois discursos tão controversos reforçam a percepção de que o governo não faz a menor ideia do que está falando.

Além disso, está cada vez mais difícil arrumar justificativas diferentes daquelas cantadas em coro pelos investidores, empresários, economistas, instituições e agências de classificação de risco nos últimos anos. A nova desculpa presente no pacotão do governo não bate nem com o calendário. A Copa do Mundo ocorreu no final do segundo trimestre, e não durante todo o primeiro semestre de 2014, caracterizado por contração do crescimento. Isso significa que a atividade econômica já estava fraca antes mesmo da realização do torneio. Aliás, desde quando a presidente Dilma subiu a rampa do Palácio do Planalto, o País cresce abaixo do seu potencial.

Crescer abaixo do potencial não é bom. Crescer bem abaixo do potencial é decepcionante. Não crescer nada, e ainda contrair, é repugnante para um País como o Brasil, com tantas oportunidades de negócio. Como se não bastasse, a recessão do primeiro semestre está casada com uma inflação 3,70% no período. Situação inaceitável.

O governo não admite que errou e continua batendo cabeça na parede. Essa lamentável atitude sacramentou a disparada do clima de desconfiança entre investidores, empresários e consumidores. O descontentamento com a política econômica é generalizado. O excesso de intervencionismo estatal levantou mais uma barreira ao crescimento econômico, fazendo companhia à pilha de problemas estruturais ignorada nos últimos anos/décadas. A política fiscal expansionista e o represamento de preços administrados contribuiu para esgotar o modelo de crescimento e acelerar os índices de inflação. O aumento de subsídios a determinados setores só aumentou o descontentamento da maioria dos não beneficiados, provocando desaceleração vertiginosa das taxas de investimento, que já eram baixas.

As declarações do ministro da Fazenda reforçam a percepção de que o governo continua adotando a estratégia da política da negação. Mantega negou que o Brasil tenha entrado em recessão. Mas isso não é uma novidade, já que sua forma de avaliar a economia parece ser diferente daquela pregada no planeta Terra. Ao negar os problemas visíveis, não resta outra opção a não ser procurar por novas desculpas a serem apresentadas nos próximos trimestres de crescimento vergonhoso. Desse modo, parece que o pacote de desculpas e a incompetência são os únicos pontos que o governo realmente consegue fazer crescer neste País.

A situação do mercado de capitais brasileiro segue desconectada dos fundamentos econômicos, pelos motivos apresentados neste blog nos últimos meses. Preços (otimistas) descolados dos fundamentos (pessimistas) não é uma situação corriqueira do mercado financeiro brasileiro. Este quadro pode ser constatado facilmente nas principais praças financeiras mundiais.

S&P500 já subiu cerca de 200% desde o mês de março de 2009 (mínima do crash provocado pela crise do subprime), contrastando com o baixo desempenho da economia norte-americana no período. Mercados europeus romperam máximas histórias em meio ao cenário de recessão ou baixo desempenho econômico na União Europeia. O índice Nikkei, da bolsa de Tóquio, acumula alta de 120% desde março de 2009, enquanto o País luta para sair de uma longa deflação. Algumas bolsas de importantes mercados emergentes, que entraram atrasadas no rali global, romperam recentemente suas respectivas máximas históricas contrastando com a desaceleração do crescimento econômico e surgimento de problemas estruturais. O principal índice da bolsa de Bombay, na Índia, por exemplo, conseguiu até mesmo ultrapassar o desempenho do S&P500, fruto do pânico de alta dos últimos meses, acumulando quase 250% de valorização desde o fundo registrado na crise do subprime.

O mercado brasileiro, ocupando os últimos lugares da fila do rali global, começou a subir no mês de abril deste ano, enquadrando-se ao ritmo das demais praças financeiras mundiais. Entre os mercados com boa abertura ao capital estrangeiro, o Brasil era um dos poucos, se não o único, que ainda não havia iniciado uma forte trajetória ascendente de preços.

O marubozu de alta registrado no mês de agosto provocou o acionamento de um pivot de alta no gráfico mensal do Ibovespa, distanciando-se (para cima) da média móvel simples de 20 períodos mensal, fruto da formação de um fundo duplo. Os preços chegaram à LTB do topo histórico, com boa possibilidade de rompimento. Movimento técnico extremamente relevante, responsável, no passado, por caracterizar nascimentos de bull market.



Mais importante, entretanto, do que a repetição dos fatores técnicos do passado é a formação da tendência de alta iniciada na região dos 44.9k, que pode ser identificada com mais antecedência. Tendência, hoje, em manutenção e sem sinalização de reversão.

Importante ressaltar que os ciclos de alta são prenúncios de bolhas no futuro, caracterizado, justamente, pelo deslocamento ascendente mais rápido dos preços dos ativos em relação aos fundamentos, o que causa distorções, que vão se aumentando com o passar do tempo dentro dos ciclos de alta nas bolsas de valores. Quando esta distorção torna-se insustentável, surge um novo ciclo corretivo no mercado, inicialmente agressivo. As durabilidades destes ciclos são, normalmente, longas, mas podem ser interrompidas pelos bancos centrais que estão bem mais ativos hoje do que nas décadas passadas.

Portanto, a manutenção deste ritmo ascendente nos próximos anos provocará a formação de bolhas nos preços dos ativos em diversas praças financeiras mundiais. Como este rali é fruto das políticas monetárias dos principais bancos centrais mundiais, provocar a interrupção do mesmo não será difícil, do ponto de vista prático. O complicador maior está na administração deste futuro choque. Tanto a economia, quanto os governos e bancos centrais, precisam ganhar mais tempo para que tenham condições de amortecer a próxima crise, administrar o impacto e realizar novas intervenções no mercado.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Mercados europeus voltam ao rali global


Afetados temporariamente por fatores econômicos e geopolíticos negativos no mês passado, os mercados europeus conseguiram retornar, recentemente, para o rali global mais intenso dos últimos cinco anos.

O movimento é diferente das outras arrancadas, onde as praças eram selecionadas pelos principais players de mercado. Hoje qualquer mercado do planeta está com sinal verde para receber a enxurrada de dólares em busca de ativos com retornos atrativos antes de os principais banqueiros centrais mundiais alterarem suas respectivas políticas monetárias.

A festa do dinheiro farto e barato está se aproximando do fim. Entretanto, a manutenção da cautela no FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) e principais bancos centrais mundiais, faz com que grande parte dos investidores/operadores não demonstre interesse em sair de posições de risco antes do apagar das luzes. Pelo contrário, querem aproveitar até o último momento. Sabe-se lá quando os bancos centrais patrocinarão outra festa do tipo.

Por este motivo pode-se constatar aumento na distorção dos preços dos ativos x fundamentos em várias praças financeiras, não somente no Brasil. O critério predominante no processo decisório dos investidores/operadores é o fator tempo. A janela de oportunidade criada pelo FED não ficará aberta na próxima temporada.

Com a areia da parte de cima da ampulheta ficando cada vez menor, players de mercado voltaram a comprar ativos europeus nas últimas semanas, recompondo portfólios. De fato a pressão aumentou na Europa para que o BCE (Banco Central Europeu) entre em ação novamente para estimular a economia, o que reforça o sentimento comprador do mercado.

Com a expectativa de mais dinheiro na praça, as principais bolsas europeias reverteram fortemente a trajetória descendente do último mês e já se aproximam de suas respectivas máximas históricas, como pode ser observado no índice FTSE (Londres).


O índice DAX (Alemanha) apresenta um caminho maior a ser percorrido, fruto do expressivo movimento corretivo do último mês. Mas a arrancada das últimas semanas é semelhante ao movimento constatado no mercado londrino. O mesmo rali ocorre também no mercado francês.


As demais praças financeiras mundiais seguem mantendo o ritmo de forte aceleração nos preços dos ativos. O índice S&P500 registrou novo recorde histórico esta semana ao superar a barreira psicológica dos 2.000 pontos.


O salgado mercado mexicano acionou mais um importante pivot de alta e renovou a máxima do ano. O expressivo marubozu de alta registrado hoje coincidiu com a divulgação do déficit comercial de 979,9 milhões no mês de julho, surpreendendo negativamente as projeções dos economistas locais.


Este é apenas mais um exemplo que mostra aumento na distorção dos preços dos ativos x fundamentos.  As notícias negativas tem grau de impacto pequeno em mercados eufóricos, da mesma forma que as notícias positivas tem grau de impacto pequeno em mercados depressivos.

No Brasil pode-se observar que boa parte dos analistas continua batendo cabeça, ao ponto de justificar, agora, o rali no Ibovespa pela ascensão da imprevisível candidata Marina Silva nas pesquisas eleitorais. O argumento ilusionista do fator político é cada vez mais forte.

A bolsa brasileira renovou a máxima do ano nesta quarta-feira, superando com extrema facilidade a marca psicológica dos 60k, consequência do impulso provocado pelo rompimento da importante média móvel simples de 200 períodos semanal. Mercado permanece em tendência de alta sem apresentar novidades, acompanhando o mais importante (devido a abrangência) rali global nos preços dos ativos dos últimos cinco anos.


sábado, 23 de agosto de 2014

Banqueiros centrais reunidos e indecisos


Reunidos na cidade de Jackson Hole, no estado norte-americano de Wyoming, os banqueiros centrais das principais economias mundiais apresentaram poucas afirmativas e muitas dúvidas. A lenta recuperação da economia mundial continua preocupando as autoridades monetárias, principalmente aquelas que precisam fechar as torneiras do dinheiro fácil e barato.

O núcleo da indecisão está localizado justamente no Banco Central mais poderoso do mundo. As autoridades do FED (Federal Reserve - Banco Central norte-americano) estão confusas com uma combinação de baixo crescimento econômico e uma taxa elevada de contratação pelas empresas. Por este móvito a cautela tornou-se a palavra de ordem dentro do FED. Os membros do Comitê querem esperar por mais evidências de que a melhora do mercado de trabalho continuará, e de que a inflação está realmente acelerando, antes de decidirem elevar a taxa básica de juros no País.

O discurso da presidente do FED, Janet Yellen, em Jackson Hole reforçou o conteúdo da ata divulgada na última quarta-feira. O Banco Central reconhece que o mercado de trabalho está melhorando, mas não quer se comprometer em relação a como esse progresso afetará a política monetária, fator, que até pouco tempo atrás (final de 2013, início de 2014), era considerado ponto chave para futuras decisões.

Entretanto, Yellen reassaltou que se o mercado de trabalho continuar melhorando em ritmo mais forte do que o esperado, ou a inflação acelerar mais rápido para a meta do FED, os membros do Comitê poderão votar por uma elevação da taxa básica de juros antes do esperado pelo mercado. Mas se o progresso ficar estagnado, os juros permanecerão baixos.

A presença do “se” nas afirmativas de Yellen é um complicador para as projeções de 2015. Os membros do FED encontram dificuldades tanto para diagnosticar corretamente o quadro econômico, quanto para prescrever a data e a dosagem do remédio amargo. As discussões internas estão mais acaloradas este ano, já que existe uma quantidade maior de membros votantes de postura mais hawkish (ou falcões, defensores de juros mais altos).

Entretanto, a estrategista de câmbio do Scotiabank, Camilla Sutton, fez uma análise importante ao levantar a troca de diretores com poder de voto dentro do FED em 2015. O Comitê é composto por 12 membros votantes, sendo 7 representantes da diretoria do banco (incluindo a presidente e o vice), o presidente do FED de Nova York, e mais quatro outros presidentes das 11 regionais restantes.

São esses 11 presidentes regionais que alternam a cada ano como membros votantes do Comitê. Este ano, Richard Fisher (FED Dallas), Charles Plosser (FED Filadélfia), Narayana Kocherlakota (FED Minneapolis) e Loretta Mester (FED Cleveland) ocupam as cadeiras dos membros votantes. Os mais conhecidos e com maior repercussão no mercado (Fisher e Plosser) são justamente os membros de postura mais hawkish dentro do FED. Em 2015, estes presidentes darão lugar ao Dennis Lockhart (FED Atlanta), John Williams (FED São Francisco), Charles Evans (FED Chicago) e Jeffrey Lacker (FED Richmond). Destes quatro membros que terão poder de voto em 2015, apenas Lacker é ligeiramente hawkish, os demais são dovish assumidos (ou pombos, defensores de juros mais baixos).

Isso significa que a nova formação do Comitê, com poder de voto, ficará mais dovish em 2015, o que deve sustentar a cautela adotada pelo FED este ano, prolongando ao máximo o ciclo de juros baixos na economia.

Já outros banqueiros centrais de importantes praças financeiras estão discutindo se devem seguir a cautela do FED. Em alguns casos, como na Europa, a vazão da torneira tende a aumentar e não diminuir. Mario Draghi (presidente do BCE - Banco Central Europeu) disse em Jackson Hole que a autoridade monetária europeia está pronta para fazer mais, se for necessário.

Na China já se especula que o Banco Popular (considerado o Banco Central do País) vai cortar a taxa básica de juros para garantir a meta de crescimento do governo. No Japão (terceira economia do mundo) o Banco Central segue adiante com seu forte programa de compra de títulos de dívida, com possibilidade de aumentá-lo ainda mais, destinado a tirar o país da deflação e impulsionar o crescimento. Mesmo na Inglaterra, economia em forte aceleração, com o melhor desempenho no mundo atualmente, o Banco Central não se convenceu em subir os juros. Dos nove membros votantes do BoE, apenas 2 optaram pelo aperto da política monetária (de 0,50% para 0,75%) na última reunião.

A indecisão também pode ser constatada no Banco Central brasileiro. A desaceleração vergonhosa da economia impede a continuação do ciclo de alta da taxa básica de juros para combater devidamente a inflação. Por outro lado, não há espaço para implementar um novo ciclo de afrouxamento monetário, já que a inflação permanece elevada e distante do centro da meta. Já o mercado de câmbio está viciado com a ração diária do Banco Central, parece não haver estratégia de saída. Quanto maior o vício, menor o efeito da droga. Ou a dosagem aumenta, para sustentar a estratégia de combate à inflação de curto prazo, ou a dosagem é cortada (diminuída), para deixar a inflação de lado e correr o risco de levar solavancos na taxa de câmbio. A preferência pela primeira opção aumentou a posição do Banco Central em swaps para 93,2 bilhões de dólares. Ainda há munição, mas os swaps já atingem um quarto das nossas reservas e mais cedo ou mais tarde terão de ser, progressivamente, desmontados.

Jackson Hole ficou marcado esse ano por indecisões demais e soluções de menos, o que é natural, pois à medida que o tempo passa, cobra-se mais por uma solução. Mas enquanto os banqueiros centrais não definirem seus respectivos planos de navegações, preferencialmente alinhados, a indecisão prevalecerá.

O ponto positivo é que o mercado financeiro ainda não está comprando a indecisão dos bancos centrais. Preços em máximas históricas ou máximas do ano permitem uma boa noite de sono aos presidentes das autoridades monetárias mundo afora. Mas é uma tranquilidade aparentemente temporária e que começa causar certo incômodo. Otimismo demais pode aumentar o choque para a temporada da normalização das condições monetárias, a depender da forma como será implementada.

Destaque na semana para o início de rompimento da média móvel simples de 200 períodos semanal no Ibovespa, uma das poucas praças que ainda trabalhavam abaixo da referida média. Mercados seguem otimistas, em tendências de alta, sem apresentar novidades.


Bom final de semana!

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Artilharia financeira


Influenciado ou não pela rápida ascensão da candidata à presidência da República Marina Silva, o governo federal abriu uma verdadeira artilharia financeira nesta quarta-feira, mostrando que tem bala na agulha para lutar pela popularidade. O último cartucho queimado, e de grande impacto, ocorreu no final do mês de abril, quando a presidente Dilma anunciou em rede nacional reajuste do Bolsa Família e da tabela do Imposto de Renda.

Desta vez o governo federal anunciou uma série de medidas com certo potencial de impacto, supostamente na tentativa de se reaproximar de parte da população até então insatisfeita com seus representantes em Brasília.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, informou na tarde desta quarta-feira que o governo vai simplificar o procedimento de aquisição de imóveis por meio de financiamentos, concentrando na matrícula do imóvel todas as informações que possam resultar em ônus sobre o imóvel. A burocracia exagerada das operações de financiamentos será reduzida, a segurança jurídica será mantida e as certidões poderão ser emitidas num único cartório.

Mantega também anunciou estímulo às importantes, e pouco utilizadas no Brasil, operações de empréstimos que possuem o imóvel quitado como garantia. Conhecida no mundo como Home Equity, a operação é um refinanciamento imobiliário, que permite que o tomador com uma casa quitada dê o seu imóvel como garantia para tomar um crédito de uso geral.

Para estimular este tipo de operação, o governo permitirá que os bancos utilizem até 3% dos recursos da caderneta de poupança para lastrear estas operações de empréstimo. A taxa de juros deverá ficar mais baixa, barateando o custo do empréstimo. Segundo cálculos do próprio governo, a medida pode gerar cerca de 16 bilhões em novas operações de crédito. Nestas condições, o risco para o sistema financeiro é significativamente baixo, devido à garantia do imóvel quitado no contrato.

O governo também criará um novo título para captação de recursos no mercado com objetivo de incentivar o crédito imobiliário. A chamada Letra Imobiliária Garantida contará com isenção de Imposto de Renda acima de 2 anos e terá como garantia extra o patrimônio da instituição que tem carteira de financiamentos imobiliários. É um funding adicional às já conhecidas LCIs (Letras de Crédito Imobiliário) para atrair investidores estrangeiros.

Os estímulos não param por aí. O governo vai incentivar a utilização do crédito consignado para trabalhadores da iniciativa privada. Para isso, o ministro da Fazenda informou que vai aumentar a segurança jurídica da operação, permitindo que o tomador do empréstimo autorize a instituição financeira a debitar o valor da prestação simultaneamente ao crédito do salário na conta corrente.

A recuperação de bens financiados com alienação fiduciária também será facilitada. O comprador do bem móvel (bastante comum nas operações de financiamento de veículos, por exemplo) autorizará a recuperação expressa por parte da instituição financeira do bem financiado em caso de inadimplência sem burocracia. Isso significa que os bancos estão dispensados da obrigação de cobrança judicial em operações sem garantia de até 100 mil reais e operações com garantia de até 50 mil reais.

Tanto o crédito consignado, quanto o crédito imobiliário, é considerado pela autoridade monetária como “crédito bom”, devido à segurança jurídica, potencial de impacto limitado no sistema financeiro em casos de inadimplência e por possuírem taxas de juros mais baixas.

Ainda nesta quarta-feira o Banco Central anunciou novas medidas para estimular o mercado de crédito com potencial para injetar mais 25 bilhões de reais na economia brasileira. Somando com as medidas semelhantes adotadas pela autoridade monetária no final do mês passado, o Banco Central abriu espaço para que entrem cerca de 70 bilhões de reais no mercado de crédito.

Em comunicado, o Banco Central afirmou que “os ajustes consideram a fase atual do ciclo de crédito no Brasil e se inserem nos processos de revisão das medidas macroprudenciais adotadas a partir de 2010 e de continuidade da convergência da regulação brasileira aos parâmetros internacionais de Basileia.”

Os impactos que serão provocados por todas estas medidas não são irrelevantes. Não são medidas irresponsáveis do ponto de vista da liberação do crédito, pois há potencial de crescimento das operações de “crédito bom” e a boa solvência do sistema financeiro brasileiro comporta este crescimento. Será possível observar reação da economia nos próximos trimestres, sob intensidade ainda discutível, porém, melhor do que se pode constatar nos trimestres anteriores.

Entretanto, existem dois pontos negativos, que são, na verdade, velhos erros não reconhecidos pelo governo: criam-se novas pressões inflacionárias e aumenta-se a desigualdade do custo do capital. Uns pagam mais para obter crédito, outros pagam menos. Neste ritmo, cada vez mais haverá necessidade de aumentar a parcela dos que pagam menos.

No cenário externo, destaque para divulgação das atas de importantes banqueiros centrais mundiais. O FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) destacou que a maioria dos membros de Comitê quer esperar mais informações sobre as trajetórias da atividade econômica, do mercado de trabalho, e inflação para alterar sua visão sobre quando começar a subir os juros, mas reconheceram que, se a convergência em direção aos objetivos do Comitê ocorrer num ritmo mais rápido do que o esperado, pode ser apropriado começar a remover a política monetária de sua posição acomodática mais cedo do que se antecipa atualmente. Não houve novidades relevantes.

Na Inglaterra, dois dos nove membros votantes do Comitê de Política Monetária do Banco Central inglês optaram inesperadamente pelo aperto da política monetária (de 0,50% para 0,75%) na última reunião, o que pode sinalizar aumento dos juros já no final deste ano.

Por fim, destaque para o movimento técnico relevante no Ibovespa, ao romper a máxima do ano, acionando mais um pivot de alta na tendência iniciada na região dos 44.9k.


sábado, 16 de agosto de 2014

Alívio nos preços do atacado nos Estados Unidos renova ânimo nos mercados emergentes


Dados do Departamento de Trabalho dos Estados Unidos surpreenderam os analistas nesta sexta-feira. A alta dos preços ao atacado desacelerou em julho, depois de um aumento relativamente expressivo no mês anterior. O índice de preços da produção aumentou apenas 0,1% em relação ao mês anterior, depois de uma alta de 0,4% em junho. O mercado esperava uma alta de pelo menos 0,2%.

O número veio menor do que o esperado e sinaliza interrupção momentânea no movimento de leve aceleração da inflação norte-americana constatado nos últimos meses. Este quadro corrobora para manutenção da postura cautelosa do FED (Federal Reserve – Banco Central norte-americano) antes de iniciar o ciclo de aperto monetário em meados de 2015.

A manutenção da inflação comportada, e abaixo da meta, nos Estados Unidos favorece o posicionamento de curto prazo dos investidores/operadores em ativos de risco nas praças emergentes, que por sinal estão aproveitando bem a janela de oportunidade criada pelo clareamento do calendário do FED.

Por este motivo pode-se observar sustentação do rali nos preços dos ativos em várias praças emergentes. O alívio nos preços do atacado nos Estados Unidos renovou o ânimo nos mercados emergentes, que voltaram a se aproximar de suas respectivas máximas do ano.

A bolsa de Bombay, na Índia, fechou a semana em forte alta, sinalizando interrupção do movimento corretivo de curtíssimo prazo que atingiu o mercado indiano nas duas semanas anteriores. Bolsa em pleno rali.


Na China, a bolsa de Xangai conseguiu invalidar a sinalização de possível reversão da semana anterior e voltou a subir forte. Índice em pleno rali, aproximando-se da LTB do canal de baixa de longo prazo, fato que não acontecia desde março de 2011. Movimento relevante.


A bolsa do México também subiu forte na semana, interrompendo o movimento corretivo de curtíssimo prazo constatado nas duas semanas anteriores. Mercado em tendência de alta, aproximando-se da máxima do ano.


No Brasil não poderia ser diferente. É importante insistir no ponto de que não há menor relação de desempenho do índice Bovespa com as especulações eleitorais, pois esta tese infundamentada é defendida quase que pela totalidade de analistas, economistas e participantes do mercado. Pode-se notar claramente que os mercados emergentes estão se movimentando em bloco, influenciados por um importantíssimo driver: a política monetária do Banco Central dos Estados Unidos.

O índice Bovespa subiu forte na semana, sustentando-se acima da importante linha de suporte localizada na região dos 55.3k e LTA dos 44.9k. Com este fechamento, o mercado voltou a se aproximar da máxima do ano, mantendo a tendência de alta de curto prazo.
  

Desejo a todos vocês um ótimo final de semana!

sábado, 9 de agosto de 2014

Fechamento da semana


A intensificação das crises geopolíticas em diferentes partes do planeta afetaram as principais praças financeiras mundiais nestas últimas semanas. Wall Street cedeu forte no final do mês passado após um rali de quase 6 meses.

Entretanto, nesta semana o índice Dow Jones conseguiu respirar com um fechamento positivo, mostrando recuperação nos últimos dias. Para o movimento ganhar força, será necessário recuperar a linha central de bollinger nas próximas semanas. O quadro geopolítico instável continua sendo o principal peso sobre Wall Street.


Nos mercados europeus a correção é mais intensa. Em Frankfurt (Alemanha), o índice DAX fechou mais uma semana em forte baixa, testando a principal linha de suporte de curto prazo localizada na região dos 9k. Mercado segue vendido no curtíssimo prazo, trazendo ameaça à tendência de alta de curto prazo.


A bolsa de Londres (Inglaterra) também despencou na semana atingindo a linha inferior de bollinger. As novas sanções impostas por países do ocidente, como proibição de acesso dos bancos russos ao mercado de capitais ocidental, podem afetar seriamente o principal centro financeiro da Europa, devido à relevância das posições de investidores russos no mercado londrino.


Na China, a bolsa de Xangai fechou a semana mostrando um candle de reversão colado na linha superior de bollinger, aumento o risco de uma nova correção após o rali das últimas semanas.
  

Na Índia, a bolsa de Bombay fechou em forte queda pela segunda semana consecutiva, devolvendo “pequena” parte dos ganhos acumulados após o impressionante rali dos últimos meses.


A bolsa do México também fechou em forte queda pela segunda semana consecutiva, após ensaiar uma retomada da tendência principal com seis semanas consecutivas de alta.


No Brasil o índice Bovespa fechou em queda pela segunda semana consecutiva, testando a LTA dos 44.9k, mesma região por onde passa a principal linha de suporte de curto prazo, localizada nos 55.3k. Este é um ponto de definição fundamental para as próximas semanas. Destaque para coincidência do surgimento do clima de aversão ao risco no mundo inteiro exatamente no momento de teste da média móvel simples de 200 períodos semanal do índice Bovespa.


Vale reforçar, mais uma vez, que a oscilação do índice Bovespa não tem relação com os resultados das pesquisas eleitorais (considerando margem de erro de 2 pontos percentuais, a presidente Dilma tem o mesmo percentual de intenção de voto de 5 meses atrás). Entretanto, as corretoras utilizam o evento (divulgação das pesquisas) como forma de estimular o aumento do número de operações de curto prazo de seus poucos clientes nacionais. Analistas do mercado nacional que não prestaram atenção nas informações fornecidas pelos documentos dos principais banqueiros centrais mundiais no início deste ano, nas características semelhantes de oscilação dos principais índices mundiais e no deslocamento dos prêmios de risco (principalmente dos títulos do Tesouro norte-americano), compraram a tese das corretoras, que na verdade não passa de uma tática para alavancar receita em período de vacas magras no mercado de capitais brasileiro (vide fluxo do investidor pessoa física nacional na mínima histórica).

Importante destaque para a oportunidade que está caindo no colo do Brasil com o agravamento da crise na Ucrânia.  A Rússia deu nesta última quinta-feira (07/08) um duro golpe no setor agropecuário do Ocidente ao proibir por um ano a importação de todos os alimentos perecíveis procedentes dos países que adotaram sanções contra Moscou por seu papel na crise da Ucrânia. O contra-ataque das sanções russas deve causar impactos perceptíveis na já fragilizada economia europeia.

Neste mesmo dia os russos informaram que permitirão que o Brasil aumente significativamente suas exportações de carne e laticínios ao País. Há grande expectativa, também, para o aumento das exportações de produtos agrícolas. Abastecer o gigantesco mercado russo é uma oportunidade de ouro para desenvolver e agregar valor ao agronegócio brasileiro. É importante que o governo brasileiro mantenha uma postura neutra na crise, mas é necessário melhorar a agilidade nas negociações e aumentar o diálogo com o setor privado. Lembrando que há cerca de dois meses atrás os russos fecharam um megacontrato de 400 bilhões de dólares para o fornecimento de gás aos chineses. Acordo, este, apressado pela crise na Ucrânia. Traçando um paralelo com o Brasil, as posições são inversas, mas a crise gerou uma oportunidade de ganha-ganha para os dois lados.

No quadro doméstico, pode-se notar que o deslocamento descendente da inflação brasileira acompanha curiosamente o direcional do índice de preços globais dos alimentos, calculado pela ONU (Organização das Nações Unidas). O IPCA do mês de julho registrou inflação insignificante de 0,01%, já o índice de preços globais dos alimentos atingiu no mês passado o nível mais baixo em seis meses. Ainda assim, deve-se considerar que o recuo da inflação brasileira é fruto, também, da desaceleração econômica, do deslocamento do câmbio, do excesso de pessimismo no mercado e da própria política de aperto monetário do Banco Central.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Atividade industrial surpreende em países emergentes


Indicadores que medem o nível da atividade industrial nos países emergentes mostraram uma surpresa positiva no mês de julho, superando expectativas do mercado, inclusive em países que passam por dificuldades, das mais diversas possíveis.

A grande surpresa veio, mais uma vez, do gigante asiático. As indústrias chinesas registraram, no mês de julho, o crescimento mais forte dos últimos 18 meses. O Índice Gerente de Compras do Instituto Markit, calculado em parceria com o Banco HSBC, saltou para 51,7 pontos, superior aos 50,7 pontos registrados no mês de junho. O indicador do Instituto Markit saiu em linha com a medição do governo chinês, que também avançou para 51,7 pontos no mês passado, confirmando o processo de retomada do crescimento.

Na Índia, o Índice Gerente de Compras disparou para 53 pontos no mês de junho, superior aos 51,5 pontos registrados no mês de junho. Esta é a máxima dos últimos 17 meses e reforça o processo de retomada da atividade manufatureira, após a primeira contração atingida em meados de 2013 (isso não ocorria desde 2008).

Até mesmo a atividade manufatureira da Rússia, pressionada nos meses anteriores pelos reflexos causados pela crise ucraniana, conseguiu reagir no mês passado ao atingir os 51 pontos, bem superior aos 49,1 pontos registrados no mês de junho.

Entretanto, no Brasil, o Índice Gerente de Compras não atingiu o nível que mostra expansão da atividade manufatureira (acima de 50 pontos), devido ao excesso de pessimismo na economia doméstica, tanto dos empresários, quanto dos consumidores, fruto das especulações exageradas em torno dos impactos que “seriam” causados pelo candidato vencedor das eleições presidenciais deste ano e, também, pelo choque direto da desaceleração da economia argentina e paralisação de horas/dias de trabalho em função da Copa do Mundo.

Ainda assim, o Índice Gerente de Compras brasileiro conseguiu reduzir o ritmo de contração na passagem do mês de junho para o mês de julho, ao subir dos 48,7 pontos para 49,1 pontos, conforme podemos observar no gráfico abaixo.  Levando em consideração todos os argumentos citados no parágrafo anterior, a redução do ritmo de contração chega a surpreender. Entretanto, numa visão mais ampla, pode-se notar claramente estagnação da atividade industrial, sempre buscando aproximação da marca de 50 pontos com certa frequência em todos os anos do mandato da presidente Dilma Rousseff, este sim refletindo a deterioração dos fundamentos da economia brasileira.

Na Europa, o Índice Gerente de Compras manteve-se estável aos 51,8 pontos, mostrando que o ritmo de expansão da atividade manufatureira nos países da zona do euro permanece moderado. A continuação do aumento no ritmo de expansão da indústria europeia está sendo barrada pela escalada da crise na Ucrânia.

Já nos Estados Unidos, o Índice Gerente de Compras caiu para 55,8 pontos no mês de julho, após atingir os 57,3 pontos no mês anterior. Apesar da desaceleração na expansão da atividade industrial, o ritmo de crescimento continua bom.

O fator principal que explica essa queda da atividade manufatureira norte-americana e consequente retomada/aceleração da expansão da atividade industrial nos demais países (especialmente emergentes) é fruto da oscilação do dólar frente a uma cesta de moedas globais.


Conforme podemos observar no gráfico acima, o dólar registrou forte valorização no mês passado, alcançando a máxima deste ano, o que de fato encareceu os produtos industrializados norte-americanos, melhorando, em partes, à atratividade dos produtos oferecidos pelas demais praças industriais. Este quadro, juntamente com a retomada econômica dos Estados Unidos, é extremamente benéfico aos mercados emergentes.

A análise para as principais bolsas de mercados emergentes continua a mesma. Players globais continuam surfando a onda do clareamento do calendário do FED (Federal Reserve – Banco Central norte-americano) e sinalização de cautela antes das importantes decisões de política monetária que serão tomadas nos próximos 10 meses. No Brasil, o índice Bovespa sinalizou novo fundo ascendente na região dos 55.3k (antiga resistência e ponto de pivot), não oferecendo perigo à tendência de alta iniciada na região dos 44.9k.


Destaque para correções mais acentuadas nos principais mercados europeus, refletindo, principalmente, o agravamento das tensões geopolíticas na Ucrânia. Na Alemanha, o índice DAX perdeu a média móvel simples de 200 períodos diária, acelerando o movimento corretivo de curtíssimo prazo.


Nos Estados Unidos, o índice Dow Jones trabalha dentro de um movimento corretivo relativamente agressivo de curtíssimo prazo, mas ainda insuficiente para causar reversões nas tendências principais de alta. A média móvel simples de 200 períodos diárias pode atuar como divisor de águas no curto prazo.