segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Mercado atropela otimismo do Banco Central


O novo Relatório de Inflação do Banco Central divulgado nesta segunda-feira mostra como é difícil sair da armadilha de baixo crescimento e inflação elevada, criada pela incompreensível estratégia de política econômica do atual governo.

As últimas decisões de política monetária, respaldadas na manutenção da taxa Selic, haviam transmitido certo otimismo da autoridade monetária com estes dois importantes indicadores. Perspectiva de aceleração do ritmo de crescimento e recuo da inflação em direção ao centro da meta no horizonte relevante para a política monetária.

Entretanto, os números apresentados no Relatório de Inflação não justificam o otimismo da autoridade monetária. A projeção para o PIB (Produto Interno Bruto) de 2014 despencou de 1,6% (estimativa apresentada no Relatório de Inflação de junho deste ano) para 0,7%. Já a projeção para o IPCA de 2014 manteve-se muito próxima do teto da meta, aos 6,3% (praticamente estável em relação a estimativa divulgada no Relatório de Inflação do mês de junho, de 6,4%).

Para 2015 e 2016, ano de provável retomada da inflação na Inglaterra e nos Estados Unidos, as projeções do Banco Central para o IPCA pioraram. A inflação fecharia 2015 em 5,8%, recuaria para 5,6% até o mês de março de 2016 e 5,3% até o mês de junho desse mesmo ano. As estimativas do relatório anterior, divulgado no mês de junho, apontavam para inflação de 5,7%, 5,4% e 5,1%, respectivamente.

Para complicar, as projeções do Relatório de Inflação divulgado hoje foram traçadas no dia 05 de setembro de 2014, onde a taxa de câmbio estava num patamar bem mais baixo. O Banco Central considerou manutenção da taxa de câmbio constante em todo horizonte de previsão em R$2,25 e taxa Selic em 11% a.a.

Nesta segunda-feira o dólar atingiu R$ 2,4557, alcançando o maior patamar desde o dia 9 de dezembro de 2008. Isso significa que: (i) a ferramenta cambial, utilizada até pouco tempo para auxiliar a política monetária no combate à inflação, foi detonada pelo mercado; (ii) não se pode confiar nas projeções defasadas do Banco Central, já que a valorização do dólar frente ao Real impulsiona a inflação.

A manutenção da taxa de câmbio neste patamar, ou acima, provocará, inevitavelmente, revisões para cima no IPCA durante a próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), a ser realizada nos dias 28 e 29 de outubro.

Levando em consideração a retomada da inflação global, fruto do processo de retomada do crescimento das economias de países desenvolvidos, persistência da inflação doméstica próxima do limite da margem de tolerância (mesmo num quadro de recessão técnica e baixa confiança dos consumidores e empresários) e manutenção da política fiscal expansionista (contrariando, novamente, a avaliação de neutralidade fiscal do Banco Central), de onde vem o otimismo da autoridade monetária? A inflação segue persistentemente elevada mesmo com o País em recessão, por que deveria estar mais baixa com as recentes políticas de incentivo ao crédito, provável retomada do crescimento econômico brasileiro (ainda que modesta) e ressurgimento da inflação global? E ainda, por que na última ata do Copom, divulgada no dia 11 desse mês, o Banco Central passou a ver que a inflação não é mais "resistente", se as próprias projeções não permitem vislumbrar o momento em que a inflação voltaria ao centro da meta (4,5%)?

Lamentavelmente voltaram a surgir suspeitas de inconsistências nas avaliações e decisões do Copom frente ao quadro atual e aos desafios que estão batendo na nossa porta.  Esta percepção de deterioração provocou forte disparada dos juros futuros no mercado doméstico, obrigando o Tesouro Nacional atrasar a abertura do Tesouro Direto na parte da manhã e suspender temporariamente as negociações na parte da tarde.

A bolsa de valores despencou 4,52%, registrando a maior queda desde 22 de setembro de 2011. O movimento seguiu o clima de aversão ao risco constatado nas demais praças financeiras mundiais. Entretanto, pode-se notar intensidade atipicamente maior no mercado brasileiro nesta segunda-feira devido à liquidação maciça de investidores/operadores que estavam comprados em papéis “indicados” pelas corretoras nacionais, especialmente na última sexta-feira.


Com o tombo desta segunda-feira, o índice Bovespa perdeu a linha de suporte localizada na região dos 55k, acelerando o movimento corretivo iniciado nos 62.3k. O próximo ponto de apoio está enfraquecido e passa pela média móvel simples de 200 períodos diária.

Nos Estados Unidos o índice Dow Jones abriu o pregão em forte baixa, mas conseguiu respirar na região de suporte dos 16.9k. Destaque para desaceleração da inflação no mês de agosto, que atingiu 1,5% no acumulado dos últimos 12 meses, menor do que os 1,6% registrados no mês anterior. A inflação segue abaixo da meta do FED (Federal Reserve) de 2% e sua desaceleração permite a manutenção do cronograma adotado pelo Comitê de Política Monetária.


segunda-feira, 22 de setembro de 2014

China reforça movimento de aversão ao risco


Figuras importantes do alto escalão do governo chinês reforçaram o movimento de aversão ao risco nas principais praças financeiras mundiais. Durante o encontro de ministros de finanças e banqueiros centrais do G-20 neste fim de semana, o ministro das Finanças da China, Lou Jiwei, disse que o deslize observado nos últimos indicadores do País não é motivo suficiente para uma mudança drástica na política econômica.

Havia uma expectativa no mercado de que o governo chinês implementaria, nas próximas semanas, medidas pró-crescimento de maior impacto (corte na taxa básica de juro ou forte redução no compulsório). Mas as declarações de Jiwei no G-20 foram na direção oposta, detonando a expectativa criada pelo mercado.

Pouco antes, numa reunião do Fórum Econômico Mundial, o primeiro-ministro Li Keqiang destacou que a China vai manter sua política de estímulos direcionados, evitar a impressão de dinheiro e continuar empenhada em reformas estruturais destinadas a inclinar a economia para os serviços e o consumo.

Nesta segunda-feira, o vice-ministro da Indústria e Tecnologia de Informação, Mao Weiming, reforçou a posição do governo chinês ao afirmar que a economia do País segue estável e que os indicadores decepcionantes registrados no mês de agosto tiveram origem em parte de ajustes econômicos necessários que o país está fazendo (referindo-se às reformas, em curso, para a transição do modelo de crescimento chinês).

As declarações de Lou Jiwei, Li Keqiang e Mao Weiming demonstraram claramente que o governo reconhece a desaceleração da atividade econômica no País, mas, apesar disso, nenhuma medida significativa de estímulo está em estudo. Até o momento, os dados ruins ainda não são suficientes para o governo ajustar o importante cronograma econômico de longo prazo em curso.

Com isso, aumentou o pessimismo do mercado quanto ao Índice Gerente de Compras do setor manufatureiro chinês calculado pelo Banco HSBC, em parceria com o Instituto Markit, a ser divulgado nesta terça-feira. Espera-se uma leitura abaixo do patamar de 50 pontos, o que indica contração da atividade.

O mercado de commodities foi novamente golpeado nesta segunda-feira. O minério de ferro caiu abaixo de 80,00 dólares por tonelada pela primeira vez em cinco anos. O barril de petróleo tipo Brent, negociado no mercado inglês, atingiu a mínima do ano passado aos 96,97 dólares. O barril de petróleo tipo Light, negociado no mercado norte-americano, renovou a mínima deste ano aos 90,67 dólares.

Os mercados de matéria-prima na China seguem em baixa, devido ao excedente de oferta num momento de crescimento mais lento da demanda no País. O índice de commodities CRB Jefferies/Reuters segue despencando. Atingiu os 277, 67 pontos nesta segunda-feira.


O tombo das commodities é um dos responsáveis pela intensidade maior do movimento de aversão ao risco em algumas praças emergentes (Brasil, por exemplo), justamente por serem importantes players exportadores.

O atual movimento corretivo é o mais forte desde o início do rali no mês de março deste ano, marcado, na época, pelo importante clareamento do calendário de política monetária do FED (Federal Reserve – Banco Central norte-americano), fato que abriu uma boa janela de oportunidade para o capital experimentar ativos com retornos mais elevados em praças mais arriscadas (principalmente emergentes).


Destaque para irritação da presidente Dilma Rousseff, na última sexta-feira, frente à vinculação das pesquisas eleitorais ao desempenho do índice Bovespa. Segundo ela, “está ficando ridículo isso”. E realmente está, pois o consenso (infundamentado) do mercado influenciou até mesmo a opinião da presidente da República. Os principais motivos responsáveis pelo deslocamento do índice Bovespa nos últimos meses não estão, nem mesmo, dentro do Brasil. São extremamente relevantes e foram amplamente levantados neste espaço nos últimos meses.

A propósito, o gráfico de linha apresentado acima do parágrafo anterior não é do Ibovespa. Parece muito. Mas não é. Utilizei propositalmente o gráfico de um ETF (iShare) que faz a réplica do índice MSCI de mercados emergentes.

Serve como exercício de alerta aos que não desconfiaram deste “erro proposital”. O investidor/operador precisa saber filtrar grande parte das informações e estar atento ao que realmente importa. Abaixo, segue o gráfico de linha do Ibovespa:


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

FED renova garantia de juro zero e divulga plano para normalização das condições monetárias


A melhora geral nos indicadores de desempenho da economia norte-americana não foi suficiente para o FED (Federal Reserve - Banco Central dos Estados Unidos) alterar sua orientação futura sobre os juros, mantendo a mesma perspectiva adotada desde o mês de março deste ano.

Na reunião de dois dias encerrada na tarde desta quarta-feira, o FED decidiu reduzir as compras mensais de ativos para 15 bilhões de dólares a partir do próximo mês, com objetivo de encerrar totalmente os programas de estímulos monetários na próxima reunião de Comitê a ser realizada nos dias 28 e 29 de outubro. A taxa básica de juros segue inalterada, entre zero e 0,25%.

A famosa expressão “tempo considerável” (ou “horizonte relevante”), utilizada para caracterizar por quanto tempo o Banco Central pretende esperar para elevar a taxa básica de juros após o fim dos programas de estímulos monetários, foi mantida no comunicado emitido ao mercado na tarde desta quarta-feira.  Também foi mantida a frase “significativa subutilização dos recursos de mão de obra”, o que revela o desconforto da autoridade monetária com a atual situação do mercado de trabalho norte-americano.

As novidades surgiram através das projeções dos membros do Comitê para a taxa básica de juros. Na última reunião realizada no mês de junho, 12 dos 17 membros do Comitê estimavam iniciar o ciclo de aperto monetário em 2015. Este número subiu para 14 na reunião encerrada na tarde desta quarta-feira. A mediana do target para a taxa básica de juros subiu de 1,125% para 1,375% no encerramento do ano que vem. De 2,50% para 2,875% em 2016. A mediana das projeções para 2017 ficou estável em 3,75%, provável fase final do ciclo de aperto monetário a ser iniciado em 2015.

As revisões destas importantes projeções sugerem que os membros do FED estão um pouco mais preocupados com a inflação futura, já que os juros devem subir numa intensidade maior do que se esperava anteriormente.

O FED divulgou um segundo comunicado onde mostra, pela primeira vez, o plano traçado para normalização da política monetária. Na verdade, este segundo comunicado é, também, uma conversa direta e formal do FED com os demais banqueiros centrais mundiais. Neste documento, o FED mostra que: (i) determinará o momento e o ritmo de normalização da política monetária de forma a manter o máximo emprego e estabilidade de preço; (ii) a meta para a Federal Funds Rate (taxa básica de juros) será elevada quando as condições econômicas permitirem; (iii) durante a fase de normalização, o FED provocará o deslocamento da Federal Funds Rante dentro de uma banda pré-estabelecida pelo Comitê e poderá utilizar uma linha de recompra overnight para ajudar a controlar as taxas de juros; (iv) a carteira de ativos do FED deverá ser reduzida de forma gradual e previsível através do encerramento ou diminuição dos reinvestimentos dos rendimentos de seu enorme estoque de títulos, a depender das condições econômicas e financeiras após o inicio do ciclo de aperto monetário; (v) não há perspectiva, no momento, para venda de ativos lastreados em hipotecas; (vi) no longo prazo, o FED pretende manter apenas uma carteira de ativos (basicamente formada por Treasurys) necessária para implementar a política monetária de maneira eficiente; (vii) detalhes poderão ser ajustados no plano de normalização das condições monetárias conforme os desenvolvimentos econômicos e financeiros.

Em entrevista coletiva à imprensa, a presidente do FED, Janet Yellen, disse que a divulgação do plano de normalização da política monetária não sinaliza período para mudança e ocorrerá, principalmente, via taxa de juros e não pela redução do balanço do FED. O balanço do Banco Central norte-americano será reduzido de forma gradual e previsível. Yellen também destacou que, durante algum tempo, a economia pedirá taxas de juros mais baixas do que as consideradas normais (leia-se 3,75%, patamar considerado neutro - nem restritivo, nem estimulador). Segundo a presidente do FED, o ciclo de alta dos juros tende a ser gradual, porém dependente dos indicadores econômicos a serem divulgados.

O índice Dow Jones fechou o pregão em leve alta, mostrando novamente candle de indecisão colado na máxima histórica, ainda sinalizando possibilidade de novas correções. A taxa de juros da Treasury de 10 anos se mantêm aos 2,62%.


No Brasil, o índice Bovespa fechou estável, devolvendo ganhos acumulados ao longo do dia no final do pregão. O pavio longo superior relevante mostra dificuldade de superação da linha central de bollinger pelo segundo pregão consecutivo, o que sinaliza novas possibilidades de correções no curtíssimo prazo.


sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Pânico na Treasury


As vésperas da reunião do Comitê de Política Monetária do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos), a Treasury de 10 anos (título público do Tesouro norte-americano), referência no mercado da dívida soberana global, entrou em pânico no mercado, passando a preocupar seriamente os diretores do Comitê que se reúnem na próxima semana.

A agressividade do atual movimento é semelhante ao evento ocorrido na segunda metade do ano passado, quando Ben Bernanke, o então presidente do FED, antecipou ao mercado que o tapering (redução do volume dos programas de estímulos monetários) estava a caminho. A estratégia de Bernanke havia falhado, pois, a intenção, com o aviso antecipado, era a de acalmar o mercado.  Mas acabou acontecendo o inverso. Como seria o tapering? Qual intensidade? Quando exatamente? Dúvidas que o FED não poderia responder naquele momento, responsáveis por provocarem abalos em todas as praças financeiras mundiais, principalmente em países emergentes.

Cerca de um ano após o primeiro tremor, o mercado é novamente impactado. Desta vez por um estudo realizado por pesquisadores da unidade regional do FED de São Francisco, no qual os desconhecidos economistas Jens Christensen e Simon Kwan concluíram que a baixa volatilidade nos mercados financeiros pode sinalizar que investidores/operadores estão (ou estavam) subestimando a velocidade com que o FED possa elevar a taxa básica de juros.  Ou seja, o mercado parece (ou parecia) esperar uma política monetária mais acomodatícia do que a sugerida pelo próprio FED no Sumário das Projeções Econômicas.

Outras autoridades do FED estavam mostrando certo desconforto com a volatilidade excessivamente baixa constatada nos meses anteriores. A Treasury de 10 anos chegou a perder o patamar de 2,40% em duas oportunidades somente nos últimos 30 dias, nível incompatível com as projeções de aperto monetário nos Estados Unidos.


Conforme podemos observar no gráfico acima, apenas nas últimas duas semanas a Treasury de 10 anos acumula desvalorização de 12%. A taxa de juros saltou de 2,34% para 2,62%. A velocidade deste movimento mostra que os investidores/operadores estão correndo para acertar, desesperadamente, seus respectivos portfólios, o que leva, consequentemente, ao desmonte de posições em ativos de risco (principalmente em praças emergentes). O movimento agressivo preocupa os diretores do FED, pois o deslocamento dos juros futuros neste ritmo não é saudável, pode brecar a recuperação econômica dos Estados Unidos e detonar uma nova crise no mercado.

O pânico na Treasury surge justamente no momento em que os indicadores econômicos mostram melhora no processo de retomada da economia norte-americana, fato que provoca aumento das discussões, no mercado e dentro do Banco Central, quanto ao início do ciclo de aperto monetário. O mercado vai esperar uma sinalização do FED na semana que vem quanto à estratégia de política monetária para o próximo ano. Entretanto, com o clima de tensão elevado, a janela para apresentação de um novo comunicado, menos expansionista, está fechada. O Banco Central deve, provavelmente, tentar acalmar o mercado, na tentativa de ganhar mais tempo ou uma nova janela de oportunidade.

O movimento de valorização do dólar frente a uma cesta de moedas globais foi acentuado pelo deslocamento da Treasury. No gráfico abaixo podemos observar que o rali se intensificou no final do mês de agosto, o que também causa preocupação dentro do FED, já que os produtos norte-americanos ficam menos competitivos no mercado externo.


A situação do câmbio no Brasil é diferenciada devido às ininterruptas intervenções do Banco Central no mercado, que manteve o dólar oscilando nos últimos cinco meses dentro de uma banda preferencial bastante visível no gráfico abaixo.
  
  
O Banco Central fez o que pode para brecar os avanços do dólar. Mas parece que boa parte deste trabalho ficou em vão. A intensificação do rali do dólar mundo afora rompeu com extrema facilidade a barreira informal utilizada pelo Banco Central no câmbio brasileiro. Mas como a ferramenta cambial continua sendo (muito) utilizada para combater a inflação, o Banco Central pode acabar entrando num ciclo vicioso de intervenções, em volumes cada vez mais elevados, aumentando a nossa vulnerabilidade à medida que as reservas vão sendo consumidas.

O índice Bovespa foi duramente impactado esta semana com o aumento da tensão no mercado, refletindo o deslocamento da Treasury e da cesta de moedas globais. O marubozu de baixa iniciou rompimento da média móvel simples de 200 períodos semanal, recentemente superada, o que pode caracterizar bull trap em cima da média mais popular do mercado, acompanhada de perto pelos gestores. A zona região de suporte está localizada na região dos 55.5k e poderá ser testada nas próximas semanas, já que o movimento corretivo está ganhando força.


Destaque para o forte movimento corretivo no mercado de commodities, o que, de fato, alimenta a pressão vendedora nos principais ativos da bolsa brasileira.


Desejo a todos vocês um ótimo final de semana!

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Lá se foi a paciência da Moody’s


O governo brasileiro não aproveitou a generosidade da agência de classificação de risco Moody’s ao não seguir, no mesmo timming, o rebaixamento da perspectiva e posterior corte do rating brasileiro pela agência de classificação de risco Standard & Poor's.

Nada mudou desde o primeiro aviso da Standard & Poor's. O governo insiste em não ouvir as reclamações dos economistas, investidores e empresários, bem como os alertas das principais instituições globais e agências de classificação de risco. A deterioração dos fundamentos domésticos é lamentavelmente crescente e ininterrupta.

Como mais uma vez não fizemos o mínimo de esforço para reverter este quadro decepcionante, a agência de classificação de Moody’s não teve outra alternativa a não ser rebaixar a perspectiva para o rating brasileiro, de estável para negativa. Isso significa que, se nada mudar nos próximos meses, a Moody’s cortará o nosso rating, o que provavelmente vai acontecer, enquadrando-se ao mesmo nível da nota atribuída pela Standard & Poor's.

Em nota, a Moody's citou os desafios fiscais resultantes da economia fraca, fato que impede a reversão da tendência de elevação nos indicadores da dívida do governo. Já as baixas taxas de investimento no Brasil refletem principalmente o sentimento negativo do investidor, conduzido por uma percepção de mercado generalizada sobre a abordagem intervencionista da administração atual.

Hoje a Moody’s classifica o Brasil com nota Baa2, um degrau acima do piso para grau de investimento. Em caso de futuro corte, a nota brasileira seria rebaixada para Baa3, equivalente ao atual BBB- da Standard & Poor's para o Brasil. Abaixo deste nível (Baa3 ou BBB-) as notas são consideradas especulativas (ou lixo) pelo mercado, o que impossibilita atrair recursos de fundos de investimentos espalhados pelo mundo inteiro cujos prospectos determinam que os gestores comprem ativos considerados grau de investimento.

Portanto, a trajetória de revisões de perspectivas e cortes de notas provocadas pelas agências de rating causa certa apreensão para os próximos anos, já que não estamos caminhando para eleger um gestor no Planalto e no ministério da Fazenda (leia-se Aécio Neves e Armínio Fraga) que possa alterar esta trajetória, mas sim uma candidata de postura intervencionista fracassada ou uma candidata de inaptidão política e gerencial. Essa última não conseguiu sequer se planejar para criar o seu próprio partido, o que será que se pode esperar de seu planejamento para o País?

No mercado financeiro pode-se constatar a ocorrência de um pequeno choque, a nível global, provocado pelo deslocamento agressivo da Treasury de 10 anos (título público do governo norte-americano). Pesquisadores da unidade regional do FED de San Francisco concluíram que a baixa volatilidade nos mercados financeiros pode sinalizar que investidores/operadores estão subestimando a velocidade com que o FED possa elevar a taxa básica de juros.  Os economistas Jens Christensen e Simon Kwan, que conduziram o estudo, dizem que há evidências de que o mercado parece esperar uma política monetária mais acomodatícia do que a sugerida pelo próprio FED no Sumário das Projeções Econômicas.

Outras autoridades do FED (inclusive a presidente Janet Yellen) já haviam demonstrado preocupação com a volatilidade excessivamente baixa nos meses anteriores. O Yield de 2,50%, ou abaixo disso, apresentado pela Treasury de 10 anos não é compatível com as projeções de aperto monetário nos Estados Unidos. Entretanto, somente agora o mercado resolveu dar ouvidos ao novo alerta da autoridade monetária, feita pela regional de São Francisco.


Conforme podemos observar no gráfico acima, a taxa de juros da Treasury de 10 anos saltou de uma mínima anual registrada em 2,34%, no final do mês passado, para 2,50% no fechamento do pregão desta terça-feira. O deslocamento agressivo dos juros futuros norte-americanos mexeu com o dólar, provocando ajustes nos preços dos ativos nas principais praças financeiras mundiais, principalmente em mercados emergentes.

Inevitavelmente o Real se desvalorizou, os juros da dívida soberana brasileira subiram e a bolsa de valores cedeu. Isso prova, novamente, que os deslocamentos nos preços dos ativos domésticos não tem relação com as pesquisas eleitorais. Os investidores estrangeiros colocaram na equação de alocação de seus respectivos portfólios a possibilidade (ainda pequena, pelo impacto do choque) de que a taxa de juros nos Estados Unidos possa subir antes de suas previsões pessoais.

Importante ressaltar que esta é uma interpretação de alguns participantes do mercado. As projeções do FED sempre foram bastante claras ao apontar início do ciclo de aperto monetário em meados de 2015. O excesso de cautela na política monetária possa, talvez, ter levado alguns investidores a acreditarem na possibilidade de aperto monetário somente a partir de 2016.

O índice Bovespa fechou em baixa pelo quinto pregão consecutivo, encostando no seu primeiro ponto de apoio (58.1k). A correção atual ainda é insuficiente para alterar a tendência de alta iniciada na região dos 44.9k. Entretanto, o movimento descendente de curtíssimo prazo segue válido e sem sinalização de reversão. Esta tendência pode intensificar em caso de perda dos 58.1k.

  
Nos Estados Unidos o índice Dow Jones cedeu 0,57%, confirmando formação de topo duplo aos 17.150 pontos. Mercado virou para venda no curtíssimo prazo. Para ser invalidada, será necessário superar a máxima histórica.


No Reino Unido, o presidente banco central britânico, Mark Carney, disse que a primeira elevação dos juros desde a crise financeira está se aproximando, mas o mercado de trabalho ainda está no processo de recuperação. Carney parece estar se apoiando nos indicadores do mercado de trabalho para retardar, ao máximo, o aperto monetário na Inglaterra, tal como faz a presidente do FED nos Estados Unidos.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Novidades no quadro macroeconômico


Semana importante marcada pelas primeiras reuniões regionais de banqueiros centrais após o importante encontro realizado na cidade de Jackson Hole, no estado norte-americano de Wyoming.

Mario Draghi fez o BCE (Banco Central Europeu) cumprir o que havia indicado em Jackson Hole. Nesta semana, a autoridade monetária da zona do euro cortou a taxa básica de juros de 0,15% para 0,05% ao ano e, ainda, aumentou o pedágio cobrado aos bancos que deixarem mais dinheiro parado nos cofres do BCE. A partir de agora, a taxa de juros overnight sobre depósitos dos bancos no BCE passou para -0,20% ao ano.

Após a reunião de Comitê, Draghi disse em entrevista à imprensa que há riscos cercando a perspectiva econômica para a zona do euro e, por isso, o BCE resolveu agir. As novas projeções econômicas da autoridade monetária europeia estimam um crescimento mais lento neste ano, de apenas 0,9%. A previsão para inflação (atualmente em 0,3% no acumulado dos últimos 12 meses), foi cortada para 0,6% no fechamento deste ano, bem abaixo da meta de 2% a ser perseguida.

O presidente do BCE demonstrou, também, que a porta está aberta para novas injeções monetárias no sistema, caso seja necessário. O principal gatilho seria o descolamento da taxa de inflação. Caso o referido índice permaneça muito baixo da meta por muito tempo, o BCE poderá agir com mais estímulos monetários.

Já o Banco Central do Japão resolveu manter seu agressivo programa de estímulos monetários, sem apresentar novidades. Haruhiko Kuroda, presidente da autoridade monetária japonesa, disse que as exportações e a produção estão mostrando movimentos fracos, mas as condições de trabalho e renda estão melhorando de forma estável. De maneira geral, o Banco Central do Japão enxerga continuação no ritmo (ainda lento) de recuperação econômica, mantendo o difícil objetivo de sair da deflação no próximo ano fiscal.

O Banco Central britânico manteve a taxa básica de juros inalterada, aos 0,50%, na reunião de Comitê desta semana. Entretanto, o mercado terá que esperar quase duas semanas para descobrir se mais alguma autoridade votou a favor da elevação dos juros, depois que dois entre os nove membros votantes do Comitê tiveram votos dissidentes na última reunião realizada no mês de agosto. Espera-se cautela por parte da autoridade monetária, já que o principal mercado de exportação do Reino Unido (União Europeia) segue estagnado e vulnerável à crise geopolítica na Ucrânia.

No Brasil, o Banco Central manteve a taxa básica de juros em 11% esta semana e sinalizou que não pretende mexer na política monetária tão cedo, ao retirar do comunicado emitido ao final da reunião o trecho “neste momento”. Informações relevantes poderão aparecer na ata a ser divulgada na próxima semana.

O mês de agosto marcou a reversão da trajetória de desinflação constatada nos últimos meses. O IPCA deste mês registrou inflação de 0,25%. No acumulado dos últimos 12 meses a inflação continua perigosamente encostada no teto da meta, aos 6,51%, o que vem minando a confiança dos investidores, empresários e consumidores.

Já o FED (Federal Reserve – Banco Central norte-americano) ganhou mais um motivo para manter sua estratégia extremamente cautelosa na condução da política monetária. O payroll divulgado nesta sexta-feira revelou que foram criados apenas 142 mil postos de trabalho nos Estados Unidos durante o mês de agosto, bem abaixo das expectativas de 225 mil novas vagas.

Os membros do Comitê não vão olhar, obviamente, para apenas o resultado de um mês do mercado de trabalho, principalmente por estar fora da curva e desconectado com os demais indicadores econômicos. O Índice Gerente de Compras, por exemplo, calculado pelo Instituto Markit, em parceria com o Banco HSBC, subiu para 57,9 pontos no mês de agosto, ante os 55,8 pontos registrados no mês de julho, mostrando aumento no ritmo de expansão da atividade industrial. Mas o número fraco do mercado de trabalho serve como voto de confiança do mercado para continuar apoiando a postura cautelosa do FED.

A próxima reunião do FED, a ser realizada nos dias 16 e 17 deste mês, é muito importante, pois Yellen deverá conceder entrevista coletiva à imprensa após o anúncio da decisão de política monetária, tal como aconteceu no mês de março deste ano. Muitas vezes o discurso do (a) presidente do FED acaba sendo mais importante do que o comunicado emitido após a reunião, tanto para reforçar a postura de política monetária, quanto para sinalizar estratégia a ser perseguida no médio prazo. Neste mesmo dia (17/09/2014) haverá, também, divulgação da taxa básica de inflação acompanhada pelo Banco Central norte-americano, hoje encostada no centro da meta de 2%.

Espera-se manutenção da postura cautelosa adotada pelo FED. Yellen não deverá mudar o seu tom adotado na entrevista do mês de março. A possibilidade de aperto monetário deve permanecer inalterada, para ocorrer em meados de 2015.


Bom final de semana a todos!