segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Atualização do cenário macroeconômico


A delicada situação da economia russa complicou ainda mais nesta segunda-feira. A agência de classificação de risco S&P (Standard & Poor's) cortou o rating da Rússia de “BBB-“ para "BB+", destituindo-a do grau de investimento. A perspectiva continua negativa, o que sinaliza possibilidade de novos cortes no futuro.

Cerca de um mês atrás a S&P havia alertado que poderia tirar o grau de investimento do País a partir de meados de janeiro, reagindo à rápida deterioração da flexibilidade da política monetária em meio ao enfraquecimento da economia.

Sem observar indicação de melhoras, a S&P cumpriu o prometido. A forte queda do barril de petróleo pode ter sido a gota d´água para agência de classificação de risco, devido à elevada dependência econômica ao setor energético. A Rússia voltará a experimentar o gosto amargo de ser classificada como grau especulativo pela primeira vez em mais de dez anos.

A perda do grau de investimento deverá agravar a situação da Rússia. O País possui alta dependência de fluxos de capital externo e pouca margem de manobra. No final do ano passado o Banco Central russo se viu forçado a dar um choque de juros para impedir uma fuga de capitais. Com a perda do grau de investimento, alguns fundos de investimento não poderão comprar ou mesmo manter posicionamento em títulos russos. Consequentemente, os custos de financiamento na Rússia (atualmente elevados), tendem a subir ainda mais, para atrair capital de fundos que compram títulos de grau especulativo.

O fato de o BCE (Banco Central Europeu) ter anunciado na semana passada um programa de relaxamento quantitativo agressivo de 1,1 trilhão de euros (aumenta consideravelmente a liquidez global), pode amenizar um pouco os impactos no mercado russo a médio prazo.

O novo programa do BCE está dentro dos moldes daqueles feitos pelo FED (Federal Reserve – Banco Central norte-americano) e BoE (Bank of England – Banco Central britânico). Apesar de poder oferecer alguma ajuda indireta aos russos, o BCE está mais preocupado com o crescimento e a inflação andando para trás na zona do euro.

A liquidez no mercado financeiro europeu é abundante o suficiente para fazer a economia crescer. Esse fato pode ser constatado pela expressiva valorização dos ativos na bolsa de valores e no mercado da dívida soberana, sustentando algumas “bizarrices” como as taxas de juros de títulos soberanos espanhóis serem menores do que as taxas de juros de títulos soberanos norte-americanos (os mais seguros do mundo). Apesar da liquidez abundante na Europa, estava faltando “alguém” apertar gatilho para o crescimento. Ou, em outras palavras, dar o famoso empurrão.

Como os governos europeus estão amarrados em políticas de austeridade fiscal, sobrou para o BCE apertar o gatilho. A arma utilizada pelo Banco Central chama-se Euro. O simples fato de ter existido uma forte expectativa no mercado de novos estímulos monetários a serem implementados pelo BCE provocou o derretimento Euro frente ao Dólar, conforme podemos constatar no gráfico abaixo.


A decisão da semana apenas confirma a expectativa do mercado, fato que deverá manter o Euro desvalorizado frente ao Dólar. O deslocamento da taxa de câmbio é importante para aumentar a competitividade dos produtos europeus. Atualmente, o comércio exterior é a única rota de saída de curto/médio prazo para retomada do crescimento na zona do euro.

Já o fator Grécia não pesa tanto quanto no passado. A reestruturação da dívida grega tirou o peso dos grandes bancos europeus posicionados em títulos da dívida soberana do País, eliminando o risco de uma catástrofe no sistema financeiro.

Mas a vitória do Syriza (primeiro partido antiausteridade a chegar ao poder na zona do euro) trás um recado importante aos líderes europeus: partidos de postura radical estão crescendo rapidamente em vários países da União Europeia. Inexpressivos no passado, hoje esses partidos estão ocupando cada vez mais cadeiras em Parlamentos.

A conquista do poder pelo Syriza carrega um importante fator emocional. Será a grande motivação para os demais partidos radicais espelhados na União Europeia traçarem o mesmo caminho. O simbolismo da vitória do Syriza é mais forte do que os possíveis impactos a serem causados na zona do euro em caso de ruptura com a Grécia.

Alexis Tsipras, líder do partido grego de esquerda radical, firmou rapidamente aliança com o partido Gregos Independentes (direita nacionalista) para formar maioria no Parlamento e governar o País.

A Grécia vai enfrentar a troika (formada pelo BCE, FMI e Comissão Europeia), mas provavelmente terá pouco sucesso nas negociações. Com o sistema financeiro menos exposto ao risco grego, não há razões para troika ceder às reivindicações "lunáticas" de Tsipras.

No mercado de capitais, o índice Bovespa fechou o pregão desta segunda-feira em leve baixa de 0,41%, mostrando recuperação na parte da tarde. Mercado segue congestionado, sem apresentar novidades.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão em leve alta, mostrando recuperação logo após a abertura negativa do pregão. Wall Street também segue congestionada no curto prazo, sem apresentar novidades.


10 comentários:

  1. FI,

    O que aconteceu com a Rússia seria um presságio do que está para acontecer com o Brasil ?

    Agradeço.

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    1. Não. O Brasil não corre risco de perder o grau de investimento. A Rússia está numa situação muito pior, por conta das sanções e do baixo dinamismo da economia (muito dependente das exportações de commodities, especialmente energéticas).

      Abs, bons negócios

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  2. FI,

    Nesse cenário externo mais recuperado, você acredita que o aumento de 0,5pp nos juros vai ser suficiente para atrair ou até manter os investidores no mercado?
    E se essa estratégia falhar e os investimentos diminuírem ou não aumentarem o necessário,qual alternativa resta?

    Abs

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    1. O que depende do Brasil está sendo feito: subir a taxa básica de juros e arrumar o fiscal. As condições para o investidor estrangeiro fazer carry trade com o Brasil também são muito boas, desde que protegido no câmbio. Acho que muitos ainda estão fazendo isso. Por enquanto é suficiente. Mas o que não depende de nós (FED e BoE, inicialmente) é incerto e pode afetar os fluxos de capitais. Portanto, manter a taxa Selic em 12,25% é um risco. Funciona hoje, mas pode ser insuficiente "amanhã", num quadro de normalização das condições monetárias diferente do que o mercado espera. Se a estratégia falhar, o Banco Central terá de aumentar sua intervenção no mercado de câmbio e, possivelmente num segundo momento, subir os juros mais rápido. Mas por enquanto estamos indo bem. Se mantermos essa linha acho que não vamos falhar.

      Abs, bons investimentos

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  3. E aí, Finanças, o que a gente faz com a PTbras. Eles não tem a menor ideia do que ocorre no balanço da empresa...

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    1. É uma bagunça. E pior, relembra o caso do grupo X, onde as regras estão sendo infringidas, arranhando a credibilidade do mercado nacional. Lembrando que o ex-ministro da Fazenda ainda faz parte do conselho da Petro. Estão dizendo por aí que esse cidadão fez pressão para não incluir as baixas contábeis no "balanço" divulgado hoje.

      Abs, bons negócios

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    2. Que fez pressão é notório. Reconhecer isso no balanço significa reconhecer a corrupção do governo.

      Agora a perguntinha: sou zero em posição de bolsa. Só invisto em renda fixa e cambial. Acha que vale a pena ir colocando 1K todo mês na PTbras enquanto ela sangra pra ganhar um dinheiro legal em médio prazo (2 anos) ? Confesso que estou tentado a fazer isto... Este dinheiro é de baixíssimo peso no meu orçamento e no meu pertfólio. Posso me arriscar com ele sem medo algum.

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    3. Não. Mesmo considerando aceitação do risco e baixo peso no portfólio. Fato é que ninguém entra no mercado pra perder rs.. Dentro dessa estratégia, é bem melhor você escolher um ETF e fazer os aportes, ao invés de escolher uma ação.

      Abs, bons investimentos

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  4. E em relação ao real x dolar?

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    1. Segue em correção de curtíssimo prazo, sem invalidar a tendência principal de alta de médio prazo.

      Abs, bons negócios

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