quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Ciclo de aperto monetário continua, mas ritmo tende a ser menor


A ata do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) divulgada nesta quinta-feira revelou uma série de novos detalhes importantes para o desenvolvimento da política monetária nos próximos meses.

O Banco Central acrescentou um parágrafo na ata para dar mais ênfase ao relevante movimento de preços no mercado de commodities, especialmente sobre o petróleo. Na avaliação dos diretores do Copom, “independentemente do comportamento dos preços domésticos da gasolina, a evolução dos preços internacionais tende a se transmitir à economia doméstica tanto por meio de cadeias produtivas como a petroquímica, quanto por intermédio das expectativas de inflação.”

Em outras palavras, o Banco Central reconhece os efeitos estimuladores em determinadas cadeias produtivas, bem como impactos positivos nas expectativas de inflação, provocados pela expressiva queda do barril de petróleo, que por sua vez não se caracteriza como movimento pontual, de curtíssimo prazo.

O segundo detalhe importante refere-se à estimativa para o desempenho da economia brasileira este ano. Até o final de 2014, havia perspectiva de retomada da trajetória de recuperação do crescimento no segundo semestre deste ano. Entretanto, no documento divulgado hoje, a autoridade monetária reconsiderou sua estimativa de crescimento e, agora, afirma que o ritmo de expansão da atividade doméstica este ano será inferior ao potencial. Isso significa que o Banco Central está mais pessimista com o PIB (Produto Interno Bruto) de 2015.

O terceiro ponto a ser destacado refere-se ao casamento da política fiscal com a política monetária. No passado, essas duas políticas se deslocavam em direções opostas. Enquanto o Banco Central pisava no freio, o ministério da Fazenda pisava no acelerador. Felizmente esse quadro incompreensível se reverteu. Hoje, tanto o ministério da Fazenda, quanto o Banco Central, pisa no freio. Essa direção única permite a correta transmissão dos efeitos da política monetária aos preços, fato que também não ocorria no passado.

Destaque para o aumento de 1,5% para 3% do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) em operações de crédito para pessoas físicas com prazo de até 365 dias. Medida “aplaudida” no parágrafo 25 da ata, com a menção do novo trecho “a exemplo de ações recentemente implementadas”, em substituição ao “atribui elevada probabilidade a que ações nesse sentido (referindo-se a iniciativas no sentido de moderar concessões de crédito) sejam implementadas no horizonte relevante para a política monetária.”

A próxima mudança na ata está na mensagem divulgada logo após a reunião do Copom. “...avaliando o cenário macroeconômico e as perspectivas para a inflação...”

Esse trecho é cópia da mensagem utilizada na reunião do mês de setembro do ano passado, que precedeu a elevação de 0,25 p.p. em outubro.

O comunicado curto deixaria as portas abertas para subir 0,25 p.p. ou 0,50 p.p. na próxima reunião a ser realizada nos dias 3 e 4 de março. Mas o Banco Central eliminou completamente o antigo parágrafo 31 da ata:

“O Copom destaca que, em momentos como o atual, a política monetária deve se manter especialmente vigilante, de modo a minimizar riscos de que níveis elevados de inflação, como o observado nos últimos doze meses, persistam no horizonte relevante para a política monetária. Entretanto, considerando os efeitos cumulativos e defasados da política monetária, entre outros fatores, o Comitê avalia que o esforço adicional de política monetária tende a ser implementado com parcimônia.”

O Banco Central também não utilizou nesta ata do mês de janeiro o seguinte trecho mencionado no último Relatório de Inflação (divulgado no final de dezembro do ano passado):

“... Nesse sentido, o Comitê irá fazer o que for necessário para que no próximo ano a inflação entre em longo período de declínio, que a levará à meta de 4,5% em 2016.”

Nada de especialmente vigilante, nada de parcimônia e nada de fazer o que for necessário. Para ocupar este vácuo, o Banco Central acrescentou um novo parágrafo na ata:

“A propósito, o Copom avalia que o cenário de convergência da inflação para 4,5% em 2016 tem se fortalecido. Para o Comitê, contudo, os avanços alcançados no combate à inflação – a exemplo de sinais benignos vindos de indicadores de expectativas de médio e longo prazo – ainda não se mostram suficientes.”

Ao somarmos todas as novas sinalizações dovish da ata (efeitos positivos causados pela queda do preço do petróleo, casamento da política fiscal com a política monetária, aumento do IOF em operações de crédito, menor perspectiva de crescimento para este ano), juntamente com a substituição de trechos importantes para futuras ações de política monetária, chega-se a conclusão de que o Banco Central está mesmo preparando o terreno para reduzir o ritmo de aperto monetário de 0,50 p.p. para 0,25 p.p. na próxima reunião de Comitê.

A pretensão de reduzir o ritmo, mas não interromper o ciclo de aperto monetário, é importante para o Banco Central acompanhar, a certa distância, as movimentações do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos).

O comunicado divulgado ontem após a reunião do Comitê de Política Monetária do FED revela que a autoridade monetária norte-americana continuará paciente para subir os juros, conforme antecipado pela chair Janet Yellen na entrevista concedida à imprensa no final do ano passado.

Entretanto, o FED melhorou sua avaliação da economia e do mercado de trabalho, o que sinaliza possibilidade de aperto monetário no futuro próximo. Ao invés de considerar que a atividade econômica vem se expandindo a um “ritmo moderado”, Banco Central dos Estados Unidos avalia, agora, que a atividade econômica vem se expandindo a um “ritmo sólido". Com relação ao mercado de trabalho (importante fonte de pressão inflacionária), o FED reconhece que as condições melhoraram ainda mais, com fortes ganhos de emprego e uma taxa de desemprego mais baixa.

Por outro lado, o Banco Central dos Estados Unidos acrescentou no comunicado uma curta menção ao resto do planeta que segue patinando, ao afirmar que levará os desenvolvimentos financeiros e internacionais em consideração para determinar quando elevar a taxa básica de juros. O FED também reconheceu que a inflação se afastou ainda mais da meta de 2%, mas que tende a subir gradualmente em direção a meta no médio prazo.

São dois pontos hawkish e dois pontos dovish, que mostram, na verdade, que o FED continua em cima do muro. Ou seja, ainda não bateu o martelo (justificadamente) para definir o timming do aperto monetário. Mas o fato de o FED ter dado mais atenção no comunicado aos dois pontos hawkish (melhora da economia e do mercado de trabalho), sinaliza que o aperto monetário pode estar no futuro próximo. O mercado, por outro lado, segue subestimando a velocidade com que a autoridade monetária possa elevar a taxa básica de juros.

No mercado de capitais o índice Bovespa fechou o pregão de lado, mostrando novamente reação ao testar a primeira linha de suporte da zona de congestão na região dos 47.3k. Linha insistentemente testada durante todo esse ano, mas sem força vendedora suficientemente capaz de rompê-la. Mercado segue travado.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão em alta de 1,31%, mostrando forte reação após testar a primeira linha de suporte da zona de congestão na região dos 17.3k. Apesar deste importante alívio, mercado segue congestionado no curto prazo.



3 comentários:

  1. FI, parabéns pelas boas análises. Seu blog é leitura obrigatória.
    Você poderia explicar como essa variação na Selic pode interferir nos preços dos títulos referenciados pelo IPCA? Será que chegaremos a uma taxa de 6,5% a.a. em algum momento de 2015?
    Obrigado!

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    1. Obrigado!
      Não existe regra, pois o deslocamento da taxa Selic é uma das variáveis (são várias) que causam impacto nos prêmios de risco dos juros futuros. Em tese, quando a taxa Selic sobe, os prêmios de risco tendem a subir, enquadrando-se ao novo cenário da taxa básica de juros. O mesmo vale para o movimento inverso. Mas o deslocamento dos prêmios dependem de outros fatores, tanto internos, quanto externos. Um ponto importante está no nível de aceitação de risco do momento. Com o mercado mais confiante (eficácia na política monetária, por exemplo) as taxas futuras, principalmente de pontas longas, tendem a apresentar prêmios magros ou até mesmo inferior à taxa Selic. Então o cenário macro é mais importante do que o deslocamento da taxa Selic para os juros futuros. O investidor deve avaliar o quadro para identificar se o mercado está otimista demais ou pessimista demais. As oportunidades para fixar taxas (vale tanto para NTNB, quanto para LTN) surgem quando o mercado está pessimista demais. Ano passado chegou bem perto dos 6,5%. Se vai encostar de novo nesse patamar esse ano ninguém sabe, mas a curva de juros segue trabalhando dentro de uma tendência de alta. Então é bom ficar atento. Ainda estamos em bull market de juros.

      Abs, bons negócios

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    2. Obrigado mestre FI.
      Vou ficar atento!!!

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