segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Lamaçal de problemas versão 2015


Ambiente de negócios desfavorável. Infraestrutura deficitária. Excesso de burocracia. Carga tributária elevada. Baixo nível de educação. Velhos e conhecidos problemas brasileiros. Elevado grau de intervenção do Estado na economia, inflação em nível persistentemente elevado e distante do centro da meta (4,5%), crescimento ridiculamente baixo, péssima gestão dos recursos públicos, estratégias equivocadas de política econômica e perda de confiança e credibilidade entre investidores e empresários. Novos problemas criados pela gestão de um governo que conseguiu, mais uma vez, manter-se no poder.

O lamaçal de problemas, resultante da junção do velho e conhecido com o novo e destrutível, permanecerá incomodando a vida de todos nós brasileiros em 2015. Novas parcelas da conta que está sendo paga pela ineficiência administrativa do Estado continuarão chegando sem atraso neste ano. Intervenções desastrosas que resultaram em mais aumento do gasto público, alavancaram o nosso endividamento, elevaram o déficit fiscal e destruíram até mesmo as “metas fictícias” de superávit primário.

Nada deu certo e o que estava ruim, piorou. O PIB (Produto Interno Bruto) anda para trás, a inflação anda para frente. As exportações andam para trás, o câmbio anda para frente. A taxa de poupança interna anda para trás, a taxa básica de juros anda para frente. A confiança anda para trás, a dependência de financiamento externo anda para frente.

Precisamos reverter o rumo das coisas. A sinalização de aperto monetário preventivo e ajuste fiscal são importantes para suavizar ou mesmo impedir a velocidade de afundamento no lamaçal de problemas, mas insuficientes para uma total correção de rumo. As reformas estruturais são a única rota de saída deste lamaçal. Reformas que, infelizmente, não estão na agenda deste novo mandato. Parece haver interesse apenas naquilo que é de benefício próprio (a reforma política).

O discurso de posse da presidente Dilma Rousseff ressaltou a necessidade de ajustes nas contas públicas, com o menor sacrifício possível. Isso significa, em outras palavras, reversão gradual de uma política fiscal expansionista para uma política fiscal contracionista.

Entretanto, para atingir a nova meta de superávit primário (1,2% do PIB), o novo ministro da Fazenda vai ter que aumentar a velocidade da reversão gradual, a contragosto da presidente. Em tese, para garantir o menor sacrifício possível, o ajuste terá de ser feito em primeira marcha. Mas para garantir a meta de superávit de 1,2% do PIB, o ajuste terá que ser feito em terceira marcha.

Eis o primeiro embate entre Ministério da Fazenda e Palácio do Planalto. A definição de velocidade do ajuste. Levy dificilmente se submeterá às ordens da presidente. A sua brilhante reputação no mercado está em jogo. Engatar a terceira marcha não será um problema, mas os atritos podem encurtar sua permanência na Fazenda.

Levy é o pingo de esperança do mercado. É o nome forte da equipe econômica. Nesse embate a presidente vai espernear, mas terá que ceder. Diferente do que aconteceu no último final de semana. O novo ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão, Nelson Barbosa, afirmou, após a cerimônia de posse na sexta-feira, que o governo iria enviar ao Congresso, no momento oportuno, uma nova regra para o cálculo do salário mínimo para o período de 2016 a 2019. Medida altamente necessária.

A presidente Dilma não gostou. No dia seguinte (sábado à tarde) Barbosa divulgou nota constrangedora afirmando que a proposta de valorização do salário mínimo a partir de 2016 seguirá a regra de reajuste atualmente vigente. O ministro voltou atrás no que disse, a mando da presidente.

Essa é uma importante e infeliz demonstração de permanência da centralização de certas decisões nos próximos quatro anos, indo na direção contrária do que parte do mercado esperava (descentralização de certas decisões). Tal fato é de vital relevância para reversão das expectativas, que tendem a esfriar, antes mesmo de aquecerem, com este lamentável episódio.

O Banco Central também está na mira mercado. Precisa passar no teste. Precisa entregar resultado (inflação na meta). A primeira sinalização (centralização ou descentralização / submissão ou autonomia) será emitida na reunião de política monetária dos dias 20 e 21 de janeiro. O ritmo de aperto monetário deve ser mantido, no mínimo, em 0,50 p.p., tanto para combater a inflação persistentemente elevada, quanto para atuar de maneira preventiva frente à normalização das condições monetárias nos países desenvolvidos (Estados Unidos e Inglaterra).

Eis a primeira e mais importante contribuição externa ao nosso lamaçal de problemas. A elevação do custo de capital no mundo, consequência da desalavancagem do sistema financeiro. Movimento ainda não devidamente precificado no mercado, já que a Treasury (título de 10 anos do Tesouro norte-americano) segue muito baixa em relação aos objetivos de longo prazo da Federal Funds Rate (taxa básica de juros nos Estados Unidos), o que evitou nocauteamento sobre a já debilitada, desajustada e vulnerável economia brasileira.

A combinação de dependência de financiamento externo com redução da liquidez global é extremamente grave para os atuais fundamentos domésticos. Este é um dos motivos pelo qual o novo ministro da Fazenda não pode se dar ao luxo de fazer um ajuste gradual em primeira marcha. O FED (Federal Reserve – Banco Central norte-americano) não vai esperar o Brasil mostrar consistência no processo de arrumação da casa para subir os juros. O FED também não vai esperar o Banco Central brasileiro deslocar a taxa Selic para um patamar atrativo o suficiente que impeça uma potencial fuga de capitais.

O FED também não vai esperar a inflação nos Estados Unidos ultrapassar o centro da meta para iniciar o ciclo de aperto monetário. Com o mercado de trabalho aquecido, deslocando-se rapidamente ao objetivo da instituição, o aperto monetário torna-se praticamente inevitável até o final do primeiro semestre deste ano.

É preciso entender que a dinâmica da inflação norte-americana é bem diferente da brasileira. Nos Estados Unidos a inflação é basicamente de salários, onde a pressão do câmbio e dos preços de petróleo são bem menores, comparando com a pressão exercida por estas duas fontes na inflação brasileira. Portanto, nos Estados Unidos, a inflação reage imediatamente à elevação dos salários. É a grande fonte de pressão dominante no cálculo do índice de inflação. Com a significativa queda da taxa de desemprego em curso, o aumento dos salários é fato irreversível, o que exigirá atuação do FED, independente do patamar de câmbio ou do preço do barril de petróleo.

A chair do FED, Janet Yellen, praticamente confirmou o inevitável em sua última entrevista. Não é mais segredo que a continuação do processo de retomada econômica exigirá aumento da Federal Funds Rate. O aperto monetário só será evitado caso a economia norte-americana leve outro tombo, o que é improvável no momento.

O aviso de Yellen é importante para o Banco Central brasileiro atuar preventivamente nos próximos meses. Sai muito mais barato subir a taxa Selic antecipadamente, como está sendo feito, do que dar um choque de juros em momentos de desespero.

Entretanto, a fonte do principal problema externo que afeta o Brasil é também a solução para continuarmos, pelo menos, respirando neste mar agitado. O processo, em curso, de reorganização da economia chinesa (mais voltada ao mercado consumidor doméstico e menos dependente de investimento Estatal) é uma paulada aos países exportadores de commodities. Mas o Brasil tem a chance de se reaproximar dos Estados Unidos e expandir as relações comerciais com uma economia em rota ascendente. Para isso, basta remarcar a importante visita de Estado à Washington o mais rápido possível, o que felizmente parece estar na agenda do governo.

Líderes anti-americanos (assumidos e não assumidos) da Unasul (União de Nações Sul-Americanas) ficaram de queixo caído ao descobrirem, pelos jornais, que seus companheiros de Cuba estão se reaproximando dos Estados Unidos. Cuba pode puxar a fila dos países que apresentam alguma sanidade.

Pelo lado da insanidade, a Venezuela está muito próxima de uma ruptura que pode ser dramática e violenta. Milícias chavistas fortemente armadas de um lado e população pronta para sair às ruas do outro. O anti-chavismo é, atualmente, maioria na Venezuela, mas a militarização dos apoiadores do governo é um problema extremamente grave que pode resultar até mesmo numa guerra civil. O papel das forças armadas venezuelanas será importante. Os militares podem partir para um golpe de Estado. Podem escolher um lado e lutar. Ou ficar de braços cruzados (improvável).

O Brasil, como líder regional, não está preparado para fazer o seu papel e atuar como mediador na Venezuela. Não está preparado para receber eventual imigração na fronteira. Não está preparado para dar suporte às empresas brasileiras que abastecem a Venezuela. Não está preparado para recusar os pedidos de socorro político do presidente Maduro, que fez questão de conversar em particular com Dilma Rousseff na cerimônia de posse.

Maduro está enfurecido com os árabes, pois a queda abrupta do barril de petróleo acelerou o processo de implosão do sistema na Venezuela. A jogada política da Arábia Saudita virou o planeta de cabeça pra baixo. A manutenção do ritmo de produção de barris árabes visa eliminar, no médio prazo e longo prazo, alguns concorrentes de custos elevados e prolongar, ao máximo, a posição do barril de petróleo como principal fonte de geração de energia.

A eliminação de alguns concorrentes é um processo lento. A tendência é de persistência dos produtores em novas perfurações, numa disputa em que o melhor sobrevive. Ninguém quer perder fatia de mercado e muitos, que estão na corda bamba, estão dispostos a brigar pelo preço.

O reequilíbrio entre oferta e demanda, que proporcionará condições para retomada gradual do preço do barril de petróleo, está longe de acontecer. A Rússia, outro importante player global, atingiu novo recorde de produção na era pós-soviética, com uma média de 10,58 milhões de barris por dia no ano passado.

Se por um lado os produtores estão produzindo cada vez mais, os consumidores tendem a consumir cada vez menos barril de petróleo. A busca por fontes de energias renováveis é um processo que tende a ganhar cada vez mais força nos próximos anos/décadas, tanto por questões climáticas, quanto por questões geopolíticas (blindagem contra choques provocados por fontes de combustíveis fósseis, aproveitamento do enfraquecimento econômico de países rivais, etc).

China e Estados Unidos firmaram um acordo histórico no final do ano passado para redução de gases de efeito estufa. Até 2025 os Estados Unidos pretendem reduzir suas emissões de gases poluentes entre 26% e 28% em relação a 2005. Já a China planeja que, até 2030, ou um pouco antes, deverá ter 20% de combustíveis não fósseis em sua matriz energética. Hoje a proporção de energias renováveis na matriz energética chinesa gira em torno de 10%.

A Ìndia, outro grande consumidor global de combustíveis fósseis, vai investir cerca de 100 bilhões de dólares ao longo de sete anos para impulsionar a capacidade de geração de energia solar no País em 33 vezes, para 100 mil megawatts. A participação da energia solar na matriz energética indiana vai aumentar de 1% para mais de 10%. Para efeito comparativo, na Alemanha, líder em energia renovável, a participação da fonte solar era de cerca de 6% do total gerado em 2014.

O Brasil, como de costume, está perdido e fora de rumo. O rearranjo do mercado energético global chegou mais rápido do que a exploração do pré-sal. Perdemos o timming.

No oriente médio, os impactos são inevitáveis. A queda do preço do barril de petróleo aumenta o clima de tensão na região. A jogada da Arábia Saudita enfraquece, também, um importante inimigo (Irã). Somada às sanções do ocidente, o petróleo mais barato limita ainda mais as margens de manobras do Irã, que pode acabar sendo pressionado a assinar o acordo nuclear para evitar um colapso econômico.

Já no mês de março deste ano, haverá eleições antecipadas em Israel, dois anos antes do previsto. O primeiro-ministro Binyamin Netanyahu demitiu os ministros das Finanças e da Justiça devido a desentendimentos sobre o curso da política e da economia no País. Netanyahu pretende fortalecer a natureza judaica do Estado de Israel, o que pode favorecer adoção de posturas mais rígidas no Oriente Médio, ultrapassando até mesmo os limites da Palestina.

A delicada situação econômica na zona do euro receberá um “reforço” já no início deste ano com a volta da instabilidade política na Grécia. Eleições antecipadas foram convocadas para o próximo dia 25, onde o partido de esquerda Syriza é o favorito, com 3% à frente da coalizão de centro-direita Nova Democracia nas pesquisas de intenção de voto. O partido de esquerda liderado por Alexis Tsipras é uma tremenda dor de cabeça no bloco, pois rejeita as medidas de austeridade impostas pela UE (União Europeia) e FMI (Fundo Monetário Internacional).

O partido Syriza não quer abandonar o euro, mas quer renegociar o resgate grego, para que a dívida do país seja reduzida à metade. No entanto, as autoridades da UE e do FMI rejeitam a renegociação e afirmam que a Grécia deve continuar a implementar medidas de austeridade. Além disso, uma eventual vitória do Syriza poderá inspirar outras coligações de esquerda que vem ganhando força na Europa nos últimos anos.

Crises e/ou situações delicadas em diversas fontes do ambiente externo potencializam as dificuldades a serem superadas pelo Brasil em 2015. Os desafios são enormes frente à restrita margem de manobra. Há limite para elevação de impostos, reversão de subsídios, corte de gastos e alta dos juros, pois o efeito sobre a atividade econômica é tão negativo que acaba impactando negativamente a própria arrecadação, piorando ainda mais a situação fiscal, ao invés de melhorar.

Levy tem a competência necessária para desenvolver este trabalho cirúrgico, mas precisará do apoio da presidente e do Congresso, principalmente nos próximos três ou quatro trimestres. O mesmo vale para atuação do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central). Ponto ainda duvidoso e questionável. Está faltando o voto de confiança do governo, a ser transmitido pelas atitudes, e não por discursos políticos.

A conta que precisa ser paga nos próximos quatro anos é maior daquela que foi paga nos últimos quatro anos. Entretanto, assumir a responsabilidade do pagamento integral é um importante passo para criação do benefício futuro. O prêmio oferecido pelo mercado a todos que fazem seus respectivos deveres de casa.

Mudança para melhor é o que todos nós queremos, independente de quem está no poder. Não dá mais para esperar. É agora ou nunca. Sucesso à nova equipe econômica, o nosso pingo de esperança.

30 comentários:

  1. Excelente texto como sempre. Resumo perfeito da situação.
    Abraço!

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  2. Como sempre, parabéns pelo seu excelente comentário!!!

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  3. FI,

    "A sinalização de aperto monetário preventivo e ajuste fiscal são importantes para suavizar ou mesmo impedir a velocidade de afundamento no lamaçal de problemas, mas insuficientes para uma total correção de rumo." É isso mesmo, Levy vai tentar mas não vai conseguir. Falta muito mais do que ele pode oferecer atualmente.

    Como vc ve o preço do minério de ferro atualmente, acha que pode se recuperar no futuro?

    Abs.

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    1. A total correção de rumo (reformas estruturais, por exemplo) não depende do Ministério da Fazenda. Depende do Congresso e do Planalto. A parte que cabe ao Levy (ajuste fiscal, por exemplo) será feita conforme as necessidades e dentro da medida do possível, creio eu. O simples fato de o Levy ser hoje o ministro da Fazenda significa que vai haver espaço para trabalhar. Isso provavelmente foi conversado antes. Se fosse para fazer papel de fantoche, ou qualquer outra coisa, ele não estaria lá. O que resta agora é avaliar as medidas e qual será a intensidade do ajuste.

      Sim, existe perspectiva de retomada no futuro. No curto e médio prazo tende a continuar pressionado pelo excesso de oferta e reordenamento do modelo econômico chinês. O mesmo vale para o petróleo e demais commodities. O tempo se encarregará de acertar este "desnivelamento" entre oferta x demanda.

      Abs,

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  4. JL sairá do MF antes de completar 1 ano de trabalho. A gerentona não deixa ninguém trabalhar.

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    1. Acho que desta vez pelo menos um ministério "vai ter que trabalhar", justamente o da Fazenda. A equipe montada pelo Levy na Fazenda também está alinhada à postura do próprio Levy. Muita gente boa e competente para trabalhar ali dentro. Vamos ver.

      Abs,

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  5. Parabens pelo excelente texto novamente. Gostaria que sr repasse lista de sites que usa como informaçao. Por incrivel que pareça mesmo diante de tanta informaçao ainda é dificil encontrar sites bons em relaçao a temas economicos

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    1. Obrigado!

      Agências de notícias (Reuters, por exemplo) e alguns indicadores você pode coletar na fonte (site do instituto de pesquisa), formando sua própria opinião. Isso é ótimo para filtrar o sensacionalismo da mídia com o mercado financeiro.

      Abs,

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  6. Muito bom FI, como sempre. Parabéns.
    Abraço!

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  7. análise incrível, parabéns pelo excelente trabalho prestado.

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  8. Sensacional descrição do nosso atual quadro econômico, e agora ? quem poderá nos defender ? rs

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  9. Respostas
    1. O senhor está louco... rs

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    2. Só se for no papel de sogro. ahahahahahah

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    3. Como ministro da Fazenda ele é um ótimo humorista. A cada entrevista era uma piada atrás da outra rs...

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  10. FI se superou nesse texto !

    Anonimo da alll

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  11. Feliz 2015 Atrasado finanças.mais do mesmo,com esta massa ignorante que outrora vota nesta
    quadrilha,não vejo esperança.

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  12. Sem querer ser folgado, mas já sendo, poderia recomendar uns livros de economia?

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    1. Nunca li nenhum livro de economia rs... Algumas coisas aprendi lendo alguns artigos, outras acompanhando indicadores, outras observando os impactos das medidas na prática. Assim acabei formando meu próprio ponto de vista. Dizem que economia é psicologia, então não é tão difícil de entender. Basta ter paciência, que o aprendizado vem com o tempo. Só mesmo os economistas que não se entendem rsrs...

      Abs,

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