segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Principal acrônimo da década passada corre risco de sumir


O visionário economista Jim O'Neill, ex-presidente do poderoso Goldman Sachs, ficou conhecido no início da década passada ao criar a famosa sigla BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), em 2001, quando poucos no mercado financeiro enxergavam, na época, potencial relevante de crescimento destas quatro economias mundiais.

Os países do BRIC deixaram de ser meros coadjuvantes emergentes para se tornaram potências globais. Empresários e investidores que apostaram no BRIC na década passada se deram muito bem.

Mas a lua de mel do mercado com o acrônimo BRIC, que estava sofrendo desgaste nos anos anteriores, chegou ao fim. Não se observa mais toda aquela empolgação da década passada quando o assunto era discutido no mercado financeiro. O BRIC deixou de ser uma sensação e se tornou numa sigla que às vezes passa despercebida, como outra qualquer.

O desânimo do mercado com o BRIC não está relacionado à reestruturação do modelo de crescimento na China (onde existe o custo da desaceleração do crescimento) ou ao pouso suave da economia indiana (hoje em rota de reformas). O mercado está decepcionado com Brasil e Rússia.

O super ciclo de alta das commodities, predominante na década passada, beneficiou fortemente os grandes exportadores, como Brasil e Rússia. Com a casa arrumada pelo governo anterior, o Brasil pode tirar longas férias e surfar até a última espuma da onda das commodities. Trabalhamos pouco e aproveitamos muito.

O período de extrema bonança escondeu os problemas do passado negligenciados pelo governo. Não estávamos fazendo o dever de casa, mas o mercado pouco se importava, pois os preços das commodities subiam dia após dia. Entretanto, com fim do período das vacas gordas, os problemas da década anterior passaram a ser notados pelo mercado, incomodando cada vez mais os investidores. Para piorar, deveres de casa não feitos se juntaram aos novos problemas criados pela desarrumação da casa.

Perdemos o diálogo com o mercado. Promessas do governo são palavras ao vento. Cobra-se atitude. Resultados. Tanto o Brasil quanto a Rússia (que passa por problemas semelhantes aos nossos, porém em maior intensidade) precisam mostrar ao mercado capacidade para retomar o crescimento de forma sustentada na segunda metade desta década.

A nova equipe econômica vai fazer o possível para arrumar algumas dependências desta casa bagunçada. As políticas econômica, fiscal e monetária tendem a apresentar ligeiras melhoras. Bom sinal, mas insuficiente para retomar a rota de um satisfatório crescimento sustentado. A forte dependência do mercado de commodities e dos financiamentos externos não só expõe nossa vulnerabilidade, mas também dificulta a implementação das importantes reformas estruturais (necessárias para retomada do crescimento sustentável).

O Brasil está com suas poucas peças encurraladas no tabuleiro de xadrez do mercado. Se não fizer nos próximos cinco anos o que não fez nos últimos dez, vai levar xeque-mate.

O próprio criador do BRIC pensa em acabar com o acrônimo. Perguntado se ainda agruparia Brasil, Rússia Índia e China como potências do mercado emergente, O'Neill respondeu que teria vontade de chamar o grupo de “IC” se nos próximos três anos as coisas permanecerem iguais ao ano passado para o Brasil e a Rússia.

No passado o mercado avaliava o BRIC dentro do contexto de um grupo. Os quatro participantes recebiam praticamente a “mesma nota”. Assim, os membros que não faziam seus respectivos deveres de casa eram beneficiados. Hoje o mercado continua avaliando o grupo, mas com “notas diferentes” entre os participantes. As duas primeiras letras recebem um olhar desconfiado, com certa irritação. As duas últimas letras recebem um olhar mais amigável.

Pior do que ser um dos responsáveis pelo risco de divisão do BRIC, é estar ao lado da Rússia. Ser comparado indevidamente com a Rússia. O Brasil tem mais condições de fazer o BRIC se transformar em BIC do que a Rússia de fazer o BRIC se transformar em RIC.

Abaixo, segue análise gráfica dos principais índices mundiais. Veja aqui as características principais da plataforma.

No mercado de capitais, o índice Bovespa segue trabalhando dentro de uma tendência de baixa, sem apresentar novidades. A tentativa de reversão verificada na semana passada pode ser invalidada caso a linha de suporte dos 47.3k seja rompida.


Embora mais veloz, a bolsa da Rússia segue o mesmo caminho. Mercado em tendência principal de baixa, aliviando nas últimas semanas após a pancada dos meses anteriores.


Situação diferente na Austrália, que apesar de ter uma economia de certa forma dependente das exportações de commodities, tem, pelo menos, a casa arrumada. O principal índice da bolsa de Sydney não está tão longe da máxima de 2007/2008 em relação ao topo histórico do mesmo período dos mercados russo e brasileiro. No momento o mercado australiano trabalha dentro de uma zona de congestão entre os 5.100 pontos aos 5.500 pontos.


Na Índia, a bolsa de Bombay opera dentro de uma forte tendência de alta de médio e longo prazo. No curto prazo, o mercado trabalha movimento natural de correção, sem sinalização de reversão na tendência principal.


Na China a bolsa de Xangai segue dentro de um forte rali, impulsionado pela abertura de mercado aos investidores estrangeiros.


10 comentários:

  1. FI, sera que o mercado vai de fato avaliar o 2 mandato da Dilma de forma diferente ou com grande desconfianca devido ao seu passado? Seria possivel ver nosso indice em bull nos proximos 4 anos, ou seria otimismo demais? Rs. Abs

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    1. Isso deixou de ser uma possibilidade há algum tempo e passou a ser um fato constatado pela atuação da nova equipe econômica e queda significativa dos prêmios de risco da dívida soberana.

      Abs, bons negócios

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  2. Realmente, agora é 8 ou 80. O governo sabe do recado dado pelas urnas...além de toda a questão macroeconômica, está em jogo o poder deste País. Torço para que a equipe econômica consiga fugir das garras da sargentona. Béla análise, abraços!

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    1. Sim, o time da nova equipe econômica começou muito bem. Com o pé direito. Obrigado!

      Abs, bons investimentos

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    2. Sugiro você explicar para ela ou para mim qual foi a resposta, porque a Dilma após a reeleição, no "primeiro dia" : 1º Ferrou as empregadas domesticas e seus empregadores depois comprou a "lei" da responsabilidade fiscal. Que povo difícil de entender que os Corruptos não se importam conosco.

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  3. Fi, bom dia! O que você acha das debêntures? Algumas pagam 6% +IPCA. Abraço!!!

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    1. Olá,

      Levando em consideração que seja um título de empresa de primeira linha e de prazo aceitável (4/5 anos), o retorno de 6% + IPCA está baixo. O prêmio de risco em relação às NTNBs é muito pequeno, mesmo com isenção do IR na debênture.

      Abs, bons negócios

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  4. Parabéns pelo post anterior. Li hoje e achei muito bom.
    Sinto falta daquela analise que voce fazia sobre o panorama da RF, Cambio e RV.

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