sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Esqueceram de ouvir a opinião do Sr. Mercado


Como de costume, as notícias negativas do quadro doméstico foram predominantes neste mês. Os novos assuntos que vieram à tona, como a derrota do governo na Câmara, substituição da diretoria da Petrobras, rebaixamento da Petrobras e greve dos caminhoneiros se juntaram aos velhos e conhecidos problemas nos déficits públicos, corrupção, inflação elevada, baixo crescimento, risco de racionamento de água e energia elétrica, juros altos, ambiente de negócios desfavorável, infraestrutura deficitária, excesso de burocracia, carga tributária elevada e baixo nível de educação.

Notícias volumosas e pesadas que permitiram a mídia “especializada” em mercado financeiro vender o sentimento de revolta, indignação e pessimismo aos seus leitores. Publico este, que por sinal, procura informações com objetivo de rentabilizar seu patrimônio. Não existe outro objetivo ao investidor/operador no mercado financeiro que não seja o de ganhar dinheiro, independente do cenário X ou Y.

Revolta, indignação, pessimismo (ou mesmo otimismo) são sentimentos que podem se manifestar em qualquer lugar, menos no mercado financeiro. Um bom negociador de ativos sabe que precisa filtrar, o tempo todo, as informações despejadas no mercado. Focar na evolução dos indicadores econômicos, nos movimentos dos Bancos Centrais, dos governos, dos ministros de Finanças/Economia/Fazenda e das principais instituições globais, para conseguir fazer a leitura correta do quadro macroeconômico e traçar perspectivas.

O filtro dos investidores/operadores passou por mais uma dura prova de teste neste mês de fevereiro. A mídia brasileira ouviu todo mundo, menos a opinião do “Sr. Mercado”. Análises e comentários rotineiramente errados e de elevada carga emocional, totalmente desconectados do ambiente de negócios do mercado financeiro.

O mercado financeiro brasileiro não é uma ilha fechada movida ao sentimento vendido pelos “jornais do bairro”. O mercado é aberto. O fluxo entre compradores e vendedores, que define os preços dos ativos, vem de todos os cantos do planeta. A decisão, portanto, de comprar ou vender determinado ativo não é fruto único e exclusivo do noticiário bairrista. É o resultado de um emaranhado de informações avaliadas de sob diversos pontos de vista entre investidores/operadores.

O ponto de vista que prevaleceu neste mês jogou os preços para cima, ao contrário do que sugeriam os “jornais do bairro”. Bolsa de valores em forte alta e baixo rendimento dos títulos soberanos são resultados de uma grande onda compradora que atingiu ativos de diferentes segmentos no nosso mercado.

O contrato de juros futuros com vencimento em 2018, por exemplo, encerrou o mês em 12,52% ao ano, o que significa prêmio nulo, levando em consideração que a taxa Selic subirá 0,25 p.p. na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central do Brasil) a ser realizada na semana que vem. Já o contrato de juros futuros com vencimento em 2019 encerrou o mês em 12,44%, o que representa prêmio negativo, levando em consideração a nova taxa Selic em 12,50% na semana que vem. A partir de 2019, todas as curvas de juros operam com prêmios negativos. A ausência de prêmio nos contratos de juros futuros revela como está o apetite do mercado.

O índice Bovespa fechou o mês de fevereiro com significativa valorização de 9,97%, registrando o maior ganho mensal desde janeiro de 2012. Esta é a terceira vez, nos últimos dois anos, que o mercado brasileiro reage ao aproximar-se da região de suporte dos 45k.


Destaque para nova medida de ajuste fiscal anunciada nesta sexta-feira. O governo reduziu a ineficiente desoneração da folha de pagamentos da lista de beneficiados criada na gestão do antigo ministro da Fazenda, que, por sua vez, não gerou impacto positivo na economia. Empresas que pagavam 1% do faturamento à Previdência Social passarão a recolher 2,5%. Empresas que pagavam 2% do faturamento à Previdência Social passarão a recolher 4,5%. As novas alíquotas serão válidas a partir de junho e as empresas beneficiadas poderão optar entre recolher o imposto sobre a folha de salários (como as demais não beneficiadas) ou pelo faturamento.

A medida é mais uma bela jogada do ministro Joaquim Levy, pois não só corrige parte das distorções causadas pelo intervencionismo ineficiente do passado, como aumenta o caixa do governo. Somente no ano passado o governo queimou mais de 21 bilhões de reais com as desonerações. É mais uma injeção fiscal que joga o País na rota do superávit primário de 1,2% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2015. É mais uma reafirmação de autonomia da Fazenda, reafirmação de abandono das infrutíferas políticas anticíclicas predominantes no primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff, reafirmação de apoio e comprometimento do governo federal com uma nova política econômica e, por fim, reafirmação da nossa atual classificação de risco (grau de investimento).

Aos poucos, o ministro da Fazenda vai derrubando teses daqueles que não prestaram atenção ou não confiaram no que foi revelado ano passado após as eleições. A casa está sendo parcialmente arrumada para que o País volte a crescer no médio prazo. Muito ainda precisa ser feito, mas felizmente entramos numa nova rota.

A onda compradora que atingiu o mês de fevereiro não foi uma particularidade do mercado brasileiro. Ativos de outras praças financeiras também experimentaram valorizações expressivas no mês, influenciados, sobretudo, pelas orientações/atuações de política monetária dos principais banqueiros centrais mundiais.

Wall Street segue bull. Os principais índices da bolsa de Nova York fecharam o mês em forte alta, renovando a máxima histórica.


O mesmo quadro pode ser constatado nos mercados europeus. Na Alemanha, o índice DAX fechou mais um mês em forte alta, apesar do elevado nível de sobrecompra, acelerando o rali.


O índice Nikkei, da bolsa de Tóquio, no Japão, disparou neste mês, rompendo a máxima registrada em 2007. Mercado segue numa forte tendência de alta, com boa perspectiva para superar a máxima histórica ainda este ano. Nikkei em bull market é mais um feito histórico.
  
  
O desempenho da bolsa de Xangai, na China, é, também, um feito histórico. O mercado fechou o mês em forte alta, recuperando as perdas registradas no mês anterior, mostrando a força do rali iniciado no final do ano passado.


Na Índia, a bolsa de Bombay fechou o mês em leve alta, mostrando forte recuperação na última semana. Apesar do elevado nível de sobrecompra, não houve surgimento de força vendedora suficientemente necessária para forçar o mercado trabalhar uma correção natural desde o rompimento da máxima histórica, na virada de 2013 para 2014.


A bolsa do México também disparou no mês de fevereiro, após registrar três meses consecutivos de perdas relevantes. O movimento de recuperação marcou fundo na região dos 240 pontos.


Bom final de semana!

12 comentários:

  1. Mais uma excelente análise! Prezado FI, com todos esses índices atingindo máximas históricas, o que acontecerá quando fecharem as torneiras? A propósito, considerando a SELIC no patamar em que se encontra, mantenho mais de 90% de meus recursos alocados em LFT, que pretendo aplicar na bolsa assim que surgir uma boa oportunidade. No caso de um choque externo de juros (FED, por exemplo), com consequente queda do preço de ativos de risco no mundo, você enxerga algum risco para quem aplica em LFT? Muito obrigado e um bom fim de semana!

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    1. Obrigado! Chegará o momento em que se iniciará um novo ciclo de bear market nas principais praças financeiras mundiais. A condução do processo de desalavancagem do sistema financeiro (fechar as torneiras) pelos Bancos Centrais é um fator importante e que pode jogar o mercado num novo ciclo de bear market. Mas isso dependerá de como será conduzido esse processo e qual será o patamar de preço dos ativos na época do evento. O risco para quem aplica em LFT ou qualquer outro título do Tesouro é o risco soberano. Choque de juros é improvável, pois o próprio FED alertou que o ciclo de aperto monetário será gradual. Mas mesmo num caso de choque de juros lá fora, o Brasil teria margem de manobra pra evitar um congelamento, prorrogação ou mesmo calote na dívida pública. O quadro ainda é de baixo risco.

      Abs, bons investimentos

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  2. Lendo suas análises que percebi o quanto negligenciamos o peso do capital estrangeiro aqui. Uma coisa sem sentido se pararmos para pensar que a quantidade de pessoas física inscritas na bolsa é pequena proporcionalmente, além de sua comparação com outras praças financeiras abrir nossos olhos para as tendências a nível mundial. grande abraço!

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    1. Exato. Esse negligenciamento é comum no nosso mercado. As análises são quase sempre focadas no que acontece aqui dentro, sem mencionar ou fazer um paralelo com o que acontece lá fora.

      Abs, bons negócios

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  3. TI pequena empresa (R$2.5M/ano).
    Há 5 anos margem era 21%.
    Até quinta-feira, por causa dos incessantes investimentos em produtividade, ainda mantinha os 13% de margem. Vários concorrentes e parceiros quebrados entre 2014 e agora.
    Nessa sexta-feira tomei mais 2,5% e o negócio está caminhando rapidamente para ficar inviável também. Desânimo geral.

    Outra empresa, varejo (R$6M/ano), clientes parcelando tudo e fornecedores enviando boleto de factoring, indústrias enormes adiantando recebíveis, coisa que nunca vi.

    O mês pode ter sido bom, mas a tendência é baixa geral. Ou corta a gastança ou o aumento de impostos vai acabar com o que ainda resta. A conta não fecha! Recessão braba!!

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    1. O que será que as outras empresas (que não tiveram "sorte" de entrar para o seleto grupo dos amigos do rei) fizeram nesses últimos anos para sobreviver no mercado? O governo está reduzindo um benefício custoso e infrutífero. Não é aumento de impostos, é correção de distorção. Voltando ao que era antes. Aliás, aproximando, pois o programa de desonerações ainda proporciona benefício fiscal às empresas participantes. O fato de uma empresa não conseguir suportar elevação da carga de 1% para 2,5% sobre o faturamento é um forte sinal de que o negócio não é tão produtivo e precisa ser remodelado.

      Com relação ao varejo e aos adiantamentos de recebíveis, não há nada fora do comum. O parcelamento é prática comum no varejo desde a época que não existia cartão de crédito. Adiantamento de recebíveis existe desde quando fundaram o primeiro banco no Brasil. Sempre foi e continuará sendo uma operação muito utilizada pelas empresas.

      Abs, bons investimentos

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    2. Essa "desoneração" foi criada para pegar empresas que utilizavam mão de obra PJ. Os impostos avançam ano após ano. Quando baixaram este, subiram outros, e agora sobem este, entende? Não volta ao que era antes. Agora o governo ganha mais. Ato contínuo e agora acelerado! Afirmo que 2/3 as empresas do ramo estão passando por dificuldades. Não é uma empresa. Todo o setor está ficando inviável. E quais outros setores também estarão?

      Os recebíveis adiantados que citei são de indústrias, não de varejo. Em 12 anos sempre veio boleto da própria indústria. Desde janeiro mais de 20% delas enviaram boleto de factoring. Isso é novo sim, pelo menos para estas.

      Entendo sua visão de copo meio cheio e acho muito bons seus textos. Mas a realidade está mudando rapidamente. Temo que aqueles que não passarem a considerar o copo meio vazio, se adiantando ao aprofundamento da crise que está só começando, vão ter dificuldades.

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    3. Sim, mas a alta dos impostos ocorrida no primeiro mandato do governo Dilma atingiu mais as pessoas físicas. Destaque para os IOFs. Somos os principais pagadores dos inúmeros erros cometidos pelo governo. Já as empresas e/ou setores que tinham aproximação com governo foram muito beneficiadas. O Levy apenas reduziu esses benefícios, que estavam criando distorções graves. Pode ser que algumas empresas do setor de TI estejam realmente passando por dificuldades. Mas deve-se considerar que o setor passou por uma fase de euforia. Muitas empresas surgiram nos últimos anos. As empresas cresceram muito mais rápido do que o próprio segmento. É perfeitamente natural que próprio mercado elimine as firmas menos competitivas. O aumento de tributos apenas acelera essa correção no segmento. Sim, o setor que mais utiliza operações de adiantamento de recebíveis é justamente o industrial. Definitivamente o que não faço é leitura de copo meio cheio ou meio vazio rsrs.. Tento fazer análises mais transparentes e imparciais possíveis. As condições de negócio no Brasil são sofríveis há décadas e pioraram muito nos últimos anos, mesmo com forte afrouxamento fiscal. A crise já existe há um bom tempo. O primeiro passo para reverter esse quadro negativo já foi dado: o ajuste fiscal. Isso abrirá espaço para as empresas que foram justificadamente cautelosas nos últimos anos fazerem uma nova análise de projetos engavetados. O empresário que estiver atento para atirar no momento certo terá boa possibilidade de fazer ótimos negócios.

      Abs, bons investimentos

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  4. Quanto a Dilma criticando o Levy, o que será que o mercado pensa ?

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    1. Dilma fala pro povo. Levy fala pro mercado. Particularmente não dou a mínima para o que a Dilma fala pro povo, sabendo que nos bastidores o governo está fazendo o contrário.

      Abs, bons negócios

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  5. FI, o que pensa sobre o TD neste ano? Muitos especularam que talvez voltássemos à época dos títulos pagando 14, 15 ou até 16%, acredita que isso possa mesmo acontecer? Abraço

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    1. A única coisa que eu acredito é que o mercado pra títulos da dívida soberana abre todos os dias úteis e entre 09h às 18h as taxas são três vezes atualizadas rsrss.. Então basta acompanhar esse mercado e ter uma estratégia operacional para entrar nos momentos ideais e fixar boas taxas. Isso é importante. Nos últimos meses/anos surgiram algumas coisas pra fixar, o que é bom, pois mostra que o mercado está aberto e volta e meia oferece um bom negócio. Em alguns momentos no ano passado (e também nesse ano) os títulos mais curtos chegaram a pagar algo pouco abaixo dos 13,5%, nada mal, dentro das condições do quadro atual.

      Abs, bons negócios

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