quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Nova onda de busca ao risco mostra investidores mais seletivos


A nova orientação de política monetária do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos), apresentada ao término da reunião de Comitê do dia 17 de dezembro de 2014, contribui de maneira significativa para reabrir janelas de negócios nas principais praças financeiras mundiais, especialmente em países emergentes.

A famosa expressão “tempo considerável” (ou “horizonte relevante”), utilizada para caracterizar por quanto tempo o FED pretende esperar para elevar a taxa básica de juros após o fim dos programas de estímulos monetários, foi eliminada do comunicado do dia 17. Desde então, o Banco Central norte-americano segue afirmando que vai adotar uma postura "paciente" para decidir quando elevar os juros.

Apesar de o mercado subestimar a velocidade com que o FED possa elevar a taxa básica de juros, a paciência do Banco Central não deixa de ser uma garantia de tempo extra aos investidores que pretendem aproveitar retornos atrativos em ativos de risco nos países emergentes.

Entretanto, pode-se notar desde o final do ano passado, que o fluxo de capital não se deslocou em bloco aos países emergentes. Os investidores/operadores estão cada vez mais seletivos na escolha do destino. Índia, Indonésia, México e Taiwan estão entre as praças mais beneficiadas com a nova onda global de busca ao risco. A Rússia quase não se beneficiou e o Brasil recebeu alguns respingos, mas apenas direcionados para o mercado da dívida soberana.

Enquanto o índice MSCI (gráfico de candles), que reúne as principais ações das bolsas de valores em mercados emergentes, trabalha dentro de uma tendência de alta desde a mudança de orientação da política monetária do FED, o índice Bovespa (linha branca) trabalha dentro de uma congestão. Estamos praticamente no mesmo lugar.


A forte queda dos preços das commodities nos últimos meses pode ser uma das explicações pelo desânimo dos investidores/operadores com a bolsa de valores brasileira. Entretanto, a participação de empresas exportadoras de commodities é cada vez menor na composição da carteira teórica do Ibovespa. O setor de maior peso é o financeiro com 28,057%, seguido pelo setor de petróleo e gás com 8,213%, consumo não cíclico e bebidas com 7,721% e mineração com 7,399%.

O fato é que mesmo num ambiente de elevada liquidez, os investidores, operadores e players de mercado, de maneira geral, seguem justificadamente cautelosos com o mercado de ações brasileiro, devido aos infelizes acontecimentos dos últimos anos.

A entrada do Levy na Fazenda foi importante para permitir o acompanhamento da redução dos prêmios de risco da dívida soberana brasileira em linha com o movimento das Treasuries (título público do Tesouro norte-americano, referência mundial). Mas é preciso fazer mais para que a economia encontre a rota do crescimento sustentado no médio e longo prazo, fato com alto potencial de atração de capital num ambiente onde os investidores estão cada vez mais seletivos.

Já o nível de confiança, ponto fundamental para evitar a continuação do movimento contracionista do ano passado, mostra sinais de reação. Os indicadores mais recentes revelam que o choque de gestão no ministério da Fazenda animou os empresários. O Índice Gerente de Compras do Brasil, calculado pelo banco HSBC em parceria com o Instituto Markit, subiu para 50,7 pontos no mês de janeiro, atingindo o nível mais forte dos últimos 12 meses, confirmando ligeira expansão do setor industrial.

A bolsa de valores brasileira fechou em alta pelo terceiro pregão consecutivo, mostrando reação após testar a primeira linha de suporte da zona de congestão de curto prazo. Com esse movimento, o mercado aproximou-se da primeira linha de resistência da referida zona de congestão, sem apresentar novidades.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones, também congestionado no curto prazo, fechou de lado ao tocar a LTB do topo histórico. O mercado não se animou com o corte de 0,5 p.p. no compulsório anunciado pelo Banco Central da China. Alguns analistas esperavam novo corte na taxa básica de juros, dando sequência ao ciclo de afrouxamento monetário iniciado há cerca de três meses.


8 comentários:

  1. Olá, FI.

    a) Poderia comentar o seguinte artigo (que achei muito bem escrito) do instituto Mises sobre a impossibilidade do FED aumentar a FFR no curto prazo, não por razões macroeconômicas, mas sim porque a FFR teria sido "morta" pela injeção descontrolada de dinheiro o que ocasionou um aumento expressivo nas reservas bancárias. Segundo o autor do texto, e ele colaciona gráfico, a taxa dos empréstimos interbancário caiu para quase 0% muito antes do FED estipular a FFR em 0,25% (http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2019).

    b) O que acha também do ponto onde ele destaca que o balanço do FED piorou drasticamente, saindo de treasuries de curtíssima duração em sua maioria, para títulos com duration mais longa e quase 2trilhões em dívidas imobiliárias de caráter para lá de duvidoso. O que aconteceria se o FED resolvesse realmente enxugar a liquidez vendendo esses títulos? Conseguiria fazê-lo da mesma forma que simplesmente injetou liquidez? Não parece um cenário crivo;

    c) O que acha da afirmação que há uma grande bolha nos títulos governamentais? Eu já escrevi sobre isso de passagem, mas em relação ao mercado de high yield e seus spreads declinantes, pelo menos se compararmos com a média histórica. Agora, não parece fazer sentido, um bond suíco de 15 anos pagar -0,1% nominal e o de 30 anos pagar 0,25% aa. O que acha desse maravilhoso novo mundo de baixíssimos yields?

    d) Também o que acha sobre interessante gráfico sobre a clara diferenciação na economia americana dos setores ligados ao xisto, do resto da economia, inclusive na geração de emprego. Será que a economia não está se recuperando única e exclusivamente por causa do crescimento desse setor?


    Abraço!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá soulsurfer,

      a) creio que um dos objetivos da injeção monetária (que não foi descontrolada na minha avaliação, pelo contrário) é justamente entupir os cofres dos bancos. Foi a única solução encontrada para evitar um colapso nunca antes visto na história do sistema financeiro. O FED já tem um plano para normalizar a política monetária, foi divulgado na reunião de Comitê do mês de setembro do ano passado. Será basicamente dessa forma: o FED determinará o momento e o ritmo de normalização da política monetária de forma a manter o máximo emprego e estabilidade de preço; (ii) a meta para a Federal Funds Rate (FFR - taxa básica de juros) será elevada quando as condições econômicas permitirem; (iii) durante a fase de normalização, o FED provocará o deslocamento da FFR dentro de uma banda pré-estabelecida pelo Comitê e poderá utilizar uma linha de recompra overnight para ajudar a controlar as taxas de juros; (iv) a carteira de ativos do FED deverá ser reduzida de forma gradual e previsível através do encerramento ou diminuição dos reinvestimentos dos rendimentos de seu enorme estoque de títulos, a depender das condições econômicas e financeiras após o inicio do ciclo de aperto monetário; (v) não há perspectiva, no momento, para venda de ativos lastreados em hipotecas; (vi) no longo prazo, o FED pretende manter apenas uma carteira de ativos (basicamente formada por Treasurys curtas) necessária para implementar a política monetária de maneira eficiente; (vii) detalhes poderão ser ajustados no plano de normalização das condições monetárias conforme os desenvolvimentos econômicos e financeiros.

      b) o FED assumiu risco. Se por um lado aceitaria chutar que existem títulos podres no balanço, por outro lado aceitaria chutar que parte não desprezível dos títulos se valorizaram. Ou seja, o FED pode estar perdendo dinheiro com alguns títulos, mas pode estar ganhando dinheiro com outros. No geral, também arriscaria chutar que fecha no positivo. É como comprar ações de várias empresas num crash de mercado. Você vai pegar negócios bons e ruins, ambos extremamente baratos. A valorização dos negócios bons compensa o prejuízo dos negócios ruins, que são minoria. Definitivamente o enxugamento será um processo gradual, bastante longo. Observe que no plano traçado a perspectiva é começar pelo encerramento ou diminuição dos reinvestimentos dos rendimentos dos títulos.

      c) concordo. O excesso de liquidez no sistema provocou valorização excessiva de vários ativos, o mercado da dívida soberana é um deles. Commodities metálicas (ouro e prata) são outros exemplos, mas já houve estouro da bolha. Commodities energéticas e metais básicos também são outros exemplos, a correção foi postergada ao máximo após o fim do super ciclo de alta (justamente pelo excesso de liquidez), mas estourou no final do ano passado. A valorização significativa de bolsas em mercados emergentes pequenos de elevado risco são outros exemplos. Alguns títulos da dívida soberana estão artificialmente valorizados. Casos bizarros podem ser encontrados na Europa, como você citou. A Espanha, por exemplo, passa por uma situação delicada e mesmo assim o Yield dos títulos soberanos espanhóis está mais baixo do que o Yield das Treasurys. Certamente tudo isso será corrigido pelo mercado, como já ocorreu com as commodities metálicas e recentemente com as energéticas e metais básicos. Em alguns segmentos a correção pode estar próxima, em outros mais distante.

      d) certamente o setor de óleo e gás nos Estados Unidos é uma importante alavanca de crescimento. Por isso é considerado uma verdadeira revolução. Mas é importante entender que a geração de empregos do setor de óleo e gás parte de uma base muito pequena, inexpressiva comparada com o resto da economia. Então o crescimento de empregos tende a ser realmente muito maior, comparando com os demais setores consolidados. A recuperação da economia norte-americana não é única e exclusivamente por causa do setor de óleo e gás. Os gastos dos consumidores são responsáveis por mais de 2/3 do PIB dos Estados Unidos.

      Abs, bons negócios

      Excluir
    2. Obrigado pela sempre completa resposta, FI!
      Sobre o item "a", o artigo citado diz que há um limite principalmente no que toca ao Reverse Repurchase Agreement, bem como ao aumento dos juros das reservas.
      Segundo o autor, o limite é que com um estoque de reservas bancárias de quase 3 trilhões de dólares, o FED não pode se dar ao luxo de aumentar significamente os juros sem impactar enormemente o seu próprio resultado operacional, o que impacta o próprio tesouro americano. Permita-me citar trecho do texto:

      "O pagamento de juros sobre reservas em excesso (IOER), o compromisso de recompra reverso overnight (RRP) e os depósitos a prazo (TDF) são formas de tentar controlar alguma taxa de juros e influenciar a FFR — e a partir dela as demais taxas do mercado — sem precisar vender um único papel do seu ativo.

      Por meio das taxas oferecidas pelo Fed nesses programas, espera-se impor um piso à federal funds rate: até hoje isso não aconteceu.

      Por meio do TDF, espera-se drenar reservas do sistema: isso acontece apenas temporariamente — durante a vida útil dos depósitos a prazo — e se ignorarmos a tecnicalidade contábil já apontada.

      Da definição dada pelo FOMC à "normalização da política monetária", a parte referente à redução do ativo do Fed a níveis mais normais foi postergada às gerações futuras. No atual plano de Yellen, restou apenas a intenção de algum dia, quando as condições econômicas permitirem, decorrido um longo tempo da decisão de iniciar, quem sabe, a contração do ativo, o FOMC refletir quando iniciar a venda de Treasuries. E somente Treasuries, porque já foi assegurado ao mercado que o US$ 1,7 trilhão de hipotecas não deixará o balanço do Fed.

      Decidido a não reduzir o balanço e eliminar as reservas em excesso, o Fed recorre a programas inéditos e ineficazes para influenciar a federal funds rate. Em outras palavras, a FFR está em coma induzido, mas o Fed acredita que conseguirá ressuscitá-la com homeopatia.

      E apesar de o FOMC alegar que dispõe do ferramental necessário para normalizar a política monetária, ele carece de perfeito domínio sobre como tais intervenções impactarão o mercado de juros. Como o próprio FOMC atesta na ata da reunião de dezembro passado: "Embora os testes de RRP tenham sido informativos, o staff sugeriu que testes adicionais podem melhorar ainda mais o entendimento de como essa ferramenta suplementar poderia ser usada para atingir um maior controle da federal funds rate durante a política de normalização".

      Em suma, o plano de normalização do FOMC, além de não atingir o seu propósito, instaura graves distorções no mercado de juros, tomando para si um papel ainda mais centralizador e introduzindo incentivos perversos no sistema — especialmente no caso da RRP. Invertendo o racional histórico dos bancos centrais, o Fed cada vez mais se torna o prestamista, o mutuário e o formador de mercado de primeira instância.

      E ao assegurar ao mercado a manutenção do seu balanço nos níveis atuais, o Fed frustra indefinidamente qualquer chance de normalização efetiva da política monetária."

      Sobre o item "b", eu poderia até concordar. Porém ao saber que o FED possui quase 2 trilhões em títulos lastreados em hipotecas, não devemos esquecer que os CDOs eram lastreados em hipotecas, é de se imaginar que a qualidade não é das melhores. E com o aumento dos juros, esses títulos podem se desvalorizar acentuadamente.

      Enfim, obrigado pela atenção e pela paciência, pois é um tema novo que não domino muito, mas é bem interessante.

      Abraço!

      Excluir
  2. Gostaria de saber FI se na análise gráfica uma ruptura de resistência causada basicamente por uma empresa de alta volatilidade que aumenta seus valores por questões meramente especulativas já que os fundamentos continuam preocupantes (claro, falo da Petrobras) influencia a tendência da mesma forma que as guinadas que ocorrem por razões fundamentalistas.

    Espero que a pergunta tenha ficado clara, rss

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Rupturas de resistência podem falhar, assim como rupturas de suporte. Por esse motivo análise técnica não é uma ciência exata. Aliás, no mercado financeiro não existe ciência exata rs... No caso de determinado ativo com peso relevante no índice apresentar volatilidade atípica, pode sim criar sinal falso no índice. Apesar de que, no momento, é necessário prestar mais atenção em Itaú e Bradesco (peso maior, em trajetória ascendente), do que em Vale e Petro (peso menor, em trajetória descendente). O Ibovespa subiu nesses últimos dias não só por conta da Petro, mas porque houve importante contribuição do setor financeiro.

      Abs, bons investimentos

      Excluir
  3. FI, boa noite
    Já que vc citou metais, logo acima, gostaria de saber sua opinião sobre investir em fundos atrelados ao ouro, neste momento e cenário.

    Obrigado.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O momento é interessante, para portfólios que já tenham posições de hedge em imóveis/terrenos. Lembrando que ouro não é investimento. Com relação aos fundos, é uma opção interessante. Ideal seria comprar os certificados. Mas tanto fundos, quanto certificados, estão meio "sumidos" do mercado brasileiro. Depois do crash das commodities metálicas muitos bancos fecharam fundos e pararam de vender certificados. Esses produtos devem ser adquiridos preferencialmente em instituições de primeira linha, de grande porte.

      Abs, bons negócios

      Excluir
  4. FI,
    Estou fazendo uma pesquisa das ações, FIIs e modalidades de renda fixa mais promissoras para os próximos 4 anos. Você poderia participar?
    Se sim, basta responder este post listando as 5 ações preferidas, 5 FIIs preferidos e a modalidade de renda fixa preferida.
    Grato,
    Uó!

    ResponderExcluir