terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Treasury desperta após 12 meses de sono tranquilo


Nem parecia que o FED (Federal Reserve - Banco Central dos Estados Unidos) tinha uma estratégia traçada para normalizar a política monetária. O recuo exagerado dos Yields (taxa de juros) pagos pelas Treasurys (títulos públicos do Tesouro norte-americano, referência no mercado da dívida soberana) nos últimos 12 meses mostrou como o mercado subestimou a velocidade com que o FED possa elevar a Federal Funds Rate (taxa básica de juros).

A correção foi tão intensa que os Yields caíram abaixo do patamar marcado pelo discurso de anúncio antecipado do tapering (redução gradual no volume dos programas de estímulos monetários) do então presidente do FED, Ben Bernanke, em 2013. A Treasury devolveu todo o movimento de pânico observado nos meses seguintes ao anúncio do Bernanke. Os preços praticados até o final do mês passado refletiam (e ainda refletem) uma expectativa irreal de que a Federal Funds Rate não vai subir esse ano e nem no ano que vem.

Mas o sono tranquilo dos últimos 12 meses da Treasry parece ter chegado ao fim. Influenciado pelas entrevistas de alguns diretores regionais do FED, os Yields voltaram a subir fortemente, causando impactos nos preços dos ativos nas principais praças financeiras mundiais.


O marubozu de alta registrado na semana passada é o mais forte desde o início do movimento corretivo (janeiro de 2014), seguido de uma nova máxima logo no início desta semana, o que sinaliza possível “efeito despertador”. 

Apesar de não haver divergência de expectativa entre as entrevistas de alguns membros do Comitê de Política Monetária e o que consta nos documentos do FED, as declarações dos diretores regionais do Banco Central serviram para emitir um sinal de que o mercado estava errado ao subestimar o cronograma de normalização da política monetária nos Estados Unidos.

Os indicadores econômicos seguem mostrando números que estão dentro da expectativa do FED. A continuação dessa trajetória positiva permitirá ao Banco Central iniciar o tão aguardado ciclo de aperto monetário este ano e, talvez, já no próximo trimestre. Apenas uma surpresa negativa poderá atrasar a implementação do longo processo de normalização da política monetária.

O despertar da Treasury atingiu em cheio o mercado da dívida soberana brasileira. Os Yields dos títulos públicos formaram novo piso ascendente e voltaram a subir fortemente nos últimos dias, corrigindo o excesso de otimismo (ou otimismo precoce) na correção de curto prazo das curvas longas. O contrato de juros futuros com vencimento em 2018, por exemplo, saiu da região dos 12% ao ano, patamar de prêmio negativo (inferior à taxa Selic), para a região dos 12,84%, patamar de prêmio positivo (porém ainda baixo).


O movimento vendedor em títulos da dívida soberana brasileira causa inevitável impacto no mercado de câmbio. Com investidores estrangeiros liquidando posições em títulos públicos, os “primeiros” dólares começam abandonar o Brasil sob os olhares atentos de Tombini e sua equipe, preocupados com os novos impactos sobre a inflação persistentemente elevada, insuficientemente combatida nos últimos anos.

O dólar a R$ 2,83, ou acima, acompanhado de uma dolorosa inflação de 1,24% em janeiro/2015, pode atrasar o timming para redução do ritmo de aperto monetário. Na última reunião de política monetária, realizada no mês passado, o Banco Central traçou projeção para inflação até o fim de 2016 com o dólar ancorado em R$ 2,55 durante todo o horizonte de previsões. Os cálculos, portanto, estão bastante defasados.

O índice Bovespa fechou o pregão desta terça-feira em baixa de 1,77%, após aproximar-se da primeira linha de resistência da zona de congestão de curto prazo. O surgimento da força vendedora, no mesmo local dos últimos dias/semanas, revela manutenção do movimento lateral, sem apresentar novidades.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão em alta de 0,79%, realizando nova tentativa de aproximação na linha de resistência da zona de congestão de curto prazo.


11 comentários:

  1. FI, vendo o cenário interno e externo, desfavoráveis num curto prazo à recuperação da economia brasileira, você consegue visualizar como o dolar atingindo R$ 2,90 e os juros pós-fixados das NTNBs excedendo 6,5% num prazo curtíssimo de 2 ou 3 meses?

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    1. Não é possível definir target para preços de ativos dentro de determinado espaço de tempo. O mais importante, a ser considerado pelo investidor/operador, é que ambos permanecem em tendência de alta de médio e longo prazo (dólar e juros futuros). É um quadro que já dura mais de 2 anos, sem sinalização de interrupção ou reversão. Então, acho mais conveniente estar focado em aproveitar as oportunidades dentro desse bull market (câmbio e juros) e deixar a questão do target x timming para o Sr. Mercado rs..

      Abs, bons investimentos

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  2. Nesse patamar (2,83), ainda da pra entrar em dólar?

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    1. Para especular, tem espaço, mas o ponto de entrada e saída precisa ser definido pela sua estratégia operacional. Se você não tem estratégia para operar câmbio, não aconselho entrar.

      Abs, bons negócios

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  3. FI, qual ferramenta você usa para gerar os gráficos do histórico diário de cotações dos títulos do Tesouro (TD)?

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    1. Tesouro Direto no Dotstock ( http://dotstock.com.br/ ) e contratos de juros futuros na plataforma gráfica da corretora.

      Abs, boa semana!

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  4. Lembrando que o tesouro ontem interrompeu os negocios.

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    1. Sim, isso é normal em períodos de volatilidade no mercado da dívida soberana.

      Abs, boa semana!

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  5. F.I.,
    Já saiu a primeira parcial da pesquisa "Melhores Investimentos em Ações, FIIs e Renda Fixa para os Próximos 4 Anos"
    Se você já está participando favor conferir os dados. Se não ainda pode participar, só deixar lá sua opinião.
    Muito obrigado e um ótimo feriado!
    http://blogdouo.blogspot.com.br/2015/02/melhores-investimentos-em-acoes-fiis-e.html

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  6. FI, existem boatos de que o governo federal irá bloquear as contas poupança da CAIXA ECONOMICA, será isso possível?

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    1. Não, tanto é que o ministro da Fazenda rapidamente desmentiu o boato, mesmo porque a situação fiscal não é tão grave a ponto de congelar aplicações financeiras.

      Abs, boa semana!

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