quinta-feira, 26 de março de 2015

As duas batalhas do Banco Central


O Banco Central voltou a reconhecer, desta vez pelo Relatório Trimestral de Inflação divulgado nesta quinta-feira, que os “avanços alcançados no combate à inflação ainda não se mostram suficientes”, reforçando expectativa de nova alta da taxa Selic na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) a ser realizada nos dias 28 e 29 de abril.

Não resta outra opção ao Banco Central, mesmo diante de um cenário econômico recessivo. As novas projeções de inflação feitas a partir do cenário de referência (manutenção da taxa de câmbio constante no horizonte de previsão em R$ 3,15 e meta para taxa Selic em 12,75% ao ano) continuam mostrando quadro de inflação persistentemente elevada e distante do centro da meta.

A projeção do Banco Central parte de 8,1% no primeiro trimestre de 2015, desloca-se para 8,0% no segundo trimestre, para 8,2% no terceiro, e recua para 7,9% no final deste ano. Em 2016, a projeção recua para 5,9% no primeiro trimestre, segue em declínio para 5,4% e 5,0% no segundo e terceiro trimestres, respectivamente, e encerra o ano em 4,9%. No primeiro trimestre de 2017, a projeção encontra-se em 4,7%.

Mesmo na estimativa mais distante, onde há maior possibilidade de erro, não é possível vislumbrar inflação ancorada no centro da meta (4,5%). Aliás, há bastante tempo o Banco Central tem errado para baixo nas projeções de inflação, principalmente no horizonte relevante para a política monetária.

A sucessão de erros provoca inevitável deterioração da confiança dos agentes econômicos. Os diretores do Banco Central seguem afirmando insistentemente que a política monetária permanecerá vigilante para garantir a convergência da inflação à meta no ano seguinte. É praticamente a mesma conversa dos últimos anos. O Banco Central prometeu e não cumpriu. Várias vezes.

Os agentes, justificadamente desiludidos, só voltarão a confiar na eficácia da política monetária quando puderem constatar que a inflação realmente está ancorada na meta. A batalha do Banco Central neste ano é para reverter os efeitos inflacionários negativos provocados pelo realinhamento de preços administrados em relação aos livres e realinhamento dos preços domésticos em relação aos internacionais. Mas a batalha do Banco Central no próximo ano será ainda mais difícil: recuperar a confiança dos agentes.

A primeira batalha é bem diferente da segunda. A briga de 2015 é mais matemática (combater câmbio e preços administrados) e menos psicológica. Já a briga de 2016 será mais psicológica (combater indexação) e menos matemática. Entretanto, a guerra psicológica de 2016 vai depender do sucesso da guerra matemática de 2015.

Diante de uma esperada recuperação da economia brasileira em 2016, possivelmente acompanhada pelo ressurgimento do fortalecimento da demanda doméstica, os agentes tendem a subirem preços baseado unicamente no fato de que o teto da margem de tolerância (6,5%) foi rompido no ano anterior. Agir com firmeza para impedir o fortalecimento do processo de indexação será crucial para alcançar a meta no próximo ano.

Portanto, a política monetária pode criar efeito dominó de vitórias, ou manter a lamentável sequência de derrotas. Quanto mais se acumula derrotas, mais dolorosas terão de ser as vitórias. Há cinco anos não se aprecia fechamento da inflação ancorada no centro da meta. Esse ano infelizmente não será diferente. Atualmente, o preço a ser pago para conquistar vitórias nos diferentes campos de batalhas não é nada baixo. Se o Banco Central não fizer o "serviço bem feito", o preço que pagaremos no futuro para nos livrarmos da inflação será ainda maior.

No mercado de capitais o índice Bovespa fechou o pregão desta quinta-feira em baixa de 2,47%, formando topo duplo na região dos 52.4k. Abriu-se, portanto, uma nova perna de correção de curtíssimo prazo.


Nos Estados Unidos, o índice Dow Jones fechou o pregão em leve baixa de 0,23%, reagindo ao teste da primeira linha de suporte de curtíssimo prazo localizada na região dos 17.6k. Apesar da manutenção do suporte, o mercado ainda não confirmou interrupção do movimento corretivo de curtíssimo prazo.


7 comentários:

  1. FI, nao acha que as agencias de risco estao sendo mto tolerantes com o brasil? Sinto o Levy engessado no meio de toda essa confusao. Sera realmente que nao seremos rebaixados? Abs.

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    1. De forma alguma. Não há motivo para perda do grau de investimento, já que o ajuste fiscal está sendo feito em velocidade considerável. Além disso, a política econômica do primeiro mandato da presidente Dilma (outra falha grave) foi descartada sem cerimônia. Ajuste fiscal e reformulação da política econômica são duas cobranças bem antigas no mercado, inclusive das agências de rating. Rebaixar o País a grau especulativo, justamente no momento onde as mudanças estão sendo feitas, para garantir um futuro melhor, não faz o menor sentido. Tanto é que a perspectiva foi mantida, pois agora as ações do governo estão se deslocando para direção correta. Além disso, se o Brasil fosse rebaixado a BB+ pela S&P (um nível abaixo do atual BBB-, último degrau do grau de investimento), estaríamos na mesma classificação de risco da Rússia, o que seria uma grande discrepância.

      Abs, bons negócios

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  2. Caro FI, gostaria de saber se você conhece algum site em que possam ser consultadas as cotações históricas do ouro no Brasil, que contenha gráficos das cotações de 2015 e de anos anteriores. Outra pergunta: conhece algum meio seguro de aquisição de ouro físico no Brasil? Obrigado.

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    1. Gráfico do ouro em reais é difícil, não conheço. Você consegue com mais facilidade em dólar, nas plataformas gráficas estrangeiras. Cotação em reais você consegue checar no site da BM&FBovespa. Não conheço meio seguro para adquirir e muito menos armazenar por conta própria ouro físico no Brasil. A recomendação é procurar instituições financeiras de grande porte que possam lhe vender e também fazer a custódia.

      Abs, bons negócios

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  3. FI, com essa alta dos juros (maior dos ultimos 6 anos) você acha que ja esta na hora de travar algumas NTNF de longo prazo tipo 2021-2025 ou pelo jeito ainda tem muito espaço para esses juros aumentarem com essa inflação que parece que não para de subir? Acha que ate o fim do ano esses juros podem chegar a 14.00%? Abraços!

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    1. O prazo da NTNF é muito longo para fixar taxa. Não vale a pena, já que o prêmio do pré-fixado está baixo atualmente. Entretanto, a NTNB mais curta (2019) volta e meia tem apresentado taxas interessantes. É muito importante ter uma estratégia para operar juros juros (ou títulos públicos) e ficar de olho para fisgar essas oportunidades. Ultimamente o mercado está bem ligeiro rs... taxas abrem ponto de compra num curtíssimo espaço de tempo.

      Abs, bons investimentos

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  4. A alta do dólar não atrai os investidores estrangeiros?
    ainda mais com a bolsa na região dos 50k e o alinhamento das politicas economicas

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