quarta-feira, 18 de março de 2015

Timming do aperto monetário nos Estados Unidos passa a ser desprezível


A famosa expressão “paciente", utilizada nos comunicados do FED (Federal Reserve - Banco Central norte-americano) para orientar o mercado sobre a aproximação do processo de aperto monetário, foi, enfim, retirada do comunicado emitido ao término da reunião Comitê nesta quarta-feira.

A simples expectativa da mudança na orientação de política monetária dos Estados Unidos pressionou ativos nas principais praças financeiras mundiais. A reação exagerada do mercado constatada nas últimas semanas foi se reduzindo com a aproximação da reunião de Comitê. Hoje, definitivamente contornada através do comunicado emitido ao final da reunião.

Janet Yellen, chair do FED, havia sinalizado no final do mês passado, em discurso no Comitê Bancário do Senado, que os investidores/operadores não devem interpretar a mudança no comunicado como um sinal de que o Banco Central está comprometido com o aumento dos juros em qualquer reunião. Quando a palavra “paciente" desaparecer dos comunicados, significará que a autoridade monetária vai apenas ter flexibilidade para agir conforme os indicadores econômicos aproximem das metas previamente estabelecidas.

Yellen estava mostrando que não há motivos para preocupações quando a palavra “paciente” sumir dos comunicados da autoridade monetária. Será uma sinalização de que o aperto monetário está próximo, mas não iminente. Contudo, comentava-se no mercado financeiro que o aperto monetário nos Estados Unidos era iminente.

A divulgação do comunicado do FED na tarde desta quarta-feira não só reafirmou o que a chair da instituição havia antecipado no mês passado, como apagou as inverdades que circulavam o mercado financeiro. No lugar da expressão “paciente”, o Banco Central dos Estados Unidos afirma, agora, “que será apropriado elevar a banda para a meta da taxa de juros quando vir mais melhora no mercado de trabalho e esteja razoavelmente confiante que a inflação voltará a seu objetivo no médio prazo.”

O documento ressalta ainda que um aumento dos juros continua sendo improvável na próxima reunião de Comitê a ser realizada no mês de abril. Isso porque a média de projeções dos membros do Comitê para o PIB (Produto Interno Bruto) recuou para 2,3% a 2,7% em 2015, contra 2,6% a 3% estimado anteriormente. Para 2016, a estimativa é de expansão de 2,3% a 2,7%, frente aos 2,5% a 3,0% projetados anteriormente.

A inflação também seguiu a mesma tendência, ou seja, deve ser mais fraca do que se esperava. Para este ano, a previsão é de que a inflação oscile entre 0,6% a 0,8%, contra 1,0% a 1,6% estimado anteriormente. Diferença significativa. Para 2016, a inflação tende a subir para 1,7% a 1,9%, frente aos 1,7% a 2,0% projetados anteriormente.

O recuo nas projeções de inflação para este ano permitirá que o FED continue mantendo sua postura cautelosa na implementação da política monetária. Consequentemente, a estimativa para a FFR (Federal Funds Rate, considerada taxa básica de juros nos Estados Unidos) despencou de 1,125% para 0,625% ao final de 2015. Para 2016, a média de projeções dos membros do Comitê caiu de 2,500% para 1,875%. Para 2017, a FFR deve estar em 3,125%, contra 3,625% estimado anteriormente.

A drástica redução da estimativa para a FFR este ano é fator fundamental para suavizar, ou mesmo evitar, novos choques nos preços dos ativos nas principais praças financeiras mundiais. Com uma projeção tão baixa para o fechamento da taxa básica de juros este ano, pouco importa quando o FED iniciará o ciclo de aperto monetário, pois a melhora nos prêmios de risco dos títulos norte-americanos será pequena e, consequentemente, os impactos nos preços dos ativos nas demais praças financeiras também.

A sinalização de cautela na implementação da política monetária é seguida à risca pelo FED nos últimos anos. Essa postura foi, inclusive, reafirmada no mês de setembro do ano passado, quando o Banco Central divulgou ao mercado seu plano para normalização da política monetária. Entretanto, a precaução da autoridade monetária tem sido constantemente ignorada/questionada pelo mercado.

Os novos números do FED são gritantes. Será difícil ignorá-los. A FFR deve subir em doses bem homeopáticas, o que facilitará o enquadramento de risco a ser embutido nos ativos dos demais países. É o cenário perfeito para governos e banqueiros centrais, frente aos desafios a serem enfrentados no horizonte.

Inevitavelmente o Brasil tende a ser beneficiado pelo ciclo extremamente lento de aperto monetário nos Estados Unidos, não só porque a política monetária doméstica tem se antecipado à normalização das condições monetárias norte-americanas (estimulada pela inflação), mas também porque dará mais tempo ao Ministério da Fazenda fazer os devidos ajustes na política fiscal para colocar a economia em rota de crescimento no médio prazo.

O índice Bovespa fechou o pregão em forte alta pelo segundo dia consecutivo, impulsionado pelos investidores estrangeiros, que souberam se posicionar antecipadamente à decisão do FED. Com fundo ascendente formado na região dos 47.9k, o índice cria condições para testar a região de resistência dos 52.5k, com boa possibilidade de rompimento.


Destaque para total irrelevância do mercado frente aos protestos ocorridos em várias cidades brasileiras no último domingo, o que mostra, mais uma vez, onde está o foco da maior parte do fluxo financeiro. Os prêmios dos contratos de juros futuros voltaram para o campo negativo frente à projeção de 0,5 p.p. de aumento na taxa Selic na próxima reunião do Copom, mostrando que os títulos públicos e privados brasileiros continuam sendo muito procurados por fundos do mundo inteiro.

Nos Estados Unidos o índice Dow Jones subiu forte, mantendo movimento de recuperação de curtíssimo prazo. A máxima histórica pode ser testada nos próximos dias/semanas.


8 comentários:

  1. Boa noite FI,
    Parabéns pela análise.
    Com esse novo cenário, um tanto esperado, vc acredita em correçao de dolar? Ou retomará a curva de alta?
    Abs,
    Roger

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    1. Boa noite Roger,

      Obrigado! A tendência principal do dólar frente ao real permanece altista. Aliás, é um movimento a nível global, inevitável. Muitas moedas acumulam desvalorizações significativas frente ao dólar, embora o real tenha se destacado pelo acúmulo de problemas domésticos. No curto prazo o câmbio está bem esticado, não é saudável para tendência principal. Uma correção seria bem vinda. A julgar pelo elevado nível de sobrecompra, pode ser que não demore tanto para aparecer.

      Abs, bons negócios

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  2. Beleza, FI? Você já leu o artigo 10 anos de recessão publicado pela Empiricus?
    http://www.empiricus.com.br/recessao-texto/

    Você acha que este cenário catastrófico é pouco ou muito provável de acontecer? Estamos à beira da maior crise econômica mundial de todos os tempos?

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    1. Tudo bom?

      Esse é um belo exemplo de como deve funcionar o filtro de um investidor/operador. A informação é totalmente descartada logo no primeiro nível do filtro rsrs... Não vale a pena sequer perder tempo lendo, já que a fonte é de péssima qualidade (para não dizer coisa pior).

      Abs, bons investimentos

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    2. Boa tarde FI
      porque a fonte e de pessima qualidade? Ja teve alguma furada deles?
      Abraço
      Alex

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    3. Sim.
      Ainda assim, mesmo entre os investidores mais novos (que desconhecem o histórico da empresa), pode-se constatar facilmente o elevado teor de sensacionalismo nos textos e qual o seu verdadeiro objetivo.

      Abs, bons negócios

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    4. Quanto ao fim do Brasil, eles simplesmente pegaram o que os analistas americanos estão prevendo para os EUA e adaptaram ao Brasil. Foram ao mesmo tempo malandros e perspicazes.

      Também tiveram a "sorte" de ter havido a reeleição da pessoa, o que acelerou as coisas para oa lado pior.

      Entretanto, no Brasil não há muito pra onde correr, estando disponíveis 3 opções para se proteger do colapso nacional. Fundos cambiais, Ouro e alguns fundos que investem no exterior.

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  3. O FED não irá subir os juros. Estão em uma sinuca de bico com esses estímulos sem precedentes na história.

    Chega a ser primário acharem que imprimir dinheiro resolve os problemas econômicos de um país.

    Deveriam ter deixado ruir em 2008, que hoje o sistema estaria mais "limpo".

    Abçs!

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