quinta-feira, 23 de abril de 2015

Afrouxamento monetário na China já provoca efeitos colaterais


O Banco do Povo (Banco Central da China) anunciou no último final de semana redução de 1 ponto percentual nos depósitos compulsórios, para 18,5%. Este é o segundo corte expressivo em dois meses e o mais profundo desde a crise global em 2008. O objetivo é aumentar a liquidez da segunda maior economia do planeta para combater a desaceleração do crescimento.

O PIB (Produto Interno Bruto) do primeiro trimestre anualizado atingiu a meta de 7% estipulada pelo governo chinês. Entretanto, indicadores mais recentes mostram aumento no ritmo de desaceleração em diversos setores da economia, colocando em risco o cumprimento da meta de 7% para o ano de 2015. Além disso, a forte correção de preços no setor imobiliário, o excesso de capacidade da indústria e o elevado nível de endividamento de governos locais, empresas e famílias limitam a capacidade de reação da economia chinesa mesmo com as medidas de estímulos monetários.

A sensação de que a economia chinesa possa fazer um pouso forçado (com impactos de curto prazo significativos) tem estimulado uma fuga de capitais nas últimas semanas/meses. O rápido aumento do endividamento (de 7 trilhões de dólares em 2008 para 28 trilhões de dólares no final de 2014, cerca de insustentáveis 282% do PIB) também reforça a desconfiança dos investidores com o futuro da economia chinesa.

Visando manter o sistema financeiro irrigado, o premiê Li Kegiang recomendou publicamente aos bancos chineses emprestarem mais às famílias, empresas e governos. O último corte no compulsório, anunciado neste último final de semana, vai liberar cerca de 200 bilhões de dólares para o sistema.

Tal como ocorre em outras economias, as maciças doses de injeções monetárias não estão provocando inflação na China. Governos e banqueiros centrais insistem estimular demanda (num primeiro momento foi a resposta ideal ao choque de 2008), num quadro generalizado de excesso de oferta. No caso do gigante asiático, o governo local considera essencial combater a atual deflação de preços para atingir a meta de crescimento, ao mesmo tempo em que segue firme no plano de reestruturação da economia (mais voltada ao consumo interno, menos dependente de investimentos e exportações).

O fato é que o processo de reestruturação na China segue bastante lento devido à elevada dependência dos investimentos, forçando o governo a manter o sistema financeiro devidamente irrigado, na tentativa de evitar um futuro pouso forçado. O problema é que toda essa injeção de liquidez acaba fortalecendo o não desprezível sistema bancário sombra (esquemas informais de intermediações financeiras, não regulados). Estima-se que cerca de 1/3 da elevada dívida chinesa esteja concentrada em instituições financeiras não oficiais (sombras), alimentando receios com relação à qualidade do crédito e de uma própria bolha no sistema.

O mercado de ações também está preocupando as autoridades chinesas. Inevitavelmente, parte do dinheiro injetado no sistema financeiro escorre para o mercado de capitais, mas na China esse movimento está muito acelerado. A bolsa de Xangai subiu cerca de 120% em pouco menos de um ano.


A manutenção deste forte ritmo de valorização dos ativos provocará formação de bolha no mercado acionário chinês. O governo possui ferramentas para tentar reverter esse processo, mas até o momento as medidas tomadas não surtiram efeito.

No Brasil, a bolsa segue trabalhando dentro de uma boa tendência de alta, sem apresentar novidades. A máxima da semana passada (e também do ano) foi superada de forma clássica nesta quinta-feira com candle de força relevante, o que agrega robustez à tendência iniciada na região dos 45.9k.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones segue operando próximo da máxima histórica, embora congestionado no curto prazo, sem apresentar novidades.


6 comentários:

  1. Que perigo é esta China para o mundo...

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    1. Sim, apesar de ainda existir uma boa margem de manobra (3,73 trilhões de dólares em reservas internacionais), a China precisa se desalavancar. Os empréstimos dos bancos sombras são uma preocupação a mais (inexistente em 2007/2008) no médio/longo prazo, pois aumentaram muito nos últimos anos, e por serem informais, fogem do controle do governo.

      Abs, bons investimentos

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  2. FI,

    Onde posso confirmar a informação de que o endividamento chinês está em 282% do PIB?
    Normalmente, acompanho estes números pelo trandingeconomics.com e lá o endividamento chines está em 22% do PIB.

    Abs

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    1. O levantamento foi feito pela McKinsey Global Institute.

      Abs, boa semana

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  3. Muito boa sua análise FI. Gostaria de saber se você considera compras de títulos de renda fixa no intuito de venda com mudança na taxa de juros, ou se prefere manter esses títulos somente para resgate no vencimento? Abraços

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    1. Obrigado! Depende muito do perfil do investidor e da estratégia adotada, mas uma compra feita num momento favorável muito provavelmente proporcionará um bom retorno numa venda antecipada.

      Abs, boa semana

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