quarta-feira, 8 de abril de 2015

Brasil leva choque estagflacionário


Os números do primeiro trimestre de 2015 estão vindo com uma carga negativa mais alta do que o de costume. A economia em rota descendente acelerada combinada com inflação elevada em rota ascendente revelam sinais de agravamento da estagflação brasileira, num ambiente global onde os principais mercados operam com PIBs (Produto Interno Bruto) positivos e/ou ascendentes ao mesmo tempo em que passam por ciclos de deflação e/ou inflação muito baixa.

A fúria do tripé macroeconômico (superávit primário, câmbio flutuante e inflação na meta) destruído no início do primeiro mandato do governo Dilma bateu em cheio neste começo de ano. O Índice Gerente de Compras calculado pelo Instituto Markit, em parceria com o Banco HSBC, despencou de 49,6 pontos em fevereiro para 46,2 pontos no mês de março, mostrando a contração mais acentuada da atividade industrial brasileira nos últimos três anos e meio.

A pesquisa indica que a situação se agravou consideravelmente devido às amplamente conhecidas condições econômicas internas desfavoráveis combinadas com rápida depreciação da moeda e inflação mais elevada. Os aumentos dos custos de importação afetaram as capacidades das empresas brasileiras de manterem preços competitivos a nível global e, consequentemente, as exportações não cresceram como se esperava. Este “peso extra” poderia ser facilmente contrabalanceado caso o ambiente de negócios fosse um pouco melhor e a inflação estivesse próxima ou ancorada no centro da meta (4,5%).

Além disso, o ambiente interno de demanda letárgica (contaminado pelos diminutos indicadores de confiança e elevadas taxas de juros) tem provocado queda adicional no volume de novos negócios, forçando as empresas responderem cortando postos de trabalho.

A taxa de desemprego calculada pela Pnad Contínua subiu para 6,8% no trimestre encerrado em janeiro de 2015, ante 6,6% registrado no trimestre anterior encerrado no mês de outubro/2014. Os indicadores da Pnad Contínua são obtidos por meio de informações de trimestre móvel. Dessa forma, o índice de desemprego do trimestre encerrado em janeiro/2015 é calculado a partir de dados coletados em novembro, dezembro/2014 e janeiro/2015. Os dados de fevereiro vão incluir os números de dezembro/2014, janeiro e fevereiro/2015.

A pesquisa defasada da taxa de desemprego calculada apenas nas regiões metropolitanas de Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre referente ao mês de fevereiro já saiu. A taxa de desemprego saltou de 5,3% em janeiro para 5,9% em fevereiro. Isso significa que muito provavelmente a taxa de desemprego da Pnad Contínua (mais ampla) deverá passar facilmente dos 7% no trimestre encerrado em fevereiro/2015.

Já a inflação dos três primeiros meses de 2015 se aproximou da meta a ser perseguida para o ano inteiro. De janeiro a março deste ano, o IPCA acumula alta de incríveis 3,83%, a maior para um primeiro trimestre desde 2003.

Os impactos provocados pelo deslocamento da taxa de câmbio e realinhamento de preços administrados não são os únicos responsáveis pela disparada da inflação oficial brasileira. Outros diferentes índices de inflação estão mostrando fortes movimentos de acelerações. O IGP-DI, por exemplo, disparou de 0,53% em fevereiro para 1,21% em março. Na mesma comparação, o IPA do atacado saltou de 0,41% para 1,24%, o IPA de produtos agropecuários subiu de 1,12% para 2,10%, o IPA de produtos industrializados saiu de 0,13% para 0,90%. Também no mesmo período, o IPC subiu 0,97% para 1,41% e até mesmo o INCC passou de 0,31% para 0,62%.

Índices com diferentes metodologias abrangendo setores diversos mostram aceleração da inflação que não pode ser justificada apenas por dois vilões (câmbio e preços administrados), mas também por expectativas perigosamente deterioradas.

A combinação de uma inflação acelerada e disseminada num ambiente econômico significativamente contracionista leva a crer que o Brasil tomou um choque estagflacionário neste primeiro trimestre de 2015, o que tende exigir atuação firme do Banco Central, pois o doloroso aperto monetário é a primeira ação de saída deste perigoso quadro econômico. Em outras palavras, não há espaço para os diretores do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) “pensarem” na interrupção do atual ciclo de aperto monetário.

No mercado de capitais o índice Bovespa fechou o pregão desta quarta-feira emitindo o segundo sinal consecutivo de esgotamento de curtíssimo prazo, após renovar pontuação máxima do ano. Apesar da sinalização, mercado segue trabalhando dentro de uma boa perna de alta de curto prazo, totalmente descolado do agravamento do quadro doméstico. Entretanto, diferentemente dos últimos anos, este descolamento pode ser justificado pela perspectiva positiva de médio prazo criada pelo ajuste fiscal e remodelamento da política econômica.


A indicação de política monetária por parte do FED (Federal Reserve – Banco Central norte-americano), emitida em meados do mês passado, contribuiu consideravelmente para impulsionar mercados emergentes, incluindo o brasileiro, devido à sinalização de irrelevância no timming do aperto monetário nos Estados Unidos.

Pouco importa se os juros irão subir ainda neste primeiro semestre (conforme pretensão de alguns membros do FED relatada na ata divulgada hoje) ou na segunda metade deste ano, já que o ritmo será muito mais leve do que se esperava anteriormente e, portanto, de baixo potencial de impacto nos mercados, facilitando o enquadramento de risco a ser embutido nos preços dos ativos.

Apesar de o índice Bovespa ter acumulado alta de quase 20% desde a mínima registrada em 45.9k no final do ano passado e os prêmios dos títulos públicos brasileiros estarem em território negativo frente à Selic atual (e bem abaixo da máxima deste ano), os analistas/economistas ainda não se atentaram para irrelevância do timming do aperto monetário nos Estados Unidos.

O índice Dow Jones fechou o pregão desta quarta-feira em leve alta, sem apresentar novidades. Mercado novamente congestionado no curtíssimo prazo.


12 comentários:

  1. Apesar de os analistas não haverem se atentado, a alta do IBOVESPA, o prêmio negativo dos títulos e a queda do dolar têm tudo a ver com a irrelevância do timming não?

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    1. Foi o principal driver que impulsionou os preços dos ativos, mas não o único. O ajuste fiscal e o remodelamento da política econômica traz uma perspectiva positiva para o médio prazo, o que colaborou para valorização dos ativos.

      Abs, bons investimentos

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  2. FI,

    Parece que nosso caso vai necessitar um aumento dos juros muito maior do que o já estimado. Isso tudo sem contar o que ainda pode ocorrer com os EUA e as taxas mundiais.

    Qual foi sua impressão sobre o IPO da caixa? Criticamos tanto o Mantega por suas medidas heterodoxas para fechar as contas, mas estaria acontecendo tudo de novo, sob nova roupagem?

    Abs

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    1. Não, o movimento é claramente inverso. Inclusive já apareceram algumas despedaladas. Acho que o IPO da Caixa (começando pela Caixa Seguridade) é mais do que necessário, mas o timming pode estar um pouco precipitado. Quanto maior o número de empresas estatais funcionando sob as regras do mercado de capitais, melhor.

      Abs, bons negócios

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  3. Pensando num prazo de ate 5 anos faz faz sentido travar nas taxas prefixadas oferecidas no tesouro direto?

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    1. Travar taxas é sempre interessante, pois volta e meia o mercado exagera (tanto para cima, quanto para baixo). É importante acompanhar de perto e ter uma estratégia própria para operar juros, assim você conseguirá entrar nos momentos mais favoráveis. O timming é essencial para garantir um bom retorno.

      Abs, bons investimentos

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  4. FII: "Em outras palavras, não há espaço para os diretores do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) “pensarem” na interrupção do atual ciclo de aperto monetário." Mas ninguém cogita isso. A discussão é 25bps x 50bps, com 75 bps correndo (muito) por fora.

    !Apesar de o índice Bovespa ter acumulado alta de quase 20% desde a mínima registrada em 45.9k no final do ano passado e os prêmios dos títulos públicos brasileiros estarem em território negativo frente à Selic atual (e bem abaixo da máxima deste ano), os analistas/economistas ainda não se atentaram para irrelevância do timming do aperto monetário nos Estados Unidos.". Não entendi aonde vc quer chegar com a afirmação. Seria, a Bolsa e os títulos públicos aind apodem se valorizar mais?

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    1. Concordo. Pouco se fala na continuação do ciclo de aperto monetário (necessário para jogar a inflação para o centro da meta ano que vem), pois os analistas/economistas olham muito para os juros futuros como uma bola de cristal da taxa Selic rs... Mas na verdade a curva se desloca como qualquer outro ativo (força compradora x força vendedora) e na maior parte do tempo não precifica corretamente o futuro da taxa Selic. A forte onda compradora é reflexo do atual clima de otimismo no mercado, que pode se reverter a qualquer momento e por qualquer motivo. O movimento tanto na bolsa, quanto nos juros, ou mesmo no câmbio, pode continuar, já que as tendências curtas seguem predominantes, da mesma forma que em algum momento as tendências poderão se reverter rs... O futuro pouco importa, o importante é ter uma estratégia operacional. A intenção foi reforçar o que comentamos no mês passado (irrelevância do timming do aperto monetário nos Estados Unidos), justificando os movimentos dos ativos.

      Abs, bons negócios

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    2. Seria uma estratégia interessante adquirir US$, via fundo cambial ou mini contrato, se este cair do patamar de R$3,00? Quais seriam os principais suportes?
      Para mim, a vantagem é que o U$ poderia servir par especulação ou LP, pois pretendo, dentro dos próximos 5-10 anos, tirar um sabático e ficar viajando uns 2-3 anos na Europa...

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    3. Sim. Creio que seria interessante no seu caso utilizar o recurso desta viagem para comprar parcialmente dólar e títulos de renda fixa com liquidez diária ou até a data da viagem. A medida que você se vai aproximando da data da viagem, provavelmente será interessante comprar mais dólar e menos (ou nada) títulos de renda fixa.

      Abs, bons investimentos

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  5. FI,

    Parece que estão querendo rever o ajuste fiscal (medidas trabalhistas) para aprovação no Congresso. Junta-se a isto a nota recente da Fitch indicando futuro rebaixamento do Brasil. Estamos realmente fazendo tudo para não termos problemas mais adiante? Fico com a sensação que o Levy não está entregando tudo o que prometeu, ou pelo menos não está tendo resultados expressivos, a não ser a alta dos juros...

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    1. O rebaixamento pela Fitch e Moody's é praticamente inevitável, provavelmente vai acontecer. A nota da Fitch e Moody's está um degrau acima da nota da S&P. Estão desatualizados há um bom tempo. Então se houver rebaixamento de um degrau (justo) por estas duas agências, o Brasil ainda será grau de investimento. Resistências contra medidas de ajuste fiscal são perfeitamente naturais em qualquer país. Estou até achando que há muito barulho pra pouca resistência, pois o Levy chegou apertando o cinto com muita força. Os problemas de hoje são os mesmos dos anos anteriores, de forma amplificada, pois nada tinha sido feito para revertê-los. O Levy entrou para colocar a casa em ordem, está indo muito bem. Prometeu superávit de 1,2% do PIB, vamos esperar o ano terminar primeiro rs.., mas ele está no caminho certo e numa velocidade muito boa.

      Abs, bons negócios

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