quinta-feira, 7 de maio de 2015

Ciclo de aperto monetário não chegou ao fim


A ata do Copom (Comitê de Política Monetária) divulgada nesta quinta-feira sacramentou a continuação do atual ciclo de aperto monetário. O principal indicativo está presente no parágrafo 31, onde os diretores do Comitê afirmam que “os avanços alcançados no combate à inflação – a exemplo de sinais benignos vindos de indicadores de expectativas de médio e longo prazo – ainda não se mostram suficientes. Nesse contexto, o Copom reafirma que a política monetária deve manter-se vigilante.”

A dúvida, portanto, não está relacionada mais à interrupção ou continuação do ciclo, mas sim quanto à intensidade. A julgar pela escolha da expressão “vigilante” ao invés de “especialmente vigilante”, o documento sugere pretensão de redução do ritmo de aperto monetário para 0,25 p.p. na próxima reunião de Comitê a ser realizada nos dias 2 e 3 de junho.

Ano passado, ao reduzir o ritmo do ciclo de aperto monetário de 0,50 p.p. para 0,25 p.p. na reunião de Comitê realizada nos dias 25 e 26 de fevereiro, os diretores do Copom ressaltaram na ata que a política monetária deve se manter “especialmente vigilante”, mas na reunião seguinte, realizada nos dias 1 e 2 de abril, o termo foi trocado para apenas “vigilante”. Posteriormente, na reunião de Comitê realizada nos dias 27 e 28 de maio, o Banco Central interrompeu o ciclo de aperto monetário ao manter a taxa Selic em 11% ao ano. Mesmo assim, a expressão “vigilante” continuou sendo utilizada na ata de maio.

Mais recentemente, na polêmica reunião de Comitê realizada nos dias 28 e 29 de outubro do ano passado, marcada pelo início de um novo ciclo de aperto monetário (0,25 p.p.) logo após o término do segundo turno das eleições presidenciais, o Banco Central voltou a destacar na ata que “a política monetária deve se manter especialmente vigilante”. Na reunião seguinte, realizada nos dias 2 e 3 de dezembro, os diretores do Copom aumentaram o ritmo do aperto monetário para 0,5 p.p.

Entende-se, portanto, que o Banco Central utiliza o termo “vigilante” quando pretende trabalhar ou já está trabalhando uma política monetária com a mão leve ou mesmo não fazer nada (manter a taxa Selic). Já o termo “especialmente vigilante” é um indicativo de que o Banco Central pretende trabalhar ou já está trabalhando uma política monetária com a mão pesada.

Corroboram para a mão leve do Banco Central na próxima reunião a utilização de termos mais suaves para descrever a situação do mercado de trabalho (com início de um processo de distensão), do mercado de crédito (constatação de moderação na expansão) e retração dos investimentos.

Os diretores de Comitê também alteraram (mais uma vez) a perspectiva de cumprimento da meta (4,5%). Na reunião dos dias 2 e 3 de setembro do ano passado, o Banco Central afirmava que “a inflação tende a entrar em trajetória de convergência para a meta nos trimestres finais do horizonte de projeção”. Entretanto, na reunião de Comitê realizada nos dias 2 e 3 de dezembro deste mesmo ano, o Banco Central reavaliou o quadro e passou a antecipar que a inflação tende a permanecer elevada em 2015, mas (ainda em 2015) entraria em longo período de declínio. Já na reunião dos dias 20 e 21 de janeiro deste ano, o Banco Central alterou novamente sua perspectiva, ao assegurar convergência da inflação para meta em 2016. Na reunião seguinte, realizada nos dias 3 e 4 de março, o Banco Central não mencionou mais que a inflação entraria em longo período de declínio ainda em 2015. Além disso, a perspectiva de cumprimento da meta foi alterada de 2016, para ao longo de 2016. Na última reunião, realizada nos dias 28 e 29 de abril, a tão esperada convergência foi novamente prorrogada. Agora, para o fim de 2016.

Constantes alterações de convergência para a meta seguem mantendo a sensação no mercado de que o Banco Central está “empurrando o cumprimento da meta com a barriga”. Conquistar a confiança dos agentes é essencial para retirar a economia brasileira do quadro estagflacionário, mas, para isso, o Banco Central não pode ficar adiando compromissos.

No mercado de capitais, destaque para uma nova onda de choque nas taxas de juros dos títulos da dívida soberana. O movimento começou na Europa alguns dias atrás e se espalhou rapidamente para os mercados asiáticos. Até mesmo as taxas de juros dos títulos da dívida soberana norte-americana foram duramente atingidas.

O impasse da Grécia com o Eurogrupo (aumenta o receio de uma ruptura com o bloco), bem como a sinalização de melhora na economia da zona do euro (cria especulação quanto à durabilidade do quantitative easing implementado pelo BCE) deram início ao movimento de liquidação generalizada de títulos da dívida soberana europeia, excessivamente valorizados.

A onda de vendas não poupou nem mesmo os títulos soberanos alemães, um dos principais portos seguros da Europa. O choque atingiu rapidamente as principais economias asiáticas e bateu em cheio nos Estados Unidos.

A taxa de juros de título público de 10 anos do Tesouro norte-americano (referência global) disparou de 1,87% alcançados em meados do mês passado para 2,25% na última quarta-feira, superando a máxima deste ano. A agenda fraca desta quinta-feira permitiu certo alívio no mercado, abrindo espaço para leve recuo da taxa.


Já os títulos soberanos brasileiros comportaram-se de maneira diferenciada. O choque não atingiu o Brasil, muito em função do atual ciclo de aperto monetário do Banco Central, movimento contrário à política monetária da grande maioria dos demais banqueiros centrais mundiais. Com o ministério da Fazenda fazendo os ajustes fiscais necessários, o juro real brasileiro ascendente (maior do mundo) funciona como imã para atrair o capital desnorteado ao redor do planeta.

As taxas de juros dos títulos da dívida pública brasileira subiram pouco ou quase nada nos últimos dias, mostrando importante acerto da política monetária. Numa situação inversa (de política monetária), o País poderia estar sofrendo neste momento com uma fuga de capitais e choque nos preços dos ativos.

O índice Bovespa permanece trabalhando dentro da tendência principal de alta. Houve sinalização natural de topo ao aproximar-se da resistência localizada na faixa dos 58.8k, o que deu início a um novo movimento corretivo de curtíssimo prazo. Apesar da ausência de suportes relevantes próximos, a correção de curtíssimo prazo ainda não trás ameaça à tendência principal.


O mercado acionário norte-americano trabalha lateralizado, sem apresentar novidades.


9 comentários:

  1. Paguem meus juros!

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  2. Se você opinasse no Focus, qual a sua previsão de SELIC *no final* de 2015? 13,5%? 13,75?
    Para mim, 13,75...

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    1. Opinaria nulo rs... Não há como levar a sério as projeções do Focus, pois são alteradas constantemente. O Focus é bom para se ter uma leitra do termômetro do mercado.

      Abs, bons negócios

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  3. FI,

    Este nosso índice está muito puxado. Será que não há uma correção ? Não lembro de ter visto a bolsa tão resistente neste patamar. Abs

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    1. O mundo inteiro está puxado rs... Por enquanto a correção no Ibovespa é de curtíssimo prazo e saudável para tendência iniciada em 45.9k. Na passagem de 2011 para 2012, em meados de 2012, em 2013 e também em 2014 ocorreram puxadas semelhantes no nosso mercado. Movimentos fortes são comuns, para os dois lados.

      Abs, bons investimentos

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  4. Finanças, onde eu posso encontrar dados dos países da europa desde os anos 2000 referentes à

    - PIB nominal em euros
    - PIB % ano a ano
    - Dívida pública em % do PIB
    - Crédito imobiliário em % do PIB

    ???

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    1. Bom dia. Você provavelmente vai encontrar todos esses dados na Eurostat ( http://ec.europa.eu/eurostat )

      Abs, bons negócios

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  5. Olá FI, mais um texto bem esclarecedor, obrigado mesmo. Fiquei na dúvida se você atua no mercado financeiro ou se aprendeu essas questões primeiramente por interesse. Grande abraço!

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    1. Obrigado! Atuo no mercado financeiro, mas muito do que aprendi veio de estudos feitos por conta própria.

      Abs, bons investimentos

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