quarta-feira, 3 de junho de 2015

Banco Central mantêm a mão firme


O Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) decidiu na noite desta quarta-feira elevar a taxa Selic em 0,50 p.p., para 13,75% ao ano, mantendo o atual ritmo de aperto monetário. Ao final da reunião, a autoridade monetária divulgou o seguinte comunicado:

“Avaliando o cenário macroeconômico e as perspectivas para a inflação, o Copom decidiu, por unanimidade, elevar a taxa Selic em 0,50 p.p., para 13,75% a.a., sem viés.”

Trata-se do mesmo texto emitido após o encerramento das últimas quatro reuniões, o que mostra mão firme do Banco Central mesmo diante de uma economia nocauteada pelos inúmeros erros cometidos no passado. O combate à inflação persistentemente elevada provocará agravamento recessivo, mas é a única forma de sair do perigoso quadro estagflacionário brasileiro.

A conta era salgada, está mais salgada e ficará ainda mais salgada. O fato de os diretores do Copom terem optado por manter o comunicado inalterado sinaliza ao mercado continuação do atual ciclo de aperto monetário. A retomada ascendente do dólar frente ao real pode ter jogado a projeção de encontro ao centro da meta (4,5%) do final de 2016 para o início de 2017.

Além disso, ao manter a mão firme na política monetária, o Banco Central vence mais uma (das inúmeras) batalha (s) para retomar a credibilidade perdida no passado e, consequentemente, reconquistar a confiança dos agentes, para que as expectativas voltem a se ancorar na meta de inflação.

Na economia doméstica, os indicadores seguem confirmando manutenção do quadro estagflacionário para este segundo trimestre. O Índice Gerente de Compras caiu para 45,9 pontos no mês de maio, levemente abaixo dos 46 pontos registrados no mês de abril. Apesar da perda de ritmo, o indicador ainda revela forte contração do setor manufatureiro.

A inflação elevada, juntamente com a fragilidade de uma economia desarrumada (herança dos últimos anos) segue pressionando as indústrias, forçando-as cortar custos, o que provoca, inevitavelmente, novos fechamentos de postos de trabalho. Consequentemente, a rápida aceleração da taxa de desemprego refletirá no desempenho do PIB (Produto Interno Bruto) deste segundo trimestre, que tende a ser pior do que a retração de 0,2% registrada no primeiro trimestre deste ano.

No entanto, o necessário sofrimento de curto prazo tende a ser passageiro. O alinhamento das políticas econômica, fiscal e monetária criarão condições para retomada do crescimento no médio e longo prazo. O País contará, ainda, com importante força de impulso externa que já está sendo desenhada com a fixação de um novo player na América Latina (China) e abertura de novos acordos comerciais fora do Mercosul (tendência reforçada com a vista de Estado realizada no México mês passado).

O governo também tem sinalizado foco numa agenda pró-crescimento pelo lado da oferta, diferente daquela observada nos últimos anos, no que demonstra ser mais uma influência positiva da equipe econômica chefiada pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy (vale lembrar que o último ministro da Fazenda que salvou a economia brasileira se tornou Presidente da República) . O amplo programa de concessão de infraestrutura a ser lançado neste mês tem atraído bastante atenção dos investidores estrangeiros.

O apetite por ativos brasileiros permanece elevado também no mercado financeiro. Destaque para grande aceitação ao raro título de 100 anos emitido pela Petrobras esta semana, além da persistência do prêmio negativo dos títulos da dívida soberana nacional frente ao atual patamar da taxa básica de juros, mesmo com elevação das taxas soberanas no mercado europeu, asiático e norte-americano.

A bolsa de valores encontrou ponto de apoio na região de suporte formada pelo antigo ponto de pivot dos 52.5k e média móvel simples de 200 períodos diária. Em caso de perda deste importante patamar de sustentação, o movimento corretivo iniciado na região dos 58.6k poderá se estender com o provável ressurgimento da força vendedora.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão desta quarta-feira em leve alta, sem apresentar novidades. Mercado permanece congestionado no curto prazo.


A taxa de juros da Treasury de 10 anos (título público do Tesouro norte-americano, referência no mercado da dívida soberana global) voltou a disparar nos últimos dias, renovando a máxima de 2015.
  

Bom feriado!

13 comentários:

  1. FI, ainda há mais espaço para subida da SELIC ou podemos esperar uma estabilizada na próxima reunião?
    Abraços

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    1. Olá,
      Há espaço e necessidade de continuação do ciclo de aperto monetário, infelizmente. Não se pode permitir o prolongamento de um quadro estagflacionário, o que pode ser mais grave do que uma recessão aguda. Quanto mais rápido o Banco Central desarmar a estagflação, melhor. O fato de os diretores do Copom terem optado por manter o comunicado inalterado sinaliza ao mercado continuação do atual ciclo de aperto monetário. Vamos ter essa confirmação (ou não) na ata a ser divulgada na próxima semana.

      Abs, bons investimentos

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  2. FI, você acredita em um cenário piorando e a SELIC subir mais ainda caso tenhamos racionamento de energia neste ano e caso os juros nos EUA subam também neste ano? Como eu não conheço economia eu não entendi o trecho: "prêmio negativo dos títulos da dívida soberana nacional frente ao atual patamar da taxa básica de juros". Você poderia me explicar como é esse "premio negativo". Obrigado e parabéns pelo seu trabalho.

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    1. Acredito que a Selic pode subir mais para ancorar as expectativas dos agentes na meta (hoje ainda distante) e por tabela reverter o processo de indexação, não permitindo que a inflação elevada do passado contamine e se espalhe no futuro. O risco de racionamento de energia neste ano é baixo, pois as chuvas na região centro-sul do País estão acima da média. Já nos anos seguintes, quando Belo Monte ficar pronta, este risco tende a se dissipar totalmente. O timming do aperto monetário nos Estados Unidos passou a ser desprezível, análise feita no mês de março ( http://www.financasinteligentes.com/2015/03/timming-do-aperto-monetario-nos-estados.html ). Ainda assim, o Banco Central brasileiro e o ministério da Fazenda tem se antecipado à normalização das condições monetárias, com a Selic elevada e arrumação fiscal, o que reduz a possibilidade de choque de capitais. Já com relação ao prêmio negativo, basta comparar a taxa do pré-fixado com a atual taxa Selic. Neste momento, todos os títulos pré-fixados do Tesouro Nacional pagam juros anuais (na data de vencimento dos títulos) inferior ao atual patamar da taxa Selic, o que mostra grande apetite e confiança do mercado nas políticas econômica, monetária e fiscal.

      Abs, bons negócios

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    2. Ou representam uma situação momentânea de afrouxamento internacional...

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    3. Sim, o excesso de liquidez no mercado financeiro global provocou (e ainda provoca) valorização de ativos em diversas praças, em alguns casos com bolhas já formadas, outros em formação e algumas já estouradas. Acontece que o Brasil estava fora do radar do fluxo de capitais nesses últimos anos. A entrada de Levy na Fazenda, juntamente com as ações do Banco Central e sinalização de mudança na política econômica mudou o quadro e colocou o Brasil de volta no radar.

      Abs, bons investimentos

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  3. Eu ainda acho pouco, não nos esqueçamos que em 2003 chegou a 26,5 e em 1999 a 45%, crises diferentes mas sintomas parecidos.

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    1. A margem de manobra hoje é maior, o Banco Central tem reservas para casos de emergência, mas o quadro permanece delicado.

      Abs, bons negócios

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  4. Não dá pra comparar o cenário FHC com o cenário Levy.
    FHC assumiu a economia num momento em que o Brasil estava quebrado e as pessoas desesperadas porque nada do que foi tentado contra a inflação no passado havia funcionado.

    Levy assume num momento onde as coisas ainda possuíam algum controle, está participando do processo de deterioração do emprego e da renda e sabe-se lá se o povo vai entender isso. Levy está mais para ser culpado pelo que foi feito no passado do que salvador da lavoura. Será descartado assim que a sinalização de ajuste não for mais necessária e outro perdulário será colocado no lugar.

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    1. Com certeza são cenários diferentes. Crises diferentes. Mas tanto FHC, quanto Levy, pegaram a economia desarrumada, em situação delicada. O processo de deterioração do emprego e da renda começou no final da década passada e foi se deteriorando significativamente nos últimos anos. O País está colhendo hoje o que plantou nesses anos anteriores. Boa parte da população não entende isso, ninguém gosta de pagar a conta. É natural que a imagem do Levy fique manchada no início deste processo, mas qualquer cidadão com o mínimo de conhecimento sabe quem são os culpados pelo cenário que estamos vivenciando hoje. Ninguém sabe se o Levy vai ser descartado ou não. Em algum momento ele vai ter que deixar a Fazenda, só não sabemos quando rs.. Por enquanto, o que posso observar é que muitos analistas e economistas que criticaram o antigo ministro da Fazenda estão criticando também o ministro Levy. Passaram oito anos criticando o Mantega. Entrou um profissional altamente competente, de perfil pró-mercado, implementando muito do que eles próprios cobraram no passado, e as reclamações continuam rsrs.. Vai entender. Pra esse pessoal nada está bom. Ainda bem que o País não depende desses analistas pra crescer, caso contrário estaríamos numa depressão profunda.

      Abs, bons investimentos

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    2. Tudo bem o Levy estar fazendo um ajuste. Mas este ajuste é feito sobre o custo de quem produz, dos trabalhadores, pensões de viúvas, etc. Não corta efetivamente da onde deveria ser cortado.

      Não me parece um ajuste que permita o "país crescer" ou algo do tipo. Continuamos com 40 ministérios e muitos outros problemas. O que vai acontecer é o Brasil continuar na recessão para um dia o país sair do buraco com uma inflação mais moderada e as contas podendo respirar um pouco.

      Levy só está preparando o terreno para o Lula 2018, ele deve ser petista de carteirinha e sem muito amor pelo Brasil ou pelo seu povo.

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    3. Cortar da onde deveria ser cortado não depende do Ministério da Fazenda, pois em muitos casos seria inconstitucional. Até agora os ajustes estão apenas corrigindo distorções (graves, por sinal) e cortando benefícios (desonerações) concedidos injustificadamente no passado. O primeiro aumento real de impostos ocorreu com a elevação de 5 p.p. da CSSL para instituições financeiras. Provavelmente novas medidas de ajuste serão anunciadas nos próximos meses, tamanho à desordem fiscal. O povo sempre paga o preço pelos políticos que elege, não há como fugir da conta. Cortar pelo menos meia dúzia (se fizer esforço, cabe uma dúzia) dos 39 ministérios seria muito bem vindo. A população está pedindo isso faz tempo, mas até agora não apareceu nenhum projeto sério no governo. Esse é um trabalho que precisa partir da oposição (o governo eleito é o menos interessado), na verdade já deveria estar pronto e com mobilização para ser aprovado.

      Abs, bons negócios

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    4. Levy faz o ajuste aonde deixam ele fazer. Nada do que o anônimo de 5/06 disse é culpa dele.

      Bom seria se fizéssemos um ajuste no modelo inglês: primeiro reduziram gastos, agora partirão para redução de impostos. Isto é ajuste. O resto é enganação.

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