quarta-feira, 17 de junho de 2015

Chair do FED confirma insignificância do timming


Apesar da surpresa dos jornalistas, analistas e economistas, a reunião de comitê do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) terminou na tarde desta quarta-feira apresentando poucas novidades relevantes.

Em comunicado emitido no final desta tarde, os diretores do FED reforçaram que a economia norte-americana segue crescendo moderadamente, após a fraqueza provocada pelo inverno rigoroso no início deste ano, e provavelmente estará forte o suficiente para aguentar um aumento da taxa básica de juros até o fim de 2015.

As novas projeções da autoridade monetária norte-americana apontam para um crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) neste ano entre 1,8% e 2,0%, número significativamente inferior à projeção anterior divulgada no mês de março (entre 2,3% e 2,7%). Para 2016, o PIB deve acelerar entre 2,4% a 2,7%, ante estimativa de 2,3% a 2,7%. Já a previsão para expansão econômica de 2017 passou para 2,1% a 2,5%, contra 2,0% a 2,4%.

A projeção para taxa de desemprego (atualmente em 5,5%) subiu para 5,2% a 5,3% no fechamento de 2015, levemente acima da estimativa anterior (entre 5,0% a 5,2%). Para 2016, a taxa de desemprego deverá cair para 4,9% a 5,1%, mesmo intervalo de projeção divulgado no mês de março. Em 2017, a taxa de desemprego deverá se manter entre 4,9% a 5,1%, ante 4,8% a 5,1% da estimativa anterior.

A estimativa para inflação de 2015 não foi alterada pelo FED (tende a ficar entre 0,6% a 0,8%). Para 2016 espera-se inflação entre 1,6% a 1,9%, levemente inferior à projeção anterior (entre 1,7% a 1,9%). A estimativa para inflação de 2017 também não foi alterada (tende a ficar entre 1,9% a 2,0%).

Com as projeções praticamente inalteradas (destaque apenas para redução do PIB de 2015, fortemente influenciada pelas condições climáticas adversas), o FED continuará mantendo sua postura cautelosa na implementação da política monetária. Consequentemente, a estimativa para a FFR (Federal Funds Rate, considerada taxa básica de juros nos Estados Unidos) manteve-se em 0,625% ao final de 2015.

Para 2016, a média de projeções dos membros do Comitê voltou a cair, desta vez de 1,875% para 1,625%. A estimativa para FFR no fechamento de 2017 também recuou novamente, de 3,125% para 2,875%.

Essas frequentes reduções reforçam o gradualismo do ciclo de aperto monetário, mensagem que ainda não foi captada pelos analistas/economistas, apesar dos constantes avisos e sinalizações emitidas pelo Banco Central há um bom tempo.

Permanece avaliação (levantada desde o mês de março neste blog) de que pouco importa quando o FED iniciará o ciclo de aperto monetário, pois a melhora nos prêmios de risco dos títulos norte-americanos será pequena (influenciada pelas projeções para FFR constantemente mais baixas) e, consequentemente, os impactos nos preços dos ativos nas demais praças financeiras também.

Durante entrevista concedida após reunião de Comitê, a chair do FED, Janet Yellen, fez questão de advertir que a importância da primeira alta da taxa de juros não deveria ser exagerada. Esta foi a primeira vez que a presidente do FED minimizou publicamente a importância do timming do aperto monetário, já que boa parte dos jornalistas, economistas e analistas ainda não captaram a mensagem propagada desde o mês de março.

Yellen também relembrou que a política monetária continuará sendo expansiva por um tempo. O plano traçado para normalização das condições monetárias, divulgado pela primeira vez no comunicado da reunião de Comitê realizada no mês de setembro do ano passado, segue na mesma linha cautelosa adotada para a FFR.

Por fim, a presidente do FED demonstrou certa apreensão com a economia global caso a Grécia e seus credores não cheguem a um acordo. Numa situação de ruptura, nem mesmo os Estados Unidos (com exposição muito limitada à Grécia) estarão a salvo dos impactos que podem chacoalhar o mercado financeiro global.

Wall Street reagiu com natural volatilidade após o encerramento da reunião de Comitê, provocando surgimento de um candle de indecisão no índice Dow Jones. Mercado segue congestionado no curto prazo, sem apresentar novidade.


O índice Bovespa fechou o pregão em baixa de 0,84%, congestionado no curtíssimo prazo, sem apresentar novidade. Mercado ainda permanece acima da média móvel simples de 200 períodos diária e suporte dos 52.5k, principais pontos de apoio.


7 comentários:

  1. Mestre Fi, concordo e discordo em parte do seu, mais uma vez, muitíssimo inteligente texto. No que tange o lado de lá, acho que a subida contínua das taxas dos treasuries de 10 anos desde fevereiro, já mostrou que o mercado acordou para a realidade, após vários meses de devaneios com um FED com sangue nos olhos, que fosse promover um aperto monetário de uma só vez. Mesmo, que a situação assim demandasse, o que não é o caso, já que a alavancagem do FED tem se mostrado até o presente momento bem parcimoniosa e dentro do previsto, o FED dificilmente realizará uma subida de juros que não seja gradual e suave, pois toda essa injeção de liquidez foi justificada, em primeiro lugar, para estimular os mercados, não para criar pânico. Logo, essa desalavancagem suave não deveria surpreender ninguém. Surpreso fico eu de tantos analistas terem acreditado em um cenário diferente durante tanto tempo.

    Por outro lado, discordo em parte no que tange ao efeito em outras praças. Principalmente em praças que não fizeram o seu dever de casa durante a desvalorização do dólar. Acho que os fundamentos andam muito descolados dos preços em alguns mercados, até por causa da injeção de liquidez também do BCE.

    Aqui por exemplo, apesar da alta da SELIC, as taxas dos ativos prefixados não tem acompanhado esse movimento, justificando-se em uma queda na expectativa da inflação futura. O mercado brasileiro parecer ter precificado o melhor dos cenários: medidas de aperto fiscal do BC funcionam, a inflação volta para os trilhos em 2016 e o Brasil entra 2017 com crescimento e taxa de juros reais de primeiro mundo (primeiro mundo pré 2008). O problema é que qualquer escorregão é complicado nessa situação, vide o aumento de volatilidade do TD hoje devido ao "surpreendente" resultado do IPCA de junho.

    Novas "surpresas", caso se mostrem rotineiras, tanto no cenário interno quanto no externo, podem por abaixo esse céu de brigadeiro precificado pelo mercado.

    A sorte do BC é que valorização do dólar frente a uma cesta hipotética de moedas junto com a desvalorização do real nesse mesmo ângulo, tem dado mais tempo para agir e esperar resultados, pois de outra forma, sei não.

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    1. Sim, o gradualismo do FED é uma espécie de presente para estabilidade financeira global, mas não resolve problemas internos nas demais praças. Em função do aumento da FFR, os demais banqueiros centrais respiram aliviados, pois um movimento suave na política monetária norte-americana limita os impactos nos fluxos de capitais. Apesar deste fator limitador, os mercados seguirão vulneráveis a choques, tanto pelo lado dos fundamentos domésticos deteriorados, quanto pelo elevado patamar dos preços dos ativos. A atual expectativa para FFR (e consequente processo de desalavancagem do FED, na mesma linha cautelosa) é apenas um redutor de um gatilho que até então era considerado como principal fonte para futuros choques nos mercados. Cabe aos demais líderes fazerem o mesmo (reduzir a potência de seus gatilhos). Este último caso brasileiro é um bom exemplo, o reordenamento das políticas econômica, fiscal e monetária impediu a contaminação dos ativos brasileiros (por ter criado uma expectativa positiva até demais) frente ao recente choque nos mercados da dívida soberana europeia, asiática e norte-americana. Mesmo que os benefícios deste reordenamento sejam colhidos apenas no médio/longo prazo, o mercado costuma comprar expectativas, tanto positivas, quanto negativas. O "problema" (ou oportunidade) é que, não raro, a precificação costuma ser rápida e exagerada (também para os dois lados). Tenho a impressão de que a melhora dos fundamentos domésticos está seguindo esta linha de precificação exagerada pelo mercado.

      Abs, bons negócios

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  2. Permanece avaliação (levantada desde o mês de março neste blog) de que pouco importa quando o FED iniciará o ciclo de aperto monetário, pois a melhora nos prêmios de risco dos títulos norte-americanos será pequena (influenciada pelas projeções para FFR constantemente mais baixas) e, consequentemente, os impactos nos preços dos ativos nas demais praças financeiras também.

    Sobre o parágrafo, mesmo que não haja impacto inicialmente há de se esperar que cedo ou tarde ele venha, não ?

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    1. Em função do aumento gradual da FFR, não. Mas isso não significa que os mercados estarão protegidos contra choques. Em muitas praças os ativos estão caros e desgarrados dos fundamentos domésticos.

      Abs, bons investimentos

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  3. "Apesar da surpresa dos jornalistas, analistas e economistas,"

    Não foi surpresa para quem acompanha Peter Schiff e os economistas seguidores da escola austríaca.

    A política de juros baixos não tem data para acabar.

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    1. Por outro lado, ele também falou que o ouro ia bater 5 mil dólares e até hoje não chegou nem na metade disso.

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    2. Lembrando que o ouro foi o primeiro ativo a entrar em crash na era pós-crise. Estourou em 2013, e acabou puxando a prata também.

      Abs,

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