quinta-feira, 16 de julho de 2015

Brasil está perto de sofrer downgrade, com perspectiva negativa


A agência de classificação de risco Moody’s desembarcou no Brasil esta semana para reavaliar o risco soberano do País. A Moody’s ainda atribui nota Baa2 ao Brasil, entretanto, o rebaixamento (ou downgrade) para Baa3 (nota mais baixa para classificação grau de investimento) é praticamente certo.

Na verdade o rebaixamento está atrasado. A deterioração dos indicadores macroeconômicos brasileiros ocorrida nos últimos anos impede manutenção da nota Baa2. O atual quadro econômico é mais compatível a países classificados com nota Baa3, ainda assim numa avaliação sob perspectiva otimista.

O problema é que os últimos acontecimentos estão levando à (nova) deterioração das perspectivas. Propostas infelizes, como a criação de uma banda para a meta fiscal, supostamente defendida pelo ministro Nelson Barbosa (que tem apresentando atuação decepcionante, por sinal), ou mesmo redução da meta de superávit primário para ridículos 0,4% do PIB (Produto Interno Bruto), defendida pelo senador Romero Jucá, são retrocesso no duro processo, em curso, de recuperação da credibilidade perdida no passado.

Além disso, pode-se constatar nos últimos dias/semanas certa fragilização do importante grau de influência que parte do ministério da Fazenda. O plano de empregos, anunciado recentemente pelo governo, na tentativa de conter a onda de demissões nas montadoras, está longe de ser uma medida que se enquadra ao perfil do ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Mudanças no fator previdenciário e adiamento da votação do importante projeto de redução da desoneração da folha de pagamentos não só contribuem para desgastar a imagem de Levy, mas também dificultam (prolongam) o necessário processo de ajuste fiscal.

Por fim, a sensação de total descaso de grande parte de nossos representantes políticos (nos mais diversos escalões de governo) com a delicada situação econômica pode ser o convite final para a Moody’s não só confirmar o downgrade da nota brasileira, mas também rebaixar a perspectiva para negativa, o que sinalizaria elevada probabilidade de futura perda do selo grau de investimento.

A impressão que a equipe da agência de classificação de risco Moody’s terá ao finalizar os trabalhos no Brasil não será boa. O empenho do ministério da Fazenda e Banco Central num País ainda repleto de parasitas (cada vez mais resistentes) pode não ser o suficiente para evitar um futuro rebaixamento da classificação de risco brasileira ao patamar de lixo (junk).

A perspectiva otimista criada pelas medidas anunciadas no início deste ano está se exaurindo gradualmente. Os recentes retrocessos observados nas políticas de ajuste impactam diretamente na confiança dos investidores, empresários e consumidores, que deveriam estar, neste momento, invertendo a perigosa trajetória negativa. Para completar, a ausência de uma agenda concreta para realizar as necessárias reformas estruturais também joga contra. Sem agenda de reformas e sem confiança, o País estará fadado ao fracasso.

Os preços dos ativos brasileiros ainda não refletem a possibilidade de futura perda do grau de investimento, não somente pelo excesso de liquidez no sistema, responsável por segurar (ou inflar) preços de ativos no mundo inteiro, mas também pela ausência, até o momento, de ameaça de rebaixamento por parte das agências de classificação de risco.

Juros futuros, ações e câmbio permanecem oscilando de forma comportada nos últimos dias, sem apresentar novidades. O índice Bovespa conseguiu formar fundo descendente na região dos 51.1k, após o acionamento de um novo pivot de baixa, ratificado pela perda do importante patamar de sustentação da região dos 52.5k. Apesar do alívio verificado nos últimos dias, o índice permanece vendido. Tendência de baixa só será revertida com a superação da resistência localizada na região dos 54.3k.


Já no mercado norte-americano, o alívio nos preços dos ativos é mais intenso. Bastou acumular alguns dias de boas arrancadas para os índices acionários voltarem a se aproximar das máximas históricas.


Destaque para o ganho de força no deslocamento de curto prazo do dólar x cesta de principais moedas globais, mostrando que o movimento de aversão ao risco constatado em algumas praças financeiras segue firme. A superação da máxima registrada no mês de maio poderá finalizar o movimento corretivo iniciado no mês de março deste ano e, consequentemente, provocar novos impactos nos preços dos ativos espalhados mundo afora.


27 comentários:

  1. Se perder o grau de investimento (acho difícil, acho que será um rebaixamento 'apenas'), o cenário ficaria bem caótico. Bolsa desabando, títulos pagando bastante. Até interessante pro investidor, mas a coisa não pode se deteriorar em demasia. O problema todo é que o congresso não tem ajudado. Levy vai ter de tirar mais coelhos da cartola. Não sei se você viu, a Reuters espera um aumento de apenas 0,25 p.p. na próxima reunião para a Selic.

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    1. O impacto provocado pelo rebaixamento da nota para Baa3, e manutenção da perspectiva negativa (aí que está o problema) pode ser até pequeno no curtíssimo prazo em função do excesso de liquidez no sistema. Mas o estrago será grande médio e longo prazo em termos gerais, caso o quadro se mostrar inviável para recuperação do grau de investimento. Atravessar a delicada fase de desalavancagem do sistema financeiro global sem possuir o selo de grau de investimento vai nos colocar numa situação muito mais vulnerável comparada a que estamos hoje, que já não é nada boa.

      Sim, boa parte dos economistas estão projetando alta de apenas 0,25 p.p. na próxima reunião do Copom. Eu posso estar errado, mas discordo desta posição. Acredito que a taxa Selic subirá novamente 0,50 p.p. e, provavelmente, o ciclo não será interrompido. A minha expectativa é baseada unicamente nos últimos dois importantes documentos emitidos pelo Banco Central (Relatório de Inflação e ata do Copom). Os discursos dos diretores de política monetária também endossam manutenção do ritmo de aperto monetário. A taxa Selic está alta demais para o Banco Central voltar atrás e pensar no crescimento. Até o momento está claro que só existe um objetivo: combater o perigoso quadro estagflacionário, desarmando a inflação persistentemente elevada, deslocando-a para o centro da meta. Preocupação com o crescimento virá depois de cumprir este primeiro objetivo (inflação ancorada na meta). Pelo menos é isso que o Banco Central tem sinalizado até o momento, o que é uma postura correta. A economia já está pagando um preço alto demais para suportar os juros elevados. Ao interromper o ciclo precocemente, podemos correr o risco de pagar este preço alto em vão. A inflação tem que voltar para o centro da meta, custe o que custar. Infelizmente cobra-se um preço salgado pelos erros grosseiros cometidos no passado.

      Abs, bons negócios

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    2. É a fraqueza da moeda, causada pela deterioração dos fundamentos e da falta de perspectiva que estão causando inflação. A moeda está sendo dizimada.
      Enquanto não houver expectativa de melhora não acredito em queda da inflação, ainda mais com o governo prometendo superavit e não entregando.
      Subir os juros aumenta a demanda por reais e contém a desvalorização. Mas pra moeda voltar a se apreciar é necessário que as expectativas melhorem, que a estabilidade política volte, que a relação dívida pib se mantenha estável e que o setor privado volte a investir.
      O governo precisa se ajudar. Admitir que errou e sinalizar que a mudança é definitiva, que irá manter a contas públicas equilibradas. Necessário tb apresentar um plano de desestatizacao, usando essa palavra, desestatizar.

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  2. FI, quando deve sair essa decisão da Moody's?

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    1. Não existe uma data pré-determinada. Normalmente as agências pedem alguns meses para divulgar o resultado, juntamente com um relatório explicativo. Mas o resultado pode sair a qualquer momento, quando a S&P rebaixou o Brasil para BBB- (último degrau do grau de investimento) ano passado, foi bem rápido (10 dias depois de retornarem do Brasil).

      Abs, bons investimentos

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  3. FI, sabe quando é o anuncio desta nota ? abs

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  4. Embora as propostas políticas que tem sido aprovadas sejam temerárias, julgo que não sejam tão prejudiciais ao país. PT enquanto foi oposição sempre foi contrário a tudo quanto era proposta de oposição, mesmo as que fossem institucionalmente benéficas ao país (lei de responsabilidade fiscal por exemplo). Por sua vez, encabeçavam tudo quanto é populismo barato. Está na hora deles sofrerem também, mesmo que isso represente um pesado rombo nas contas públicas.

    O que vai ser decisivo ao Brasil no longo prazo é a questão previdenciária, e nisso, até mesmo a proposta de Dilma era muito tímida. Concordo que é melhor uma resposta tímida do que um fato novo que piore o grave problema existente, mas quero frisar a importância desse gasto na minha visão.

    Levy foi muito bem descrito como um "para-choque sem borracha". Ele pode até descobrir a semente de uma árvore que dê ouro, mas todos os seus esforços serão em vão. Não adianta gerar recursos de um lado se não cortarem gastos de outro. A capacidade de taxar no Brasil está no limite. A indústria, sem acompanhar a produtividade do exterior, vai sofrer de uma forma ou outra (com maior ou menor rigor no ajuste fiscal, com maior ou menor depreciação do real), já que em salários (e consequentemente inflação do setor de serviços) a lei não permite mexer.

    Nesse sentido, dá para visualizar uma nova arrancada do dólar no prazo de 1 ano. Ou isso, ou uma dos juros futuros.

    Talvez até, o timming do FED deixe de ser irrelevante no que diz respeito a nossa praça.

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    1. Sim, a postura cautelosa no FED já contratada para o ciclo de aperto monetário é um presente para as demais praças financeiras mundiais, principalmente as mais vulneráveis. Mas o Brasil se afundou tanto no atoleiro que está produzindo (e continuará produzindo) seus próprios choques. É um acúmulo de erros impressionantes que vem sendo cometidos desde o final da década passada. E quanto mais o Estado errava, maior era a intervenção na economia. Novas intervenções que geravam novas falhas, criando um ciclo vicioso de destruição dos fundamentos macroeconômicos. Enquanto tinha fiscal, o governo conseguia tapar o sol com a peneira e administrar o jogo político. Agora com a crise econômica transbordada para a política, em meio a escândalos de corrupção, e sem fiscal, o País está ingovernável.

      Abs, bons negócios

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  5. O Brasil, que já não é muito digno de confiança, sempre consegue piorar.

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    1. Sim. O Brasil é campeão no "ranking de decepção" entre investidores estrangeiros.

      Abs, bons investimentos

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  6. quando divulgarão a conclusão se rebaixam ou não?

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  7. O último a sair que apague a luz. Povinho vai pagar a conta de ter eleito Lula em 2003 viu...

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    1. Já estamos pagando contas há muitos anos. As parcelas é que estão mais gordas.

      Abs, bons investimentos

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  8. E quando 300 mil empresários que empregam entre 3 milhões e 10 milhões se pessoas quiserem ir pra Miami, Milão, Paris, Cingapura, Canadá, Dubai, Austrália e até o Paraguai para fazer mais empregos e dinheiro?

    O que vai ser da nossa economia?

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    1. O processo de desindustrialização está em curso, muitos players manufatureiros já estão em outras praças. A indústria brasileira só não foi totalmente dizimada por conta do mercado consumidor doméstico, que é muito bom (o que acaba mantendo alguma coisa do que restou de nosso parque industrial). Outro fator responsável por segurar algumas manufaturas no País são as medidas protecionistas. Mas ainda assim está cada vez mais difícil (ao que restou do empresário industrial brasileiro) resistir a tentação de migrar a produção para o sul e/ou sudeste asiático.

      Abs, bons negócios

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  9. Espero que se faça um governo de coalizão antes que de m****...

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  10. "ministro Nelson Barbosa (que tem apresentando atuação decepcionante, por sinal)"

    Este ministro integrou a equipe de feitiçaria econômica passada, não deveria haver surpresa quanto ao desempenho dele. O que esperar de um ministro que desenvolve um programa desastroso como o Minha Casa, Minha Vida? rs


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    1. A decepção ficou por conta de sua falsa sinalização emitida no final do ano passado (Barbosa estaria alinhado com Tombini e Levy). O tempo mostrou que ele acabou pegando outra rota.

      Abs, bons investimentos

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    2. Você esperava alinhamento com o Levy? O cara é do time adversário. Sempre foi.

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    3. Ele estava realmente alinhado com Levy e Tombini. Nos últimos meses é que parece que a coisa desandou.

      Abs,

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  11. Nem é mais questão de SE vamos perder o grau de investimento. É questão de QUANDO. Paguem meus juros, eu fui formiga e trabalhei nos anos de vacas gordas. Agora farei a festa nos anos de vacas magras.

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  12. Daqui para frente, e por uns bons anos, quem tiver liquidez será rei.
    É a vez do dinheiro.

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    1. Famoso "cash is king" predomina no Brasil desde 2011, quando a tal "nova matriz econômica" foi colocada em prática.

      Abs, bons negócios

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  13. FI, neste momento, para o pequeno investidor fica o dilema: produtos atrelados a juros ou a dólar? Queira ou não, o BACEN adora disparar juros quando o dólar galopa, e aí às vezes a rentabilidade do juro supera a do dólar para o pequeno investidor (até por causa da taxas vergonhas de fundos cambiais). Muito obrigado por esse importante blog.

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    1. O timming está um pouco atrasado para os dois. A abertura de posições para fixação de taxas não pode depender exclusivamente dos rumos da política monetária. O posicionamento é dado pela estratégia operacional do investidor, reagindo à sinalização do mercado, normalmente onde o clima de pessimismo começa ficar exagerado. Já o câmbio em R$ 3,21 fica um pouco pesado pra abrir posição na ponta comprada (apesar de a tendência de médio e longo prazo ser altista), pois a perspectiva de prêmio líquido é pequena para um custo de oportunidade de pelo menos 14% ao ano.

      Abs, bons investimentos

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