quarta-feira, 29 de julho de 2015

Banco Central sinaliza que ciclo de aperto monetário chegou ao fim


O Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) decidiu na noite desta quarta-feira elevar a taxa Selic em 0,50 p.p., para 14,25% ao ano. A decisão não surpreendeu o mercado, porém, entre a divulgação do comunicado da reunião dos dias 2 e 3 de junho e a reunião dos dias 28 e 29 de julho, o consenso entre os economistas sobre o próximo passo do Banco Central oscilou como uma ação de baixa liquidez na bolsa de valores.

No início do mês passado a grande maioria apostava numa alta de 0,50 p.p. Pouco tempo depois, a opinião da maioria caiu para uma alta de 0,25 p.p., mas recentemente a maioria voltou apostar numa alta de 0,50 p.p. Interessante notar como a opinião de renomados economistas muda tão rapidamente ao sabor do clima presente no mercado, o que denuncia incapacidade de análise coerente (fundamentada nos documentos oficiais emitidos pela autoridade monetária).

Em mensagem emitida na noite desta quarta-feira, o Comitê sinalizou interrupção no ciclo de aperto monetário:

“Avaliando o cenário macroeconômico, as perspectivas para a inflação e o atual balanço de riscos, o Copom decidiu, por unanimidade, elevar a taxa Selic em 0,50 p.p., para 14,25% a.a., sem viés. O Comitê entende que a manutenção desse patamar da taxa básica de juros, por período suficientemente prolongado, é necessária para a convergência da inflação para a meta no final de 2016.”

A segunda parte do comunicado mostra claramente dois pontos importantes: (i) o objetivo de interromper o ciclo de aperto monetário; (ii) e o longo período de manutenção da taxa básica de juros em 14,25% ao ano.

A decisão de antecipar a interrupção do ciclo de aperto monetário na mensagem divulgada nesta quarta-feira pode ser considerada arriscada. O ambiente doméstico permanece delicado, ainda sem perspectiva de melhora. Já os fundamentos econômicos seguem deteriorados com o agravamento do quadro estagflacionário. Os índices de confiança continuam baixos, sem sinalização de melhora. Por fim, o recuo da inflação para o centro da meta (4,5%) em 2016 não pode falhar sob hipótese alguma, já que o preço a ser pago (com os juros em 14,25%) para conquistar esse objetivo é elevado demais para ficar em vão. Isso significa que as surpresas inflacionárias negativas que surgirem nos próximos meses devem ser amortecidas pela manutenção da taxa básica de juros, caso contrário o Banco Central voltará a perder credibilidade e será forçado a iniciar um novo ciclo de aperto monetário.

Destaque para o segundo comunicado emitido pelo Copom nesta quarta-feira, justificando a abstenção do Diretor de Assuntos Internacionais, Tony Volpon, a fim de evitar possíveis prejuízos à imagem do Banco Central.

Declarações de Volpon geraram críticas no ambiente político brasileiro, por ter supostamente revelado sua posição como membro votante do Comitê de Política Monetária. O senador José Serra (que já revelou publicamente meses atrás sua posição contrária à continuação do ciclo de aperto monetário) anunciou que vai pedir uma manifestação da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado.

Volpon, que era diretor executivo da Nomura Securites em Nova York, poderia estar acostumado com a invejável transparência da política monetária norte-americana, onde os membros do Comitê não só expõe seus respectivos pontos de vista abertamente, como antecipam com bastante antecedência o futuro da política monetária. No Brasil, as coisas parecem funcionar de forma diferenciada e Volpon precisa se acostumar com o nosso ambiente pressupostamente circense.

Ainda no quadro doméstico, destaque para o rebaixamento da perspectiva do rating brasileiro de estável para negativa, pela agência de classificação de risco Standard & Poor’s. Os motivos são os já conhecidos agravamentos das crises política e econômica no Brasil.

Isso significa que o País perderá a nota BBB- (último nível do patamar grau de investimento) nos próximos 12 a 18 meses caso o delicado quadro político e econômico se deteriore, ou mesmo se mantenha, nesse período.

O mercado, por sua vez, reagiu de maneira contrária ao senso comum. A bolsa disparou e recuperou o patamar de 50k, o dólar caiu para R$ 3,33 e os juros se estabilizaram nos últimos dois dias. Como de costume, os analistas ficaram perplexos e não souberam justificar corretamente o “movimento surpresa”.

São nesses momentos que surgem expressões na mídia como: “cai no boato, sobe no fato” ou “já estava no preço”. Na verdade essas justificativas insignificantes são a tradução oculta de “eu não faço a menor ideia do que está acontecendo.”

A corda estava simplesmente esticada no curtíssimo prazo. Não são as notícias que movem preços, mas sim o volume financeiro entre compradores e vendedores. As notícias podem apenas influenciar, juntamente com outras variáveis, a decisão de comprar ou vender de cada investidor/operador.

O mercado se tornou comprador nos últimos dois dias aproveitando a oportunidade criada pela corda esticada no curtíssimo prazo. O gatilho para virada surpreendente veio da teleconferência realizada pela analista da Standard & Poor’s, Lisa Schineller, que disse acreditar ser possível o Brasil evitar o rebaixamento no futuro, apostando numa melhora do quadro fiscal. Schineller citou o exemplo da Índia, que também teve a perspectiva para seu rating BBB- colocada em negativa e foi capaz de evitar um rebaixamento.

Entretanto, existe uma grande diferença de postura ideológica entre os governos brasileiro e indiano. Além disso, a Índia possui uma agenda de reformas importantes em curso, diferente do Brasil, onde essa agenda é, sequer, discutida seriamente no ambiente político.

Nos Estados Unidos, o Comitê de Política Monetária do FED (Federal Reserve - autoridade monetária do País) também finalizou nesta quarta-feira sua reunião de política monetária sem apresentar novidades. Em comunicado emitido após o encontro de dois dias, os membros do Comitê ressaltaram que a economia norte-americana e o mercado de trabalho continuam se fortalecendo.

Apesar de reconhecer uma melhora nos indicadores econômicos, o Comitê afirmou no documento que quer ver mais melhora no mercado de trabalho e ter mais confiança de que a inflação baixa subirá para a meta de 2% no médio prazo.

Portanto, pode-se concluir que o ciclo de aperto monetário se aproxima nos Estados Unidos, mas o Banco Central não se comprometeu a iniciá-lo na próxima reunião de Comitê a ser realizada no mês de setembro.

O índice Dow Jones fechou em alta pelo segundo pregão consecutivo, após uma sequência dura de quedas iniciada na semana passada, responsável por jogar o mercado na base da zona de congestão de curto prazo.


Quadro técnico bastante semelhante apresentado pelo índice Bovespa. Após uma sequência de quedas fortes, mercado se recupera, aliviando indicadores de sobrevenda elevados no curtíssimo prazo.


17 comentários:

  1. FI,

    Me diga como alguém em sã consciência se compromete a interromper a alta dos juros faltando alguns poucos meses para os EUA iniciarem o processo de alta ?

    A incompetência desse governo está imensurável. Sinceramente não vejo como não perder o grau de investimento.

    Abs.

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    1. O Banco Central se antecipou ao início do processo de normalização das condições monetárias nos Estados Unidos, mas a calibragem, se mantida, pode não ser suficiente, tanto para evitar choques no sistema (já que o quadro político/econômico se deteriorou ainda mais nesses últimos meses), quanto para cumprir o objetivo de convergência da inflação para a meta no final de 2016.

      A princípio, pressupõe-se, pelo comunicado, que a Selic em 14,25% provocou o recuo da inflação para o centro da meta (no fim de 2016) nas projeções do Banco Central realizadas nesta última reunião de Comitê, emitindo o sinal que os membros votantes precisavam para interromper o ciclo de aperto monetário. Isso precisa estar na ata, ou seja, a inflação não pode estar acima de 4,5% no fim de 2016.

      Partindo da última projeção do Banco Central divulgada ao mercado, parece difícil acreditar que os 14,25% provocaram o recuo da inflação para o centro da meta no final de 2016. Primeiro por conta da forte reversão do quadro fiscal (O Banco Central contava com superávit primário de R$ 66,3 bilhões em 2015 e de 2% do PIB em 2016). Segundo porque no último Relatório de Inflação, a projeção estava em 4,8% no encerramento de 2016, dentro de um cenário de referência com manutenção da Selic em 13,75% e dólar a R$ 3,10 em todo horizonte de projeções. Com fiscal longe da zona de contração e dólar mais alto (fechou em R$ 3,33 ontem), fica realmente difícil imaginar o cumprimento do objetivo (4,5% no encerramento de 2016) nas projeções feitas ontem.

      Abs, bons investimentos

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  2. Quando fiucar caracterizado que o governo brasileiro não colaborará com o ajuste no lado do fisco, o Bacen será obrigado a subir mais ou juros.

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    1. O Banco Central já teve que considerar esse novo quadro fiscal nas projeções feitas ontem. Se a ata mostrar inflação acima dos 4,5% no fim de 2016, ou acima da projeção anterior (o que é pior ainda), o comunicado divulgado ontem marcará uma contrariedade do Banco Central. Vamos aguardar a divulgação da ata na semana que vem.

      Abs, bons negócios

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    2. Tenho pra mim que estão blefando.

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  3. Deixar o controle de juro (notadamente um controle de preço) na mao de burocrata incompetente não vai sair coisa boa. Sempre foi, e sempre será assim.
    Controle de preço vai gerar descontrole. Banco Central é um cancer do mundo moderno. Depois de ler os diversos livros do jim rodgers tenho que concordar que apenas gente ruim faz parte dos diversos governos por aí

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    1. Bancos centrais precisam ser independentes para atingirem satisfatório grau de eficiência. Infelizmente as coisas no Brasil andam devagar (quando não retrocedem), e esse importante debate foi prejudicado pela baixaria que dominou a disputa política ano passado. Um membro votante do Comitê se abster de votar na política monetária, cedendo à pressão de alguns políticos, é o fim da picada.

      Abs, bons investimentos

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  4. Ótima análise.
    Gostaria de saber sua avaliação sobre o impacto da desaceleração da economia no índice inflacionário.
    Com o aumento do desemprego e a queda na atividade econômica, tudo isso aliado ao fim dos reajustes dos preços administrados, a impressão que se tinha, das declarações dos economistas do governo (e do BC), é que a escalada dos juros estava chegando ao fim mesmo.....
    Vc não acredita que esses dados seriam suficientes para direcionar a inflação ao centro da meta?
    Desde já agradeço a resposta.
    Abraço!

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    1. Obrigado! Numa economia regulada, com mínimo de fundamento sólido, qualquer processo de desaceleração do crescimento provocará desinflação. Mas a nossa economia está totalmente desequilibrada, com os fundamentos destruídos. Pouco se produz e muito se consome. Por esse motivo a desaceleração do crescimento (processo que já dura alguns anos) não consegue provocar desinflação, pois apesar de o Banco Central apertar as condições monetárias para uma parte do País, o governo (outra parte) continua consumindo muito, forçando aperto ainda maior na primeira parte para que a inflação, no geral, recue. Quanto menor a colaboração do governo (não somente da parte fiscal, mas também estrutural), maior será a necessidade de rigidez do Banco Central na política monetária.

      Abs, bons negócios

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    2. Também há de se levar em conta que a selic pouco afeta a maioria do setor financeiro, tendo em vista que mais de 50% dos empréstimos são subsidiados e nao oscilam conforme a selic (habitacional, agricola, bndes diversos)

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    3. Exato. Inclusive, os subsídios fazem parte da lista de reformas estruturais necessárias para se alcançar o desenvolvimento sustentado no longo prazo. O governo abusou demais na utilização dessa ferramenta nos últimos anos, criando distorções e negócios improdutivos ou de baixa eficiência.

      Abs, bons investimentos

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  5. Pois é. Esperava um Selic no final de ano 14,50% ou até 14,75%, mas o comunicado foi bem claro. Acho que fará efeito, as últimas três medidas de inflação revelam desaceleração IPCA-15 junho (0,99%), IPCA junho (0,79), IPCA 15 julho (0,59). Obviamente, houve um choque desde a semana passada, no entanto se observa uma tendência de diminuição.

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    1. Normalmente, no Brasil, a passagem do segundo para o terceiro trimestre garante o cumprimento da meta (4,5%), pois são períodos de inflação muito baixa ou mesmo deflação. Em 2014, a inflação acumulada de junho e junho foi de 0,41%. Em 2013, 0,29%. Em 2012, 0,51%. Em 2011, 0,31%. Em 2010, 0,01%. Mesmo com índices baixos na passagem do segundo para o terceiro trimestre, em todos esses anos a inflação fechou longe do centro da meta, em alguns casos bem próxima do limite máximo de tolerância. Portanto, quando se observa inflação nos meses de junho e julho, temos uma forte sinalização de que o quadro inflacionário não é nada bom. Creio que somente na passagem do terceiro para o quarto trimestre deste ano será possível projetar recuo da inflação em direção ao centro da meta no fim de 2016.

      Abs, bons negócios

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  6. O Luiz Barsi disse o seguinte sobre o momento certo para comprar ações, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, em 08/03/2014:
    "A diversificação é uma consequência, não necessidade. Se você comprar Eletrobras
    agora, por exemplo, ela vai deixar de ser um 'dividendo inteligente' quando pagar o
    dividendo, porque o próximo pagamento será só depois de um ano. Então, esse será o
    ponto certo para diversificar, procurando um novo 'dividendo inteligente'". Pergunta: o que você entende que ele quis dizer com "dividendo inteligente"? Como aplicar isso ao pequeno investidor?

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    1. Parece que ele quis dizer que o dividendo inteligente é quando se compra uma ação que está próxima de pagar dividendo. Mas isso não chega a ser nem um critério amador para stock picking. Meu conselho é esquecer essas e outras tantas dicas malucas que você encontra por aí rsrs... e procurar um fundo (value investing ou ETFs) para sua carteira de renda variável. Concentre-se em montar uma estratégia para entrar no timming correto.

      Abs, bons investimentos

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