quarta-feira, 8 de julho de 2015

Xangai, um lembrete da soberania do mercado


A forte e contínua atuação, sob diversas formas, de quase totalidade dos banqueiros centrais em suas respectivas praças financeiras permitiram que investidores/operadores do mundo inteiro pudessem esquecer, por algum tempo, a fúria de um mercado acionário em processo de capitulação.

Apesar de o excesso de liquidez, que inunda o sistema financeiro mundial há sete anos, ter provocado (ou contribuído) crash em alguns ativos/segmentos específicos (tais como ouro, prata, mercado de energia e algumas commodities), os mercados de ações permaneciam, de certa forma, blindados de choques nos preços dos ativos, com algumas dezenas de trilhões de dólares perdidos circulando o mundo em busca de retornos atrativos.

Sob a falsa imagem de total segurança e controle do mercado transmitida pelas políticas monetárias dos banqueiros centrais, o fluxo de capital entrou (e ainda entra) em qualquer porta que se abria (abre) para valorização de determinado ativo/segmento em qualquer canto do planeta.

Cerca de um ano atrás, a bolsa de Xangai experimentava o início de um movimento ascendente atípico e insustentável. O principal índice da bolsa de Xangai oscilava aos 2.000 pontos na primeira metade do ano passado. Entretanto, na segunda metade de 2014, a bolsa de Xangai entrou em forte rali, impulsionada pela flexibilização da política monetária do Banco Popular e abertura do mercado acionário aos investidores estrangeiros, em meio ao cenário local de desaceleração do crescimento e consequente queda na margem de lucro das empresas.

Estava se abrindo uma nova porta no mercado financeiro global. Uma impressionante onda compradora levou a bolsa de Xangai aos 5.180 pontos no mês passado. Quase 160% de valorização em pouco mais de um ano. A relação P/L de alguns papéis negociados na bolsa de Xangai chegaram a atingir incríveis 250 vezes. Tragédia anunciada.

Bastou um grande investidor saltar fora de suas posições para os demais fazerem o mesmo, instaurando o pânico no mercado. A somatória de preços estratosféricos com investidores desesperados resultou num movimento de capitulação na bolsa de Xangai (as pessoas tentam sair do mercado a qualquer preço, amargando prejuízos enormes). É quase a mesma história de 380 anos atrás, com o famoso estouro da bolha das Tulipas, na Holanda, replicada inúmeras vezes no mercado financeiro global.

Em apenas quatro semanas a bolsa de Xangai despencou mais de 30%, atingindo 3.507 pontos nesta quarta-feira, mesmo com governo e Banco Popular implementando uma série de medidas, dia após dia, na tentativa de reverter o movimento de pânico na bolsa de valores.


O caso da bolsa de Xangai é importante para lembrar aos investidores/operadores que as ferramentas utilizadas pelos banqueiros centrais não são infalíveis. Em algumas situações (tais como bolhas formadas ou distorções graves), prevalecerá, cedo ou tarde, a soberania do mercado frente ao contra-ataque heroico dos bancos centrais.

O tombo do mercado acionário chinês confunde os analistas que tentam conectar o desempenho da bolsa com a expectativa de forte desaceleração da economia, o que tem provocado nova onda vendedora no mercado de commodities.

Entretanto, os indicadores mostram que o já conhecido ritmo de desaceleração da economia chinesa não se acentuou. O movimento de capitulação na bolsa de Xangai é uma reação natural do mercado, que nada tem a ver com a economia, mas sim com a irracionalidade dos investidores/operadores.

As demais praças financeiras mundiais reagem negativamente ao movimento de pânico na China (que ainda conta com ajuda da situação da Grécia), apesar de a contaminação ser considerada modesta.

Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão em baixa de 1,47%, iniciando rompimento descendente da importante região de apoio de curto prazo formada pela média móvel simples de 200 períodos diária e zona de suporte dos 17.6k. A ata do FED (Federal Reserve – Banco Central norte-americano) divulgada hoje não apresentou novidades relevantes.


No Brasil, o índice Bovespa também trabalha vendido. A perda da média móvel simples de 200 períodos diária, juntamente com a importante região de apoio dos 52.5k, acionou mais um pivot de baixa na tendência iniciada aos 58.5k, causando abertura de novas operações na ponta vendedora e liquidações de posições compradas.


A queda da bolsa brasileira abriu espaço para nova valorização do dólar frente ao real, já que boa parte do fluxo de capitais na Bovespa é fruto de operações montadas pelos investidores estrangeiros, que agora estão fazendo o caminho inverso (voltando ao País de origem).

Destaque na agenda doméstica para o IPCA de 0,79% no mês de junho. Apesar de ser um número abaixo do esperado pelo mercado, o indicador mostra persistência de uma inflação elevada, num período normalmente favorável à desinflação. Quadro permanece delicado, impossibilitando projetar encerramento do atual ciclo de aperto monetário.

8 comentários:

  1. FI,

    Lendo um outro texto da web, percebi que o índice chinês não atinge a máxima desde 2008. Há como traçar um paralelo com o que está acontecendo no Brasil? Seria o presságio do fim da alta liquidez internacional?

    Abs.

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    1. Correto, a bolsa de Xangai está um pouco longe da máxima histórica, que por sinal ocorreu em 2007, aos 6.180 pontos. O mercado chinês estourou antes da crise do subprime, já que um movimento comprador impressionante (parecido com o que começou na segunda metade do ano passado, porém com maior intensidade) jogou as ações para níveis absurdamente insustentáveis naquele ano. Como diz o Alan Greenspan, uma exuberância irracional.

      Não há como traçar paralelo com o que está acontecendo no Brasil. Os nossos ativos não estão baratos, mas também estão longe de atingir um nível de exuberância irracional, como ocorreu em Xangai.

      Certamente, a desalavancagem do sistema financeiro poderá provocar novos choques nos preços dos ativos, a depender do nível em que eles (ativos) estarão quando o movimento iniciar. Parte do atual excesso de liquidez tende a ser pulverizado pelo mercado, com o acerto (retorno aos fundamentos) nos preços de determinados ativos. Ou seja, alguns investidores (PF e PJ) perderão quantias consideráveis. Essa pulverização tende a ser a parte mais dramática do processo de desalavancagem. A parte menos dramática ocorrerá com a subida dos juros e retorno da inflação.

      Abs, bons negócios

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    2. FI, quais são as possíveis maneiras do pequeno investidor se defender e não passar por essa situação de perder quantias consideráveis? Quais ativos estão mais vulneráveis a esse risco?

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    3. Ter uma estratégia operacional eficiente (e segui-la) garante o bom desempenho do portfólio, além de evitar que o investidor entre em ativos fora de sua "expertise". Títulos soberanos, principalmente na Europa, estão absurdamente caros e, consequentemente, muito vulneráveis. O mesmo vale para o mercado acionário em algumas praças. No Brasil o quadro é mais tranquilo, apesar de os ativos não estarem baratos, não há exagero de preços. O investidor basicamente precisa se atentar para montar posições no timming correto, tanto para renda fixa pré-fixada, quanto para ações e câmbio, mantendo uma alocação preferencialmente defensiva do portfólio.

      Abs, bons investimentos

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  2. FI,

    Suas análises estão cada dia melhores. Já acompanho o blog a alguns anos e estou sempre à espera pela próxima postagem, pois tem agregado muito conhecimento e fazem um panorama limpo (imparcial).
    Seu blog me traz uma visão muito melhor que portais, jornais e revistas que têm nesta área.
    Meus parabéns, continue nesta batalha e saiba que a melhor forma de crescer é sabendo compartilhar, o que você tem feito muito bem. Ah, e espero continuar contando com sua dose de informação nesta minha busca por conhecimento.

    Obrigado.

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    1. Obrigado! Fico feliz em saber que está lhe ajudando. Vamos em frente!

      Abs, bons investimentos

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  3. Mas por outro lado voce não acha que a forte desaceleração econômica vai de certa forma frear o ciclo de alta de juros?

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    1. Se o quadro fosse apenas recessivo, talvez já seria hora de se pensar em parar de subir os juros. Mas o quadro é estagflacionário, é bem mais perigoso do que uma "simples" recessão. Para se desarmar uma estagflação, é necessário, primeiro, combater firmemente a inflação, caso contrário não haverá crescimento sustentável no futuro. Conforme o próprio Tombini afirmou no início deste mês, o Brasil passa por um ajuste macroeconômico clássico, em três fases. A primeira é caracterizada pela contenção da atividade econômica (reflexo da política monetária). Na segunda fase, os preços internos tenderão à moderação, resultando em inflação estável no centro da meta. Por fim, na terceira fase, a sinalização de um horizonte de estabilidade e a adoção de reformas estruturais levará à retomada da confiança. Essas fases ocorrem sequência, mas se sobrepõem.

      Abs, bons negócios

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