quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Levy perde mais uma e bull market político está de volta


Esquecido na passagem de 2014 para 2015, o ciclo de bull market político brasileiro, constatado em meados de 2011, quando o Banco Central iniciou um forte e irresponsável ciclo de afrouxamento monetário (responsável por levar a taxa básica de juros a 7,25% ao ano em 2012), voltou com força neste mês de agosto.

Ciclos de bull market político são conhecidos no mercado por períodos de elevada intervenção do Estado na economia. Por outro lado, ciclos de bear market político são caracterizados por períodos de baixa (ou redução progressiva) intervenção do Estado na economia, tal como ocorreu na gestão de FHC, seguida pelo governo Lula.

Entretanto, ao assumir o seu primeiro mandato em 2011, a presidente Dilma Rousseff colocou em prática os conceitos da nova matriz econômica, sob o respaldo de uma ideologia que simplesmente destruiu os fundamentos da economia brasileira. A atitude do Banco Central em 2011 deixou o mercado estarrecido, o que confirmou a existência de um preocupante ciclo de bull market político.

Ao mesmo tempo em que o governo atropelou a política monetária, forçando uma queda insustentável da taxa básica de juros, o câmbio foi desvalorizado, alguns setores da economia foram “blindados” com pesados incentivos, barreiras a determinados produtos importados foram levantadas e o consumo das famílias foi impulsionado pela rápida concessão de crédito/financiamentos. Além disso, houve tentativa de forçar a redução das contas de luz e derrubar o spread bancário.

O resultado de tudo o que foi feito no primeiro mandato do governo Dilma está criando o que será, possivelmente, a pior crise brasileira desde a criação do plano Real. Erros sucessivos cometidos por um Estado intervencionista, mas também incompetente.

A entrada de Joaquim Levy, no Ministério da Fazenda, criou esperança de que o ciclo de bull market político chegaria ao fim no segundo mandato da presidente Dilma. Levy entrou no governo defendendo o fim do patrimonialismo (que favorece indivíduos e setores via créditos baratos e proteções) para, assim, criar um sistema que dê igualdade de oportunidade a todos, ampliando, consequentemente, a competição interna e externa da economia.

Infelizmente o governo provou nesta semana que não só desarmou mais uma importante frente de ataque do ministro Levy, mas também confirmou o retorno do bull market político. A mão pesada do Estado está de volta e, com ela, novos problemas serão criados, antes mesmo de superar os velhos e conhecidos imbróglios do passado.

Um dia após a Caixa anunciar um pacote bilionário de crédito camarada ao setor automotivo, além de descontos generosos em juros de empresas que se comprometerem a não demitir funcionários, o Banco do Brasil informa ao mercado que fez acordos com associações do setor automotivo para facilitar o acesso ao crédito. A previsão de desembolsos do Banco do Brasil chega a 9 bilhões de reais, já que outros setores e empresas, escolhidos a dedo, claro, também serão beneficiados.

A justificativa dada pelos bancos lembra os velhos tempos de Guido Mantega no ministério da Fazenda, com suas explicativas lunáticas (e no mínimo cômicas) para a economia. A generosidade destas operações de crédito são frutos de compromissos firmados com líderes da cadeia automotiva, o que permitiu redução do risco de crédito e, consequentemente, redução das taxas.

Em tempos de Selic aos 14,25% ao ano, forte retração da atividade econômica, aumento da taxa de desemprego e elevado nível de endividamento das famílias, chegar a tal façanha pode ser considerado um milagre.

Como se não bastasse, a nova guinada dos bancos públicos brasileiros prejudica o trabalho, já duvidoso e limitado, da política monetária, com mais crédito barato e circulante na economia concorrendo com a Selic contracionista de 14,25% aos “não sortudos”. Também favorece a manutenção de um ambiente de baixa produtividade em alguns setores, limita o acesso ao crédito a segmentos/empresas não beneficiados (as), cria desigualdade de oportunidades e prejudica a livre competição. O que será que acontecerá com o humor daquele empresário que ficou fora da festa? Filme repetido, mais uma vez.

As atitudes tomadas pelo governo nos últimos meses mostram que houve sim mudança de rumo naquilo que se projetava no início deste ano. Uma após a outra, propostas e ideias defendidas pelo ministro Levy, de cunho mais ortodoxo, vão sendo derrubadas numa velocidade relativamente surpreendente.

A prioridade também mudou. Parece não existir ninguém no ambiente político disposto a trabalhar pelo futuro do País. Brasília se tornou numa sangrenta praça de guerra, onde uns disputam o poder, enquanto outros tentam salvar a própria pele.

Para complicar, o povo brasileiro, que poderia mudar o foco dessa situação extremamente grave, resolveu lotar as arquibancadas de nosso “Coliseu” em Brasília, para assistir e incentivar a luta sangrenta.

Perdemos totalmente o foco da direção a ser tomada. O País precisa fazer um pesado ajuste fiscal (revisar seriamente gastos e receitas), implementar reformas tributária, trabalhista e previdenciária, acelerar programas de investimento em infraestrutura e reduzir o tamanho do Estado, inclusive na economia. Mas essa agenda é, sequer, discutida pela sociedade, que dirá no ambiente político.

Com as evidências de que o bull market político está de volta e, que a própria sociedade endossa o foco na direção errada, estamos fadados ao retrocesso lento e angustiante. Um País com carteirinha de emergente, mas com políticas populistas atrasadas e números de república subdesenvolvida.

No mercado de capitais o índice Bovespa encerrou mais um pregão em forte queda, refletindo temores de investidores/operadores com mais uma derrota de Levy, marcando o ressurgimento do bull market político.

O movimento vendedor atingiu as mínimas de 2015 e 2014 ao longo do pregão, ponto importante de sustentação, responsável por provocar pequeno alívio após a realização dos testes nas referidas linhas. Apesar de sobrevendido, mercado permanece em tendência principal de baixa, sem sinalização de reversão, ou mesmo alívio para os próximos dias.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão desta quarta-feira em baixa de 0,93%, confirmando a formação de mais um topo descendente na região dos 17.6k, antigo suporte, caracterizando movimento de pull back, abrindo espaço para continuação da tendência de baixa de curto prazo.
  


A ata do FED (Federal Reserve – Banco Central norte-americano) divulgada hoje não apresentou nenhuma novidade, apenas surpreendeu aqueles que, por conta própria, esperam (ou esperavam) início do ciclo de aperto monetário no próximo mês.

O documento reforça análises anteriores, de que o FED se apoie cada vez mais na inflação persistentemente baixa como justificativa de manutenção da taxa básica de juros entre 0 e 0,25%.

14 comentários:

  1. FI, o barco ja afundou 23, agora é salve-se quem puder

    podem ate não concordar, mas a unica esperança que tenho é uma intervenção e dizimada nestes ratos...

    parece que começou

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    Os clubes Naval, Militar e da Aeronáutica protocolaram no MPF em Brasília uma ação criminal conjunta contra Vagner Freitas, que ameaçou pegar em armas para defender Dilma.

    A caserna quer enquadrar o líder da CUT na Lei de Segurança Nacional -- sim, ela ainda existe.

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    1. Considero a posição do Alckmin a mais sensata no momento, precisamos aguardar o parecer das instituições para depois tomar atitude, sempre respeitando a Constituição. O regime democrático estável, transparente e com a presença de instituições fortes é o único ponto positivo que restou ao Brasil para competir por investimentos estrangeiros com os demais países emergentes. Se perdermos essa última prega, vamos ficar esquecidos no mundo. Por isso ressaltei no texto que estamos perdendo o foco. Ninguém está indo as ruas para defender os ajustes e reformas que precisam ser feitos (as) com urgência. Se nada disso for feito, o País não vai mudar, independente de quem quem estiver no poder, independente das consequências da Lava Jato, entre outros. Aliás, em se tratando de corrupção, a única força de combatê-la com eficiência é pela redução do tamanho do Estado. Mas o povo já mostrou e continua mostrando (desde a Constituição) que não quer um Estado pequeno. Pelo contrário, cada vez mais querem mais fiscal. A carga tributária brasileira não é alta por acaso, é só uma consequência das exigências do povo, atendidas pelo Estado. O dinheiro tem que sair de algum lugar.

      Abs, bons negócios

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  2. FI, parabéns pela qualidade de suas análises!

    Gostaria, se possível, que comentasse sobre o "alerta" que Alan Greenspan realizou sobre o mercado de títulos americanos, possivelmente, prenunciar uma bolha em virtude de um P/L numa "posição extraordinariamente instável".
    O aumento de juros nos EUA causará ajustes nos prêmios de risco dos ativos financeiros globais, em especial, nas economias emergentes.
    Nesta perspectiva, o Ibovespa (dolarizado) encontra-se próximo ao fundo do Crash de 2008 e as taxas das Ntn-b estão oscilando em 7%. Será que teremos, mais uma vez, taxas de 10% + IPCA e Ibovespa nos 30.000 pontos? Na dúvida, já iniciei as compras parceladas!



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    1. Greenspan deveria se preocupar mesmo é com o não alerta que ele deu sobre a bolha imobiliária americana.

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    2. Obrigado!

      Eu prefiro utilizar o termo bull market, transmite melhor a ideia de força e durabilidade de uma tendência para juros e câmbio que discutimos aqui há três anos. Creio que Alan Greenspan quis demonstrar a discrepância entre preço x fundamentos no mercado de títulos soberanos e que pode ser estendido para outros países europeus também. Em algum momento os juros dos títulos soberanos terão de voltar a normalidade, principalmente em sistemas financeiros de países que foram inundados pelos banqueiros centrais. Para a Treasury de 10 anos voltar "normalidade" de 4%, os títulos precisam se desvalorizar de forma abrupta, e muitos que estão posicionados hoje em 2% quebrariam. Quando a Treasury atingiu os 3% no final de 2013, o mercado já estava em pânico. O impacto é inevitável, mas provavelmente os Banco Centrais devem atuar para que esse movimento seja o mais longo possível, com objetivo de reduzir a força do choque no mercado. Portanto, existe sim uma bolha, mas por enquanto os Bancos Centrais conseguem administrá-la. Ninguém sabe e tem o poder de prever o que vai acontecer no futuro, mas as taxas brasileiras estão atrativas e, claro, podem estar ainda mais atrativas no futuro, o bull market não chegou ao fim. Cabe ao investidor/operador ter uma estratégia operacional eficiente para aproveitar essas e outras oportunidades que surgirem no mercado.

      Alan Greenspan e o resto do mundo não alertou sobre a bolha imobiliária norte-americana. Em 2006, quando Greenspan passou o bastão pro Bernanke, o mundo inteiro estava em fase de "oba oba". A festa era generalizada, qualquer um que tivesse falado uma frase com a palavra "crise" nessa época seria taxado de louco rs...

      Abs, bons investimentos

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  3. Não há como resolver a crise econômica preservando o regime petista. A prioridade zero é remover Dilma, prender Lula e colocar o PT na ilegalidade.

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  4. Alguém esperava algo diferente? O que precisamos é do impeachment.

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  5. Joaquim Levy só querida um empreguinho. Virou o novo Mantega e vai continuar sendo o novo Mantega até 2018.

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    1. Acho que ele ganhava muito mais no Bradesco que no governo. Emprego ele já tinha. Mas o que dá pra perceber é que o governo político ainda não está convencido da gravidade da situação. Aliás, se deixar pelos políticos, eles vão levar a situação com a barriga até o crash. Arrocho = impopularidade. Eles nunca querem pagar esse preço.

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    2. Correto. Se o Levy levantar a mão, em menos de 24 horas aparece meia dúzia de bancos nacionais e/ou estrangeiros dispostos a contratá-lo, executivo de alto escalão. O que ele ganha em um ano como ministro da Fazenda é equiparável ao que ele pode ganhar em um mês na iniciativa privada. Levy está na Fazenda por outro motivo, mas diante dos últimos acontecimentos, pode ser que ele esteja pensando em sair. Infelizmente.

      Abs, bons negócios

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    3. Não vai sair. Podem mandar ele embora... Ele tem apego ao cargo ;)

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    4. O salário do Levy na Fazenda não tem comparação com o do Bradesco. Lá ele ganhava muito mais e ainda tinha direito a bônus. Fora que na Fazenda, ao que me parece ele ganha bem menos que o Mantega (entre 20 a 30 mil contra 30 a 40 mil que o Mantega ganhava). Levy sempre foi um cara dedicado à gestão pública, passou um tempão no governo do RJ. Como bem disse o FI, se ele levantar a mão não faltarão propostas

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  6. FI o Levy, é um técnico, não está habituado a todo esse jogo político de Brasília e da Cúpula petista. Está sentindo que não adianta bater em prego com a mão, é possível que fique até dezembro................

    Porem, independente disso, minha análise para os próximos 12 meses é um Dow Jones nos 12xxxxxK e o IBOV buscando os 35xxxxxxxk.

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    1. Habituado com o ambiente político ele já está. Já trabalhou pro governo do Rio e, também, pro governo federal (primeira metade do governo Lula). O problema é outro mesmo.

      Abs, bons negócios

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