segunda-feira, 31 de agosto de 2015

O verdadeiro realismo


O governo da presidente Dilma Rousseff conseguiu realizar mais uma façanha nesta segunda-feira. Pela primeira vez na história, o Ministério do Planejamento apresenta à sociedade um projeto de Orçamento para o ano seguinte com previsão de déficit.

Isso significa que toda a desarrumação provocada pela implementação da nova matriz econômica ainda não foi capaz de provocar, sequer, reflexão da classe política. Até 2013, o governo temia o déficit e, portanto, fazia o possível e o impossível para maquiar as contas públicas. Em 2014, o governo percebeu que poderia encarar o déficit com efeito colateral mínimo, já que grande parte da população parece demonstrar pouca preocupação com as contas públicas, desde que seus respectivos privilégios sejam mantidos. 2015 não deve ser tão diferente de 2014 e, apesar de estar longe de começar, 2016 já pinta com um baita vermelhão.

Depois que a porteira foi oficialmente aberta em 2014 ficou mais fácil digerir os vexames dos anos seguintes. Por um lado, o mercado já está acostumado com números decepcionantes e promessas não cumpridas, por outro, o povo se preocupa mais com (i) a perda de recursos via corrupção do que com (ii) a perda de recursos via ineficiência do gasto público. Estima-se que a perda de recursos provocada pelo primeiro item não chega fazer cócegas perto da perda provocada pelo segundo item.

Portanto, gastar mais do que se arrecada só passou a ser um mero problema para a conceituação da classificação de risco brasileira, defendida quase que solitariamente. Para o povo, pouco importa se a dívida pública brasileira é considerada grau de investimento ou não. O importante é ter um Estado grande, que continue estendendo a mão, e um sistema ineficiente, que continue cedendo privilégios.

O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, parece ter entregado os pontos junto com o projeto de Orçamento. Foi à luta, carregou a espada sozinho, mas, agora, está apanhando de pessoas (e setores) que o incentivaram a lutar. Travar uma batalha heroica e ser recebido por uma chuva de tomates é um grande desaforo. A destruição da imagem do ministro da Fazenda é um retrato de um País que tomou a pior rota, não por mudança do vento, mas por opção.

Ao divulgar a estimativa de rombo de 30,5 bilhões de reais para o Orçamento de 2016, o governo não só admite que a meta de superávit primário para o ano que vem não será cumprida, como também tenta passar a imagem positiva de que as coisas mudaram e os números são mais realistas.

Isso sim merece uma chuva de tomates. Podres. Primeiro porque as coisas não mudaram, os gastos (com baixa eficácia) continuam crescendo num ritmo insustentável. Segundo porque a tática de “vender realismo” já virou lenda há muito tempo. A meta de superávit primário para 2016, traçada no mês de novembro do ano passado, era de, pelo menos, 2% do PIB (Produto Interno Bruto). Esse número veio abaixo em julho deste ano, quando o governo reajustou a meta para insuficientes 0,7% do PIB. Nessas duas ocasiões, falava-se em realismo. Agora, nem meta para 2016 existe, mas sim um grande buraco para tapar.

O verdadeiro realismo são as intermináveis punições recebidas diariamente pela destruição do tripé macroeconômico. A persistência do quadro estagflacionário grave é sinal de que continuamos apanhando de cada uma das três peças do tripé (inflação na meta, câmbio flutuante e superávit fiscal).

A própria projeção de inflação presente no projeto de Orçamento para 2016 (5,4%) é uma possível sinalização de desorganização, falta de comunicação e baixa capacidade de gestão. Ou o Orçamento está errado, por projetar inflação de 5,4% em 2016, ou o Banco Central está errado, ao insistir que a meta (4,5%) será alcançada no fim de 2016. Pelo lamentável histórico dos últimos anos, é provável que os dois estejam errados.

Já as intervenções cada vez mais pesadas do Banco Central no mercado de câmbio impedem que o mesmo possa ser considerado adequadamente flutuante. Por fim, se quisermos aprender/relembrar como bater as metas de superávit primário, precisamos recorrer aos livros de história.

Para que o tripé possa voltar a funcionar, o governo precisa encarar uma difícil maratona de reformas, não endossadas pela sociedade. Mesmo diante da gravidade da crise atual, não há clima para as necessárias mudanças estruturais. A solução encontrada desde a criação da Constituição (aumento de impostos) está se aproximando do ponto de esgotamento, e isso significa que daqui pra frente só restará escolher se as reformas serão feitas por bem ou por mal.

A reação do mercado frente aos novos números apresentados hoje foi relativamente tímida, já que os preços ainda trabalham movimento de alívio, devido à rápida desvalorização ocorrida nas últimas semanas. O índice Bovespa fechou o pregão em baixa de 1,12%, mostrando recuperação ao longo do dia, num ponto bem distante da mínima registrada em 42.7k. Apesar do alívio de curtíssimo prazo, a tendência principal permanece baixista, sem sinalização de reversão.


Câmbio e juros futuros reagiram com naturalidade, renovando máximas, diante de uma precificação mais negativa para a dívida brasileira.

Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão desta segunda-feira em queda de 0,69%, ainda bem acima da mínima registrada em 15.3k, também trabalhando movimento de alívio (a princípio também temporário) nos últimos dias.

19 comentários:

  1. FI, infelizmente você até pegou leve no texto. Já passamos do nível em que a maior tributação diminui receitas. A Receita federal está sentindo isso esse ano. O PT está apostando tudo numa eventual recuperação das commodities para equalizar as contas públicas. Para quem reclamava de tsunami cambial o castigo ainda é pouco. Nem tão cedo veremos aquele mar de fluxos de capital aqui para dentro. Quando eles acordarem, 2015 e 2016 já estarão com arrecadação mais baixa, apesar da alta carga tributária.

    A proposta de recriação da CPMF, seguida de que não haveria CPMF, mas outra contribuição provisória para a saúde (???), seguida pela desistência de recriar a CPMF com a deflagração de majoramento das alíquotas de bebidas e eletrônicos só mostra como o governo está perdido. O PT está perdido, eles ainda não entenderam que não haverá milagre dessa vez. Política de estímulo irresponsável ao consumo nunca deu certo. Foram as commodities que fizeram o Brasil andar, não a transferência de recursos aos miseráveis que continuam sendo miseráveis.

    Claro que o legislativo também não está fazendo a sua parte, mas como eu já havia me expressado antes, é de certa forma, até bom que não façam. PT quando era oposição sempre foi adepto de táticas irresponsáveis em nome do populismo e com o objetivo de prejudicar a situação. Está na hora deles levarem o troco. O Brasil tem tudo para quase quebrar nos próximos anos. Se o legislativo fizesse a parte deles, isso poderia ser evitado, mas o crédito ficaria com o PT, que poderia lançar um sucessor. Melhor deixar o óleo pegar fogo mesmo, aumentar o desemprego, aumentar a inflação da baixa renda, haver crise de confiança, se possível até desabastecimento de produtos aptos à exportação, porque fica mais fácil algum outro candidato(a) assumir e haver pressão política para o congresso legislar junto com ele(a) nas reformas econômicas.

    Isso não é ódio irracional ao PT, é ver 12 anos de golpes de sorte e maquiagens segurarem o partido no poder e o Brasil perder a oportunidade do século para importar bens de capital com dólar baixo para fomentar nossa indústria de beneficiamento.

    No médio prazo, a única solução para o Brasil é uma nova constituição, com reforma tributária e previdenciária.

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    1. Não sei se o crédito ficaria com o PT. Creio que existe este risco (do crédito, fruto das mudanças e acerto de cotas), mas por incompetência da oposição e não pelo mérito que supostamente poderia cair no colo do PT. Continuo achando que a oposição precisa de umas boas aulas de política, desde 2002 só acumulam vexames. Independente disso, existe um risco considerável de que o "óleo pegue fogo" (mais do que já está), mas ainda assim não consigo enxergar perspectiva de virada do jogo para a oposição. Em teoria seria jogo perdido para o partido que está no poder, mas o problema é: perder pra quem? Não tem uma voz forte na oposição, uma ação coordenada, falta estratégia, falta a imagem de um estadista, e por aí vai... A oposição consegue ser tão bagunçada quanto o próprio governo, a diferença é que a primeira não tem nem mesmo um nome forte, a segunda tem pelo menos isso. No mais, assino em baixo na sua última linha.

      Abs, bons negócios

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  2. Grande FII. Ótimo texto como sempre. Acredito que a inflação deve ficar em torno de 6% no fim de 2016. Parece que agora o grau de investimento só pode ser perdido a partir do meio de 2016, não é? A situação fiscal do Brasil é extremamente preocupante. No texto, você citou o povo, mas eles não têm a menor dimensão do quanto é necessário enxugar o Estado. Juros de 6,5 a.a. os empréstimos do BNDES (juros reais negativos para as empresas amigas, é mole?), funcionalismo público ineficiente, cargos comissionados, péssimos investimentos, enfim, gastos crescentes e descontrolados. Para onde estamos indo? Ou vamos enxugar o Estado por bem, ou vamos enxugar por mal. Neste último caso, parece o mais provável, vai doer muito... em todos.

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    1. Mantida as condições atuais, é provável que a S&P seja a primeira agência de classificação de risco rebaixar o Brasil para lixo em meados de 2016. A Moody's já avisou que, mantida as condições atuais, cortará o rating em meados de 2017. Só falta agora a Fitch definir o seu "cronograma".

      Abs, bons investimentos

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  3. Excelente texto. O Levy é uma decepção .... Imaginava que pediria pra sair nesta altura, mas infelizmente é só mais um que se dobrou aos caprichos demagógicos e assistencialistas desse governo ineficiente.
    RIP grau de investimento.
    PS: acha que perdemos o grau até novembro?

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    1. Poderia chutar que ele já pediu pra sair, aquela viagem à Washington aumentou minha suspeita. Acontece que normalmente chefes de estado pedem alguns meses de "aviso prévio", esperando abaixar a poeira e encontrar um substituto. Então, existe um GAP entre pedir pra sair, e efetivamente sair.

      Sobre o grau de investimento, respondi no comentário acima.

      Abs, bons negócios

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  4. Fi, eu sou o povo e te digo não culpe o povo, não temos educação, não nos informam o quanto isso é necessário para ter voz ativa em um País , só fazemos volume para seres humanos gananciosos que só pensam em sí, sugando esse país ( e fazem de tudo para continuarmos assim),para curtir a vida a doidado nos EUA com suas respectivas famílias, tripé econômico? é bom para o pé? desculpe, somos ignorantes no sentido da palavra, não sabemos o quanto seria bom viver em um país com responsabilidades fiscais, tributárias etc, desculpe mais há tanto tempo acorrentados não sabemos o sabor da liberdade. Abçs, Fi, amo seus posts, aguenta firme não desista, sonhar é de graça e é só o que nos estou dos urubus, quem sabe um dia agente quebre os grilhões.

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    1. rsrs... obrigado, mas não estou desistindo de nada.

      Abs, bons invsetimentos

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  5. Temo o fato do governo estar propositadamente levando o país para o buraco para que, então nele, as reformas sejam obrigatórias, necessárias, saiam na marra. Imaginem uma ampla reforma tributária e política vindo do nosso atual quadro institucional (Executivo e Legislativo). Deus nos acuda.

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    1. ISso tem base ,criar dificuldades e vender facilidades

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    2. O governo até tanta fazer o certo, mas falta competência. Não acho que seja proposital, é um jogo muito arriscado do ponto de vista político.

      Abs, bons negócios

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  6. Quem sabe em 2018 fica menos pior... Até lá só pauleira!

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  7. Esse caos vai servir para o Lula gritar independência ou morte e o povão acreditar, pq ele mente convincentemente, o veneno finge que vai ser remédio e vóila Lula de novo.

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  8. Palestra do william waack mostra bem o buraco que nos estamos ou mais fundo ....

    http://soldadodomilhao.blogspot.com.br/2015/08/william-waack-palestra.html

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    1. Melhor jornalista brasileiro. Vou ver depois. Obrigado.

      Abs, bons investimentos

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  9. FI,

    Onde posso acompanhar a curva de juros futura? Agradeço.

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    1. Algumas corretoras oferecerem esse serviço nas suas plataformas gráficas. Basta digitar o código do índice futuro. DI1F + ano de vencimento com apenas dois dígitos. Exemplo: DI1F16.

      Abs, bons negócios

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  10. Pra que reforma? Pra quem? mesmo que as sete pragas do Egito caíssem naquele congresso o último suspiro deles seria: Reforma não. Como dizia Chico Anísio eles querem que o pobre se exploda.

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