quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Panorama macro global


A ação surpresa do Banco Popular da China no câmbio local chacoalhou o mercado financeiro global nesta semana. A decisão de desvalorizar o yuan (moeda local) provocou reações significativas em vários ativos nas principais praças financeiras globais. Entretanto, o choque foi mais influenciado pelo momento do que pela própria força do deslocamento da taxa de câmbio.

A intervenção do Banco Popular ocorre justamente numa fase onde as lideranças do governo chinês lutam para abafar o surgimento de uma série de problemas internos que podem ameaçar o cumprimento da meta de crescimento de 7% estipulada para 2015. Mesmo que o governo obtenha sucesso em suas ações, a marca de 7% seria a menor dos últimos 25 anos.

A produção industrial voltou apresentar aumento no ritmo de contração mês passado, acompanhando o desaquecimento da demanda (tanto interna, quanto externa). Em meio ao quadro de desaceleração econômica, a inflação permanece baixa, o que também causa certo incômodo ao governo, pois uma queda de preços dificultará ainda mais a capacidade de pagamento da dívida das empresas locais, muitas delas altamente alavancadas.

Até então, o governo chinês vinha tentando amparar o crescimento econômico através de cortes na taxa básica de juros (movimento iniciado em novembro do ano passado, com quatro cortes seguidos), novas medidas para elevar os empréstimos bancários, liberação de governos locais para emissão de títulos de dívida, bem como financiamento aos bancos comerciais para comprarem os respectivos títulos dos governos locais. Por fim, o governo tomou esforços sem precedentes para impulsionar o mercado de ações local, já que algumas empresas endividadas estavam utilizando o mercado acionário para captar recursos e se manterem líquidas. As compras foram impulsionadas pela propaganda do próprio governo, que estimulava investidores locais a comprarem ações. Hoje, o Banco Popular oferece crédito para uma agência estatal, com o objetivo de comprar ações que despencaram no mercado.

As atitudes do governo chinês nos últimos meses vão contra o necessário plano de reestruturação da economia e do próprio mercado financeiro. Na verdade, cria uma sensação de que a China voltou às velhas estratégias de elevar os gastos públicos para impulsionar o crescimento, criando o efeito colateral de um endividamento crescente (de qualidade duvidosa) e gigantesco.

O desempenho das exportações chinesas foi a gota d’água para as lideranças tomarem a decisão de provocar a desvalorização do yuan. As exportações chinesas caíram 8,3% no mês de julho, comparado com o mesmo mês do ano passado. No acumulado de 2015, as exportações recuaram 0,8% ante o mesmo período do ano anterior.

O Banco Popular, que até então impulsionava o valor do yuan vendendo grandes volumes de suas reservas em dólares (evitando, assim, uma queda da moeda contra o dólar), sob a justificativa de manter a estabilidade da taxa de câmbio, virou a mão nesta semana. A tal “estabilidade”, que era uma prioridade, foi jogada a escanteio quando o governo percebeu que a meta de crescimento de 7% em 2015 está seriamente ameaçada. Sendo assim, para aumentar o volume de exportações xing-lings, e manter-se próximo da meta de crescimento, o governo chinês instruiu o Banco Popular a provocar desvalorização da moeda local.

Essa mudança de atitude mostra que os líderes chineses estão divididos entre implementar o necessário plano de reestruturação econômica e financeira, com mais liberdade de mercado, ou manter a mão forte do Estado ativa, administrando a economia e o mercado de acordo com seus próprios ideais.

A segunda opção tem se sobressaído nos últimos meses. Prova disso, além das intervenções recentes no câmbio, está na própria oscilação artificial da bolsa de Xangai, lateralizada nas últimas semanas pela mão pesada do Estado, mantendo o índice muito acima das mínimas registradas no ano passado.


O mercado de commodities, altamente vulnerável aos acontecimentos na China, permanece em queda livre, renovando mínimas anuais.


Já o dólar, comparado a uma cesta de principais moedas globais, alivia um pouco nesta semana o movimento altista de curto prazo iniciado no mês de junho, responsável por aproximar a moeda às máximas deste ano.
  

No médio e longo prazo a tendência de alta segue predominante, sem sinalização de interrupção. O bull market do dólar chega ao seu quarto ano de duração com forças renovadas pela retomada do crescimento econômico norte-americano, quadro que começa a incomodar o FED (Federal Reserve), já que o encarecimento da moeda poderá dificultar o processo de recuperação econômica via comércio exterior.

É provável que o FED se apoie cada vez mais na inflação persistentemente baixa, como justificativa de manutenção da taxa básica de juros entre 0 e 0,25%, até que se dissolva parte do risco cambial (hoje elevado) para que a política monetária possa entrar em zona de contração.

Tal como o dólar, as taxas de juros das Treasurys (títulos públicos do Tesouro norte-americano) também permanecem trabalhando dentro de um bull market, iniciado em 2012, embora apresentando uma recuperação menos intensa.


O nível atual da taxa de juros da Treasury de 10 anos, referência global, segue comportado numa faixa que não preocupa o FED. Entretanto, o movimento de recuperação das taxas iniciado em 2015 marcou fundo ascendente na tendência principal de alta, embutindo expectativa de reaproximação, no médio prazo, das máximas atingidas no final de 2013 (ainda considerado ponto crítico e causador de choques nos fluxos de capitais).

Treasury de 3% ao ano não é só uma preocupação para o FED, mas também para os demais banqueiros centrais, principalmente aqueles operantes em países considerados vulneráveis, tal como o Brasil.

Tanto as curvas curtas, quanto as curvas longas, operam acima das máximas registradas em 2013, denunciando novo movimento de descolamento dos juros futuros brasileiros com a referência global (Treasury), influenciado pela deterioração dos quadros econômico e fiscal domestico.


Em função das diversas variáveis internas e externas, bem como da sinalização técnica, o bull market dos juros brasileiros segue firme e sem sinalização de interrupção.

Já a bolsa brasileira permanece em movimento corretivo sem apresentar novidades, eliminando parte das distorções entre fundamentos e preços constados em meados do mês de maio deste ano. Mercado em tendência de baixa, trabalhando movimento de aproximação das mínimas registradas em 2015, 2014 e 2013, regiões responsáveis por formar a principal base de sustentação do índice Bovespa.


O mercado norte-americano permanece em bull market, embora a tendência de longo prazo sofre, neste momento, novo teste sobre uma importante LTA intermediária de sustentação dos preços. Uma eventual ruptura poderá agregar força à correção de curto prazo, aumentando o receio de alguns holders que até então dormiam tranquilos em Wall Street.


Mercado alemão sinaliza pausa na forte tendência de alta de longo prazo, impulsionado pelas diversas ações do BCE (Banco Central Europeu) nos últimos anos. Embora a tendência de baixa de curto prazo apresente sinais de relativa intensidade, o movimento ainda é insuficiente para corrigir integralmente os exageros nos principais ativos do índice DAX.


No Japão, o índice Nikkei, também impulsionado pela autoridade monetária local, permanece trabalhando dentro de uma forte tendência de alta iniciada em 2009, turbinada em 2013 pelas compras maciças de ativos por parte do BoJ (Banco Central do Japão). O índice conseguiu atingir a última zona de resistência abaixo da máxima histórica, deixando para trás o épico bear market de mais de uma década de duração.


Mercado australiano segue em correção de curto prazo após realizar teste na última resistência abaixo da máxima histórica. Movimento descendente tem ganhado força, ameaçando romper a linha de suporte localizada na faixa dos 5.3k, o que abriria espaço para o principal índice da bolsa de Sydney retornar às mínimas de 2015.


Na Índia, a bolsa de Bombay segue em correção, ainda tímida, relativamente próxima da máxima histórica renovada este ano aos 30.000 pontos. Mercado aparentemente caro, mas sustentado pelas perspectivas positivas provocadas pelo importante reordenamento da política econômica local.


A bolsa da Coreia do Sul, congestionada desde 2011, na região da máxima histórica, também trabalha movimento corretivo de curto prazo, provocando aproximação do índice com a principal linha de sustentação ascendente de médio e longo prazo.


Já a correção de curto prazo na bolsa do México agregou força à tendência de baixa de médio prazo iniciada em 2013, após a superação da máxima histórica. Mercado testando níveis de suportes críticos, onde a ruptura poderá agravar o quadro no mercado acionário.

7 comentários:

  1. Quando começaram a pipocar os QE lá atrás eu logo pensei: e agora, para quem a China vai exportar aquele monte de coisa? Falaram muito em hard landing mas não via nada acontecendo. Depois de todos esses anos, parece que pode ser que comecemos a ver algo. 7% de alta é um baita resultado, mas num sistema inflado com alavancagem excessiva e setores pouco saudáveis (construção civil e aço), esse crescimento se torna perigoso para a China.

    O boato de 10% de desvalorização já está correndo o mercado e foi desmentido. Entretanto, independente de se confirmar ou não, pode levar a uma depreciação das outras commodities currencies e talvez até de moedas fortes mais para o final do ano, já que a partir do ano que vem, vence o acordo da OMC para medidas antidumping. Um abraço.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O dumping já se sente na prática há alguns meses, estão com um estoque monumental de todo tipo d coisa, comprei uma capinha de celular num site chinês por míseros US$0.30 com frete grátis, como alguém vai concorrer com isso? Aqui o preço da mesma é R$10. (antes que perguntem não foi golpe, já estou com ela em mãos)

      Excluir
    2. Especula-se que o crescimento sustentável da China hoje esteja abaixo dos 5% ao ano, mesmo sem o estouro da bolha de crédito. Existe um sério problema a ser resolvido, tanto com a quantidade insustentável de crédito circulante na economia, quanto à qualidade (duvidosa) de algumas dessas operações. Curioso notar que a diferença entre o podre que foi para o balanço do FED, e o podre que está na economia chinesa é simplesmente visual. Na China você consegue ver créditos podres nas famosas cidades desertas, estatais improdutivas, etc. Nos Estados Unidos, o podre está trancado no cofre, ninguém "vê" rs..

      Abs a todos e bons negócios

      Excluir
  2. FI, de que proteções o investidor qualificado abre mão caso se assuma dessa forma?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá,

      Não entendi sua pergunta. Agradeceria se puder reformulá-la.

      Abs, bons negócios

      Excluir