quinta-feira, 17 de setembro de 2015

FED mais dovish


O Comitê de Política Monetária do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) decidiu nesta quinta-feira manter a FFR (Federal Funds Rate - taxa básica de juros) inalterada no intervalo de zero a 0,25% ao ano, sem apresentar novidades.

A decisão surpreendeu apenas aqueles analistas/economistas que esperavam uma elevação da FFR baseada em achismos, desejos ou qualquer informação que não podia ser encontrada nos documentos emitidos pela autoridade monetária norte-americana.

Como de costume, o FED continua agindo com rigorosa fidelidade às informações e perspectivas constatadas em seus documentos emitidos ao mercado. A estratégia continua sendo basicamente a mesma desde que Bernanke (ex presidente do FED) anunciou, com bastante antecedência, o plano de normalização das condições monetárias.

O Banco Central norte-americano trabalha com duplo mandato de máximo emprego e estabilidade de preços. Os membros votantes do Comitê estão satisfeitos com a primeira (taxa de desemprego atual em 5,1%), mas não com a segunda (inflação de 0,2% acumulada nos últimos 12 meses), por motivos óbvios. Não faz o menor sentido subir FFR com uma taxa de inflação tão baixa e distante do objetivo a ser perseguido (2% ao ano, centro da meta de inflação).

A mediana das projeções dos diretores do Banco Central norte-americano corrobora com a estratégia de política monetária. A perspectiva é de recuo da taxa de desemprego para 5% no fechamento de 2015, abaixo da projeção anterior de 5,3% divulgada em junho deste ano. Já a inflação deverá fechar este ano em apenas 0,4%, número que ainda assim ficou abaixo da projeção anterior de 0,7%. A meta de 2% não deve ser atingida antes de 2018.

Por este motivo, a chair do FED, Janet Yellen, frisou na entrevista concedida após a reunião de Comitê que há mais pressão descendente sobre a inflação no curto prazo, em parte influenciada pelos desenvolvimentos econômicos e financeiros globais. Em outras palavras, a derrocada do preço das commodities está freando o avanço da inflação nos Estados Unidos, quadro que também pode ser adaptado às demais economias minimamente organizadas.

Portanto, o Banco Central dos Estados Unidos continuará julgando oportuno esperar por mais evidências de que a inflação está caminhando com mais força para atingir o centro da meta. Quando isso ocorrer, a política monetária entrará para o campo contracionista.

Inevitavelmente, o recuo nas expectativas de inflação fez o FED ficar ainda mais dovish. A projeção para FFR no fim de 2015 caiu para insignificantes 0,4% e, agora, 13 dos 17 membros votantes acreditam que vá haver uma elevação da taxa básica de juros até dezembro. Na reunião de junho, 15 dos 17 membros apostavam em uma alta até o fim do ano. Narayana kocherlakota, diretor regional do FED de Mineapolis, chegou a propor taxa de juros negativa na reunião de Comitê.

Para 2016, a mediana das projeções para FFR cedeu novamente, desta vez recuando para 1,4%. No fechamento de 2017, a FFR deverá estar em 2,6%. Já em 2018, a projeção é de 3,5%. Todas as projeções voltaram a ser reduzidas para baixo, reforçando um quadro menos hawkish (ou mais dovish) do que o esperado anteriormente.

No mercado de capitais, o quadro de alta volatilidade permanece dominando os pregões mundo afora, sem apresentar novidade. Líderes mundiais seguem atolados de problemas internos (dos mais diversos possíveis) e externos (fraca demanda global) a resolver. A incerteza quanto ao timming do aperto monetário nos Estados Unidos (apesar de ser, na prática, irrelevante) também favorece a volatilidade, já que a baixa capacidade de previsibilidade deixa os investidores/operadores mais tensos, à mercê das notícias carregadas de sensacionalismo.

O índice S&P500 fechou o pregão desta quinta-feira em leve baixa. O candle de pavio longo superior relevante denuncia forte surgimento de pressão vendedora no final do pregão, o que pode interromper o movimento de alívio nos preços constatado nas últimas semanas.


A taxa de juros da Treasury de 10 anos (título público do Tesouro norte-americano) atingiu 2,30%, bem acima da mínima registrada mês passado aos 2,01%.


No Brasil, destaque para a “piada” apresentada no chamado pacote de ajuste fiscal divulgado no início desta semana. O grande peso do pacote está centrado na lamentável proposta de aumento de impostos e, pior, não ataca o grave problema de crescimento insustentável do gasto público.

Há risco de que o sentimento de frustração com a atuação de Joaquim Levy se transforme, aos poucos, em rancor por parte de alguns agentes, já que o ministro da Fazenda, contrariado ou não, tem demonstrado nos últimos dias certa passividade com a postura adotada pelo governo. 

O índice Bovespa oscilou bastante durante o dia, mas fechou o pregão estável. Apesar de o mercado ainda trabalhar dentro de uma tendência de alta de curtíssimo prazo, o candle de indecisão pode ameaçar o movimento de recuperação dos preços constatado nas últimas semanas.
  


Dólar e juros futuros permanecem colados nas máximas do ano, refletindo o aumento no ritmo de deterioração do quadro doméstico.

10 comentários:

  1. FI, conforme o texto a inflacao que justificasse uma alta da taxa de juros americana so ocorreria em 2018. Sera que somente em 2018 o FED subiria ou pode tomar uma decisao antes da inflacao se aproximar do patamar de 2% ? Agradeco, Miguel.

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    1. Miguel, o FED certamente vai agir antes de a inflação chegar na meta de 2%. Quando o ritmo de aceleração da inflação começar aumentar, muito possivelmente a FFR subirá. Isso pode ocorrer bem antes de a taxa se aproximar dos 2%. Lá nos Estados Unidos o Banco Central age de maneira preventiva. Para nós aqui no Brasil parece estranho, pois estamos acostumados com uma política monetária bem "diferente".

      Abs, bons investimentos

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  2. Ao meu ver o Fed deu um claro sinal de perda de credibilidade.
    Há uma forte corrente no site do mises que afirma que o FED NUNCA irá aumentar os juros, que é conversa fiada. Ao que parece essa corrente está vencendo as apostas.

    Agora, se o alvo é de 2% de inflação e isso somente está previsto para 2018, não é natural prever que a FFR só vá aumentar em 2018, permanecendo mais 02 anos congelada? Ou será que eles vão acionar gatilho de subida a partir de qual taxa de juros?
    Qual sua visão, FI?
    Att,

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    1. Olá, respondi acima. Apenas para complementar, não existe "número-meta" de inflação responsável por acionar o gatilho do aperto monetário. O FED avalia um conjunto de dados e, neste momento, a inflação está atrasando o início do processo de aperto monetário. Os demais indicadores estão em processo de ancoragem nos objetivos do FED para que o aperto monetário possa ser acionado. Com relação à inflação, o FED está mais focado no ritmo, do que no alvo (meta). Ou seja, provavelmente a FFR subirá quando o ritmo de aceleração da inflação começar aumentar. E, quando isso ocorrer, as projeções serão revistas para cima, o que deverá encurtar o tempo estimado para alcançar o centro da meta.

      Abs, bons investimentos

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  3. FI,

    Dólar hoje (22/09) ultrapassou a máxima de 2002. Naquele ano tivemos uma forte reação da bolsa e um dos fatores que contribuiu foi o dólar desvalorizado. Como você vê o momento atual ? Daria para pensar em algo parecido? Abs.

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    1. O quadro hoje é bem diferente daquele de 2002, o que impossibilita qualquer análise comparativa. Essas comparações só servem para ocupar espaço nas manchetes dos jornais. Nada mais além disso rs...

      Abs, bons negócios

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  4. Boa noite FI, sobre títulos do tesouro, qual prazo é interessante no momento? Tenho comprado NTB 2019 e LTN 2018 e 2021. O que achas?
    Abraço e parabéns por compartilhar teu conhecimento.

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    1. Olá Hoffnung, esses títulos são os ideais para montar posições. O seu foco está bom, mas será interessante acrescentar NTNB 2024 em sua análise.

      Abs, bons investimentos

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  5. FI,

    Como voce ve o dólar ultrapassando o patamar de 4 (máxima em 2002). Naquele ano tivemos a oportunidade de ver a bolsa subir em tendência de alto de longo prazo. Há como traçar um paralelo com a situação atual ? Abs.

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    1. Olá, respondi pergunta semelhante acima. Desculpe pela demora, esses últimos dias foram bem corridos. Sr. Mercado tem roubado meu tempo, mas é assim que é bom rs...

      Abs, bons negócios

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