quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Governo mostra que tem bala e coloca ordem na casa


O mercado tremeu as pernas quando se deparou com a aparição surpresa do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, na apresentação do Relatório Trimestral de Inflação. Dias seguidos de pânico generalizado no mercado de câmbio e juros futuros forçaram o governo tomar uma atitude nesta quinta-feira para colocar ordem na casa.

Logo no início do pregão, o dólar havia superado o patamar de R$ 4,20 com muita rapidez, renovando máxima história. A moeda chegou a atingir R$ 4,2491. No mercado de juros futuros, os contratos ultrapassaram com facilidade o prêmio de 17% ao ano, com algumas curvas atingindo máxima próxima da casa de vultuosos 18% ao ano.

Os prêmios exagerados constatados nos preços dos ativos forçaram uma ação coordenada por parte do governo. Alexandre Tombini foi o primeiro integrante do alto escalão da equipe econômica a mostrar ao mercado que o governo não só tem bala na agulha, como está disposto a utilizá-la, caso seja necessário.

Bastou o presidente do Banco Central abrir os cofres, fazendo com que o mercado veja o arsenal de 370 bilhões de dólares à disposição da autoridade monetária, para os investidores/operadores iniciarem uma corrida de liquidações em posições compradas de curto prazo em câmbio e juros futuros.

Durante a divulgação do Relatório Trimestral de Inflação, Tombini afirmou que o Banco Central irá assegurar que o mercado de câmbio funcione de forma eficaz, e não descartou usar diretamente parte das reservas para segurar a escalada do dólar. O presidente do Banco Central disse também que o aumento nos prêmios de riscos não devem ser entendidos como mudança da política monetária, reforçando quadro de manutenção da taxa básica de juros.

Alexandre Tombini também antecipou o que o mercado iria conhecer pouco depois de sua fala. Tanto o Banco Central quanto o Tesouro Nacional têm atuado em conjunto, utilizando instrumentos adequados para tirar os "riscos da mesa".

Na tarde desta quinta-feira o Tesouro Nacional anunciou um programa de intervenção no mercado de títulos públicos, com objetivo de conter a disparada das taxas. O Tesouro realizará operações diárias de compra e venda de NTN-Fs entre os dias 25/09/2015 e 02/10/2015. Na próxima terça-feira o Tesouro também ofertará, em leilão extraordinário, LFTs com vencimento em 01/09/2021.

A simples ameaça de Tombini quanto à utilização das reservas internacionais, juntamente com o anúncio de que o Tesouro Nacional também fará intervenções no mercado, foi suficiente para jogar o dólar abaixo do patamar psicológico dos R$ 4,00 e os contratos de juros futuros de curvas médias e longas para a casa dos 16% ao ano.

Colaborou para o forte movimento corretivo nos juros e câmbio o fato de os preços estarem trabalhando em elevado nível de sobrecompra. Já o índice Bovespa segue reagindo mais as condições de volatilidade constatadas no mercado externo, do que às notícias internas.

A bolsa brasileira interrompeu, na semana passada, o movimento de curtíssimo prazo de alívio nos preços, com topo marcado na região dos 49.4k, sem apresentar novidade.


O índice Dow Jones trabalha movimento semelhante, também sem apresentar novidade.


Destaque no ambiente doméstico para a divulgação do Relatório Trimestral de Inflação, onde apesar de piorar sua projeção para inflação no fim de 2016 (de 4,8% para 5,3%), o Banco Central não alterou sua estratégia e continuou passando a mensagem de que a manutenção da taxa Selic no atual patamar (14,25%) por período suficientemente prolongado é necessária para o objetivo a ser perseguido (inflação ancorada na meta de 4,5% no fim de 2016), sob a justificativa de que a economia fraca está compensando o efeito da alta do dólar na inflação.

Entretanto, essa explicação cai em contradição com informações disponibilizadas pelo próprio Relatório de Inflação. A projeção do Banco Central para o fechamento da inflação em 2015 subiu de 9,0% para 9,5%, ao mesmo tempo em que a estimativa para o PIB (Produto Interno Bruto) deste ano foi revista de -1,1% para -2,7%. Ou seja, a perspectiva de inflação aumentou mesmo com agravamento do quadro recessivo.

Subentende-se que, por esses dados, a recessão de 2015, mais forte, provocará mais inflação do que a estimativa de recessão, mais branda, para 2016. Mesmo desconsiderando o efeito dos preços administrados na inflação de 2015, parece que as contas da autoridade monetária estão otimistas demais para 2016. Ainda não é possível vislumbrar inflação ancorada no centro da meta no fim do ano que vem.

26 comentários:

  1. FI, por que a ameaça dos cofres internacionais juntamente com a ação do Tesouro foram suficientes para derrubar o dólar? Não compreendi bem.

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    1. Alan Greenspan, ex- chair do FED, um mestre em cálculos econométricos, deu a "dica" na década passada. O mercado é muito mais psicológico e muito menos matemático do que se imagina. Ontem a equipe econômica do governo federal trabalhou exatamente com a psicologia do mercado. O fato da aparição surpresa do Tombini, a ameaça de possibilidade de o Banco Central utilizar as reservas internacionais (cerca de 370 bilhões de dólares), o momento em que o anúncio foi feito, etc... tudo isso contribuiu para atingir o psicológico dos investidores/operadores, induzindo alguns a liquidarem posições de curto prazo, numa decisão influenciada pelo medo (tomar uma invertida do mercado).

      Abs, bons investimentos

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  2. Bom dia, talvez seja um pouco de ingenuidade minha, mas eu fiquei impressionado.

    Finalmente apareceu alguém do "governo" e disse coisas que fez algum efeito no mercado.

    Quem dera que nossa presidenta tivesse esse efeito também (positivo).

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    1. Ela tem esse efeito, mas pro outro lado rs... Aliás, o Brasil (e o mundo, até) tem carência de políticos fortes e bons articuladores, poucos se adaptaram à nova dinâmica imposta a partir da criação das redes sociais.

      Abs, bons negócios

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  3. Na sua percepção podemos estar próximos a uma inflexão nos mercados??Bolsa pra cima e juros pra baixo??
    grato Renato

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    1. Pergunta de 1 milhão de dólares, já que reais não está valendo tanto assim rs... Não sei e ninguém sabe. Até o momento não é possível verificar inversão na trajetória de longo prazo nos juros e câmbio. Ainda estamos em bull market. Já para a bolsa, ainda estamos em bear market. Meu conselho é muito simples: não perca seu tempo (isso inclui queima de neurônios) tentando adivinhar o impossível. Preocupe-se em montar uma estratégia operacional eficiente para aproveitar oportunidades do presente e do futuro, assim você garantirá uma boa rentabilidade ao portfólio.

      Abs, bons investimentos

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  4. Finalmente tocaram no assunto "reservas" !! Eu juro que não entendia porque, até agora, não usaram essa munição ! =/

    O mais engraçado é que na quarta-feira eu falei algumas vezes no twitter sobre o uso delas para conter a moeda, hehehe. Será que o Tombini me acompanha e eu não sei ? ;)

    No mais, torço para que a trégua dure ao menos alguns dias ... A escapada do dólar complica "um pouco" as coisas ...

    Abraços !

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    1. Muitos no mercado estavam especulando desde o mês passado sobre a possibilidade de o Banco Central utilizar as reservas. Ou pelo menos ameaçar. Acho que a equipe econômica do governo estava aguardando o elástico esticar um pouco mais para agir. Quanto mais esticado o elástico, maior o impacto. Independente do lado. Do ponto de vista dos interesses do governo, particularmente esperaria até um pouco mais, para o choque ser maior e, assim, deixar o ambiente mais calmo por um bom tempo.

      Abs, bons negócios

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  5. claro que tem reservas! enfiaram titulos de 8% + IPCA no mercado de carreta!!! Agora fica facil roncar papo, quero ver no vencimento dos papeis, o tamanho do default.

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    1. Sim, para o Banco Central ter reservas volumosas, o Tesouro precisou emitir dívida. As reservas foram construídas na década passada e o que mais pesa no custo destas reservas são as LFTs, pois são títulos pós-fixados reajustados pela taxa básica de juros. Os pré-fixados não encarecem o custo das reservas. Os 8,03% + IPCA ofertados ontem não servem nem pra troco de bala rs... É a mesma coisa que procurar moeda de 0,01 dentro de um carro forte. Ao fazer o comparativo entre o custo das reservas x decisão de ter ou não ter reservas, é muito melhor pagar o custo para ter as reservas em bom volume.

      Não há menor possibilidade de default em dívida interna.

      Abs, bons investimentos

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  6. Grande FI, ao ler o título desse artigo não pude deixar de me lembrar do Guido Mantega bravateando em 20 de junho de 2013 (dia que a propósito, houve um pequeno choque nos títulos federais) que o Brasil "tinha muitas balas na agulha". Finalmente, depois de mais de dois anos parece que finalmente eles ameaçaram de fato colocar essas balas para trabalhar.

    Concordo que usar a reserva cambial em momentos em que o dólar não estivesse tão esticado, e consequentemente, longe dos fundamentos, seria queimar munição que poderia fazer falta mais a frente.

    Contudo, deixar para só agir agora pode passar a ideia que as balas que o governo pode usar não são de fato tantas assim, pois do contrário, não teriam aguardado a maior cotação histórica do dólar para agir, minando a credibilidade do BC no médio prazo.

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    1. Lembrando que em 2013, quando o câmbio estava na faixa de R$ 2,30, o Mantega falou que quem apostar na alta do dólar vai perder rs... Em 2014, ele soltou a profecia de novo, falando que vai quebrar a cara quem apostar na alta do dólar (a moeda estava oscilando na casa de R$ 2,40).

      Em se tratando de psicologia do mercado, esperaria furar R$ 4,50 pra fazer ameaça. E se não desse certo, perto de R$ 4,80 entraria com chumbo grosso, em ação surpresa. O movimento no câmbio reflete mais o fluxo de operações de curto e curtíssimo prazo do que fluxo de entrada e saída de dólares. Ou seja, temos a constatação de um movimento de massa no mercado de câmbio, típico de formação de bolhas. Então, quanto maior o tombo, maior será o período de estabilidade, com flutuações mais suaves. Seria possível esperar mais um pouco, pois esse movimento estaria longe de atingir o auge para ser considerado bolha. Em se tratando de quadro macro, a decisão de esperar ou não para agir pode ficar um pouco dividida entre impedir uma nova disparada da inflação para casa de dois dígitos anunais e dar certo suporte às empresas endividadas em dólar, sem a devida proteção, ou permitir maior depreciação do real, para dar suporte aos exportadores e eliminar o problema do balanço de pagamentos

      Abs, bons negócios

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  7. "Não há menor possibilidade de default em dívida interna."
    Poderia explicar melhor para um leigo sua afirmação?? está dizendo que as NTNbs não tem risco de calote? Por que vc acredita nisso? abs

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    1. Risco praticamente zero de calote, já que não existe certeza no mercado. Ou meso fora dele rs... Não é questão de acreditar ou não no calote, mas sim de total inviabilidade. Primeiro porque os títulos do Tesouro Direto não chegam a 1% do total da dívida pública federal, ou seja, irrelevante. Segundo porque nenhum governo dá calote em dívida interna, basta emitir papel-moeda para quitar as obrigações. Terceiro porque detenção ou sequestro de bens é inconstitucional, portanto, ainda que o governo resolvesse fazer isso, teria que mandar um projeto de lei a ser aprovado nas duas casas, mesmo com urgência, é um processo demorado. Durante a tramitação desse projeto de lei, o governo também teria que decretar feriado bancário para os investidores não sacarem seus títulos públicos. Mas com os bancos fechados por muito tempo, nem o governo e nem o País funcionam. Quarto porque os impactos econômicos frutos de um calote na dívida interna são imensuráveis.

      Abs, bons investimentos

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  8. FI, algumas empresas da bolsa tem apresentado um acrescimo da relacao DY (uma vez que o preco das acoes tem caido e o DY aumentado proporcionalmente).
    Em uma situacao deste tipo, alguns papeis passam a remunerar mais do que o proprio CDI. Nestes casos, a tendencia eh que as empresas mantenham a proporcao para pagamento de dividendos ou facam alteracoes (para ficar compativel com o CDI)?
    Pergunto isto mesmo em relacao a empresas que mantem a praxe de pagar um percentualfixo dos lucros.
    Agradeco.

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    1. Desconheço empresas com DY próximo ao CDI, não é possível nem mesmo projetar empresas que pagarão metade disso.

      Abs, bons investimentos

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    2. vale5, eletricas...

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    3. DY do passado não vale rs...

      Abs, boa semana

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  9. Pode ate abaixar a cotacao, mas e sabido que o governo nao ira abaixar a reserva dos atuais 370 bilhoes para 22 bilhoes, como foi feito no governo do PSDB. A crise e politica, dolares estao saindo do pais e nao sera esta reserva que ira controlar a cotacao.

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    1. Para as reservas caírem para 22 bilhões, o governo teria que torrar cerca de 350 bilhões, algo impensável. Para se ter uma ideia do que isso representa, o FED injetou durante todo QE1 cerca de 600 bilhões no mercado para evitar uma catástrofe financeira a nível global. Lembrando que o QE1 é dinheiro de impressora. Já os 370 bilhões é dinheiro com lastro, está entre as 10 maiores reservas do mundo. Portanto, o governo brasileiro tem bala de sobra para colocar ordem no seu quintal (eliminando o movimento de efeito da massa no câmbio) e ainda assim manter as reservas num bom nível. A utilização das reservas não controla e/ou reverte a trajetória do dólar, mas elimina a componente da especulação da massa presente na taxa de câmbio, que por sinal é a grande responsável pelo rali das últimas semanas/meses.

      Abs, bons negócios.

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  10. FII, parou as postagens? Tá operando muito e não sobra tempo rs ? Grande abraço rapaz, boa sorte

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    1. Opa, parei não, só dei uma pausa, faltou tempo rs... Obrigado!

      Abs, boa semana!

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  11. Stuhlberger reduzindo sua alocação em dólar e alertando a respeito de um credit crunch, conforme último relatório do Verde.

    Quando ele fala de credit crunch é do tesouro? Como se posicionar em cdi sem ser atraves de CDB ou LFT? Comprando indice fut de juros? Se LFT tem risco CDB tem tb ou nao?

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    1. Creio que ele não se referiu ao Tesouro, até porque não há menor cabimento nisso rs... Provável que ele se referiu aos empréstimos de risco elevado e sem garantias às instituições. Com elevação dos níveis de desemprego, a inadimplência inevitavelmente irá aumentar. Entretanto, o último teste de estresse do Banco Central mostrou que sistema financeiro nacional está bem preparado para aumento da inadimplência. Nesse caso, as instituições de pequeno porte seriam as mais afetadas, podendo ocorrer, até mesmo, necessidade de intervenção do Banco Central, por este motivo é importante atentar ao limite do FGC para bancos de pequeno porte, principalmente àqueles com portfólio de risco crédito mais elevado. O risco de default em LFT ou qualquer outro título do Tesouro Direto é praticamente zero.

      Abs, boa semana

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