quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Novo desaquecimento da economia global pegou países com as defesas fragilizadas


Não é por acaso que a diretora do FMI (Fundo Monetário Internacional), Christine Lagarde, tem aparecido com mais frequência nesses últimos dias e com a testa mais franzida que o de costume. Também não é por acaso o retorno da volatilidade, que relembra tempos de crises mais agudas do passado, nas principais praças financeiras mundiais.

Tanto o FMI, quanto os investidores/operadores no mercado financeiro, tem motivos de sobra para esboçar preocupação. O sobe e desce frenético de preços dos ativos alterou até mesmo a pacata rotina de Wall Street nos últimos anos. A volatilidade a nível global está longe de ser um simples reflexo do que acontece na bolsa de Xangai, ou acerto de preços sobrevalorizados.

Os fluxos de capitais se acentuaram porque alguns players conseguiram detectar um novo deslize no delicado processo de recuperação da economia global, puxado desta vez por economias emergentes asiáticas (não somente a China), que até então seguravam as pontas enquanto Estados Unidos, Europa e Japão tentavam (e ainda tentam) acertar seus próprios desequilíbrios internos.

A última bateria de indicadores de atividade industrial calculados pelo renomado instituto de pesquisa Markit mostra que esse último evento já contaminou o mundo. Os números revelam aumento no ritmo de desaceleração da atividade tanto nas economias desenvolvidas, quanto nas economias emergentes. Falta demanda.

O número que mais impactou as manchetes foi o Índice Gerente de Compras oficial da China, calculado pela Agência Nacional de Estatísticas. O indicador mostrou recuo de 50 pontos em julho para 49,7 pontos em agosto, indicando leve retração da atividade manufatureira. Teoricamente, essa pontuação de agosto não seria motivo para alarde.

Entretanto, o número que os jornais não prestaram atenção (e que foi, inclusive, um dos grandes responsáveis pelo novo choque constatado no início desta semana) é motivo de preocupação. O Índice Gerente de Compras calculado pelo Markit, que tem foco maior nas indústrias de pequeno e médio porte, caiu de 47,8 pontos em julho para 47,3 pontos em agosto, mostrando aumento persistente no ritmo de contração da atividade manufatureira chinesa, o mais forte dos últimos seis anos.

Além da preocupante desaceleração na China, as atividades nas economias europeias, japonesa e norte-americana seguem fracas. O Índice Gerente de Compras da zona do euro recuou novamente no mês de agosto, atingindo 52,3 pontos. Apesar de ainda mostrar expansão da atividade manufatureira, o indicador revela perda de ritmo, frente à tentativa de recuperação constatada no início deste ano.

No Japão, apesar de o Índice Gerente de Compras ter atingido os 51,7 pontos no mês de agosto (pouco acima dos 51,2 pontos registrados no mês de julho), o desempenho da indústria ainda está muito abaixo do ritmo constatado em 2013 e 2014, mostrando tentativas frustradas de recuperação consistente.

A atividade manufatureira nos Estados Unidos também está decepcionando. O Índice Gerente de Compras caiu novamente no mês de agosto, atingindo 53 pontos, ante 53,8 pontos registrados no mês de julho, marcando o nível mais baixo em quase dois anos.

Até mesmo a atividade industrial da Índia, economia em rota de reestruturação para o campo ortodoxo, derrapou no mês de agosto. O Índice Gerente de Compras recuou de 52,7 pontos em julho para 52,3 pontos em agosto, mostrando perda no ritmo de expansão da atividade.

O desempenho da atividade brasileira vai na mesma direção, apesar de mais acentuado, devido ao acúmulo de problemas domésticos desprezados nos últimos anos. O Índice Gerente de Compras despencou para 45,8 pontos em agosto, ante 47,2 pontos registrados no mês passado, atingindo o menor patamar desde setembro de 2011.

Com o desaquecimento generalizado no mundo inteiro, o Índice Gerente de Compras Global de Manufatura, calculado pelo Markit em parceria com o J.P. Morgan, voltou a mostrar perda de ritmo de expansão no mês de agosto, ao recuar para os 50,7 pontos, aproximando-se do ponto de neutralidade observado em 2013, com risco não desprezível de voltar atingir o campo contracionista, já que a trajetória descendente segue ganhando força, caminhando para marcar o pior desempenho dos últimos três anos.


O grande problema desse novo deslize é que os países estão com as defesas fragilizadas. A margem de manobra hoje é bem menor, comparando-se ao que vem sendo utilizado desde 2008 para conter choques no mercado e desaquecimento econômico.

Por um lado, banqueiros centrais de países desenvolvidos já utilizaram boa parte do arsenal monetário para tentar reanimar suas respectivas economias. As injeções de liquidez atingiram e/ou estão atingindo pontos de esgotamento com o histórico transbordamento do sistema financeiro, portanto, novas injeções não serão capazes de aumentar o fluxo de recursos que escorre para a economia. Além disso, mais injeção monetária poderia provocar efeito colateral futuro devastador, com possível enchimento de bolhas já existentes em algumas classes de ativos.

Por outro lado, a casa está desarrumada não só no Brasil (que ganha destaque por conta da intensidade), mas em vários países. Alguns governos de países emergentes ou em desenvolvimento afrouxaram a política fiscal nos últimos anos para combater os efeitos da crise iniciada em 2008, com persistente frustração no processo de retomada econômica. Esperava-se mais do impulso fiscal, o que, em alguns casos, acabou induzindo alguns líderes a dobrar a aposta.

Sem poder contar com a política fiscal, esses países ficam mais fragilizados, pois também perdem margem de manobra para administrarem novos choques. Com a desordem fiscal, os déficits se multiplicam, a inflação volta a incomodar e as moedas perdem valor. Para complicar, o tombo das commodities chegou no pior momento possível, pois pegou muitas dessas economias com as defesas desguarnecidas.

Para recompor parte da defesa e, assim, tentar enfrentar o novo processo de desaceleração do crescimento global, alguns líderes precisarão fazer ajustes rápidos (talvez não tão agressivos) e torcer para que o impacto na economia seja o menos traumático possível.

Só existe uma certeza neste momento: a demanda global está bem abaixo da capacidade de absorver as necessidades de todos os países. Portanto, inevitavelmente surgirão alguns perdedores e ganhadores nesse processo de reequilíbrio global entre demanda x oferta. Esse quadro tende acelerar uma disputa cambial já em curso, incentivar queimas de reservas e provocar elevações nas taxas de juros.

Até mesmo economias-referência na América Latina, relativamente organizadas, estão sofrendo o baque. A forte desvalorização do peso colombiano, peso chileno e sol peruano estão incomodando as autoridades monetárias locais, onde já se pode observar mudança de tom nos discursos para uma política de aperto monetário, visando impedir não só o distanciamento ascendente da inflação em relação à meta (via câmbio), mas também criar uma defesa contra o risco não desprezível de fuga de capitais.

No Brasil, apesar de o Banco Central ter se adiantado ao processo de reconstrução das defesas internas, não há segurança de que o atual patamar da taxa Selic será suficiente para aguentar o tranco. Os desequilíbrios domésticos mais intensos (comparado com alguns de nossos concorrentes) forçam o mercado cobrar um prêmio maior para os ativos brasileiros. Além do mais, se o prêmio subir com relativa intensidade na concorrência, o Banco Central precisará agir novamente.

Na reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) encerrada na noite desta quarta-feira, os membros do Comitê optaram por cumprir o que foi indicado na última ata publicada mês passado. A taxa Selic foi mantida aos 14,25% ao ano.

O comunicado divulgado após a reunião não apresentou novidade: “avaliando o cenário macroeconômico, as perspectivas para a inflação e o atual balanço de riscos, o Copom decidiu, por unanimidade, manter a taxa Selic em 14,25% a.a., sem viés. O Comitê entende que a manutenção desse patamar da taxa básica de juros, por período suficientemente prolongado, é necessária para a convergência da inflação para a meta no final de 2016.”

Entretanto, o texto poderá gerar polêmica, já que as projeções de mercado estão longe de apontar recuo da inflação para o centro meta no fim de 2016. Pior, a deterioração do quadro fiscal e a disparada do câmbio devem provocar revisões ascendentes para o fechamento da inflação no final do próximo ano.

Sendo assim, a confirmação de manutenção da taxa Selic marca o início de uma nova e infeliz discordância entre a comunicação do Banco Central e as atitudes de política monetária tomadas na prática.

Dólar contra real e juros futuros locais permanecem em forte rali, refletindo o interminável ritmo de deterioração dos fundamentos domésticos num ambiente global cada vez mais desafiador.

Já a bolsa de valores segue trabalhando movimento de alívio no curtíssimo prazo, ainda distante da mínima registrada na semana anterior. O índice Bovespa subiu 2,17%, recuperando boa parte da perda sofrida na última terça-feira. Apesar de histérico, mercado acionário não apresenta novidades, preservando a análise dos últimos dias.


Nos Estados Unidos, os principais índices acionários subiram forte nesta quarta-feira, devolvendo quase toda a pancada levada no dia anterior, mantendo quadro de alívio no curtíssimo prazo em meio à volatilidade constante.


11 comentários:

  1. Quanto ao copom, o mercado não é idiota, hoje o DI futuro bateu na porta dos 15%, vamos ver por quanto tempo eles vão querer negar a realidade.

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  2. FI, o que vc acha do TD para o pequeno investidor com perfil moderado no momento?

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    1. Títulos do Tesouro são essenciais para qualquer tipo de investidor, seja ele pequeno, grande, moderado ou arrojado.

      Abs, bom FDS

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  3. FI, deixe-me perguntar algo, de leigo mesmo...
    O Índice Gerente de Compras no que diz respeito à China, pode vir a ter uma virada meramente pela desvalorização da moeda chinesa que ocorreu em agosto? Se sim em quanto tempo veríamos esse índice elevar por esta única razão?

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    1. Não existe pergunta de leigo. Toda pergunta é importante.
      Não. A pontuação do Índice Gerente de Compras é resultante de pesquisas feitas por telefone. Os pesquisadores da agência ligam nas empresas e fazem uma série de perguntas do tipo fluxo de pedidos, produção, número de funcionários, estoque, preço dos insumos, etc. Entretanto, a desvalorização do câmbio poderia impactar o resultado das próximas pesquisas do Instituto Markit, caso as empresas encontrem mais facilidade no comércio exterior para aumentar o faturamento. É improvável que essa última onda de desvalorização da taxa de câmbio chinesa seja capaz de provocar ganho de mercado, já que outros países também experimentam desvalorizações em suas respectivas taxas de câmbio.

      Abs, bom FDS

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  4. FI, você acha que os juros por volta de 7,5% + IPCA das NTN-B estão bons para o longo prazo? Ou você acha que a situação piora ainda mais e os juros podem passar de 8%?

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    1. Sim, estão excelentes. Em vários casos não se consegue alcançar esse retorno anual empreendendo. As taxas ainda não sinalizaram reversão na tendência de alta de longo prazo, portanto, podem continuar subindo. Por este motivo é importante ter uma estratégia operacional para que se possa aproveitar (fixar) devidamente os juros elevados do presente e, também, do futuro, se aparecerem.

      Abs, bom FDS

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    2. E como conseguimos visualizar essa tendência de alta? É pelos juros futuros?

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    3. Sim, através da análise técnica nos gráficos dos juros futuros. Já a análise do quadro macroeconômico complementa a análise técnica.

      Abs, bom investimentos

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  5. FI, já estou posicionado em juros, mas tenho conhecimento mais restrito de câmbio. Será que ainda tem espaço para uma alta mais robusta, ou para quem não entrou até agora não é interessante- já que alguns analistas dizem que estamos com o câmbio já precificando esses eventos adversos?

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    1. Nesses preços o risco é bem mais alto. Se você não possui estratégia operacional para operar câmbio, é melhor ficar de fora.

      Abs, bons negócios

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