terça-feira, 20 de outubro de 2015

Nocauteados pela estagflação


Cerca de dois anos atrás os primeiros sinais de uma estagflação começaram a surgir no Brasil. O termo, conhecido na década de 1970, provocado pelos choques de petróleo, causou impacto significativo na economia global, mas, também, deixou um grande aprendizado. Muitos países passaram a criar diversos tipos de mecanismos de proteção contra certas decisões/manobras oriundas do ambiente político interno e externo.

Entretanto, como de costume, o Brasil pouco se esforçou na sua lição de casa, permanecendo mais vulnerável que os demais. Pior, os primeiros indicativos de nascimento, ainda em 2013, de um quadro estagflacionário “à brasileira” não incomodaram os tomadores de decisões no ambiente político.

Negligenciando a sinalização da economia, o governo brasileiro optou por continuar tocando o barco na mesma rota, até porque não existia (e ainda parece não existir) planejamento de médio/longo prazo e sequer mínima eficiência gerencial.

Iludido pela oportunidade única provocada pela chuva de benefícios na época do super ciclo de alta das commodities, onde a economia mostrava força independente das ações do governo, o País do “jeitinho” ficou ainda mais acomodado.

Em 2013 ainda restavam alguns “trocados” no caixa do governo, que foram investidos (ou melhor, queimados) no reforço da nova matriz econômica. A máquina passou a rodar com mais velocidade, esgotando rapidamente o que havia de sobra fiscal e, a partir deste ponto, passamos a entrar no cheque especial.

Nessa época a economia já não mostrava sinal de reação mesmo com todos os programas de incentivo ao crescimento implementados pelo governo. Foi a partir deste ponto que o excesso de intervenções e as inúmeras medidas de baixa eficácia passaram a contribuir para a própria deterioração da economia.

Hoje a inflação está tão alta que o país não consegue mais crescer. A falta de crescimento inibe os investimentos, barrando, desta forma, a expansão da oferta, provocando outro efeito colateral no processo de equilíbrio de preços. Resultado: o país caiu numa perigosa espiral de inflação elevada combinada com recessão ou baixo crescimento.

Para destravar os investimentos, pelo menos do setor privado, o governo precisa fazer o que não fez nos últimos anos/décadas: recuperar o tripé macroeconômico e tocar as reformas estruturais. Missão quase impossível para qualquer político ou partido, por conta da alta impopularidade desta agenda. A mais recente prova disso está no intenso bombardeio sofrido pelo ministro Levy, que sequer teve a oportunidade de engatar a primeira marcha do ajuste fiscal, e críticas à política de aperto monetário do Banco Central, que por sinal ainda é incapaz de provocar recuo da inflação ao centro da meta.

O ambiente de negócio no Brasil é tão desfavorável (e o clima é tão ruim) que a indústria ainda encontra dificuldade para competir no mercado externo com o câmbio a R$ 4,00.  O volume de exportações atual, comparado à época em que o câmbio oscilava na casa de R$ 2,00, cresceu pouco e, em alguns segmentos, sequer cresceu.

Hoje o País coleciona uma bateria de surpresas negativas. Dia após dia. Semana após semana. Mês após mês. Índices de confiança em níveis historicamente baixos, forte retração da atividade econômica, inflação persistentemente elevada, rápida aceleração das taxas de desemprego, queda vertiginosa do investimento, fundamentos econômicos destruídos, ambiente político desafiador, perda de credibilidade frente às instituições globais, rebaixamentos em velocidade preocupante por parte das agências de classificação de risco, entre outros.

Após um longo período acumulando uma bagagem sem precedentes de erros estratégicos, teorias equivocadas e intervenções atrapalhadas, somada a ininterrupta bateria de surpresas negativas dos indicadores econômicos, fruto do processo de deterioração dos fundamentos domésticos, chegamos ao nocaute. A estagflação nos derrubou com tamanha intensidade que não conseguimos mais levantar para reagir.

O País está paralisado, pedindo socorro, mas lamentavelmente as discussões continuam desfocadas pela crise política. O circo está pegando fogo e os políticos estão com a gasolina na mão. O “espetáculo” tem audiência maciça do povo, que paga (meia entrada, claro) para ver a briga em Brasília, mas não percebe que atrás da lona em chamas está uma economia nocauteada.

No mercado de capitais doméstico, os preços dos ativos continuam seguindo à dinâmica do fluxo global, sem apresentar novidade. Prova (nova) disso está na ausência de impacto provocado pelo gravíssimo rebaixamento do rating brasileiro pela agência de classificação de risco Fitch. 


A nota do Brasil caiu de BBB para BBB-, último degrau do patamar grau de investimento. Entretanto, a perspectiva foi mantida em negativa, o que significa que o País (muito provavelmente) voltará a ser rebaixado no futuro próximo pela Fitch.

Caso esse lamentável quadro se concretize, o País perderá o selo de grau de investimento por duas agências de classificação de risco, forçando gestores de fundos (com limitação de investimento em ativos grau de investimento) liquidarem posições no Brasil, movimento que poderá alimentar fuga de capital inestimável, num período delicado de possível início do processo de desalavancagem do sistema financeiro global. E pior, as empresas brasileiras serão ainda mais prejudicadas, não só pelas futuras dificuldades de necessárias captações de financiamentos externos, como pelo impacto cambial nas obrigações com os credores internacionais, inviabilizando qualquer tentativa de retomada da economia doméstica, já que as empresas, duramente penalizadas pelo péssimo ambiente interno, serão, também, afetadas pelas novas dificuldades do ambiente externo. É possível que muitas corporações passem adotar estratégias cada vez mais defensivas (abortar investimentos, reduzir quadro de funcionários, limitar participação no mercado, por exemplo) para tentarem sobreviver às dificuldades internas e externas.

Com mais uma porta se fechando para o extremamente necessário ressurgimento da oferta no Brasil, a inflação tende a continuar alta e distante do centro da meta, o que forçará o Banco Central manter a taxa básica de juros em patamares elevados, dando a sua contribuição para que o empresário pise no freio. Em suma, a perda do grau de investimento por duas agências exercerá mais peso para que a economia do País continue afundando.

19 comentários:

  1. Num cenário provável de perda de grau de investimento, e a saída "forçada" de investimentos estrangeiros, é alta a chance da bovespa ir abaixo dos 40k? Há alguma estatística de participação estrangeira na Bolsa?
    E quanto aos títulos públicos, acha que os juros do TD podem aumentar ainda mais com a confirmação dessa tragédia anunciada?

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    1. Sim, pois os investidores estrangeiros são responsáveis pela maior parte do volume financeiro negociado na bolsa de valores. Sim, divulgado pela própria BM&FBovespa. Uma fuga de capitais tem potencial para provocar desvalorização abrupta em qualquer ativo financeiro negociado no mercado, principalmente num País altamente dependente do capital estrangeiro, como o Brasil.

      Abs, bons investimentos

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  2. A solução pro nosso povo eu vou dar
    Negócio bom assim ninguém nunca viu
    Tá tudo pronto aqui é só vir pegar
    A solução é alugar o Brasil!

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  3. Excelente análise novamente.

    Pessoalmente tenho um dilema, estou acumulando capital em Renda Fixa e não tenho tempo no momento para estudar possíveis investimento, muito menos me dedicar devidamente a eles.

    Meu foco atualmente é continuar minha caminhada profissional e chegar no "topo" da carreira, podendo multiplicar por 3 ou 4 vezes o meu ganho líquido com o trabalho, algo que demorará de 2 a 4 anos, se tudo correr bem. A crise não causa muitos efeitos negativos nessa caminhada, apenas o lado psicológico de ver os país se deteriorando e os preços se elevando, mas meu setor e principalmente minha função caminham de maneira natural, inclusive em momentos de crise.

    Por isso o dilema, apesar de parecer egoísta, seria ideal para mim que o país continuasse nesse declínio atingindo o fundo do poço em 3/4 anos e a partir daí iniciar uma recuperação, pois deste modo encaixaria em um timing perfeito, onde eu estaria com bastante capital acumulado nesse período e também com alta disponibilidade de tempo e dinheiro para aportes em investimentos de maior risco e retorno... enfim, dizem que tudo tem um viés positivo... pra mim é isso.

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    1. Obrigado! O importante é ter essa disciplina financeira, preocupe-se menos com previsões e continue tocando o barco.

      Abs, bons investimentos

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  4. O que fazer? Continuar trabalhanfo, cuidando da saude e aportando.

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  5. Fi
    Quando você diz: "indústria ainda encontra dificuldade para competir no mercado externo com o câmbio a R$ 4,00", observe-se o seguinte:
    Se as exportações brasileiras ainda não deflagraram plenamente, isso pode ser também porque o estímulo cambial atual talvez seja inferior ao de 2003, não?!
    Segundo li recentemente, a relação atual deveria ser cerca de R$7,00/US$ para se equivaler aos aos R$4,00/US$ do início do governo Lula (considerando as inflações americana e brasileira no período).

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    1. Não há um consenso, até porque é impossível prever. Por isso existem várias estimativas de "câmbio ideal". Na verdade o problema de competitividade da indústria brasileira é basicamente interno, o câmbio atua apenas como redutor desses problemas, e não como solução. É como empurrar o problema para frente. Vai chegar o momento em que o governo será forçado a melhorar o ambiente de negócios para evitar o desaparecimento dos pólos industriais. O processo de desindustrialização (que já está em fase bastante avançada) é como a uma espécie que entra pra lista de extinção, ou seja, se o Estado não tomar atitude para "protegê-la", será extinta no futuro.

      Abs, bons investimentos

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    2. Excelente resposta às minhas perguntas. A gente se ilude pensando que o câmbio vai resolver tudo e se esquece que o problema é muito mais abrangente.
      Abs.

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    3. Na verdade essa ilusão não é culpa sua. É que as informações/análises chegam até você com esse viés excessivo no câmbio. O problema real é um assunto meio chato para os veículos de comunicação disputarem uma audiência que já é pequena no Brasil. Se o assunto fosse futebol/novela, não teríamos esse problema rsrs...

      Abs, bons negócios

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  6. FI, tenho uma poupança de anos e não entendo de aplicações, mais já entendi que não é mais a melhor aplicação, no meu banco só pedem para eu transferir para o VGBL, mais já me disseram que tb não é vantagem ouvi dizer que o TD agora está o mais atrativo, só vou precisar desse dinheiro daqui uns 10 anos, o que vc me recomenda? desde já obrigado.

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    1. Poupança é produto mais popular do mercado, onde a maioria dos brasileiros aportam suas economias. Mas é um veneno. Investir em poupança é ruim em qualquer cenário, mas num quadro de inflação elevada significa rasgar dinheiro, porque você deixou de consumir (ou prorrogou o consumo), mas os preços sobem numa intensidade maior do que a rentabilidade da poupança. Recomendo estudar, existem boas opções para iniciantes fazerem a migração da poupança (LFTs do Tesouro é uma delas).

      Abs, bons investimentos

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  7. FI,

    E com relação ao FED, é alta a chance de aumento de juros em dezembro?

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    1. Olá,

      Pouca diferença faz se o ciclo iniciará em dezembro de 2015 ou no primeiro trimestre de 2016. O FED testou o mercado no último comunicado, deu certo. Então, se sentirem que o clima (no mercado) estará favorável em dezembro, deverão subir a FFR.

      Abs, bons negócios

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  8. Discordo do trecho "O processo de desindustrialização (que já está em fase bastante avançada) é como a uma espécie que entra pra lista de extinção, ou seja, se o Estado não tomar atitude para "protegê-la", será extinta no futuro." O estado, quanto mais toma atitudes, pior. A melhor atitude seria simplesmente sair da frente, algo dificil de imaginar aqui nesse pais

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    1. Concordo em casos específicos, como o desastre da intervenção estatal brasileira. Mas há casos de intervenção estatal eficiente em algumas economias. Entretanto, não é este o raciocínio que queria transmitir com esse trecho. A atitude que o estado precisa tomar vai no sentido de melhorar o péssimo ambiente de negócios que predominou nos últimos anos/décadas. Se o governo brasileiro melhorar o ambiente de negócios, os investimentos ressurgirão naturalmente.

      Abs, bons negócios

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