quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Colocando em dia as informações relevantes ao mercado


A importante pesquisa de medição da atividade industrial realizada pelo Instituto Markit no mês de outubro abanou de vez a sombra de um pouso forçado que pairava sobre a economia do gigante asiático. Os indicadores do segundo e terceiro trimestres assustaram muitos investidores/operadores, que por sinal chegaram a provocar uma ligeira fuga de capitais, contagiando outras praças emergentes.

O Índice Gerente de Compras do setor manufatureiro da China saltou de 47,2 pontos em setembro para 48,3 pontos no mês de outubro. Apesar de ainda revelar contração da atividade industrial, o gráfico abaixo mostra claramente uma importante inversão na trajetória descendente.


A última leitura é a mais elevada desde junho de 2015, o que reforça análise de que o setor manufatureiro chinês já atingiu o fundo do poço. O longo recuo da indústria, iniciado em meados de 2014, se encerrou no mês de agosto, ao atingir os 47,1 pontos, porém, a reversão da trajetória veio, de forma convincente, somente no mês de outubro.

Outro detalhe importante é que a reversão de 2015 aconteceu na mesma região onde houve forte inversão nas curvas de 2011, 2012, 2013 e 2014. Este gráfico mostra claramente onde está a força de reação da indústria chinesa. Apesar da sequência de derrapadas, o setor continua mostrando que existe um limitador para as fases de contrações, ou seja, ainda não há como desprezar a força e capacidade de reação (com impulso do Estado) da economia chinesa.

Com o gráfico do setor industrial apontando para cima na China, a busca por ativos de risco, constatada nas últimas semanas em várias praças financeiras mundiais, se acentuou. Esse alívio no mercado financeiro permitiu que alguns banqueiros centrais respirem no curto prazo. Os japoneses, por exemplo, vão manter o ritmo de compras de ativos no mercado doméstico, enquanto reavaliam os indicadores econômicos. Alguns emergentes ainda estão perdidos no meio da turbulência dos últimos meses, mas pelo menos ganharam tempo. Já os europeus, estão com bala na agulha e querendo aumentar a dose da injeção monetária.

O todo poderoso FED (Federal Reserve - Banco Central dos Estados Unidos) soube utilizar muito bem a brecha no mercado para testar a psicologia de seu comunicado. Contrariando a expectativa de vários analistas/economistas (novamente errada, agora, desta vez, de que os juros não subirão tão cedo), a autoridade monetária norte-americana sinalizou na última reunião que poderá subir a taxa básica de juros em dezembro deste ano.

Com o mercado de bom humor, em busca de ativos de risco, o comunicado do FED causou impacto insignificante. O que não deixa de ser uma surpresa, já que se criou um excesso de expectativa catastrófica com o início do ciclo de aperto monetário.

É importante relembrar que a última projeção do FED para a FFR (Federal Funds Rate - taxa básica de juros) caiu para insignificantes 0,4% no fim deste ano. 13 dos 17 membros votantes do Comitê de Política Monetária acreditam que vá haver uma elevação da taxa básica de juros até dezembro. Esses dados foram divulgados ao mercado no mês de setembro.

Em 2016, a mediana das projeções para a FFR cedeu para 1,4%. No fechamento de 2017, a FFR deverá estar em 2,6%. Já em 2018, a projeção é de 3,5%. Hoje a Treasury de 10 anos (título público do Tesouro norte-americano) paga uma taxa de juros de 2,23% ao ano. Esse é o custo do dinheiro nos Estados Unidos, e não “os lendários” zero a 0,25% ao ano. Isso significa que, hoje, os preços dos ativos globais estão relativamente adaptados à projeção de custo do capital para até 2017 nos Estados Unidos.

Com projeções tão baixas para a FFR e sinalizações cada vez mais evidentes de que o ciclo de aperto monetário será muito suave, não haverá tempestade financeira, chuva torrencial e talvez sequer uma garoa no mercado. O efeito colateral prático nos preços dos ativos tende a ser nulo. Já o efeito colateral psicológico nos preços dos ativos, fruto da comunicação do Banco Central, é inestimável e pode causar volatilidade no curto prazo.

Apesar do toque suave na política monetária, a partir de 2016 (ou após a fase inicial do ciclo de aperto monetário) poderão surgir incertezas no mercado quanto ao processo de desalavancagem da temida carteira trilionária de ativos do FED, inflada com os programas de quantitative easing, créditos subprime, títulos públicos, privados, entre outros. Incerteza, no vocabulário do mercado, é sinônimo de volatilidade.

Hoje há apenas uma espécie de rabisco de como será esse processo (desalavancagem do balanço do Banco Central). Os diretores do Comitê estão longe de alcançar uma estratégia a seguir, tal como fizeram com a projeção de deslocamento da FFR. E não é apenas o FED que vive um problema de alavancagem excessiva nos Estados Unidos. No geral, as empresas norte-americanas estão altamente alavancadas e, algumas delas, precisarão de um PIB (Produto Interno Bruto) robusto na próxima década para não entrarem em default.

Saindo do cenário externo e entrando na desilusão doméstica, o quadro macro torna-se horripilante. O Índice Gerente de Compras do Brasil registrou nova queda acentuada, mostrando a crueldade de um quadro estagflacionário. O indicador saiu de míseros 47 pontos no mês de setembro para inacreditáveis 44,1 pontos em outubro, atingindo o nível mais fraco em seis anos e meio. Os motivos são os mesmos velhos conhecidos de sempre.


O País das metas não cumpridas segue afundando em velocidade preocupante. Após o governo sinalizar que jogou a toalha para o grau de investimento no mês de julho deste ano, o Banco Central joga a toalha para a “promessa” de levar a inflação ao centro da meta no fim de 2016, prorrogando-a novamente. Desde 2010 é a mesma conversa e os agentes já perderam a paciência, fato que tem contribuído para o agravamento do cenário de estagflação.

O mercado doméstico segue reagindo ao fluxo internacional. Investidores estrangeiros continuam a caça de ativos de risco nas principais praças financeiras mundiais. Com o S&P500 aproximando-se, novamente, da máxima histórica (gráfico abaixo), o foco, nos últimos dias, está mais forte nos mercados emergentes, onde pode-se encontrar algum desconto para “pagamento em dólar”.


Na Turquia, o principal índice da bolsa de Istambul já conseguiu atingir a marca dos 84.000 pontos, após registrar 69.800 pontos no mês de agosto, mostrando um forte movimento de retomada que provocou a superação da média móvel simples de 200 períodos diária.


A bolsa do México subiu forte nesta terça-feira, armando o bote para romper a média móvel simples de 200 períodos diária. Mercado em forte tendência de alta de curto prazo.


No Brasil, o nível de recuperação dos ativos de risco está um pouco aquém da força constatada nas praças concorrentes, mas ainda assim apresenta consistência na trajetória de retomada. Bolsa em tendência de alta de curto prazo, com formação do terceiro fundo ascendente na região dos 45.4k.


4 comentários:

  1. FI,

    Dentro deste quadro, como interpretar o SP500 batendo recordes ? Será realmente que a alta dos juros do FED não causará impacto significativo?

    Abs.

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    1. Olá,

      Impacto, se houver, será pelo efeito psicológico do evento. Não há nenhuma pechincha em NY, mas, por outro lado, as empresas norte-americanas não estão tão caras na bolsa, levando em consideração que o País está em processo satisfatório de retomada do crescimento, o que facilita bastante o trabalho para as empresas não só manterem como também acelerarem o ritmo de crescimento do lucro líquido. Se houver queda relevante no S&P500 nos próximos meses/semestres, dentro da manutenção do quadro macro para a economia norte-americana, pode ser uma boa janela de oportunidade sendo criada pelo mercado.

      Abs, bons investimentos

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  2. FI,vc teria o índice P/L do S&P500?

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    1. Não, normalmente é calculado pelas equipes de análise de corretoras e bancos de investimentos. Costumam sair ao final de cada temporada de balanços.

      Abs, boa semana

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