quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Dissidência dentro do Copom reforça expectativa de mais aperto monetário


A reunião do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) encerrada ontem a noite mexeu com o mercado financeiro nacional. A taxa Selic foi mantida em 14,25% ao ano, mas dois membros do Comitê votaram contra.

“Avaliando a conjuntura macroeconômica e as perspectivas para a inflação, o Copom decidiu manter a taxa Selic em 14,25% a.a., sem viés, por seis votos a favor e dois votos pela elevação da taxa Selic em 0,50 p.p.”

Sidnei Corrêa Marques e Tony Volpon votaram pela elevação da taxa Selic em 0,50 p.p. e seus argumentos serão analisados pelo mercado na ata a ser divulgada na próxima semana, assim como os argumentos dos outros seis membros que votaram a favor da manutenção da taxa básica de juros.

Dissidência com mais de um voto contrário à decisão de política monetária pode antecipar decisões futuras a serem tomadas pelo Copom na direção apontada anteriormente pelos membros dissidentes. Essa avaliação foi rapidamente compreendida pelo mercado que espera, agora, uma retomada do ciclo de aperto monetário já no início do ano que vem.

Essa expectativa foi reforçada pela retirada do trecho que vinha sendo divulgado nos comunicados anteriores: “O Comitê entende que a manutenção desse patamar da taxa básica de juros, por período suficientemente prolongado, é necessária para a convergência da inflação para a meta no horizonte relevante da política monetária. O Copom ressalta que a política monetária se manterá vigilante para a consecução desse objetivo.”

A retirada deste trecho transmite a idéia de que a taxa Selic em 14,25% tornou-se incapaz de provocar o recuo da inflação ao centro da meta (4,5%) nas projeções da autoridade monetária, mesmo no horizonte relevante (2017). Por esse motivo, possivelmente, dois membros do Comitê optaram por subir a taxa Selic imediatamente, reagindo aos novos cálculos do corpo técnico do Banco Central, já que, em matéria de política monetária, tempo é risco, e risco tem custo.

Os demais membros que votaram a favor da manutenção da taxa Selic podem estar, supostamente, com alguma esperança de melhora no quadro fiscal, até a próxima reunião de Comitê, que seja suficientemente capaz de reduzir as projeções de inflação no horizonte relevante da política monetária.

Acontece que essa melhora fiscal é altamente improvável, tanto pela crise política, quanto pela intensidade necessária de ajuste. Além disso, os desequilíbrios micro e macroeconômicos não estão sendo atacados pelo governo, o que colabora para manutenção do quadro de inflação persistentemente elevada.

Também não houve menção no comunicado divulgado ontem ao atual balanço de riscos para a inflação, como costumava aparecer nas reuniões anteriores. Podemos supor, portanto, que o Copom analisou apenas a conjuntura macroeconômica e as perspectivas para a inflação, mas não o balanço de riscos para tomar uma decisão. Qual o sentido de retirar do comunicado à menção aos riscos para inflação numa decisão de política monetária? Será que esses riscos não existem mais ou foram "propositalmente negligenciados" para que a taxa de juros pudesse ser mantida aos 14,25%?

Por fim, a dissidência de dois membros sinalizou que o quadro pode ser realmente grave, já que não optaram por um reinício do ciclo de aperto monetário em 0,25 p.p. como ocorreu nas últimas duas ocasiões (17/04/2013 e 29/10/2014), mas sim de 0,5 p.p. É o custo do tempo no sistema de metas de inflação.

No mercado de capitais doméstico os prêmios de risco voltaram a ceder, devolvendo parte (ainda pequena) dos ganhos acumulados nas últimas semanas/meses. O movimento atual é mais intenso no mercado de juros futuros, que conta com impulso do comunicado do Copom e reação à prisão de André Esteves, presidente e controlador do BTG Pactual, banco de investimento com forte atuação no mercado nacional, e Delcídio Amaral, líder do governo no Senado.

Temores com a solvência do banco e da própria estabilidade do sistema financeiro nacional, provocado por uma corrida de saques por parte dos clientes e investidores do nada desprezível BTG Pactual, e/ou eventual contaminação (via corrida de saques) em outras instituições menores, deixam os participantes do mercado de capitais tensos e propensos a fugir para segurança. Além disso, a prisão do senador petista Delcídio Amaral impõe mais desafios ao ambiente inóspito que o governo enfrenta no Congresso, o que tende a dificultar ainda mais o necessário processo de ajuste fiscal.

O índice Bovespa permanece trabalhando dentro de uma tendência de alta iniciada no mês de agosto, aos 42.7k, embora ultimamente vem apresentando sinalização de fraqueza no movimento altista, com dificuldade notória de superação da região dos 49k. Principal suporte para definição de curto prazo segue posicionado na região dos 45.4k, onde o rompimento descendente poderá confirmar o ressurgimento da tendência de baixa.


6 comentários:

  1. Espero que não ferre o meu fii com essa possível alta da selic mais aguda ...

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  2. Olá FI,
    ja tem bastante tempo que não escrevo aqui e é um prazer em retornar, parabens pelo blog. Hoje o que mais me espanta não é a Petrobras visto qie a ingerencia politica sempre atrapalhou, e com PT virou petrolão. Mas graficmente a Vale é algo inacreditavel de ver , afinal de contas é somente culpa da a China e comodities ??? Sera que vc poderia emtir uma opinião?
    Abçs
    Ronaldo

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    1. Olá Ronaldo. Obrigado!
      Esse "somente", destacado no seu comentário, tem impacto significativo nos resultados da Vale. Há cerca de três anos atrás a Vale conseguia vender minério de ferro na faixa de 120,00 a 140,00 dólares/tonelada. Há cinco atrás a commodity era negociada na faixa de 170,00 a 180,00 dólares/tonelada. Hoje o minério de ferro é negociado na faixa de 50,00 a 60,00 dólares/tonelada. Curioso é que os próprios players do setor contribuíram para o derretimento dos preços (com o aumento da produção, numa tática muito agressiva, visando eliminar do mercado as mineradoras menores e de alto custo), e não somente a queda da demanda da China.

      Abs, bons negócios

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  3. Bom dia, FI.

    BBAS3 P/L - 3,19; P/VP - 0,64; VPA - 25,27; DY - 13%. No entanto,o gráfico mensal inspira cautela. Qual sua leitura para o ativo no LP?

    Parabéns pelas análises.

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    1. Olá,

      Obrigado! Se tivesse que escolher algum banco, focaria mais em Itaú ou Bradesco. Entretanto, é sempre bom ressaltar que fazer stock picking num quadro como o brasileiro não é recomendável ao investidor PF, os riscos são muito altos. É muito melhor traçar uma estratégia para se posicionar apenas nos índices.

      Abs, bons negócios

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  4. DIVO11, o que vc acha desse ETF? A metodologia parece melhor que do BOVA11 , mas no momento tá carregado de ,VALE,CMIG, BBAS...aí a gente fica ressabiado. abs

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